testeComo Cinquenta tons de cinza nos trouxe liberdade

Por Nina Lopes*

Cinquenta tons de cinza foi lançado em 2012. Em 2017, a adaptação cinematográfica do segundo livro da série acabou de chegar aos cinemas. Ou seja, cinco anos depois Grey continua com tudo. Porque, vamos combinar, ele é eterno, doa a quem doer. E para entender um pouco melhor sobre sua permanência nas listas de mais vendidos e a importância dessa obra é preciso voltar um pouco no tempo.

Vamos começar no Antigo Regime, que cobre um período entre os séculos XV até início do XVIII. Nessa época, os livros com conteúdo erótico não tinham permissão da Igreja e do Estado para serem publicados, portanto eram vendidos de forma clandestina. As poucas escritoras femininas preferiam o anonimato e o uso de pseudônimos para evitar o julgamento alheio e a perseguição que sofriam caso assumissem a autoria. Inclusive, elas eram consideradas incapazes de descrever cenas sensuais com a mesma precisão que os homens. Acreditavam que só eles entendiam do assunto e por isso eram os únicos aptos a escrever sobre o tema. Chocante, né?

Já no século XVIII, as mulheres tinham muito tempo livre em casa e gostavam de ler romances. Nesse momento, o gênero já sofria críticas por ser uma leitura de diversão. No século seguinte, o romantismo se expandiu com a chegada dos folhetins e passou a ser chamado de “literatura de massa”, atingindo as camadas populares. Mas nem tudo é fácil e a crítica não deixava barato, afinal de contas a elite intelectual não aceitava ter a mesma preferência literária que os emergentes.

A temática do sexo já fazia sucesso, mas esses livros eram chamados de “romances para homens”. Não era bem-visto que as mulheres lessem essas histórias, pois eram consideradas má influência. Mas elas não eram bobas e compravam escondidas ou liam o exemplar do marido enquanto ele não estava em casa. Contudo, era impensável assumir que gostavam desse gênero ou ler esses livros em público.

No século XX, a sexualidade foi incorporada pelo capitalismo para gerar lucro. E a mulher, nesse novo contexto, passou a ser vista como objeto sexual, sem voz ativa. Mas nem tudo estava perdido e no final do século conquistamos a libertação feminina, e a literatura erótica passou a ser majoritariamente produzida por mulheres. Porém, essa produção ficava confinada aos livros de bolso vendidos em bancas de jornal, nada de destaque nas vitrines das livrarias ou aposta nos catálogos das editoras. E foi só no século XXI que Cinquenta tons de cinza tirou a literatura erótica desse “esconderijo” e a colocou sob os holofotes.

Portanto, fica claro que o obsceno na literatura sempre foi condenado e repreendido. Além disso, a visão do homem era predominante. A produção feminina começou tarde e enfrentou desafios, e quem quebra paradigmas é sempre criticado. A crítica mantém sua postura, afinal não quer perder a autoridade intelectual. Mas já está na hora de entender que o público leitor é heterogêneo.

Foi com a coragem de autoras como E L James que conseguimos transgredir uma repressão que durou muito tempo, nos permitindo alcançar a liberdade que temos hoje. Cinquenta tons de cinza retrata o momento em que vivemos ao contar uma história romântica moderna, com as mulheres assumindo a autoria, as fantasias e lendo textos eróticos em público.

Acima de tudo, E L James decidiu contar uma história de amor. O problema é que o prazer e o amor são simples, e por isso mesmo desprezados. Mas não só no campo literário, como em outros aspectos da vida, o ato de espalhar o amor precisa ser mais valorizado. Então, que chorem as inimigas, que chorem os críticos, eu tenho muito orgulho de fazer parte da geração que dá voz às mulheres, que coloca uma escritora falando tão abertamente sobre amor e sexo no topo das listas de mais vendidos do mundo todo. Segue o show, Grey!

 

*Nina Lopes é editora assistente no setor de ficção da Editora Intrínseca e é dessas que se apaixonam pelos personagens dos livros que lê.

testePlaylist de Não se enrola, não

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Em Não se enrola, não, Isabela dá os primeiros passos na vida adulta, muda-se para São Paulo, conquista um emprego e começa um relacionamento sem nome definido com Pedro Miller. Vizinhos no Baixo Augusta, os dois dividem muitos momentos e a paixão por bandas como One Republic, Oasis, Charlie Brown Jr., Pearl Jam, The Killers, Kings of Leon e muitas outras!

