testeA garota do tanque de areia

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Tarde dessas fui olhar a vista de uma varanda nova. Um prédio não tão alto quanto o que moro hoje, praticamente nas nuvens. Ele é daqueles que dá de cara para mais prédios, pois está cercado por edifícios e acompanhado de arranha-céus. Meu caminho até a tal varanda foi a pé, o que dá uma dimensão completamente diferente da cidade. Quem anda a pé descobre casas, lojas, pessoas e lugares invisíveis aos carros, mesmo que, dirigindo, se passe por ali todos os dias. Minha sensação ao andar a pé pelo Recife é a de conhecer outra cidade, meio macromicroscópica.

Lá fui eu. Concreto, semáforos, buzinas, gritos, lojas, galetos; portaria, elevador, concreto, porta, varanda. E voltamos ao ponto inicial da minha história: a vista.

Olhando ao redor, espremido entre três prédios, estava um tanque de areia, na “área de lazer”. Visto de cima, da tal varanda, o tanque de areia para crianças mais parecia uma caixinha para gatos colocada no cantinho da área de serviço.

Dentro dela, sentada e só com — provavelmente — um balde, estava uma garotinha. Ao seu lado, uma bola cor-de-rosa esquecida e parada. Entre tanto concreto branco e cinza, a cor da bola gritava aos olhos. Eu me estiquei para procurar os amigos da menina, a mãe, alguém.

Ninguém.

Eram apenas a bola, ela e seu balde. Mesmo ali de longe eu podia ouvir o silêncio. Fiquei meio hipnotizada por aquela menina. Acho que, de certa forma, vi a mim mesma, com algumas diferenças.

Sempre fui uma garotinha introspectiva, quando pequena. Confesso que tive meus avanços na timidez. Apesar de a constituição contemplativa estar na base dos meus dias, gosto de falar. Amigos dirão que bastante. Mas o silêncio é meio de sobrevivência, uma necessidade, que talvez tenha começado em mim na idade da menina. Até os oito anos, eu era filha única e adorava brincar na areia, como a garota que olhava de longe. Construía meus reinos e castelos, planejava fugas e, quando cansada, destruía tudo com um tapa. Alto poder.

A imagem da menina do tanque de areia, porém, me sufocou, deu uma sensação de solidão triste, bem diferente daquela minha de ontem e hoje. Observando-a, senti pena, certa comoção, uma vontade de descer e colocá-la para ver o mundo. Imaginei-a correndo num parque verde, florido, em liberdade. Não ali. A bola parada pedia um campo verde, ora.

— Que bobagem, sua louca! Essa menina, muito provavelmente, viu mais do mundo que você. Pode ter viajado por milhares de países e já estar cansada de parques verdes da Europa e da Disney. Talvez esteja aliviada por estar dez minutinhos só na areia. Em casa, existe agora uma multidão de irmãos fazendo barulho — disse minha razão, que também é imaginativa.

— Verdade — respondi a ela.

Minha compaixão pela garota do tanque de areia, no entanto, não se foi. Voltei para minha infância. Não posso negar que também fui uma “menina de prédio”, mas tive a sorte de ter avós no interior, o que dividia bem as realidades entre concreto e mato. Ainda subi em muitas árvores, colhi fruta do pé, fui para o meio da feira, andei de bicicleta pela cidade — especialmente ladeira abaixo —, andei descalça, colecionei cascas abandonadas por cigarras nas árvores, sujei-me de lama ou rolei por tapetes molhados em dias de faxina, fui ver o circo, senti o cheirinho do bolo saindo do forno, almocei no sofá assistindo a Chaves, brinquei de cabra-cega na fazenda, assei milho na fogueira. E, no meio de tudo isso, quando voltava para a cidade, andava de patins, dava tempo para a minha amada solidão entre meus papéis e lápis de cor. A cidade era um “também”, e não “só o que se tem”.

Acho que isso me fez bem.

Não conheço a garota do tanque de areia. Talvez ela tenha, como imaginei antes, mais de tudo isso do que eu. Talvez. Mas aquela claustrofobia solitária daquela cena me fez pensar nas infâncias encaixotadas, de ar-condicionado, shopping e só. Fiquei pensando se aquela areia não seria artificial e lembrei quanto é bom colocar o pé no chão. Pode ser que a areia não seja artificial, mas naquele contexto, para mim, ela se torna sintética. Minha infância não é superior à de ninguém; longe de mim pensar assim. Contudo, olhando ao redor e vendo as ruas com tudo, a garota do tanque de areia não parecia ter tanto assim.

As aparências sempre enganam, eu sei. Talvez outros muitos tenham me olhado sozinha pelos cantos quando eu era menina e sentiram compaixão, quando na verdade eu estava satisfeitíssima. Todo o Universo cabia dentro dos meus olhos e só eu enxergava; amava saborear aquela privacidade dos meus sonhos e de minhas fantasias fantásticas. O mundo que não se toca é maravilhoso, mas o tangível também pede tato, sujeira, oxigênio, espaço e os pés, de vez em quando, dançando podres de lama. E um mundo alimenta o outro.

