teste3 conselhos sobre a Síria

Por Ivan Mizanzuk*

Foto por Gabriel Chaim

“Eu quero morrer na Síria.” Foram essas as palavras de um refugiado sírio que entrevistei em 2016.

Naquele ano, eu realizava uma série de entrevistas com brasileiros que tiveram algum contato com os recentes conflitos do Oriente Médio. Era parte de uma espécie de documentário para o meu podcast, Projeto Humanos, e tinha como objetivo fazer um mosaico dessas histórias, começando no 11 de Setembro até a (ainda corrente) Guerra da Síria. Em algum momento, me vi conversando com sírios que moravam no Brasil — o Ahmed e o Elia, para ser mais preciso. O primeiro, um jovem dentista muçulmano de Damasco que veio para o Brasil, em 2013, como refugiado, fugindo da guerra; o segundo, um atleta cristão de Aleppo, que veio como imigrante na década de 1970 porque era fã do Pelé.

Antes de entrevistá-los, fiz a lição de casa: li muito sobre a Guerra da Síria, sobre os abusos realizados pelos dois últimos ditadores, Hafez al-Assad e Bashar al-Assad, os únicos dois presidentes que o país teve nos últimos quarenta anos. A julgar pelas informações fornecidas pela mídia ocidental, era óbvio que minhas entrevistas com Ahmed e Elia seriam descrições completas sobre quão horríveis os governos da família Assad eram e são.

Mas Elia e Ahmed gostavam de Assad. E isso inutilizou todo o meu preparo. “Sim, as eleições são fraudulentas. Mas Assad é um presidente forte, e todos querem a Síria. Todos! EUA, Israel, Arábia Saudita, todos querem tomar nosso país. Por isso, precisamos ser protegidos.” Por pouco, quase cometi o erro gigantesco de querer ensinar a história da Síria aos próprios sírios, mas consegui me calar a tempo e ouvir as histórias deles.

E este é o primeiro conselho que dou àqueles que se interessam pela Síria: esqueça tudo que você entende de política, costumes e seu modelo de sociedade ideal. Apenas ouça. Quanto antes você se livrar dessas noções “ocidentais”, mais rápido vai começar a entender. E daí você vai perceber o que eu percebi: que em todo lugar do mundo há quem goste de seu presidente, há quem o critique e o chame de ditador e há quem seja pragmático e pense: “Se não ele, quem?” A verdade, se é que ela existe, está em algum desses espectros.

O segundo conselho: após deixar de lado tudo que você pensa saber e ouvir atentamente as histórias dessas pessoas, volte e comece a construir pontes com o Ocidente. No caso de nós, brasileiros, por termos sido colônia portuguesa, estamos acostumados com um modelo de Estado em que, a certa altura, a religião passou a atuar mais na esfera privada do que na pública (ao menos é o que se espera na teoria). É o modelo que “herdamos” da Revolução Francesa, no final do século XVIII, no qual Estado e Igreja são instituições que devem ser independentes. Hoje, esse é o modelo de sociedade que desejamos. Mas imagine que o estabelecimento de um Estado laico não tenha ocorrido séculos atrás, que, em vez de cristã, a população fosse em sua maioria muçulmana e que a separação entre religião e política tivesse sido imposta por um governo que subiu ao poder na base da força, na segunda metade do século XX.

Foi o que aconteceu na Síria, com o agravante de que isso tudo foi durante a Guerra Fria, um momento em que dificilmente um país conseguiria sobreviver se não escolhesse um lado . Como tantos países no Oriente Médio nesse período, os alinhamentos não eram tanto uma questão de ideologia, e sim de sobrevivência.

No imaginário ocidental, temos o péssimo costume de reduzir o Oriente Médio inteiro às questões religiosas, taxando-os de fanáticos. E, ao fazermos isso, deixamos de notar como a religião ganha conotações políticas na região, especialmente na Síria, já que esse modelo ocidental de separação das duas esferas é nosso pressuposto. Quando Hafez al-Assad subiu ao poder, na década de 1970, passou a impor políticas de secularização, proibindo, por exemplo, mulheres de usarem o véu, uma recomendação no islamismo. Parte da população o acusa de forçar uma ocidentalização dos costumes, o que gerou conflitos internos já naquela época.

E, sendo um governo autoritário, parte da população (especialmente os camponeses e os mais pobres nos centros urbanos) usou o discurso religioso como forma de resistência, como foi o caso de mulheres que faziam questão de usar o véu. Entender a religião como expressão política pode nos parecer estranho, mas é possível compreender se fizermos algumas pontes históricas. Não sei se aqui há formas “certas” ou “erradas” de agir. Apenas foi assim que aconteceu.

E quando começamos a ver como é difícil entender a Síria, lanço meu terceiro conselho: ouça as histórias do seu povo. Só através delas entenderemos melhor esses conflitos e suas contradições. À primeira vista, tudo pode parecer muito exótico e diferente, mas a realidade é que muitas das questões são bastante familiares.

Por isso, O árabe do futuro é um tesouro. Sendo o povo árabe um grupo que em geral preserva muito sua privacidade, a autobiografia de Riad Sattouf é corajosa ao expor a intimidade da família. Filho de pai sírio e de mãe francesa, o autor consegue estabelecer as pontes necessárias para que compreendamos a complexidade do desenvolvimento da Síria, do pan-arabismo e das promessas e sonhos que habitavam as mentes daquela época, naquela região.

Não vou dizer aqui que todo sírio ama seu país, pois seria uma generalização perigosa, mas, quando Riad mostra como o pai amava a Síria, entendo melhor o Ahmed, o refugiado sírio que entrevistei, quando ele disse que, apesar de tudo, deseja ser enterrado em sua terra natal.

O árabe do futuro é uma história em quadrinhos (ou graphic novel, para os que preferem termos mais chiques) que até o momento conta com três volumes. O primeiro foi lançado em 2015 aqui no Brasil, e a Intrínseca acabou de lançar o terceiro. A cada vez que o volume que estou lendo termina e vejo “Continua…” na última página, abraço minha edição e digo “até breve”. Não à toa, em 2014, ano da publicação original, o primeiro volume ganhou o Grande Prêmio no festival de quadrinhos de Angoulême, uma das premiações mais importantes do mercado Europeu. Além de colecionar esse e vários outros prêmios no currículo, o autor Riad Sattouf também foi um dos colaboradores do polêmico jornal satírico Charlie Hebdo, entre 2004 e 2014.