Para entrar no clima do terceiro livro da autora, criamos uma trilha sonora com as músicas citadas na obra. É só ligar o som!

testeTerceiro livro de Isabela Freitas será lançado em novembro

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Os fãs de Isabela Freitas já podem comemorar! Não se enrola, não, novo livro da autora, já tem data para chegar às livrarias: 3 de novembro. Na sequência de Não se iluda, não, a vida de Isabela dá uma completa reviravolta depois do sucesso de seu blog, Garota em Preto e Branco. Decidida a perseguir seus sonhos, ela abandona o curso de direito, deixa a casa dos pais, em Juiz de Fora (MG), e se muda para São Paulo tão logo conquista um emprego numa badalada revista on-line. Enquanto se adapta aos novos tempos numa quitinete no Baixo Augusta, Isabela escreve seu primeiro livro.

Seria perfeito se no apartamento em frente não morasse o envolvente Pedro Miller e os dois não se embolassem regularmente sob o mesmo lençol. Não, não é namoro. Não, não é apenas amizade. É algo muito mais enrolado, um relacionamento sem um nome definido. Um “isso”, como diz a personagem. Embora não tenha coragem de confessar seus sentimentos, Isabela sabe que está perdidamente apaixonada pelo seu melhor amigo.

Em Não se enrola, não, os leitores poderão acompanhar os primeiros passos dos personagens na vida adulta, com toda a independência e as responsabilidades que ela proporciona.

testeO bom amor é gentil

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A caminho de casa, ela viu um daqueles cartazes prometendo amarração para o amor. Por um instante, a ideia de pagar só após o resultado lhe pareceu boa. Estava tão fora de si, tão apaixonada, que a chance de ter um amor submisso, de ficar no controle da situação, lhe dava certo conforto.

Concordar, mesmo por alguns segundos, com um projeto tão estapafúrdio como amarrar alguém, ainda que metaforicamente, foi suficiente para ela entender que era hora de dizer adeus. Precisava dar um basta na situação. Apagou o número de telefone dele e sentiu-se bem por um momento.

Só havia um problema: ela sabia de cor os nove dígitos. Sempre fora boa em aritmética, mas nunca soubera fazer as contas do quanto deveria amar. Desenvolveu um sistema que parecia funcionar. Se decorasse o número do pretendente, era sinal de que gostava dele. Caso lhe escorregasse da mente, seria melhor desistir.

Fez as contas e concluiu que não vinha sendo honesta sobre seus sentimentos havia pelo menos três meses. Na semana anterior, descontrolara-se ao contatá-lo em três ocasiões diferentes, um número além do saudável para uma relação não exclusiva. Sinal de que era hora de sair de cena sem fazer barulho.

Antes do fim, uma dúvida: dizer algo ou calar-se? Se não falasse nada, suas chances de sucesso seriam zero. Caso expusesse seus sentimentos, haveria a possibilidade, ainda que matematicamente desprezível, de reciprocidade. Poderia aceitar a derrota calada ou apostar suas fichas na vitória.

Decidiu esperar que aparecesse, o que sempre fazia quando ela menos esperava. Se ele nunca mais lhe telefonasse, o acaso decidiria a situação. Duas vagarosas semanas se passaram, e ele reapareceu. Doce como sempre, como se os dois se tivessem visto no dia anterior.

Ela tivera tempo de praticar o discurso, que seguiu com rigor. Sem ficar emocionada, porém tomando a precaução de não soar fria, disse que talvez fosse melhor se eles deixassem de se ver. O motivo: estava começando a gostar demais dele e não queria mais partilhá-lo com ninguém.

À medida que seus sentimentos atingiam o ponto de fervura, retirar-se parecia a coisa certa a fazer. Ele ficou mudo, sem saber o que dizer. Gaguejou e se despediu. Não lhe desejou boa sorte nem felicidades, não disse nenhuma frase de efeito.

