testeCom quanto suor e lágrimas se faz uma criação de Steve Jobs

Por Tatiana Dias*

Steve Jobs e Steve Wozniak

Eu cobria tecnologia em um dos maiores jornais do país e estava relativamente tranquila com a rotina de lançamentos e inovações. A agenda era quase sempre previsível. “A única emergência”, nós pensávamos, “vai ser se Jobs morrer”. Esse dia chegou. Repórteres voltaram correndo e, naquela semana, o jornal rodou um caderno especial com a íntegra do famoso discurso em Stanford, aquele em que ele disse aos formandos para “continuarem famintos, continuarem tolos”. Que discurso. Que gênio. Gênio? Não demoraram para surgir análises relativizando a genialidade de Jobs e mostrando seu lado egocêntrico, perverso e babaca. Metade gênio, metade babaca.

Mas como foi que um babaca capaz de erros grotescos — como negar a paternidade da própria filha, destratar funcionários e afundar projetos a ponto de ser chutado da própria empresa — conseguiu se tornar um ícone de uma indústria e inspiração para gerações? Mais: como alguém de personalidade tão controversa chegou a receber de um funcionário — ninguém menos do que Tim Cook, atual CEO da Apple — a oferta de um pedaço do fígado para tentar salvar sua vida enquanto esperava na fila do transplante?

Como Steve Jobs virou Steve Jobs CAPA E LOMBADA.inddA oferta de Cook, narrada pela primeira vez na biografia  Como Steve Jobs virou Steve Jobs, dos jornalistas Rick Tetzeli e Brent Schlender, ajuda a colocar em perspectiva a complexidade do fundador da Apple. Jobs é mesmo tudo aquilo que sua biografia autorizada e posterior adaptação cinematográfica contaram. Mas é muito mais. O veterano Schneler conheceu Jobs em 1986 e, desde então, criou com ele aquela relação jornalista-fonte que quase chega à amizade (mas que, quando chega perto, é colocada em seu devido lugar pelo dominante na história que é, óbvio, Jobs). Tetzeli é editor da Fast Company. Todo o trabalho de pesquisa e escrita do livro foi realizado anos após a morte do personagem principal — por isso é de se esperar mais liberdade editorial neste livro do que na biografia oficial escrita por Walter Isaacson. A experiência de Tetzeli e Schlender também oferece ao leitor um rico panorama para além do protagonista: o da indústria de inovação e tecnologia que ele ajudou a criar e a formatar.

É fascinante percorrer a trajetória de Jobs e ver que seu próprio amadurecimento coincide com o amadurecimento da indústria. Os hackers pioneiros do Homebrew Computer Club (onde Jobs conheceu seu parceiro Steve Wozniak) tinham interesse e inteligência, mas não tinham a menor ideia de como transformar o hobby de programar e mexer em computadores (até então estranhas máquinas) em um negócio. Jobs também era um jovem brilhante — foi ele quem pensou em vender os computadores junto com Woz —, mas não tinha a menor ideia sobre como gerir uma empresa. E cometeu erros gravíssimos, no aspecto pessoal e no profissional, que o lapidaram e o fizeram amadurecer passadas mais de três longas décadas.

Jobs foi um babaca do tipo que nega a paternidade da filha. Do tipo que destratava funcionários, gritava em reuniões e, se julgasse que alguém não era intelectualmente do seu nível, batia os pés, mostrava impaciência e fazia questão de ostentar sua superioridade. Quando a Apple deixou a garagem e virou uma empresa de verdade, sua imaturidade e arrogância o fizeram colecionar fracassos nos projetos que liderou, além, é claro, de lhe terem criado desafetos. Ele sabia pressionar os subordinados até conseguir que um projeto saísse do jeito que queria — mesmo que isso resultasse em um fracasso comercial, como aconteceu com o Apple III. Todo esse processo de criação e desenvolvimento é narrado em detalhes no livro — o leitor consegue contar com quanto suor e lágrimas se fazia uma criação de Steve Jobs.  E Tetzeli e Schlender não poupam críticas à primeira fase de Jobs como gestor.

