testeNimona, uma vilã que me ajudou a ser mais feliz

Por Rayssa Galvão*

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Quando eu era mais nova e a internet não era tão comum, sempre matava aula para ir à livraria atrás de tudo o que eu pudesse encontrar em matéria de quadrinhos. Eu amava aquelas edições de HQs mais literárias, com ilustrações tão lindas que dava dor no coração de virar as páginas. Edições tão difíceis de encontrar (e caras) e tão lindas que ficavam junto com os livros de artes.

A escola acabou, mas o amor pelas histórias em quadrinhos, não. Hoje em dia eu procrastino o trabalho, em vez de matar aula (que o pessoal da Intrínseca não leia isso). E, poxa, tem muita coisa boa de todas as nacionalidades e de todos os gêneros literários.

Quando a gente fala em história em quadrinho, pensa logo em super-herói. E, realmente, hoje em dia não tem nada mais evidente na nossa mídia pop do que a velha guerra Marvel versus DC. E, mesmo que essas histórias existam há bastante tempo e tenham um público fiel (quem me emprestou o primeiro volume de Elektra foi o meu pai!), aqui no Brasil o que fazia mais sucesso eram as tirinhas de jornal, que foram evoluindo para periódicos — e assim nasceu a maravilhosa Turma da Mônica, que não demorou a virar revista e fazer o maior sucesso. Com a internet, esse formato das tirinhas e charges no jornal foi ganhando uma cara nova, e hoje em dia é o que mais faz sucesso aqui no Brasil, em termos de HQ. Sua timeline (se você for uma pessoa feliz) deve estar cheia deles!

Turma da Inbonha

Meu amor por quadrinhos começou trocando revistinhas da Mônica no sebo. 2 por 1. (Fonte)

Foi revirando a internet atrás de coisa boa para ler enquanto procrastinava algum trabalho que eu descobri a Noelle Stevenson.

Quando li Nimona pela primeira vez, acho que por volta de 2012, a série ainda não estava completa (mas já tinha um pedação). A Noelle publicava uma página por semana no Tumblr, e eu ficava para morrer esperando a continuação. E o legal de ler Nimona é que era uma coisa totalmente diferente dos quadrinhos a que eu estava acostumada.

Veja bem, o legal das HQs é que elas não precisam se restringir a um gênero. Tem coisa de tudo que é tipo: pequenas tiradas e críticas políticas, crônicas da vida cotidiana, sagas de heróis com superpoderes (valeu, Batman, te amo para sempre), histórias de fantasia. Tem uma vertente das histórias em quadrinhos que é mais literária — é como um livro desses de fantasia do nosso top 10 de todos os tempos, só que já pensado no formato dos quadrinhos. A mais famosa é a série Sandman, do Neil Gaiman, mas tem títulos fenomenais que viraram filmes lindíssimos, como 300, Persépolis e Sin City — além de livros fenomenais que viraram HQ, como a maravilhosa série A Roda do Tempo! Só que, mesmo com toda essa variedade, eu nunca tinha encontrado uma HQ com uma personagem principal feminina como a Nimona.

O mundo anda meio carente de modelos femininos no poder, né? É verdade que a gente tem histórias com super-heroínas, mas essas revistas mais comerciais, apesar de maravilhosas, têm uma necessidade de agradar o público masculino (como se o público masculino só fosse ficar feliz com uma mulher de corpo magnífico, poucas “frescuras” e dependência crônica de homens).

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Elektra mostrando a que veio (e que também precisa agradar o público masculino) na capa da edição número 1, uma das revistas mais maravilhosas que eu já li.

Além disso, o mundo dos autores de histórias em quadrinhos é muito masculino. Parando para pensar, a maioria dos autores que me vêm à cabeça são homens: Neil Gaiman, Stan Lee, André Dahmer… O mesmo acontece com nomes de protagonistas, tanto nas revistinhas de heróis quanto nas mais ~obscuras~: Sandman, Homem-Aranha, Constantine. Os poucos personagens femininos mais fáceis de lembrar ou são parte de um grupo (como a Tempestade, de X-Men), ou são coadjuvantes (como a Morte, de Sandman), ou são protagonistas mais “delicadas”, como em Persépolis.