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Em 2011, a Síria possuía em torno de 20 milhões de habitantes. Estimativas variam, mas acredita-se que a guerra no país já tenha matado cerca de meio milhão de pessoas. Até 2017, o número de refugiados já passava dos 5 milhões. Se contarmos os que se deslocaram internamente, percebemos que mais da metade do país teve sua estrutura de vida afetada. É a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

Certa vez, conversando com Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, ele me disse: “Quando falamos sobre o Holocausto, é importante humanizarmos aqueles números. Foram 6 milhões de judeus que morreram nos campos, sim, mas temos que ver isso como 6 milhões de histórias que deixamos de contar.”

Para aqueles que pretendem humanizar esses números sírios, a obra de Riad é mais do que recomendada, pois nos lembra que, ao menos desde 1978, havia casais se apaixonando, sonhos sendo construídos, famílias se desentendendo e corações batendo.

 

Ivan Mizanzuk é de Curitiba e tem 34 anos. Além de professor e escritor, é também host dos podcasts AntiCast e Projeto Humanos, nos quais debate frequentemente sobre política, artes, religião e coisas estranhas.

Twitter: @Mizanzuk

 

teste5 motivos para ler O árabe do futuro

A série autobiográfica O árabe do futuro conta a história de Riad Sattouf, um menino filho de mãe francesa e pai sírio, que ainda bem pequeno vai morar na Líbia e depois na Síria. Os primeiros três livros englobam os anos entre 1978 e 1987, período em que os dois países árabes passavam por regimes ditatoriais.

Vencedor do prêmio principal do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, em 2015, o graphic novel teve mais de 90 mil exemplares vendidos na França e foi traduzido para 16 línguas. Riad Sattouf é um renomado quadrinista francês e ex-colaborador da revista Charlie Hebdo. Tem 17 livros publicados e também atua como roteirista e diretor de cinema. 

Separamos cinco motivos pelos quais você não pode deixar de conhecer a série O árabe do futuro:

 

1 – Quem não gosta de aprender se divertindo?

Não é preciso ser amante de história para gostar do livro, mas o pano de fundo da série vai fazer com que você aprenda sem perceber. Acompanhando o dia a dia de Riad, conhecemos o quadro político e cultural de três países e as diferenças entre eles. O livro verde de Kadhafi, os conflitos entre sunitas e xiitas e o posicionamento do Ocidente frente a Israel são assuntos muito comentados pelo pai do menino, um homem muito inteligente e crítico, mas ainda com muitos pensamentos conservadores da época. Pelos olhos do autor, vemos como é crescer dentro da cultura islâmica, divido entre dois mundos completamente opostos.

 

2 – O rei dos baixinhos

É o olhar infantil de Riad que transforma temas complexos em momentos irônicos e cômicos. A ingenuidade do menino nos apresenta o cotidiano de um mundo que conhecemos apenas através de manchetes de jornais, fazendo uma análise livre dos estereótipos com que geralmente olhamos para a cultura árabe. Crianças briguentas reproduzindo discursos de guerra, racionamento de comida e professores violentos são aspectos distantes da nossa realidade, mas ainda assim essas memórias nos fazem relembrar nossa própria infância. Mesmo que não tenhamos crescido em meio a uma ditadura, quem nunca brigou com os amigos na escola, comeu até passar mal ou odiou um professor?

 

3 – Para os fãs de Persépolis e Maus


Assim como Maus e Persépolis, a série apresenta uma visão distinta sobre um conflito cultural que marcou — e ainda marca— uma geração. O embate ideológico entre Ocidente e Oriente está presente diariamente em todos os principais veículos de informação, mas raramente temos a chance de observar esse mundo de perto. As consequências dos regimes autoritários árabes perduram até hoje, mas a realidade desses países é muito distante do nosso dia a dia. Por isso, a experiência de alguém que viveu naquele período é essencial para entendermos as nuances do conflito. Assim como Persépolis, O árabe do futuro acompanha a vida do autor, mostrando as dificuldades e desafios de crescer em um regime autoritário e repressor. Essas obras provam que histórias em quadrinhos não são só para crianças. O traço, as cores e os diálogos tornam a história interessante, profunda e ao mesmo tempo leve.

 

4 – Nostalgia e alegria

Mesmo na Síria, a cultura pop da década de 1980 não passou despercebida. Se você viveu essa década, vai adorar ter um momento nostálgico com Riad. No terceiro livro, o menino se inspira em Conan, o bárbaro para enfrentar as crianças malvadas do vilarejo, juntando gravetos para fazer sua arma e reproduzindo a careta de Arnold Schwarzenegger.

 

5 – É uma história sobre a dificuldade de se encaixar

O livro aborda ditaduras, tradições religiosas e conflitos culturais, mas também é uma história sobre um menino tentando se encaixar. Seu cabelo loiro já destoa na multidão, mas a falta de conhecimento sobre a língua e a religião fazem com que ele se sinta um peixe fora d’água, um estrangeiro tanto na Europa quanto no Oriente Médio. Ao longo dos livros, vemos Riad se aventurando pelas práticas islâmicas, buscando a aceitação de seus amigos e observando com curiosidade as tradições dos países. Com isso, aprendemos junto com ele as tradições dos países. O resultado é que nós, leitores, também aprendemos muito com ele. 

 

O terceiro livro da série já está disponível nas livrarias! Saiba mais

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Piano vermelho, de Josh Malerman: Ex-ícones da cena musical de Detroit, os Danes estão mergulhados no ostracismo. Sem emplacar nenhum novo hit, eles trabalham trancados em estúdio produzindo outras bandas, enchendo a cara e se dedicando com reverência à criação — ou, no caso, à ausência dela. Uma rotina interrompida pela visita de um funcionário misterioso do governo dos Estados Unidos, com um convite mais misterioso ainda: uma viagem a um deserto na África para investigar a origem de um som desconhecido que carrega em suas ondas um enorme poder de destruição.