Ela não havia segurado ou dominado seu amor. E não queria forçar ninguém a amá-la, buscava algo gentil. Se fosse necessário esperar um pouco mais até conseguir o que desejava, tudo bem. Uma garrafa de vinho poderia ser aberta imediatamente para ajudá-la a passar o tempo. Seria uma pequena fonte de alento.

Enquanto procurava o saca-rolhas, ouviu insistentes batidas em sua porta. Ele chamava seu nome. Ao abrir, olhou nos olhos dele, sem dizer nada. Era o mesmo homem, mas estava mudado. Quase sem fôlego, pois havia subido três andares correndo pelas escadas, ele fez só uma pergunta:

– Então, como é que a gente vai fazer?

testeAs mulheres do meu livro IV

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A atriz e inventora Hedy Lamarr (fonte)

A austríaca Hedy Lamarr foi um ícone do cinema internacional. Ao aparecer nua, simulando um orgasmo, no filme tcheco Êxtase, de 1933, embalou o sonho de milhões de homens em todo o planeta. Em 1949, ela apimentaria o épico Sansão e Dalila com cenas bastante sensuais para a época, especialmente por se tratar de obra com temática bíblica. Mas Hedy também ficou conhecida por sua capacidade intelectual. Em 1940, em plena Segunda Guerra, ela patenteou um aparelho que despistava as transmissões de rádio — engenhoca tida como mãe da telefonia celular.

Hedy Lamarr, personagem do meu livro Os Guinle, foi uma das muitas namoradas de Jorginho Guinle. Um caso bem diferente dos outros namoros do playbloy com estrelas de Hollywood. Afinal, o affaire com Marilyn Monroe aconteceu quando ela era uma garota de programa desconhecida. Com Rita Hayworth, o romance se deu na fase decadente da atriz. Já com Hedy, a aproximação ocorreu em 1958, com ela no auge.

Jorginho revelou em sua autobiografia detalhes sexuais de algumas ex-namoradas, mas o seu relato sobre Hedy é diferente dos demais, já que ele a considerava muito inteligente. Sem contar que ela entendia profundamente de arte moderna, o que o impressionava. Segundo ele, foi graças ao namoro com Hedy que conheceu o pintor francês Pierre Soulages, os americanos Jackson Pollock e Franz Kline, o alemão Hans Hartung, entre outros artistas.

Jorginho conta ainda que Hedy pensava em casamento. Como se sabe, isso não aconteceu. Aliás, o namoro acabou de forma abrupta. Ela lhe pediu de presente uma obra de arte bem cara do suíço Alberto Giacometti e Jorginho não pôde regalar a amada por causa de uma viagem urgente ao Rio de Janeiro. Quem quiser saber mais detalhes sobre a versão de Hedy sobre o episódio é só ler Os Guinle.

testeAs lições de Não se apega, não e Não se iluda, não

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Isabela Freitas, autora de Não se apega, não e Não se iluda, não, já foi chamada de conselheira do desapego. Após viver uma desilusão amorosa, ela se tornou referência quando o assunto é relacionamento. Em todas as sessões de autógrafos de que participa pelo país, encontra centenas de leitores que compartilham histórias, trocam ideias sobre as desilusões amorosas e, principalmente, mostram que é possível seguir em frente.

Para saber como esses livros mudaram a vida dessas pessoas, resolvemos perguntar aos nossos leitores.

Confira as respostas:

@cabeyocute Aprendi a amar a mim mesma antes de qualquer coisa, a pensar mais em mim, e não tanto nas pessoas ao meu redor.

‏@IzaCamargosR Que você não precisa de outra pessoa pra ser feliz quando aprende a ser feliz sozinha.

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@viiih_rodrigues14 Se você se apega muito ao passado, está destinado a vivê-lo todos os dias….

@gevlp Aprendi que, antes de se envolver em um relacionamento com alguém, nós temos que nos amar acima de tudo, e que não devemos nos prender a um relacionamento que não nos faz bem por medo das mudanças e consequências.

@_vanessamacena A ser menos trouxa! Com o próximo livro eu deixo de ser de vez!

