testeTalento Vs. Esforço

Por Roberto Jannarelli*

Michael Jordan é a prova que esforço é indispensável. (Fonte)

Vou contar um segredo para vocês. Minha chefe, que já escreveu muitos textos aqui para o blog, não sabe, mas quando deixou sob minha responsabilidade o livro Garra, de Angela Duckworth, me fez um grande favor. Eu lembro que pesquisei brevemente sobre o livro e logo de cara a premissa me encantou. A autora defende a ideia de que uma mistura de paixão e perseverança, que ela chama de garra, pode suplantar a cultura do talento.

Não posso negar que houve uma identificação com a teoria. Explico: antes de trabalhar com livros, minhas carreiras de halterofilista e Mister Universo foram calcadas em muita dedicação e pouquíssimo, diria que quase nenhum, talento — mas como eu ainda não possuía garra, acabei no mercado editorial mesmo.

Brincadeiras à parte, a ideia de que determinação e força de vontade podem superar o talento de fato me é muito cara, e realmente sempre me identifiquei mais com os determinados do que com os talentosos. Nada contra os talentosos, inclusive tenho muitos amigos que são, mas o êxito alcançado depois de muito esforço me parece mais satisfatório do que um simples dom divino que te deixa bom em tudo.

Em Garra, Angela usa muitos exemplos de sucesso que são inspiradores. Empresários, empreendedores, acadêmicos, atletas olímpicos e profissionais, todos com uma história que comprovam a tese: não teriam vencido se tivessem dependido do talento, ou ao menos apenas do talento. São muitas histórias mesmo, todas muito interessantes e que devem causar identificação de acordo com a trajetória de cada leitor, por isso pensei em destacar aqui as minhas preferidas:

Academia Militar West Point

“Quando um cadete pisa no campus de West Point, ele fez por merecer”. Essa é conclusão da própria autora, que estudou a fundo o processo de admissão na Academia Militar norte-americana. Esse, aliás, foi um dos primeiros e principais projetos dela na tesa de Garra, mas não da maneira mais simples que podemos imaginar. Angela não estudou o processo de aprovação na Academia, mas a permanência dos cadetes aprovados.

O processo seletivo de West Point consiste em provas teóricas e práticas, além de testes físicos e uma avaliação das notas no ensino médio. São indispensáveis notas altíssimas em todas as etapas. Depois das provas, os cadetes são classificados de acordo com uma Pontuação Integral do Candidato. Ou seja, depois da classificação, todos sabem quem é o primeiro da turma, o segundo, e assim por diante até o fim da lista aprovados.

Logo no início, os calouros participam de um exaustivo período de sete semanas de treinos carinhosamente apelidado de “Beast Barracks” (algo como “Quartel das Feras”), no qual os cadetes são submetidos a séries brutais de exercícios intercalados com aulas teóricas, tudo isso começando às 5h30 e com toque de recolher marcado para 22h, sem pausas de fim de semana nem feriado.

Como a taxa de desistência depois do Beast era enorme, Angela levantou o seguinte questionamento: por que alguém que passou dois anos tentando entrar numa instituição a abandona nos dois primeiros meses?

Depois, a autora seguiu em frente e se perguntou quem então seriam os desistentes e quem passava por essa fase e se formava na Academia. A surpresa foi que não havia nenhuma relação entre a Pontuação Integral do Candidato e a capacidade de superar o Beast, isto é, os primeiros colocados no sistema de notas (uma das maneiras de se classificar o talento são as notas, certo?) eram superados com frequência por aqueles que não se destacaram na seleção.

Foi então que Angela Duckworth conseguiu implementar a ideia de que a garra poderia ser mais importante que o talento para se alcançar o sucesso em um dos ambientes mais rígidos da cultura norte-americana. E a partir daí seu conceito de garra foi inserido em diversos processos seletivos dos Estados Unidos.

Angela Duckworth — Ela mesma

Uma história que percorre vários momentos de Garra é a da própria autora. Logo no início do livro ela conta que foi criada em um ambiente muito exigente. Seu pai, um cientista e estudioso, dizia com naturalidade que a filha era inteligentíssima, mas que “de gênio não tinha nada”. Isso não apenas em referência a notas do colégio ou qualquer outro tipo de teste; desde sempre. Imagine você, uma criança feliz entregando um desenho feito especialmente para seu pai e ouvindo essa resposta. Pois é, foi nesse ambiente que Angela foi criada.

Primeiro, o que me tocou nessa história foi a habilidade da autora de contar isso tudo sem rancor. Ela de fato entendia o pai, cientista, racionalista, e que na verdade tinha razão. Angela não era um gênio na juventude. Ela conta no livro que não participou de nenhuma turma avançada nas disciplinas que queria durante o ensino médio e que toda a sua trajetória posterior como pesquisadora foi baseada na dedicação exaustiva, muito estudo, para que finalmente pudesse ser agraciada com as principais bolsas de estudo dos programas de pós-graduação em psicologia, área em que hoje é considerada referência.

De uma maneira simpática, emocionante, Angela Duckworth mostra como ela própria é um exemplo de que a garra foi mais importante que o talento para alcançar o sucesso na área acadêmica — e para ter o reconhecimento de seu pai, o que emociona ainda mais o leitor.