Breve história de sete assassinatos, de Marlon James: Livro vencedor do Man Booker Prize de 2015, cujo autor é destaque da Festa Literária de Paraty, em julho. Em 3 de dezembro de 1976, às vésperas das eleições na Jamaica e dois dias antes de Bob Marley realizar o show Smile Jamaica para aliviar as tensões políticas em Kingston, sete homens não identificados invadiram a casa do cantor com metralhadoras em punho. O violento ataque feriu Marley, a esposa e o empresário, entre várias outras pessoas. Poucas informações oficiais foram divulgadas sobre os atiradores. Uma obra brilhante e arrebatadora que explora um período de grande instabilidade na história da Jamaica.

Em busca de abrigo, de Jojo Moyes: Tocante romance de estreia de Jojo Moyes, Em busca de abrigo é uma trama sobre três gerações de mulheres em uma família que não se conhece de verdade, tão cheia de surpresas quanto a vida real. Uma prévia do talento de Jojo Moyes para escrever sobre relacionamentos, família e, sobretudo, amor.

As upstarts, de Brad Stone: O livro conta a história dos dois grandes expoentes da chamada economia do compartilhamento: a Uber e o Airbnb. Por meio de sua análise bem embasada e entrevistas com os fundadores das duas empresas, vemos como o enorme ímpeto e autoconfiança de um empreendedor pode mudar o mundo e gerar fortunas, mas também turvar seu discernimento e ameaçar tudo o que foi conquistado.

O árabe do futuro 3: Uma juventude no Oriente Médio (1985-1987), de Riad Sattouf: terceiro volume da premiada série O árabe do futuro, que narra a infância nada comum do quadrinista Riad Sattouf, passada entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. No mais novo capítulo da história do adorável menino de cabeleira loura e cacheada e de sua família itinerante, vemos um Riad no alto de seus sete anos, tentando a seu modo se adequar aos costumes e às dinâmicas do vilarejo em que mora na Síria e se entrosar com seus primos e amigos da escola.

Amor & gelato, de Jenna Evans Welch: Um verão na Itália, uma antiga história de amor e um segredo de família. Depois da morte da mãe, Lina tem que realizar um último pedido: ir até a Itália para conhecer o seu pai. Do dia para a noite, ela se vê na encantadora paisagem da Toscana, passeando pelos famosos pontos turísticos que no passado marcaram a juventude da mãe. Guiada por um antigo diário, Lina agora vai construir a própria história, descobrir o amor e aprender a lidar com o luto.

Hotel Valhala: Guia dos mundos nórdicos, de Rick Riordan: Muitos já ouviram falar do corajoso exército de Odin e dos grandiosos guerreiros vikings que vivem em Valhala, treinando dia e noite para lutar no Ragnarök… Porém, poucos sabem que muitos desses guerreiros chegam ao Hotel Valhala sem a mínima ideia do que estão fazendo ali. Para resolver esse problema, o livro Hotel Valhala: Guia dos mundos nórdicos, um companion book da série Magnus Chase e os deuses de Asgard, oferece todo o conhecimento de que um novo hóspede precisa para sobreviver durante a hospedagem eterna na pós-vida viking.

Como as crianças aprendem, de Paul Tough: agora relançado com novo título, foi publicado no Brasil originalmente em 2014 como Uma questão de caráter. O livro permaneceu por mais de um ano na lista de mais vendidos do The New York Times e foi traduzido para 27 idiomas.

Como ajudar as crianças a aprenderem, de Paul Tough: Um guia prático que oferece a pais, responsáveis, professores e legisladores ferramentas para ampliar seu entendimento das necessidades de investimento e inovação quando se trata de educar crianças em circunstâncias adversas.

testeTirania e nostalgia em quadrinhos

Por Alexandre Sayd*

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Nos anos 1980, bem antes do Estado Islâmico, da crise migratória ou mesmo do 11 de Setembro, o ditador da Líbia já era Kadafi, enquanto o tirano no governo da Síria era Hafez al-Assad, pai do atual presidente. Assim, apesar da distância de três décadas, ao lermos O árabe do futuro, do francês Riad Sattouf, temos a sensação de que o tema e o cenário escolhidos pelo quadrinista continuam estranhamente contemporâneos.

Na premiada trilogia, Sattouf narra em forma de quadrinhos sua infância e juventude. De pai sírio e mãe francesa, ele passou seus primeiros anos na Líbia e na Síria após o pai, doutor em história pela Universidade de Sorbonne, em Paris, conseguir emprego como professor nos dois países.

A partir das memórias, experiências e sensações de uma criança, o autor nos dá a oportunidade de vivenciar, sem preconceitos, esses dois universos. Este é o primeiro de vários aspectos geniais e talvez seja o grande trunfo da obra de Riad Sattouf: ele não tem a pretensão de nos ensinar nada, não pretende apresentar um ensaio geopolítico ou uma aula de história. Aprendemos muito com a obra, mas de forma natural e reflexiva.

É impressionante como a memória do autor é prodigiosa. Ela se apresenta com uma riqueza de detalhes que transcende em muito o meramente visual, com cheiros, sabores e impressões pessoais de quando Riad tinha pouquíssima idade. Ele se lembra de minúcias como o cheiro da França — em oposição ao cheiro da Líbia —, seus pratos preferidos e até mesmo de sonhos.

Impressiona em Sattouf, também, o domínio da arte de narrar em quadrinhos. Os personagens têm expressões hilárias e contagiantes, totalmente adequadas às cenas em que estão inseridos. O desenho lembra um pouco o dos Peanuts (“Charlie Brown”), de Charles M. Schulz, e Calvin e Haroldo, de Bill Watterson; porém com um uso muito diferente das cores, que, em O árabe do futuro, variam de acordo com o país retratado — na Líbia predomina o amarelo, na França, o azul, e na Síria, o rosa.

A história certamente perderia muito se transportada para outro formato que não o da graphic novel, e a qualidade da narrativa, somada à força da temática — que é crescer sob a tirania das ditaduras árabes —, coloca O árabe do futuro no mesmo patamar que Maus, de Art Spiegelman, sobre o holocausto, e Persépolis, de Marjane Satrapi, que expõe a opressão da mulher no mundo islâmico, em especial no Irã.