Jobs falhou, mas persistiu. Ele poderia ter se aposentado milionário ao deixar a Apple em 1984 (e ele nem tinha 30 anos), mas sua personalidade o impeliu a fundar uma nova empresa: a NeXT, voltada para a criação de supercomputadores para fins educacionais. A lábia de Jobs lhe propiciou investimentos e boa recepção do mercado — embora ele nunca tenha entregado as máquinas de US$ 3 mil que havia prometido; elas saíram por US$ 10 mil. A graça é que, depois da incrível apresentação de Jobs, todo mundo acreditou que aquilo era genial. O próprio Schlender confessa que, no lançamento, publicou no Wall Street Journal que a máquina era “deslumbrante” e “relativamente barata”. No livro, em perspectiva, ele reconhece: o produto estava longe de estar pronto. Mas vendeu.

Na NeXT, porém, o lado gestor de Jobs degringolou. Não havia um CEO ou um conselho para segurar seus ataques de fúria; ele estava solto. Sua capacidade de ouvir e gerir só amadureceu com outra empreitada, comprada por US$ 5 milhões de George Lucas: a Pixar. Mas até a transação foi conturbada: ao negociar o valor, Jobs não poupou um “vai se foder” a um membro da equipe de Lucas. Ouviu de volta: “você não pode falar assim com um de nossos vice-presidentes”. E respondeu: “vai se foder você também”. Mesmo assim a transação foi bem-sucedida e a maneira como ele viu a equipe competente e coesa da Pixar trabalhar lhe ensinou muito sobre gestão (e a sua habilidade levou a Pixar a ser o enorme estúdio de animação que é hoje). Lá ele aprendeu a resistir à pressão, a confiar nos outros e a ceder responsabilidades — competências necessárias para o seu triunfal retorno à Apple.

A NeXT foi comprada pela Apple (combinando a produção de hardware e software), e, voltando para lá, Jobs selou a paz com a Microsoft (deu fim a um processo que a Apple movia por violação de propriedade intelectual, claro, mediante um bom pagamento de Bill Gates e o lançamento do Office para o Mac). Mas a volta foi mesmo marcada pelo enxugamento dos produtos, uma genial campanha de marketing (“Think Different”) e um lançamento que mudou tudo: o iMac, o computador pessoal com design inovador que se tornou sonho de consumo de uma geração.

bros-bw-e1422647301683

Brent Schlender, Bill Gates e Steve Jobs na histórica entrevista realizada em 1991 para a Fortune, na casa de Jobs © George Lange

Jobs não pensava em tecnologia: ele queria criar “o produto”. E foi assim também com o iPod, o iPhone, o iPad. Grandes produtos que combinaram uma série de tecnologias pré-existentes em uma bela embalagem, com design inovador e um sensacional apelo de marketing — sempre capitaneado pelo próprio Jobs. Essa, aliás, foi a função que ele não soube delegar: Jobs fazia questão de ser o único a apresentar os produtos, além de falar apenas com veículos de imprensa selecionados.

Essa preocupação com a imagem foi fundamental também quando ele topou o convite para ser o orador na turma de formandos de 2005 em Stanford. Ele não frequentava conferências (preferia jantar em casa, como Tim Cook conta). Topou o convite, mas falaria apenas em uma formatura: e seria em Stanford. E seria inesquecível. Ele contou até com a ajuda de um roteirista para escrever o famoso discurso. Jobs ficou nervoso. Mas a emocionante apresentação, combinada a sua habilidade como showman, levou uma geração inteira a se curvar a seus pés. Jobs falou sobre sua história, seus fracassos e seus recomeços. Ele falou que é preciso confiar: “de alguma forma, os pontos vão se ligar no futuro”. Em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, Rick Tetzeli e Brent Schlender têm razão quando dizem que o jovem Jobs, ansioso e arrogante, jamais teria pensado nisso. As criações de Jobs são reflexo de muitas experiências, muitos fracassos, muitas tecnologias alheais e, sobretudo, muito trabalho de outras pessoas geniais.