Kevin Durant e Michael Jordan

A última das três histórias de superação tem a ver com uma área de afinidade minha. Como disse antes, a autora usa muitos exemplos de atletas na pesquisa. Dessa forma, o leitor pode se identificar com a modalidade que mais gosta — se você gostar de esportes, claro.

No meu caso, foi a história do jogador de basquete Kevin Durant, um dos melhores jogadores da NBA atualmente. No livro, ele explica como treina sozinho até dominar os movimentos, depois em dupla, depois em dupla com defesa, depois em trio, e assim progressivamente até praticar com o restante do time em treinos “normais” de cinco contra cinco. Isso tudo com supervisão e análise de porcentagem de acerto para saber o momento certo de mudar de fase. A autora chama esse tipo de treino de prática disciplinada, uma das ferramentas para o desenvolvimento de uma cultura de garra — porque sim, a garra não é uma habilidade inata, ela pode ser desenvolvida.

É claro que tudo isso ficou muito mais claro para mim depois de ler Garra, mas talvez eu tenha gostado tanto da tese de Angela Duckworth por conta da identificação com as histórias pessoais contadas no livro. No meu caso, os exemplos esportivos foram muito importantes para causar essa empatia. Ao contrário do halterofilismo, o basquete não foi uma prática que ficou no campo da ficção na minha adolescência. E de uma maneira inconsciente, foi por meio da prática desse esporte que eu percebi que estava mais para o time dos esforçados do que o dos talentosos. E não tenho vergonha nenhuma disso.

Para terminar, vou contar uma história, não minha, mas de um cara chamado Michael Jeffrey Jordan. Você talvez se lembre dele se tirar nome do meio. Quando eu treinava meus arremessos, na longínqua época em que tinha quinze anos, descobri que, no ensino médio, esse cara só tinha conseguido a vaga no time do colégio no último ano antes de ir para a faculdade. Jordan passou os três anos anteriores sendo cortado nos testes. Mesmo assim, quando alcançou o objetivo, nem de longe foi considerado o melhor jogador na sua idade no país — foi “só” um ótimo jogador, ou, como diria o sr. Duckworth, “nenhum gênio”. Continuou treinando muito, aprimorando suas técnicas e, por isso, quando se formou na escola, conseguiu vaga no time de uma das mais tradicionais universidades do país. Lá, foi campeão no primeiro ano, fez cestas importantes, foi um dos principais jogadores. Mas não o principal; nunca foi “o cara”, era só mais um entre os melhores.

No momento de ele se profissionalizar, dois times preferiram outros jogadores e deixaram de contratá-lo, ficando Jordan em terceiro na lista dos calouros da NBA em 1984. Mas ele continuou praticando, melhorando cada detalhe possível, até chegar o momento em que dominou o esporte. Ganhou seis títulos da NBA, duas medalhas de ouro em jogos olímpicos, inúmeros prêmios individuais e, sem exagero, fez o jogo parecer fácil. Esse vídeo explica um pouco o que quero dizer: Michael Jordan, somente o melhor jogador de basquete de todos os tempos, também não foi um produto apenas do talento; o diferencial dele foi a garra mesmo.

Guardadas a proporções e diferenças nas atividades, a história de Angela Duckworth me lembrou muito a desse ídolo do esporte. Ela também trabalhou muito para, de uma aluna mediana no ensino médio, ser uma pesquisadora notável no campo da psicologia. Seu pai que me desculpe, mas Angela se tornou sim um gênio. E escreveu um livro que, além de nos dar exemplos de histórias em que a garra supera o talento, ensina a desenvolvê-la, seja para uso pessoal, da equipe que você gerencia, ou na criação de seus filhos.

Em outras palavras, Garra dá todas as ferramentas para que você escreva a sua própria história de superação.

Agora é com você.

 

* Roberto Jannarelli é editor assistente de livros estrangeiros da Intrínseca e tomou para si a prática de disciplinada de não contar histórias da sua adolescência o tempo inteiro para os colegas de trabalho. Às vezes é difícil, mas ele tenta.

testeA arte de perder

Por Roberto Jannarelli*

Bosque_FdeFalcao

A arte de perder não é nenhum mistério.1 Não tenho certeza de quando nem como esse verso de Elisabeth Bishop chegou a mim, mas chuto que já faça mais de uma década que o ouvi/li pela primeira vez. É possível que o tenha lido em algum canto de biblioteca, ouvido em algum filme, ou até mesmo o tenha conhecido por alguma namoradinha imaginária no final da minha adolescência. Nem com muito esforço consigo ter certeza, mas podemos ficar com a terceira hipótese se ela soar melhor para o leitor — o cliente tem sempre razão. Eu me lembro com muita segurança de que o verso me intrigou porque, bem, para mim era bastante claro que a arte de perder não era exatamente fácil de lidar.

Não pensava nisso por uns bons anos, até que recebi a incumbência de trabalhar em F de falcão, uma grande aposta de não ficção da editora. Vencedor de prêmios. Best-seller do New York Times. Escolhido livro do ano por não-sei-quantos-mas-muitos prestigiados veículos estrangeiros. Em suma: coisa muito importante.