 

O universo é enorme, tão vasto.

De tão belos escuros,

onde a Lua clareia.

De tão lindas manhãs,

quando o Sol incendeia.

O mundo é tão grande,

tem tanto céu.

Pra que gaiola, pra que cadeia?

O mundo tem tanto chão

pra pisar no seguro

de um tanque de areia.

testeÁlbuns antigos, a mala do tempo e uma escadaria

Coluna Clarice

Estava, por esses dias, olhando fotos antigas. Sempre desejei uma máquina do tempo para reviver alguns momentos do passado ou visitar outros que nunca vivi. Dar uma volta pelo Recife Antigo com Clarice Lispector, tomar um café com John Lennon, rodar pelas ruas ouvindo Jesus falar.

Infelizmente, o mais próximo que consegui chegar de tal desejo foi vendo álbuns antigos. Ah, que costume bonito que perdemos: revelar fotos, montar álbuns, escrever legendas à mão! Ao menos meus pais tinham esse costume. Li, inclusive, vários detalhes sórdidos e estranhamente proféticos sobre meu presente recém-nascido com dicas sobre o futuro.

Não que isso me encha de real admiração. Toda mãe é profeta, adivinha, cigana e fada. Elas falam e acontece.

Passando as páginas dos álbuns, uma foto me chama especialmente a atenção. Olhando assim não teria nada demais. Nela, uma-minha-mãe-mais-jovem-que-eu estava sentada em uma escadaria antiga, com ar colonial.

“Que escadaria bonita”, penso.

Uma lembrança vem visitar meus pensamentos naquele exato instante. Eu e mais dois amigos andando pelas ladeiras de Ouro Preto, a cidade mágica de Minhas Gerais. Eu estava participando do Fórum das Letras, evento literário local. Aquelas ladeiras nos levam a infinitos lugares históricos, significativos, e uma ruazinha bastante discreta estava no meio delas, apenas uma viela, nada demais, como as coisas que costumam me chamar a atenção.

“Que escadaria bonita”, pensei.

Obviamente estávamos cansados (eu mais do que todos, pois não tenho o melhor preparo físico), e nessas horas caminhamos focados; ficar parando não faz parte da dinâmica. Mas ali estava aquela escadaria enorme, antiga, cercada por duas paredes com ar medieval. Me lembrou a Itálica. Então eu chamo o amigo: “Ei, Pedro, peraí.”

Lá vem Pedro Gabriel, aquele que também se chama Antônio. O coitado volta seus passos já conquistados à minha frente.

“Pedro, tira uma foto minha sentada aqui?”
“Aí? Tá bom. Vai lá. Quer que apareça a escada toda?”
“Sim! Pega a escada.”

Sento, tiramos a foto, eu saio satisfeita.

Volto para a foto da minha mãe e procuro a minha para comparar. Não seria possível. Os degraus, a janela ao fundo, a parede com a mesma linha cortando-a ao meio. Era a mesma escadaria, com detalhes transformados pelo tempo, assim como as modelos sentadas em seus degraus. Mas era uma viela tão insignificante… Tanto eu quanto a minha mãe só fomos uma vez a Ouro Preto, uma cidade com tantos lugares para fotografar… Aquele lugar encantado tem beleza a cada ladrilho. E lá estão as fotos, nós duas quase com a mesma idade e sentadas do mesmo jeito. Fizemos os cálculos: entre a minha foto e a dela são mais de 30 anos.

Que mistério é a vida! Sempre fui fascinada pelas estrelas e pela imensidão do universo, das galáxias desconhecidas, do incompreensível que nos rodeia. Neste exato momento, estamos flutuando no espaço e sendo sugados por uma força gravitacional que nos puxa irresistivelmente para o centro ardente em chamas do nosso planeta — imenso para mim, insignificante para o infinito universal. Que desproporção! Sou insignificante e tenho tamanho significado em microespaços por onde respiro e respirei.

Quantos mistérios existem entre o céu e a Terra? Shakespeare se perguntava há tantos anos e nunca se respondeu. Somos dois. Mas eles — os mistérios — também são infinitos. Que fazer?

O que é o tempo?
“Tudo passa com o tempo”, aprendi.

Hoje me pergunto se tudo passa ou se algumas singelezas não ficam dentro de uma mala temporal, feita de baladas invisíveis emitidas por sinos ao longo dos séculos, por exemplo. Dentro dela deve haver de tudo: uns passos dados, uns caminhos traçados, uma memória que nunca foi minha, mas estava, quem sabe, circulando pelo meu sangue? O tempo depositou lembranças em meus glóbulos vermelhos, ou quem sabe na retina. Porque meus olhos amaram os mesmos degraus que a minha mãe 30 anos antes de mim, a mesma sina.