Na infância, Riad era louro e bem diferente do árabe médio, o que fazia dele um outsider instantâneo, com frequência excluído e hostilizado pelas outras crianças, que o tratavam por “judeu” e “filho do cão”. Nos ambientes mais isolados e remotos, sua família, em especial ele e a mãe, eram vistos pelos demais como extraterrestres. Isso não o impediu de fazer alguns amigos, que normalmente acabavam fascinados por seu exotismo e seus brinquedos do primeiro mundo.

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Riad tinha como grande herói e maior referência o pai, Abdel-Razak. Como leitor, vi no personagem um homem cheio de contradições e preconceitos, que se opõe ao obscurantismo religioso e às superstições do mundo árabe ao mesmo tempo que exalta figuras como Kadafi e al-Assad, incapaz de admitir os danos que esses tiranos causam aos países que governam. Enquanto critica o “atraso” de seus próprios pares e defende que o ensino deve ser livre do dogma religioso, Abdel afirma a todo instante a superioridade dos países islâmicos, defende o pan-arabismo e se recusa a enxergar a precariedade e a violência à qual expõe a si mesmo e a sua família.

As contradições presentes no pai de Sattouf se mostram, de certo modo, um reflexo de seu ambiente de origem. Especialmente na Síria, onde a família de Riad vive em uma pequena vila próxima à cidade de Homs, fica claro o contraste cultural entre a cidade grande e o interior, assim como entre os ricos e os mais pobres. Nos dois casos, os primeiros são muito mais ocidentalizados e livres das superstições e limitações religiosas.

Ao longo da história de Riad e sua família, somos introduzidos às particularidades desses dois mundos, ambos retratados de forma exótica. As crianças francesas são muito mais dependentes, imaturas e desinteressantes do que seus novos colegas árabes. No entanto, a comida na França é abundante e há lojas cheias de brinquedos, enquanto na Líbia, a comida é gratuita, mas escassa e pouco variada, e a distribuição dos alimentos ocorre em dias alternados para homens e mulheres, de modo a evitar contato entre os dois sexos. Já na Síria muitas crianças utilizam roupas de plástico que são réplicas das roupas verdadeiras: sapatos de plástico, no formato de tênis, com cadarços e tudo; uniformes escolares de plástico, com uma pintura que reproduz o cinto dos uniformes verdadeiros.

ArabeDoFuturo2_capa_MAINO segundo livro, lançado recentemente no Brasil, nos revela ainda mais sobre a Síria. Riad começa a frequentar a escola, onde encontra uma educação violenta e altamente doutrinária, com castigos físicos e cheia de leituras do Corão e exaltações ao presidente al-Assad. Lentamente ele passa a compreender melhor o mundo ao seu redor, até mesmo adquirindo uma visão crítica, e nós o acompanhamos nesse processo. Para leitores ocidentais, parece clara a maneira como a violência da sociedade se reflete no comportamento das crianças, que vivem brigando entre si e massacram animais como cães e sapos por esporte.

Percebemos também com maior nitidez como as mulheres são oprimidas e limitadas, reduzidas a cidadãs de segunda categoria — não há meninas nas escolas, e uma parente de Riad acaba assassinada por seus familiares após engravidar fora do casamento. Por fim, as contradições internas da Síria ficam mais evidentes em momentos como quando Riad e o pai vão ao bairro cristão para comprar carne de porco, ilegal no país, ou quando em uma visita à casa de um general importante os adultos consomem álcool, também proibido.

A obra é viciante, daquelas que nos deixam com pena de terminar a leitura. A parte boa é que os dois primeiros volumes estão disponíveis no Brasil, e já há um terceiro a caminho.

Riad Sattouf é cartunista e cineasta. Ele é mais conhecido por seu trabalho ao longo de dez anos no jornal de humor francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um ataque terrorista orquestrado pelo Estado Islâmico em janeiro de 2015. Seu filme Les Beaux gosses recebeu o César de melhor filme em 2010, e o primeiro volume de O árabe do futuro ganhou em 2015 o prêmio principal do Festival de Angoulême, considerado o mais importante do mundo dos quadrinhos. Com a crise migratória, Sattouf ajudou seus familiares da Síria a conseguir refúgio na França.

Alexandre Sayd é jornalista e descendente de franceses e libaneses.

testeLivros que não conseguimos parar de ler

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Existem alguns livros que nos fascinam tanto que é impossível parar de ler até chegarmos à última página. Seja pelo suspense que despertam, pela vontade de saber o que vai acontecer com os personagens ou por querer desvendar mistérios, algumas obras nos encantam e nos deixam vidrados de uma maneira única.

Selecionamos alguns títulos publicados pela Intrínseca que podem ser lidos de uma vez só:

Para quem curte terror psicológico:

Caixa de pássaros — Romance de estreia de Josh Malerman, Caixa de Pássaros é um thriller tenso e aterrorizante que explora a essência do medo. Cinco anos depois de um surto sem explicação ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ninguém sabe o que causa, mas basta uma olhadinha para fora para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Malorie sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas terá que enfrentar o medo de encarar o mundo fora da casa em que está trancada.

Para quem curte suspense:

Garota exemplarGillian Flynn cria um retrato cruel sobre como as mentiras podem construir um casamento. E também destruí-lo. O livro se alterna entre duas perspectivas opostas e conflitantes, estabelecendo uma atmosfera capaz de fazer o leitor mudar de opinião a cada capítulo. Na manhã do quinto aniversário de casamento, Amy desaparece da nova casa, às margens do rio Mississippi. Tudo indica se tratar de um sequestro, e Nick imediatamente chama a polícia, mas logo as suspeitas recaem sobre ele. Exibindo uma estranha calma e contando uma história bem diferente da relatada por Amy em seu diário, ele parece cada dia mais culpado, embora continue a alegar inocência. À medida que as revelações sobre o caso se desenrolam, porém, fica claro que a verdade não é o forte do casal.

Para quem curte ficção científica:

Aniquilação — No primeiro livro da trilogia Comando Sul, somos apresentados a um grupo de quatro mulheres enviado para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Elas fazem parte da décima segunda expedição, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não serem contaminadas pela Área X.

Para quem gosta de histórias de amor e de desvendar a identidade dos personagens:

Simon vs. a agenda Homo Sapiens — Simon troca e-mails anônimos com Blue. Eles são dois garotos gays que só confiam um no outro para se abrir e discutir sobre suas identidades, desejos e medos mais íntimos. Durante a troca de mensagens os dois acabam se apaixonando. O livro discute também o que deve ser o padrão. Por que a heterossexualidade é o padrão?  Por que ser branco é o padrão? Simon discute todos esses estereótipos de um jeito muito fofo.