Como falei em um texto anterior aqui no blog, a gente tem o costume de pesquisar sobre os livros estrangeiros no início do processo de preparação do texto. Ler críticas, resenhas, essas coisas. Isso ajuda a entrar no clima, a entender alguns detalhes das histórias e a conhecer a linguagem do autor. Em F de falcão, porém, as sinopses apontavam para: Livro de memórias de professora universitária que perde o pai, entra em depressão e resolve praticar a falcoaria para superar a melancolia do luto. E mais: desafia todos os gêneros, um tratado de história natural com uma história de desenvolvimento pessoal, uma linguagem descritiva sem paralelos na literatura moderna.

(Quero ver falar que não tem mistério agora, Sra. Bishop.)

capa_F de Falcao_frente_Passado o momento de hesitação, confirmei que o livro era de fato muito interessante. Helen Macdonald, a autora, divide com o leitor o luto pela morte do pai — sua pessoa preferida no mundo — e mostra que o caminho para superação nem sempre é o que parece mais fácil. Ou mais simples. Mas se você estiver ao lado de um açor (o mais feroz dentre os falcões), certamente será o mais autêntico. Pode ser um pouco clichê, mas não é exagero dizer que nunca li um livro nem sequer parecido com F de falcão. É de fato uma história única.

Certa vez me perguntaram por que então eu achava que o livro tinha feito tanto sucesso (de crítica e vendas) no exterior, e minha resposta saiu meio de supetão: Porque as pessoas, assim como se identificam com histórias de amor, também se identificam com histórias de dor. Do mesmo jeito que quase todo mundo já amou alguém, quase todo mundo já perdeu alguém. Não sei se essa é uma relação de causa e efeito simples assim, mas acho que faz algum sentido.

Mas a autora tem grande mérito em fazer com que os leitores se identifiquem com uma história tão peculiar — convenhamos que não é fácil fazer isso em um contexto de falcoaria. A linguagem simbólica com que ela conta tudo é importante, porque permite que façamos nós mesmos as nossas comparações.

Além da linguagem cheia de beleza, metáforas e muita sensibilidade, o livro tem muitas outras virtudes. Talvez não seja proposital, mas Helen conta tudo com um certo cinismo que me cativou. Por exemplo: em um dado momento, ela conta que saiu para jantar com uma amiga logo depois de receber a notícia da morte do pai. Superando a reação de “dane-se a reserva do restaurante, volte para a Inglaterra agora!”, o modo como ela conta esse primeiro momento de uma refeição sabendo que o pai não está mais vivo é muito curioso. Ela passa uma sensação de “ok, vamos racionalizar, eu não posso fretar um voo agora e, bem, mesmo que ele tenha morrido eu ainda preciso me alimentar”.

Autora e leitores sabem que isso não vai acontecer, mas ela sabe que precisa tentar. É então que, tentando ajudar, a amiga aproveita um momento em que Helen se ausenta para ir ao banheiro e pede uma bela sobremesa de chocolate. Helen agradece, olha para aquele doce lindo, mas divide com o leitor seu pensamento de que “meu pai morreu, não é uma sobremesa de chocolate que vai me fazer feliz”. Ela agradece, retribui o carinho, mas o leitor consegue sentir sua angústia por não ter a capacidade de compreender a real amplitude da sua dor, mas sabe que uma sobremesa não resolve o problema.

Outro momento em que esse cinismo se mostra acontece quando uma espécie de DETRAN entra em contato com ela para cobrar uma multa, porque o pai de Helen havia deixado o carro em um local de difícil acesso e não voltou para buscá-lo. O carro foi rebocado, e, como o dono não fora ao depósito para retirá-lo, Helen precisou explicar, com certa dose de ironia, que o proprietário do carro havia morrido e que “não era intenção dele deixar o carro lá, ele só tinha morrido, mas realmente não tinha a intenção de deixar o carro lá”. E ainda foi preciso procurar o atestado de óbito para contestar a multa. Eu não sei se o cinismo é a forma mais saudável de lidar com o luto, mas tenho certeza de que eu não teria forças para lidar com uma situação dessas assim. Por esses e outros motivos, admiro muito a força que Helen mostra no livro.

Assim, se eu tivesse que resumir F de falcão em uma frase simples, diria que é a história de superação de uma mulher muito forte. Nesse ponto podemos dizer que é um livro bastante contemporâneo, ainda que de fato bastante inusitado.

Não sei se, ao final da história, Helen Macdonald concordaria com Elisabeth Bishop, mas acho que ambos, poema e livro de memória, são exemplos de como a literatura pode se mostrar como um ímpeto de superação — e depois de ler F de falcão a arte de perder fica bem menos difícil de lidar.

>> Leia um trecho de F de falcão

 

Roberto Jannarelli é editor-assistente de livros estrangeiros da Intrínseca. Nunca teve vontade de treinar falcões, mas já desviou de vários pombos no centro do Rio de Janeiro.

1 Do poema “One art”, de Elisabeth Bishop. Tradução de Paulo Henriques Britto.