testeTecendo os fios da história

Há tempos, eu não abraçava a minha mãe tão longamente. Ela tinha acabado de chegar do Ushuaia, na Argentina, a capital da Província da Terra do Fogo. Ficou 18 dias fora. Lá pelas bandas dos hermanos, mi madre se pôs a ler a coluna dominical que escrevi sobre os talentos culinários dela. Disse que meu texto havia sido o seu presente de Natal e de Ano-Novo. Aqui, juntas novamente, ela afirmou que minha forma de demonstrar amor era “muito linda”. Isso mexeu comigo, porque Dona Sônia estava falando justamente da minha escrita. Se, para ela, cozinhar é um ato de amor, o meu é escrever.

A palavra vibra dentro de mim. Ela me desnuda. Revela uma parte do muito que carrego, porque só através das letras consigo me mostrar. Às vezes, quando não sou entendida em uma conversa, tenho uma vontade imensa de falar: espera aí, deixa eu escrever. Escrevendo, me sinto inteira, pois as palavras são a minha forma de ler o mundo. Quando teço um texto, procuro expressões que possam dizer mais do que sou capaz. Sou como uma bordadeira, que escolhe fio a fio aqueles que vão ornamentar o seu tecido.

Comecei a “fiar”, oficialmente, há 22 anos, quando fui trabalhar em um jornal do interior de Minas Gerais, estado onde nasci. Mas, vasculhando a memória, acho que escrevo desde a infância. Aos 8 anos, fiz meu primeiro livro a respeito de um menino que sonhava em mudar o mundo.

Cresci e o desejo de contar histórias continuou dentro de mim. O jornalismo me deu a chance de tocar as pessoas pela palavra. Por causa dele, conheci mundos habitados por poucos, lugares inacessíveis, onde só se pode entrar se alguém te der a chave. Acessar o interior do outro é uma experiência única, ainda mais quando esse mergulho tem a finalidade de ajudar a construir a memória de um país.

Assim, nesse exercício de revelar o esquecimento, cheguei à história de Holocausto brasileiro, minha estreia na literatura, em 2013. Depois, mergulhei na ditadura para buscar um corpo desaparecido há 35 anos e desvendar o que a história oficial transformou em mentira e mistério. Cova 312 foi minha segunda incursão no mundo literário, em 2015. Com Todo dia a mesma noite, minha nova obra, mergulhei ainda mais fundo para buscar em um universo de dor uma forma de apresentar um Brasil acostumado a esquecer.

Foi o radialista Marcos Moreno, que trabalhava junto ao meu grupo de comunicação em Minas Gerais, quem me despertou para a necessidade de falar sobre a Boate Kiss, incendiada em 27 de janeiro de 2013 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Na hora, descartei essa “ideia maluca”, afinal, tudo já tinha sido dito. Moreno insistiu: “Você não entende. Precisa contar essa história.” E foi a insistência dele que me fez parar para perguntar por quê. Será que havia alguma coisa que ainda precisava ser falada sobre essa tragédia?

Resolvi me apresentar a alguns pais que encontrei nas redes sociais para saber como estavam. Dias depois de enviar as mensagens, recebi a primeira resposta de uma mãe que perdeu a filha na boate, aonde tinha ido para comemorar o seu aniversário de 22 anos. “Nós precisamos ser ouvidos”, ela escreveu. Isso me intrigou, já que o caso havia ganhado visibilidade mundial.

A fachada da Boate Kiss (Foto de Marizilda Cruppe)

Depois disso, eu precisava ver, de perto, como estava o coração do Rio Grande. Quando desembarquei em Santa Maria, em 2016, encontrei pessoas emocionalmente abandonadas, porque se recusavam a esquecer seus amores. Voltei outras quatro vezes, durante dois anos. Foram 24 meses de escuta. Setecentos e vinte dias de imersão em um luto que jamais passará. Essa experiência foi contada em um livro que tem 55 mil palavras, nenhuma delas é sinônimo de superação. Não se supera a morte de um filho. Pedir superação é uma completa ausência de empatia pelo sofrimento do outro.

Todo dia a mesma noite não trata apenas da dor de quem perdeu alguém. O livro escancara a nossa humanidade. Com ele, eu entrego a você, leitor, a chave de uma história ainda não contada. Depois de abrir essa porta, meu desejo é que jamais esqueça o que leu. Mas esteja preparado. É que talvez, ao sair, você perceba que alguma coisa mudou na sua forma de olhar.

testeNossos governantes e seus parentes

Getúlio-Vargas familia

Getúlio Vargas e seu pai, Manuel do Nascimento Vargas (fonte)

Em tempos de calorosos debates sobre a vida privada de ex-dirigentes do Brasil, vale lembrar que esse tipo de situação remonta aos primeiros anos de nossa história. D. Pedro I, o homem que nos livrou do julgo do colonizador português, em 1822, vivia cercado de problemas de ordem pessoal.

Nosso primeiro imperador, no ano de 1826, enfrentava uma grave crise de popularidade. Um dos motivos era a guerra de independência da província Cisplatina, atual Uruguai. Além de ter um custo financeiro elevado, o conflito coincidiu com o auge da paixão de Pedro pela amante, Domitila de Castro. O Imperador estava tão envolvido com ela que nem dormia mais no palácio da Quinta da Boa Vista, o que também tinha um reflexo negativo para sua imagem.

Esses fatores levaram Pedro a liderar as tropas do Brasil no Rio Grande do Sul. A tática não deu muito certo, uma vez que perdemos a guerra e a casa de sua amante foi apedrejada após a morte da imperatriz Leopoldina, em 1826.

Já no século XX, o governante que mais sofreu entreveros causados por problemas da vida privada foi Getúlio Vargas. É bem verdade que nenhum outro governante republicano ficou tanto tempo no poder — no total, foram dezoito anos.

Em meu último livro Os Guinle, conto, numa passagem emblemática, como o irmão do presidente, Benjamin Vargas, conhecido como Beijo, se aproveitava do fato. Assíduo frequentador de cassinos, o chefe de segurança do Catete — à época, palácio presidencial — gostava de colocar seu enorme revólver sobre a mesa de jogo para intimidar os crupiês. Beijo fazia isso sem nenhum pudor, pois, entre 1937 e 1945, o país era governado de forma ditatorial e a imprensa não podia noticiar esse tipo de acontecimento.

Situações como essa, no entanto, só serviram para, mais tarde, reforçar a tese de que a família Vargas se locupletava do poder de Getúlio. Algum tempo depois, já no período democrático, em 1954, o Brasil estava mergulhado em uma grave crise. O maior adversário político de Getúlio, Carlos Lacerda, fora vítima de uma tentativa de assassinato ao chegar em casa no episódio conhecido como “O crime da rua Tonelero” e que vitimou seu segurança, o major Vaz.

As investigações logo apontaram para Gregório Fortunato, chefe de segurança da guarda presidencial e gaúcho de São Borja, como Vargas. Havia ainda um agravante: Gregório, homem muito simples, era dono de uma incomensurável fortuna. No entanto, o mais contundente para Vargas foi saber que seu filho Maneco Vargas vendera uma fazenda no Rio Grande do Sul para Gregório. Não fazia muito sentido que Gregório, com salário de apenas 4 mil cruzeiros, adquirisse uma propriedade de 1,32 milhão. Ao se inteirar da situação, Getúlio teria dito: “Debaixo do Catete há um mar de lama.”

Por essa razão, pode-se afirmar que político brasileiro que se defende dizendo que vida privada é uma coisa e vida pública é outra só pode ser visto como um ignorante em termos de história do Brasil.