Para quem ama mistério:

S. — Projeto de J.J. Abrams, criador de Lost, S. está longe de ser um livro convencional. Com ao menos quatro histórias que se desdobram ao mesmo tempo, S. é um livro-jogo com várias possibilidades de leitura, que instiga o leitor a decifrar os mistérios, códigos e pistas contidos em toda a obra. Seja nas notas, nas margens ou nos outros itens da caixa, há sempre algo além do que se vê aguardando para ser descoberto.

Para quem gosta de livros com reviravoltas:

A verdade sobre o caso Harry Quebert — Marcus Goldman, um jovem escritor americano que está sofrendo com bloqueio criativo, procura o renomado romancista e seu ex-professor de faculdade Harry Quebert. Surpreendido por um mistério que envolve seu mentor na morte de uma jovem de quinze anos, Marcus precisa correr contra o tempo para tentar inocentar o amigo, descobrir quem matou Nola Kellergan e escrever um livro bem-sucedido.

Para quem gosta de histórias que envolvam crimes:

Todos envolvidos — A obra é inspirada na semana de protestos, assaltos e saques ocorrida em 1992, em Los Angeles, depois do julgamento que absolveu três policiais acusados de agir com violência contra um taxista negro. O livro narra como gangues latinas, imigrantes e traficantes se aproveitaram da situação para acertarem as contas com seus rivais.

Para quem curte thriller com espionagem e conspiração:

O nadador — Livro de estreia de Joakim Zander, O nadador é um thriller de suspense que percorre diversos pontos do planeta. O autor, que já viveu em diversos lugares do mundo como representante do Parlamento Europeu, utiliza sua experiência pessoal para tornar ainda mais rica a ambientação dos diversos países retratados no livro.

Para quem gosta de histórias com segredos:

Temporada de acidentes — Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões — em outras, acontecem coisas horríveis. A temporada de acidentes faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores. No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes.

Para quem tem interesse em histórias com conflitos entre culturas:

O árabe do futuro Riad Sattouf, um consagrado quadrinista filho de mãe francesa e de pai sírio, conta o choque cultural que viveu quando, ainda criança, foi para a Síria e a Líbia. E também do retorno da família à França. Depois de viver em lugares tão diferentes, Riad se tornou um completo estrangeiro, com uma visão crítica, afiada e muito bem-humorada sobre o mundo. Um livro de memórias contado em quadrinhos.

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Tudo tem uma primeira vez, de Vitória Moraes (Viih Tube) — Como foi o seu primeiro beijo? E a primeira vez que teve coragem de dizer “eu te amo” para alguém? Ou que vacilou feio com uma amiga? Em Tudo tem uma primeira vez, Vitória Moraes, a Viih Tube, fala abertamente e com muito bom humor sobre os grandes (e primeiros) momentos da adolescência.

Viih tem posições firmes e um jeito só seu de contar histórias de meninos e meninas que estão conectados à internet 24 horas por dia e usam as redes sociais para tudo. Com suas palavras, faz um retrato divertido de quem é o adolescente da atualidade. [Leia +]

Todos envolvidos, de Ryan Gattis Na tarde de 29 de abril de 1992, um júri absolveu três policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um civil negro chamado Rodney King. Menos de duas horas depois, a cidade explodiu em violência. Em seis dias, sessenta pessoas morreram. Mas muitas mortes não foram contabilizadas: fora da zona principal de protestos, algumas gangues se aproveitaram dos tumultos para acertar as próprias contas.

Inspirado nesse momento e narrado do ponto de vista de dezessete personagens, o romance de Ryan Gattis apaga as fronteiras entre vítimas e criminosos e transforma a história dos protestos em uma vívida e eletrizante obra de ficção. Uma narrativa ambiciosa e arrebatadora, um épico sobre crime e oportunismo, vingança e lealdade. [Leia +]

Temporada de acidentes, de Moïra Fowley-Doyle — Acontece todo ano, na mesma época. Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões — em outras, acontecem coisas horríveis.  A temporada de acidentes faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores.

No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes. Por quê, afinal, sua família foi amaldiçoada? E por que eles não conseguem se livrar desse mal? [Leia +]

 

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Uma chance de lutar, de Elizabeth Warren — Um dos nomes mais relevantes na corrida presidencial dos Estados Unidos em 2016, a senadora Elizabeth Warren é um retrato perfeito da realização do sonho americano: filha de um zelador e uma telefonista, venceu as dificuldades da família e o lugar-comum da época de que o principal objetivo de toda mulher era conseguir um bom casamento. Ela tornou-se professora em Harvard, atuou como consultora do Congresso americano e assistente do presidente Barack Obama.

Neste relato, Elizabeth deixa transparecer a fibra que a fez chegar aonde está e expõe a abrangência de seus conceitos sobre o endividamento e o sistema financeiro, que extrapolam o cenário norte-americano. [Leia +]

Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro), de Geoff RodkeyOs gêmeos Claudia e Reese, de 12 anos, não poderiam ser mais diferentes, mas em uma coisa eles são realmente idênticos: a determinação em sair ganhando na terrível guerra travada entre os dois! No primeiro volume da série, tudo começa com uma polêmica no refeitório da escola, quando Claudia sofreu um ataque cruel e covarde do próprio irmão. Aos poucos, a guerra se acirra e, das ruas de Nova York, passa para o universo ficcional de um jogo on-line.

Com uma narrativa totalmente original, incluindo fotos, capturas de tela dos jogos, registros de chats e muitas mensagens trocadas pelo celular entre os pobres pais dos beligerantes, Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro) mostra, de forma autêntica e hilária, os conflitos entre dois irmãos adolescentes numa era saturada de recursos visuais e digitais. [Leia +]

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O árabe do futuro 2: Uma juventude no Oriente médio (1984-1985), de Riad Sattouf — Segundo volume da trilogia que narra o choque cultural vivido por uma criança nascida na França que passou os primeiros anos de vida dividida entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. Nessa sequência, o premiado quadrinista Riad Sattouf, ex-colaborador do jornal Charlie Hebdo e que participou da última edição da Flip, relata seu primeiro ano como aluno de uma escola síria, onde enfim aprendeu a ler e escrever em árabe enquanto enfrentava um ambiente rígido e violento.