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@garotadosbooks Aprendi que nem tudo que queremos conseguimos. Mas que, se lutarmos com bastante força até o fim, um dia, chegaremos lá! ❤

@louca_dos_livros_A não correr atrás de quem não te quer por perto!

testeSessão de autógrafos de Não se iluda, não em Recife

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Isabela Freitas participou da sessão de autógrafos de  Não se iluda, não na Livraria Cultura do Shopping Riomar, em Recife. Em seu segundo livro, a autora dá sequência às histórias dos personagens de Não se apega, não

testeAmigos

(Fonte: Unsplash)

(Fonte: Unsplash)

Entre os presentes que alguém pode ganhar ao longo da vida, um amigo é certamente um dos mais valiosos. Não digo “um bom amigo” porque soaria como pleonasmo. Amizade, em essência, já é boa. Não tem preço. O amigo abre mão, abre as mãos e os braços, segura as pontas, solta o riso e prende junto a respiração. Amigo não pergunta antes “por quê” nem “onde”. Muito menos “quando”. Pode até fazer essas perguntas depois, mas já será tarde demais e ele estará envolvido até o pescoço. Amigo não tem hora, não tem tempo ruim. E, se o tempo fechar, ele vai oferecer abrigo, café forte, abraço, suor, ombro, punhos, cotovelos e até chutes.

Amigo sugere juntar uma galera para bater no barbeiro que cortou seu cabelo. Não se furta a dizer que o corte ficou péssimo, mesmo que tenha ficado bom. Abre sua geladeira, pega a última cerveja e você nem se abala. Liga de madrugada, bêbado, para contar um sonho sem pé nem cabeça, e você não hesita em mandá-lo dormir. Diz, com a maior naturalidade, que você fez burrada num negócio. Xinga e elogia suas atitudes na mesma frase. E o ama de um jeito que só você sabe, mesmo que jamais vá pronunciar as famosas três palavras.

Não há níveis intermediários de amizade; não existe meio amigo. Ou é, ou não é. Se não for, deve ser rebaixado à categoria de conhecido ou colega. Arrisco-me aqui a cometer uma heresia e sugerir uma fórmula para medi-la: amizade = palavras certas + ações concretas + olhares sinceros + conselhos oportunos + perdão + disponibilidade + confiança – julgamentos. Tudo isso elevado ao quadrado.

Nas palavras de Francis Bacon, “a falta de amigos faz com que o mundo pareça um deserto”. Basta um para que o silêncio do deserto interior e exterior seja quebrado. Nesse caso, sinto-me privilegiado, pois tenho uma quantidade gigantesca de amigos. Dá quase para contar nos dedos das duas mãos!

Surpreendente!, em sua mais pura essência, trata de amizade. Acho que aprendi um bocado durante a escrita. Não só por ter me envolvido com os sentimentos dos quatro personagens e experimentado — através de seus olhos — momentos puros de alegria, mas também por perceber que, ironia do destino, durante a concepção do livro, afastei-me dos amigos. Quando me dei conta, estava colocando os pés naquele deserto quente de Bacon. E esta foi a maior lição aprendida: nada do que você faça, por mais mágico que pareça aos seus olhos ou aos olhos dos outros, justifica deixar de lado seus amigos.

Eles, contudo, são amigos e não se abalaram. Fui xingado um monte, pedi perdão e demos muitas gargalhadas.

Amigo sempre entende.

testeOs personagens de Não se apega, não na TV

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Divulgação/TV Globo

A série inspirada em Não se apega, não, primeiro livro de Isabela Freitas, estreia neste domingo, dia 8, no Fantástico. Com previsão de seis episódios, a atração conta a história de Isabela, uma jovem de 22 anos que namora Gustavo mas está insatisfeita com o relacionamento. Após terminar o namoro, ela precisa resgatar o amor-próprio e a autoconfiança, além de lidar com o assédio de um primo gato, as tentações da balada e uma amiga fura-olho.

A obra chamou a atenção do dramaturgo Manoel Carlos, que entrou em contato com a autora para negociar a adaptação para a telinha.

— Para a minha surpresa, ele não conheceu meu livro pela lista dos mais vendidos ou por indicação. Ele apenas entrou na livraria, se interessou pela capa, leu a contracapa e disse que aquele textinho ali o conquistou. Resultado: comprou meu livro, leu, gostou e queria que fosse mais que um livro — diz Isabela.