E é por isso que o livro é tão rico e importante, principalmente para complementar a visão clássica do “metade gênio, metade babaca”, que todos nós ouvimos falar, e entender os contextos das criações de Jobs. A revista do MIT publicou um artigo recente sobre como o culto à grandes personalidades de tecnologia é potencialmente danoso para a indústria — além de injusto com as outras pessoas que trabalharam duro para inovar, o que pode ajudar a minar a estrutura necessária para a inovação futura. Afinal, toda inovação é uma combinação de uma ideia, um contexto, financiamento e um time capacitado para colocá-la em prática. O iPhone é uma combinação de diversas tecnologias pré-existentes. Jobs as empacotou e transformou em um produto útil e bonito. A inovação não está presa apenas aos grandes gênios — eles são apenas uma peça na engrenagem.

Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs é uma obra que vai além do personagem principal — é muito rica para entender como o mercado de tecnologia se tornou o que é hoje. E também para tirar o gênio de seu pedestal — ao ler um jornalista veterano escrevendo sobre as jogadas de mestre e fracassos de Jobs narrados de forma sincera, e em uma perspectiva histórica, o leitor aprende muito sobre o contexto e sobre todos os pontos que o levaram a ser como era. E também sobre por que ele foi a maior personalidade da indústria da tecnologia — aquela que fez todos os jornais pararem no dia de sua morte, e cuja trajetória ainda é relevante para quem quer entender como chegamos até aqui.

Leia um trecho de Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs
Leia também: Stephen Witt, autor de Como a música ficou grátis, explica como o digital mudará ainda mais nossa relação com a cultura

Tatiana Dias, jornalista, cobre tecnologia e cultura digital desde 2007. Passou pelas redações da revista IstoÉ, do Estado de S. Paulo e da revista Galileu e editou os blogs no Brasil Post.

testeLançamentos de Agosto

EstanteIntrinseca_Ago2015_600px

História do futuro: O horizonte do Brasil no século XXI, de Míriam Leitão — Somente a jornalista mais premiada do país seria capaz de aceitar o desafio de olhar para além do imediatismo do presente e mapear o que está por vir. O resultado é História do futuro, que compila pesquisas, análises, entrevistas e depoimentos para apresentar, de forma acessível, tendências e perspectivas para os próximos anos. [Leia +]
link-externoLeia também: É possível pensar no futuro, entrevista com Míriam Leitão

Como Steve Jobs virou Steve Jobs, de Brent Schlender e Rick Tetzeli – Única biografia de Jobs com depoimentos dos executivos da Apple, entre eles o CEO Tim Cook, o livro apresenta um retrato íntimo e detalhado sobre um dos líderes mais emblemáticos de nosso tempo e revela o processo de reinvenção do jovem arrogante em um gestor maduro, capaz não apenas de salvar a companhia do fracasso, mas elevá-la a patamares jamais imaginados. [Leia +]

A sexta extinção: Uma história não natural, de Elizabeth Kolbert — Ao longo dos últimos quinhentos milhões de anos, o mundo passou por cinco extinções em massa. Hoje, a maior de todas as extinções vem sendo monitorada, e a causa não é um asteroide ou algo similar, e sim a própria raça humana. O surpreendente relato de qual pode ser o legado final da humanidade recebeu o prêmio Pulitzer de Não Ficção de 2015. [Leia +]

A sorte do agora, de Matthew Quick — Bartholomew passou seus quase 40 anos de vida morando com a mãe. Quando ela adoece e morre, ele descobre que não faz ideia de como viver sozinho. Até que um dia ele encontra, na gaveta de calcinhas dela, uma carta de Richard Gere. Convencido de que o ator vai ajudá-lo, ele começa a escrever uma série de cartas íntimas para Gere. Espirituoso e original, A sorte do agora é construído com a mesma inteligência e sensibilidade de O lado bom da vida[Leia +]


Deixado para morrer, de Beck Weathers — Em 1996, um grupo de alpinistas empenhava-se em escalar o Everest até que uma inesperada tempestade atingiu a montanha, separando-os. Quando uma tentativa de resgate foi possível, Beck Weathers foi considerado sem chances de sobreviver e se viu abandonado na neve. O livro, um dos relatos que inspiraram o filme Evereste, mostra a luta pela vida em uma das montanhas mais perigosas do mundo.