Comparado aos aclamados Maus e PersépolisO árabe do futuro exibe uma visão reveladora sobre o conflito entre culturas que está definindo o século XXI. Com traço simples e narrativa fluida e divertida, Riad fornece ao mesmo tempo uma análise do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de uma infância tão plural e de cores tão fortes. [Leia +]

Aceitação, de Jeff VanderMeer —  É inverno na Área X, a misteriosa região selvagem que há trinta anos desafia explicações e repele pesquisadores de expedição após expedição, recusando-se a revelar seus segredos. Enquanto sua geografia impenetrável se expande, a agência responsável por investigar e supervisionar a área — o Comando Sul — entra em colapso. Uma última e desesperada equipe atravessa a fronteira, determinada a alcançar uma remota ilha que pode conter as respostas que eles tanto procuram.

Último livro da trilogia de ficção científica Comando Sul, Aceitação conecta os dois livros anteriores, Aniquilação e Autoridade, em capítulos breves e acelerados, narrados da perspectiva de personagens cruciais. Página após página, os mistérios são aos poucos solucionados, mas as consequências e as implicações dos acontecimentos passados jamais serão menos profundas ou aterrorizantes. [Leia +]

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testeTop 10 de Pedro Gabriel

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Procurando por uma nova leitura? Confira as dez indicações de Pedro Gabriel, autor de Eu me chamo Antônio e Segundo: Eu me chamo Antônio. Os e-books de alguns títulos dessa seleção estão com preços promocionais na Google Play até a próxima quinta-feira, dia 3 de março. Confira aqui.

 

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Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr — Nesse romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2015, você vai conhecer Marie-Laure, uma garota que ficou cega aos seis anos e que vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural, e Werner, um menino alemão, órfão, que se encanta por um rádio encontrado em uma pilha de lixo e cuja trajetória o leva a uma escola nazista.

Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Toda luz que não podemos ver é um tocante romance sobre o que há além do mundo visível. [+]

O árabe do futuro: uma juventude no Oriente Médio (1978 – 1984), de Riad Sattouf — Filho de mãe francesa e de pai sírio, o quadrinista Riad Sattouf conta o choque cultural que viveu quando foi, ainda bem criança, para a Síria e a Líbia, e fala também do retorno da família à França. Depois de viver em lugares tão diferentes, Riad se tornou um completo estrangeiro, com uma visão crítica, afiada e muito bem-humorada sobre o mundo.

Um relato literário pleno em forma de graphic novel, com traço simples e narrativa fluida e descontraída. Riad fornece ao mesmo tempo uma análise antropológica do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de sua própria infância plural. [+]

A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joël Dicker — Em 1975, na pequena cidade de Aurora, em New Hampshire, Nola Kellergan, de quinze anos, é vista pela última vez sendo perseguida na floresta e nunca mais é encontrada. Trinta e três anos depois, Marcus Goldman, jovem escritor de sucesso, vai a Aurora encontrar seu amigo e professor, o respeitado romancista Harry Quebert, na esperança de conseguir superar um bloqueio criativo. Durante esse tempo, ele descobre que seu mentor teve um caso com a adolescente.

Depois de encontrarem o cadáver da garota em seu jardim, Harry é preso, acusado de ter cometido assassinato. Marcus precisa correr contra o tempo para inocentar o amigo, descobrir quem matou Nola Kellergan e escrever um romance bem-sucedido. [+]

 

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Queria ver você feliz, de Adriana Falcão — O Amor, essa entidade mítica, obstinada e perfeccionista, desempenha o papel de narrador na história real do casal Caio e Maria Augusta, pais da autora Adriana Falcão. Com linguagem poética e ao mesmo tempo bem-humorada, Adriana revela para seus leitores aquilo que poderia ser descrito como uma história trágica protagonizada por dois personagens atormentados por seus demônios.

Apaixonados, Caio e Maria Augusta se casam no Rio de Janeiro da década de 1950 e têm três filhas. Todo o sentimento que eles compartilham não impede que a personalidade exuberante de Maria Augusta se torne mais obsessiva e asfixiante com o passar do tempo, apesar dos medicamentos e dos tratamentos psiquiátricos a que é submetida. Caio, por sua vez, aprofunda uma melancolia que existia nele desde a adolescência, e que culmina nos anos 1970 em tentativas de suicídio. Mais do que uma história com final dramático, trata-se de memórias afetivas que alternam momentos de intensa felicidade e outros tantos de dor. [+]

Pó de lua, de Clarice Freire — Filha de Wilson Freire, parceiro do compositor Antônio Nóbrega, Clarice cresceu rodeada por artistas. Ela própria compõem letras de músicas e toca violão. Não é à toa que conseguiu encantar o público com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenhos e fragmentos de palavras.

A obra segue o formato dos cadernos moleskine em que Clarice acostumou-se a exercitar sua criatividade. Inspirada pelas quatro fases da lua — minguante, nova, crescente e cheia —, ela trata em frases concisas e certeiras de sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, enfeitada com ilustrações singelas. [+]

O livro sem figuras, de B. J. Novak — Um livro sem figuras? O que tem de divertido nisso? Combinando simplicidade e criatividade de uma forma surpreendentemente engenhosa, O livro sem figuras inspira risadas toda vez que é aberto, criando uma experiência de diversão e interação entre adultos e crianças e apresentando aos pequenos leitores a poderosa ideia de que a palavra escrita pode ser uma fonte infinita de alegria e travessuras.

Um livro original e divertido capaz de transformar qualquer leitor em um verdadeiro comediante, que vai fazer as crianças implorarem para ouvir a história repetidas vezes. [+]

 

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Paris versus New York, de Vahram Muratyan — Vahram Muratyan é um jovem artista gráfico de origem armênia criado em Paris. Em 2010, depois de uma longa temporada em Nova York, ele criou o blog Paris versus New York como uma espécie de registro visual de suas experiências, um bem-humorado confronto entre duas das mais míticas cidades do mundo. O sucesso foi surpreendente e o blog teve mais de cinco milhões de visitas em um ano. A sofisticada batalha visual, travada por um amante de Paris vagando por Nova York, se transformou em livro e firmou o artista como um designer renomado, com uma carteira de clientes que inclui grandes nomes da moda, entre eles Prada e Chanel.