E meu desejo foi repetir, neles, o mesmo gesto. Vai entender. Foi instinto? O que sinto? Falo o verdadeiro ou minto?

Será que o tempo passou ali e guardou nas paredes segundos, minutos, décadas, miragens? E eu apenas, inocente, os peguei para mim

em mais uma das minhas passagens.

Álbuns antigos congelam o tempo. Fotografias eternizam olhares e lugares. Ventos e ares. Palmas e palmares. O que sonhas e o que, por ventura ou aventura, sonhares.

Repeti os passos da minha mãe sem um motivo.
Ele é mistério. Para vivê-lo,
é só estar vivo.

Agradeço ao enigma que é a vida.

“Decifra-me ou te devoro”, ameaça a esfinge. Devora coisa nenhuma. O tempo é mais poderoso que você, querida. Ele se deixa decifrar, se quiser.

Ele e suas artimanhas soltas (ou presas?)
pelo ar.
O delicioso de vi-ver é abrir as retinas para,
diaria-mente,
desvendar.

testeSessão de autógrafos de Não se iluda, não em Recife

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Isabela Freitas participou da sessão de autógrafos de  Não se iluda, não na Livraria Cultura do Shopping Riomar, em Recife. Em seu segundo livro, a autora dá sequência às histórias dos personagens de Não se apega, não

teste4ª Turnê Intrínseca – FAQ

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A quarta edição da Turnê Intrínseca está chegando ao fim. Depois de passar por 19 cidades e encontrar mais de seis mil leitores, chegou a hora de combinarmos as regras para o evento no Rio de Janeiro.

 Confira abaixo as respostas às dúvidas mais frequentes:

 1 – Distribuição de senhas:

Para participar da Turnê, você precisará de uma senha. As senhas são pulseiras numeradas que serão colocadas no braço de cada leitor conforme a ordem de chegada. São pessoais e intransferíveis.  Ou seja, infelizmente, cada leitor só poderá receber uma única pulseira e não poderá retirar senhas para outras pessoas.

 As senhas serão distribuídas no dia de cada evento, na mesma loja em que ele acontecerá. Não haverá distribuição de senhas em nenhum outro ponto da cidade e nem on-line. Confira abaixo a quantidade de senhas e a hora exata da distribuição em cada cidade.

 2 – Credenciais para imprensa e blogueiros:

Não teremos credenciais especiais para imprensa e blogueiros. Todos precisarão de senhas para participar da Turnê.

3 – Duração:

 Cada sessão tem duração prevista de duas horas.

4 – Autorização para fotos e filmagem:

Fotografem à vontade! Para os que preferem registar em vídeo, pedimos que filmem apenas pequenos trechos, para não estragar a surpresa para os leitores das outras cidades. 🙂

No site da Turnê, haverá um mural colaborativo. Participe! Publique uma frase ou uma foto com a hashtag #turneintrinseca no Twitter ou no Instagram e sua publicação irá diretamente para o nosso mural.

5 – Autores:

A Turnê será apresentada pela equipe de Marketing da editora. Não teremos presença de autores.

6 – O que rola na Turnê?

Apresentação dos nossos livros e de conteúdo inédito, como capas, vídeos, curiosidades, bastidores e notícias.

 7 – O que levar?

Água, lanches, sapatos confortáveis, câmeras, celular, paciência e disposição para conversar sobre literatura e para fazer novos amigos!

Próximo evento da Turnê Intrínseca:

Confiram abaixo as informações detalhadas.

Rio de Janeiro:

Data: 13/04/2015
Horário: 15h/17h/19h
Local: Livraria Cultura – Cine Vitória
Rua Senador Dantas, 45 – Centro
Haverá distribuição de 510 senhas na Livraria Cultura nos horários:
14h às 14h50: primeira sessão que acontecerá às 15h.
16h às 16h50: segunda sessão que acontecerá às 17h.
18h às 18h50: terceira sessão que acontecerá às 19h.
Capacidade de cada sessão: 170 pessoas
A senha é pessoal e intransferível e só será permitido pegar uma senha por pessoa. As senhas serão delimitadas por horário.
O evento é gratuito e restrito a capacidade de cada local.

Ansiosos? Não vemos a hora de encontrar vocês!

Veja o que rolou na 3ª Turnê em 2014

teste“Segundo – Eu me chamo Antônio” no Recife

Segundo - Eu Me Chamo Antônio - Recife - 04-02-15 - Foto Américo Nunes-0024

Cerca de 400 leitores participaram do lançamento de Segundo – Eu me chamo Antônio ontem, dia 04, no Recife. O autor Pedro Gabriel autografou os livros, conversou e tirou fotos com os fãs que estiveram no local.

A turnê passará ainda por Fortaleza, Belém, Manaus, Curitiba e Porto Alegre. Confira a agenda completa.

Veja a  galeria de imagens do evento:

Crédito: Américo Nunes