Foi aí que a Noelle Stevenson inovou, criando a Nimona, e foi com isso que eu me encantei, tantos anos atrás. A Nimona é uma protagonista feminina que, além de não seguir os padrões de beleza típicos das protagonistas dos quadrinhos (mesmo as vilãs), não precisa de uma justificativa para ser má. Ela não precisa ser louca, não precisa viver um relacionamento abusivo, não precisa querer vingança. Uma protagonista que pode ser o que ela quiser (tanto porque é metamorfa, quanto porque é dona de si). Uma protagonista multifacetada, que não precisa de justificativas para suas ações ruins, mas que também pode ser boa sem a necessidade de um longo flashback explicativo (porque não é uma ação que vai contra a “construção do personagem”). E uma mulher que não deixa de ser amada e querida por ser quem é — pelo contrário, a gente acaba a história querendo mais Nimona na nossa vida!

Quando conheci essa personagem que pode ser o que quiser, eu meio que me senti autorizada a ser assim também. Não preciso explicar todo o meu passado para justificar alguma ação contrária à norma ou ao que as pessoas esperam de mim. E ninguém vai deixar de me amar se eu for imperfeita.

Amei ler Nimona e amei trabalhar em cada pedacinho desse livro — inclusive voltando no tempo, até minha infância de leitora da Mônica, para improvisar onomatopeias. E acho que você vai amar também, porque é sempre muito bom encontrar um livro que quebra padrões e vai além do que a gente esperava. Uma dessas histórias que fazem a gente se sentir compreendida.  Porque, às vezes, a gente só quer tocar o terror e matar inocentes, sem precisar de justificativa.

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Agora é que a Intrínseca para de me mandar trabalho!

 

* Rayssa Galvão já nasceu meio nerd. Hoje em dia procrastina o trabalho – de revisar livros de fantasia e quadrinhos – lendo outros livros de fantasia e quadrinhos.

teste14 coisas que você precisa saber antes de começar a ler A Roda do Tempo

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

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Os livros de Robert Jordan compõem uma das maiores séries de fantasia de todos os tempos, literalmente: são 14 volumes que narram uma jornada cheia de reviravoltas, em que heróis e anti-heróis enfrentam um grande desafio — parar de brigar entre si e se unir para salvar o mundo. Aqui estão 14 coisas que você precisa saber antes de começar a leitura:

 

1) George Martin é fã

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Martin fez várias homenagens a Jordan em seus livros. A mais conhecida é a Casa Jordayne, cujo brasão é uma pena de escrever em um fundo verde. O nome de seu lorde é Trebor, ou seja, “Robert” ao contrário.

 

2) Está entre as dez séries de fantasia mais populares de todos os tempos

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A Roda do Tempo vendeu mais de 80 milhões de exemplares ao redor do mundo. Apesar de ser considerado “o Tolkien americano”, Jordan criou seu próprio universo, sem reaproveitar elfos, anões e dragões, além de não se limitar a influências da mitologia europeia. Se tiver receio de encarar uma série tão longa, lembre-se: não é à toa que Jordan é referência em literatura fantástica.

 

3) Foge do eurocentrismo

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É verdade que a série tem muitos elementos que lembram a Idade Média europeia, inclusive cavaleiros, inquisição religiosa e outras analogias, mas dá para notar a influência de muitas outras culturas e religiões. Diversas palavras e nomes foram tirados da cultura árabe e da religião hebraica — como um dos nomes do vilão principal, Shai’tan —, e o próprio conceito de tempo cíclico, a tal roda do tempo, vem do hinduísmo.

4) Não é só descrição de paisagem

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Nós amamos fantasia, mas quem nunca suspirou de exaustão diante de um longo parágrafo descrevendo toda a flora de um continente imaginário que atire a primeira pedra. Para nossa sorte, Jordan traz personagens interessantes que quebram a monotonia das descrições. Um queridinho dos fãs é Mat, que prefere se manter longe dos conflitos. Durante um discurso dramático, com um de seus amigos tentando mergulhar de cabeça em uma situação perigosa, Mat aparece ao fundo com dois cavalos, gesticulando, desesperado, para que o amigo monte no animal e fuja com ele.