Este amistoso confronto artístico é dedicado aos amantes de Paris, de Nova York e àqueles que estão divididos entre as duas cidades. [+]

A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal — Um dos mais importantes ceramistas da atualidade, Edmund de Waal era fascinado pela coleção de 264 miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim guardadas no apartamento do tio-avô, que vivia em Tóquio. Nenhuma daquelas peças era maior do que uma caixa de fósforos e, no entanto, seu valor revelou-se grandioso.

Mais tarde, quando herdou estes netsuquês, Edmund descobriu que, além da riqueza artística, eles carregavam uma história muito maior: revelavam o passado de sua família e eventos cruciais do século XX. A partir dessa delicada coleção, A lebre com olhos de âmbar, obra vencedora do Costa Book Award na categoria Biografia e finalista do South Bank Sky Arts Award na categoria Literatura, transporta o leitor desde um império em Odessa — passando pela Paris do fin-de-siècle e pela Viena ocupada pelos nazistas — até o Japão e a Inglaterra contemporâneos. [+]

Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver — Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive.

Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável. [+]

Eu me chamo Antônio, de Pedro Gabriel — Em seu primeiro livro, Pedro Gabriel apresenta uma narrativa que transita por todas as fases de um relacionamento amoroso: com um estilo simples e acessível, mas nem sempre óbvio, o leitor acompanha os encontros e desencontros de Antônio. Percebe-se uma irreverência no tom de versos e trocadilhos como: “Invista nos amores à primeira vista”. Outras emoções são apresentadas de forma singela, quando há uma separação, por exemplo: “Você, distante, diz tanto sobre mim”. Enquanto a angústia, sentimento que faz parte da instabilidade de qualquer casal, também é citada no livro: “Na dança do amor: dor pra cá, dor pra lá”.

Antônio é um personagem sensível e verossímil, talvez seja por isso que os leitores cultivem a dúvida sobre até onde vai a linha tênue que separa a realidade da ficção. [+]

testeIntrínseca na Flip 2015

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A partir de 1º de julho as charmosas ruas de Paraty tornam-se o ponto de encontro entre leitores e escritores. De quarta a domingo (5/7), a cidade celebra a Flip, festa literária que neste ano homenageia o modernista Mário de Andrade.

O escritor, diretor e cartunista Riad Sattouf, autor do recém-publicado O árabe do futuro, é uma das atrações da programação principal. Reconhecido quadrinista da nova geração francesa e ex-colaborador da revista Charlie Hebdo, Sattouf irá debater com Plantu — um dos mais célebres cartunistas da França, colaborador há mais de 40 anos do Le Monde — e com o brasileiro Rafa Campos o estado da arte dos quadrinhos em 2015 como espaço de resistência e liberdade crítica. A mesa “De balões e blasfêmias”, que terá cobertura ao vivo pelo Twitter, acontece no sábado, 4 de julho, às 15h.

link-externoLeia mais sobre O árabe do futuro

Além das mesas literárias, o festival conta com a programação gratuita da FlipMais e com eventos especiais para os pequenos leitores na Flipinha e para os jovens na FlipZona.
Acompanhe a cobertura da Festa Literária Internacional de Paraty em nossos perfis no Twitter e no Instagram.

testeRevivendo o passado através de O árabe do futuro

Por José Messias*

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Trecho de “O árabe do futuro”

Carl Sagan, astrofísico e divulgador científico, certa vez afirmou que “é preciso conhecer o passado para compreender o presente”. Dita em seu programa de TV, Cosmos, de 1980, a frase poderia muito bem servir de premissa para O árabe do futuro, autobiografia em quadrinhos de Riad Sattouf. Filho de pai sírio que se mudou para Paris para cursar o doutorado na Sorbonne, o artista francês de apenas 37 anos poderia ser considerado precoce por lançar uma biografia nessa idade (Justin Bieber à parte, claro). Poderia, não fosse a potência e a relevância de seu relato, que aborda algo mais do que o choque cultural de ter saído da Europa aos dois anos para morar com a família primeiro na Líbia e depois na Síria.

Pelo olhar de uma criança, relações familiares, religião, ideologia e política ganham contornos mais palpáveis. Tal qual Sagan ao traduzir para o grande público a ciência avançada na série Cosmos – que tinha o peculiar subtítulo “uma viagem pessoal”–, o quadrinista, ao empreender uma jornada a priori extremamente particular, acaba revelando aspectos pouco explorados de um mundo polarizado. História em quadrinhos com H maiúsculo.

capa_arabe do futuro_miniatura_blogSatouff, como alude o título de seu livro, fala de um futuro que nunca se concretizou. No primeiro volume dos três que compõem a autobiografia, ele coloca em contexto fatos históricos da Líbia e da Síria para contar sua vida. A narrativa apresenta sua visão do mundo árabe a partir da infância dividida entre duas culturas, ou melhor, entre diversos contrastes político-culturais: Ocidente e Oriente, religião e secularismo, democracia e totalitarismo, tradição e reforma, entre outros. O interessante é notar como muitas dessas definições vão sendo inteligentemente questionadas/desconstruídas, ou pelo menos debatidas, pelo viés da inocência e da relativa pureza da ótica infantil.

Materializado pelo conceito de pan-arabismo, que prega a união dos povos árabes, e pelas ditaduras que governavam a Líbia e a Síria desde os anos 1960 – respectivamente, a do recém-deposto (e morto) Muamar Kadafi e a de Hafez al-Assad, pai do atual presidente Bashar al-Assad –, a ideia de um árabe do futuro teria em seu cerne a educação, o progresso e até certo afastamento do islamismo tradicionalista (rígido, mas não necessariamente fundamentalista). Com certa ironia, Sattouf aponta como governos hoje considerados tirânicos surgiram como uma proposta de renovação ou reforma.

Em suas memórias, os golpes de Estado, a pobreza e a escassez de recursos dos países em que viveu e o bullying que sofria dos primos misturam-se às lembranças da primeira visita de sua avó, dos amigos que fez e das brincadeiras do período, nem sempre tão inocentes. Cada uma com seu grau de felicidade e de angústia. Como toda criança.