Autoridade, de Jeff VanderMeer — Por décadas, o Comando Sul foi responsável por enviar expedições à Área X, uma região isolada de toda influência humana e cercada por uma barreira invisível. Com o fim da conturbada décima segunda expedição, um novo diretor é nomeado para a instituição, com o objetivo de organizar o caos instaurado. Mas a cada descoberta, novos fatos perturbadores sobre a Área X e o Comando Sul ameaçam ainda mais a ordem. [Leia +]
link-externoLeia também: O Comando Sul precisa de Controle

A febre, de Megan Abbott — Deenie, Lise e Gabby formam um trio inseparável. Quando uma das três sofre uma inexplicável e violenta convulsão no meio da sala de aula, ninguém sabe como reagir… até que outras meninas começam a exibir sintomas similares. Envolto em teorias e especulações, o pânico se alastra pela cidade, e ameaça a frágil sensação de segurança de todos os envolvidos.

Casa de praia com piscina, de Herman Koch – Um médico renomado e extremamente cínico é convidado a levar a família para passar férias na casa de um de seus clientes, o famoso ator Ralph Meier. Depois de alguns dias monótonos, um grave incidente interrompe as férias e marca a vida de todos para sempre. [Leia +]

Minha professora é um monstro! (Não sou, não.), de Peter Brown — Beto tem a pior professora do mundo. Ela ruge, bate o pé e pode até te deixar sem recreio. Ela é um monstro! No livro, o autor e ilustrador Peter Brown ensina uma importante lição de forma leve e bem-humorada: Nem sempre as pessoas são o que parecem. [Leia +]

A ascensão da sombra, de Robert Jordan — Os lacres de Shayol Ghul se enfraquecem e a sombra se ergue para encobrir definitivamente a humanidade. Declarado o escolhido da antiga profecia, Rand al’Thor precisa seguir em frente e cumprir seu destino: proteger o mundo do retorno do Tenebroso. Quarto volume da série A Roda do Tempo. [Leia +]

O mundo imaginário de…, de Keri Smith — Outra contribuição às mentes criativas, o livro propõe a criação de um mundo completamente novo e inusitado, no qual o leitor deve cumprir uma série de tarefas para criar todos os detalhes de um universo particular. [Leia +]

Destrua este diário em qualquer lugar, de Keri Smith — Novamente questionando as convenções, o novo livro de Keri Smith tem como proposta levar a destruição criativa para todos os lugares. Com instruções simples, atividades novas e algumas das páginas clássicas de Destrua este diário, a obra celebra a imperfeição e a exploração. [Leia +]

link-externoLeia também: Programação da Intríseca na Bienal do Livro do Rio de Janeiro

testeComo Steve virou Steve Jobs

bros-bw-e1422647301683

Brent Schlender, Bill Gates e Steve Jobs na histórica entrevista realizada em 1991 para a Fortune, na casa de Jobs © George Lange

Na primeira vez em que entrevistou Steve Jobs, Brent Schlender foi aconselhado a vestir um colete à prova de balas. Era abril de 1986, e, aos 31 anos, Jobs já era uma celebridade mundial e lenda entre os jornalistas. Comentava-se na redação do The Wall Street Journal que era mais fácil entrar em uma batalha do que fazer perguntas ao cofundador da Apple.

Para surpresa de Schlender, o encontro correu bem e, durante os 25 anos seguintes, ele e Jobs desfrutaram de um relacionamento estreito. Das conversas frequentes, o jornalista conseguia as informações de que precisava para capas do Journal e, mais tarde, da revista Fourtune. Mas além das inovações tecnológicas, Brent Schlender acompanhou de perto outro processo fascinante: a reinvenção do jovem arrogante que acabou banido da Apple em um gestor maduro, capaz não apenas de salvar a companhia do fracasso, mas elevá-la a patamares jamais imaginados.

Como Steve Jobs virou Steve Jobs CAPA E LOMBADA.inddAo lado de Rick Tetzeli, editor-executivo da Fast Company que dedicou três anos a entrevistas e pesquisas, Brent Schlender escreveu Como Steve Jobs virou Steve Jobs, única biografia do inventor que teve contribuição dos mais altos executivos da Apple, entre eles o CEO Tim Cook.