Para interpretar os personagens na TV, os atores Laura Neiva, Arthur Aguiar, Rafael Vitti e Rodrigo Simas foram escalados. Conheça o elenco completo e entenda quem é quem na atração:

Lauraneivablog

 

aguiarnamorado

 

rafaelpedro

 

ficantedamanda

 

loretoprimo

 

toledoprincipe

camila

 

amanda

gissonigala

mae

vitordudu

link-externoVeja a primeira imagem divulgada da série 

testeSonhos partidos constroem corações mais fortes

Por Suelen Lopes*

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Existe alguém que nunca teve o coração partido ou um sonho que foi por água abaixo? Acho que a resposta é não. Se por acaso eu estiver enganada e você pertencer ao seleto grupo de pessoas que, até agora, passou impune pela vida, sinto muito, mas isso não é motivo para comemorações. Desejo apenas boa sorte, porque quanto mais tarde essa hora chegar, pior. O sofrimento faz parte da vida. Ainda bem.

As nossas memórias — e o esquecimento — muitas vezes nos protegem do sofrimento. Ninguém quer se lembrar o tempo todo de uma situação ruim. E isso é normal. O importante é nos darmos conta de como nossas lembranças são construídas, pois é comum termos a impressão de que a memória é algo quase documental, como um jornal antigo que fica guardado em uma gaveta que você pode abrir a qualquer momento. Não é bem assim. Talvez não haja nada mais pulverizado e ficcional do que a memória.

sonhospartidosgrandeEm Sonhos Partidos, de M. O. Walsh, o narrador, já adulto, parte de suas lembranças da adolescência para contar como o passado influenciou sua vida. A construção da memória foi importante para que ele se tornasse quem é. Nossas lembranças são subjetivas, não uma simples fixação da realidade; basta pensar que uma mesma situação pode ser irrelevante para uma pessoa e marcar para sempre a vida de outra. Quem nunca ouviu alguém contar uma história que também presenciou e começou a se perguntar se realmente haviam estado no mesmo lugar, na mesma hora?

A narrativa de Walsh se passa em Baton Rouge, capital do estado da Louisiana, nos Estados Unidos. E no verão de 1989, Lindy Simpson, uma das garotas mais bonitas do bairro, é estuprada perto de casa. Os subúrbios bucólicos de Baton Rouge aparentemente também têm um lado obscuro, assim como nossa memória. Guardamos entre nossas lembranças diversos acontecimentos alegres e lúdicos: brincadeiras de infância, saídas com amigos, viagens, amores. No entanto, há também, em um canto sombrio, as recordações obscuras: os entes queridos que se foram, a família destruída, violência, decepções, tristezas, traições, pessoas que te abandonaram — levando uma parte sua junto. É a combinação desses dois lados que constrói nossa personalidade.

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos, Sonhos partidos também arrebatou o coração de pessoas da equipe e de outros departamentos da editora. Apesar da linguagem simples, as reflexões de Walsh estão longe de qualquer simplicidade. Enquanto trabalhava no texto, eu separava diversas frases, porque sabia que era o tipo de obra que não se lê apenas uma vez. O narrador nos transporta para uma vida que não é nossa, mas que qualquer um poderia ter vivido. Crime, sexualidade, culpa, bullying, paixão, medo, descobertas, família, obsessão, amor. É um livro sobre viver.

Tudo que foi vivenciado provavelmente ainda está em você. Cada cena, cada frase, cada pessoa. Nada passa sem nos tocar de alguma forma. Assim, criamos nossas próprias narrativas. E vida e linguagem caminham lado a lado, confluem, para esgotar tabus, dor, e possibilitar as vivências em toda a sua natureza humana. As vulnerabilidades são elementos fundamentais para a nossa força e sensibilidade, e não há nada mais paralisante que o medo de errar. O medo da possibilidade de sofrer. Evitar o sofrimento é evitar a felicidade. A verdade é que a gente nunca sabe o que vai acontecer lá na frente. Ainda bem.

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Leia um trecho do livro

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Leia também: As delicadas formas de pensar | Por Rebeca Bolite 
Não deixe passar o trem que pode mudar a sua vida | Por Suelen Lopes
Amber Appleton e o poder da música | Por Rachel Rimas

*Suelen Lopes é editora assistente no setor de ficção estrangeira da Intrínseca. Gosta de chá, golden retriever e francês, e acredita que dar voz à vulnerabilidade humana ainda vai mudar o mundo.