Através do olhar do menino Riad, é possível ver como o estranhamento dos valores e costumes daquele que apesar de distante também era seu povo, sua família, vai dando lugar à aceitação, com ajuda do pai, seu ídolo, e dos poucos mas estimados amigos. Mesmo que a adaptação possa ser conturbada. E até brutal.

link-externoLeia também: Riad Sattouf participa da Flip 2015

 

Nem todas as tradições são ruins

Em termos literários, O árabe do futuro pode ser colocado facilmente num contexto maior, inserido entre as obras que quebram barreiras de gênero ou definições arbitrárias do mercado, como “público-alvo”. Afinal, já passou e muito o tempo em que ainda se acreditava que quadrinho é coisa de criança.

De um lado, estão os mangás japoneses e os blockbusters inspirados em revistas em quadrinhos, como Os Vingadores, que mostram como essa indústria movimenta bilhões de dólares anualmente e gera lucros astronômicos com vendas e licenciamento, atingindo públicos de todas as idades. De outro, temos obras como Um contrato com Deus, de Will Eisner (que, lançada em 1978, apresentou para o grande público o conceito de graphic novel), responsáveis por pensar o formato como meio de expressão mais artística e comprovar o potencial do gênero para narrativas sem capas esvoaçantes ou superpoderes.

O termo graphic novel, aliás, surgiu nos Estados Unidos justamente como uma resposta ao inadequado comic book (e sua abreviação comics), considerado por pesquisadores e entusiastas como Richard Kyle uma herança das tiras de jornal, as comic strips, que teriam o humor como elemento principal. Vale ressaltar que trabalhos pioneiros de autores brasileiros como Laerte Coutinho, Lourenço Mutarelli e dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá têm desafiado essas definições reducionistas, sendo chamadas de tiras livres por pesquisadores como Paulo Ramos.

No campo literário, há ainda Maus, na qual o norte-americano Art Spiegelman retrata a vida de seu pai, um judeu polonês, durante o Holocausto. A obra foi a primeira do gênero a ganhar o prêmio Pulitzer. Sobre o Oriente Médio, não há como deixar de mencionar o trabalho de Joe Sacco, com suas reportagens investigativas em quadrinhos sobre o conflito entre Palestina e Israel. Com Palestina, de 1996, Sacco foi agraciado com o American Book Award.

Embora a polêmica ocorra principalmente em países anglófonos, essa discussão influencia a forma como o gênero é visto e, principalmente, o imaginário a seu respeito, dentro e fora dos Estados Unidos. Em lugar de proporcionar a unificação em torno do termo graphic novel (romance gráfico) – mais preciso e sem a estigmatização do humor como essência –, a comunidade acadêmica e a opinião pública acabaram por atribuí-lo a um tipo específico de quadrinhos, voltado para o público adulto (como os trabalhos de Eisner) e, sobretudo, de narrativa fechada, mesmo que serializada. Acaba-se por recriar a mesma mentalidade reducionista: comics, os super-heróis, são pra crianças, graphic novels são pra adultos.

Curiosamente, o termo também se ramificou, gerando correlatos como graphic storytelling (narrativa gráfica). Além disso, quando o meio se desenvolveu e atingiu certo prestígio por causa de seus realizadores, acabou sendo reconhecido como arte, gerando novas definições, como nona arte e arte sequencial. Ainda assim, existe certo preciosismo em torno desses termos que novamente são apenas relegados a um tipo específico de quadrinhos (adultos, poéticos, filosóficos, políticos etc.).

O potencial expressivo dos quadrinhos, seja como arte, reportagem jornalística ou crítica cultural, vem sendo explorado de formas inovadoras desde o surgimento do meio. No entanto, sendo historicamente identificados como entretenimento, sobretudo para o público infantil, os quadrinhos acabam sofrendo ora com certo preconceito de parte do público ora com o protecionismo de estudiosos e de parte do mercado, o que pode afastar leitores em potencial.

Daí a importância de obras como O árabe do futuro que em sua relativa simplicidade são capazes de pôr em perspectiva nossa visão de mundo e de balançar algumas ideias pré-concebidas. E no final das contas, é isso que deve contar na hora de escolher uma próxima leitura.

link-externoLeia um trecho de O árabe do futuro

 

José Messias é doutorando em Comunicação pela ECO/UFRJ e mestre na mesma área pelo PPGCom/Uerj. O tema de sua dissertação foram as representações de herói presentes nas histórias em quadrinhos estadunidenses e japonesas, com um estudo de caso sobre Superman, Batman, Samurai X e Vagabond. Possui artigos científicos publicados em periódicos tanto sobre quadrinhos, representação e imaginário quanto sobre videogames, pirataria e cognição, seu atual tema de estudo. Também é um dos editores e redator do site Iluminerds.

testeRiad Sattouf participa da Flip 2015

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O quadrinista sírio-francês Riad Sattouf, autor da recém-publicada autobiografia O árabe do futuro, participa da 13ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá entre os dias 1 e 5 de julho.

Ex-colaborador do jornal Charlie Hebdo, Sattouf dividirá a mesa “De balões e blasfêmias” com o brasileiro Rafa Campos. O encontro sobre batalhas culturais em HQs está marcado para sábado, 4 de julho, às 15h.

link-externoVeja a programação completa da Flip 2015

capa_arabe do futuro_miniatura_blogFilho de mãe francesa, criada na Bretanha, e de pai sírio, de uma aldeia próxima a Homs, Sattouf retrata em O árabe do futuro – Uma juventude no Oriente Médio (1978-1984) o choque cultural experimentado por uma criança nascida na França socialista de Mitterand ao vivenciar as ditaduras da Síria de Assad e da Líbia de Kadafi.

link-externoLeia um trecho de O árabe do futuro

Riad Sattouf é autor de 17 livros e também atua como roteirista e diretor de cinema. Seu primeiro longa-metragem, Les beaux gosses (2009), ganhou o César de melhor filme e foi indicado à Câmera de Ouro (Caméra d’or) em Cannes. Por O árabe do futuro recebeu neste ano, pela segunda vez, o prêmio principal do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême.

 

link-externoVeja também: David Nicholls está confirmado na Bienal do Rio 2015