 

5) Lugar de mulher é… no livro de fantasia

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Jordan não limita as personagens femininas a papéis secundários e donzelas indefesas. Apesar de o primeiro livro ter sido lançado há 26 anos, não faltam mulheres fortes. Um dos reinos, por exemplo, é governado exclusivamente por rainhas, e há também uma sociedade de mulheres guerreiras.

 

6) Não é só mais uma fantasia medieval

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Sim, A Roda do Tempo tem aspectos parecidos com a série de TV Game of Thrones e a trilogia O Senhor dos Anéis. Mas também possui inúmeras diferenças marcantes. Uma delas é que o universo não corresponde à Idade Média. Segundo Jordan, é como se a história se passasse no fim do século XVII, mas a pólvora jamais tivesse sido inventada.

 

7) É uma distopia

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Como a história se passa num mundo aparentemente medieval, é fácil pensar que se refere ao passado, mas os acontecimentos de A Roda do Tempo na verdade se passam no futuro! O tempo da roda se divide em 7 Eras, que passam em ciclos. Nossa Era já passou, e tudo o que resta dela são resquícios e ruínas. Ao longo dos livros, é possível encontrar várias dicas de “objetos mitológicos”, de lâmpadas a usinas nucleares. Dá até para brincar de caçar referências!

 

8) É muito mais que uma história

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Como todo bom gênio da fantasia, Jordan criou mais do que uma história: ele construiu um mundo. As complexidades são tantas e seu universo é tão bem-feito que existe até um sistema de RPG baseado na série. Os povos são muito diversos, e você vai se divertir aprendendo as particularidades de cada um ao longo dos livros.

 

9) Apesar da fantasia, nem tudo tem solução mágica

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Jordan não quis criar saídas fáceis, e representou muito bem temas realistas e polêmicos, como a loucura, a escravidão e o preconceito. A falta de comunicação e a demora em enviar mensagens nesse mundo praticamente medieval afetam a política, as guerras e o humor das pessoas ao redor.

 

10) A magia não funciona da forma que estamos acostumados

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Uma das coisas mais legais da série é o uso do Poder Único: a força que alimenta a magia nos livros. Existem diferenças no uso para homens e mulheres (e o uso por homens é considerado tabu). Além disso, o mecanismo é mais complexo que simplesmente decorar feitiços: as Aes Sedai aprendem a “tecer” fios de elementos do Poder Único de forma a criar uma trama que traga os resultados desejados.

 

11) As intrigas políticas vão ganhando destaque

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Com o passar dos livros, o universo da obra se amplia e as maquinações aumentam. O Jogo das Casas, porém, nem sempre tem um final sangrento. Enquanto a política do mundo real nos faz chorar, a do universo de Jordan muitas vezes é motivo de riso, com críticas veladas muito bem-humoradas.

 

12) Você vai passar a entender um monte de referências espalhadas por aí

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A série é tão querida pelos amantes de fantasia que George Martin não é o único a incluir referências em sua obra. Isso acontece em vários jogos, como o primeiro da série Dragon Ages, e a Blizzard já incluiu referências em World of Warcraft e Diablo. Além disso, algumas bandas já fizeram músicas em homenagem à série. A mais famosa é do Blind Guardian:

13) Nem todos os livros foram escritos por Robert Jordan

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Após a morte de Jordan, Brandon Sanderson assumiu a série. Com a ajuda da viúva de Jordan, Harriet Ridgney, que trabalhava como editora do marido, Sanderson escreveu três livros a partir das anotações do autor. Sanderson já era fã convicto da série e afirma que cresceu lendo e relendo os livros lançados até então. Ele é mais conhecido pela série Mistborn, mas não decepcionou os fãs de A Roda do Tempo.

 

14) Vai ter série!

Harriet Ridgney, viúva de Jordan, anunciou este ano que os direitos de adaptação de A Roda do Tempo foram vendidos e a obra será transformada em uma série de TV. Para quem acha que “o livro é melhor porque tem mais detalhes”, a hora de começar a ler é agora. Afinal, A Roda do Tempo gira, e as Eras vêm e vão, mas a internet continua cheia de spoilers.

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Flora e Rayssa se conheceram através do amor mútuo por livros de fantasia. Para editar a série A Roda do Tempo, as duas abriram mão do contato com amigos e família. Elas trocam GIFs quando sentem falta de conviver em sociedade.