Com lançamento marcado para 11 de agosto no Brasil e já em pré-venda, a biografia parte de entrevistas com amigos, familiares, parceiros e concorrentes de Jobs para apresentar um retrato íntimo e detalhado do empresário. Desde a fundação da Apple, passando pelos anos em que Jobs criou e presidiu a NeXT e comprou a Pixar, até o retorno à empresa que o consagrou, o que se vê é uma jornada de sucesso e lampejos de genialidade, mas também de fracassos homéricos e inúmeros golpes de sorte.

O êxito assombroso de Jobs em criar os produtos certos — iMac, iPod, iPhone e iPad — teve como aliado em seus últimos anos de vida o foco no aprimoramento da empresa. E é esse estilo de gerenciamento maduro, combinado à inerente paixão irrefreável de Jobs, que, segundo os autores, deu origem a uma empresa única, cuja identidade até hoje se confunde com a de seu criador.

Confira um trecho inédito de Como Steve virou Steve Jobs:

Depois da morte de Steve, seguiram-se resmas de tratados sobre ele: matérias, livros, filmes e programas de TV. Com frequência, tais peças ressuscitavam velhos mitos a seu respeito, utilizando estereótipos criados na década de 1980, quando a imprensa descobriu o prodígio de Cupertino. Naqueles primeiros anos, Steve era suscetível à bajulação da imprensa e abriu a si mesmo, e a sua empresa, aos repórteres. Estava em sua fase mais indisciplinada e destemperada. Por mais que se mostrasse um gênio para imaginar produtos inovadores, também era capaz de demonstrar uma mesquinhez e indiferença perturbadoras para com seus funcionários e amigos. Então, quando começou a limitar o acesso e a cooperar com a imprensa apenas quando precisava promover seus produtos, as histórias desses primeiros tempos na Apple se tornaram o senso comum sobre sua personalidade e sua maneira de pensar. Talvez por isso a cobertura póstuma tenha refletido tais estereótipos: Steve era um gênio com uma queda pelo design, um xamã cujo poder de contar histórias era capaz de gerar algo mágico e maléfico chamado “campo de distorção da realidade”; era um idiota pomposo que desconsiderava a todos em sua busca obstinada pela perfeição; achava que era mais esperto do que todo mundo, nunca ouvia conselhos e era meio gênio e meio babaca de nascença.

Nada disso se compara à minha experiência com Steve, que sempre me pareceu mais complexo, mais humano, mais sentimental e ainda mais inteligente do que o homem a respeito de quem li em outros lugares. Poucos meses depois de sua morte, comecei a vasculhar antigas anotações, fitas e arquivos das matérias que fiz a seu respeito. Havia muitas coisas que eu esquecera: notas improvisadas que eu escrevera sobre ele, histórias que ele me contara durante as entrevistas mas que eu não poderia usar no momento por uma razão ou por outra, antigas trocas de e-mails, até algumas fitas que eu nunca transcrevera. Encontrei uma fita cassete que ele gravara para mim e era uma cópia da fita que lhe fora dada pela viúva de John Lennon, Yoko Ono, com todas as várias versões de “Strawberry Fields Forever” gravadas durante o longo processo de composição. Tudo isso estava guardado em minha garagem, e desenterrar esse material desencadeou várias lembranças ao longo dos anos. Após remexer tais relíquias pessoais por semanas, decidi que não bastava apenas reclamar dos mitos unidimensionais sobre Steve que estavam se calcificando na mente do público. Eu queria oferecer uma imagem mais completa e um entendimento mais profundo do homem que eu cobrira de forma tão intensa, de um modo que não fora possível quando ele estava vivo. Cobrir Steve fora fascinante e dramático. Sua história era verdadeiramente shakespeariana, repleta de arrogância, intriga e orgulho, de conhecidos vilões e tolos desastrados, de sorte ultrajante, boas intenções e consequências inimagináveis. Havia tantos altos e baixos em tão pouco tempo que fora impossível traçar a ampla trajetória de seu sucesso enquanto ele estava vivo. Naquele momento, eu queria dar uma visão de longo prazo do homem que eu cobrira por tantos anos, o homem que se dizia meu amigo.