testeTop 10 de Pedro Gabriel

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Procurando por uma nova leitura? Confira as dez indicações de Pedro Gabriel, autor de Eu me chamo Antônio e Segundo: Eu me chamo Antônio. Os e-books de alguns títulos dessa seleção estão com preços promocionais na Google Play até a próxima quinta-feira, dia 3 de março. Confira aqui.

 

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Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr — Nesse romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2015, você vai conhecer Marie-Laure, uma garota que ficou cega aos seis anos e que vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural, e Werner, um menino alemão, órfão, que se encanta por um rádio encontrado em uma pilha de lixo e cuja trajetória o leva a uma escola nazista.

Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Toda luz que não podemos ver é um tocante romance sobre o que há além do mundo visível. [+]

O árabe do futuro: uma juventude no Oriente Médio (1978 – 1984), de Riad Sattouf — Filho de mãe francesa e de pai sírio, o quadrinista Riad Sattouf conta o choque cultural que viveu quando foi, ainda bem criança, para a Síria e a Líbia, e fala também do retorno da família à França. Depois de viver em lugares tão diferentes, Riad se tornou um completo estrangeiro, com uma visão crítica, afiada e muito bem-humorada sobre o mundo.

Um relato literário pleno em forma de graphic novel, com traço simples e narrativa fluida e descontraída. Riad fornece ao mesmo tempo uma análise antropológica do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de sua própria infância plural. [+]

A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joël Dicker — Em 1975, na pequena cidade de Aurora, em New Hampshire, Nola Kellergan, de quinze anos, é vista pela última vez sendo perseguida na floresta e nunca mais é encontrada. Trinta e três anos depois, Marcus Goldman, jovem escritor de sucesso, vai a Aurora encontrar seu amigo e professor, o respeitado romancista Harry Quebert, na esperança de conseguir superar um bloqueio criativo. Durante esse tempo, ele descobre que seu mentor teve um caso com a adolescente.

Depois de encontrarem o cadáver da garota em seu jardim, Harry é preso, acusado de ter cometido assassinato. Marcus precisa correr contra o tempo para inocentar o amigo, descobrir quem matou Nola Kellergan e escrever um romance bem-sucedido. [+]

 

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Queria ver você feliz, de Adriana Falcão — O Amor, essa entidade mítica, obstinada e perfeccionista, desempenha o papel de narrador na história real do casal Caio e Maria Augusta, pais da autora Adriana Falcão. Com linguagem poética e ao mesmo tempo bem-humorada, Adriana revela para seus leitores aquilo que poderia ser descrito como uma história trágica protagonizada por dois personagens atormentados por seus demônios.

Apaixonados, Caio e Maria Augusta se casam no Rio de Janeiro da década de 1950 e têm três filhas. Todo o sentimento que eles compartilham não impede que a personalidade exuberante de Maria Augusta se torne mais obsessiva e asfixiante com o passar do tempo, apesar dos medicamentos e dos tratamentos psiquiátricos a que é submetida. Caio, por sua vez, aprofunda uma melancolia que existia nele desde a adolescência, e que culmina nos anos 1970 em tentativas de suicídio. Mais do que uma história com final dramático, trata-se de memórias afetivas que alternam momentos de intensa felicidade e outros tantos de dor. [+]

Pó de lua, de Clarice Freire — Filha de Wilson Freire, parceiro do compositor Antônio Nóbrega, Clarice cresceu rodeada por artistas. Ela própria compõem letras de músicas e toca violão. Não é à toa que conseguiu encantar o público com a delicadeza de seus pensamentos, seu humor sutil e o traço despretensioso, que combina desenhos e fragmentos de palavras.

A obra segue o formato dos cadernos moleskine em que Clarice acostumou-se a exercitar sua criatividade. Inspirada pelas quatro fases da lua — minguante, nova, crescente e cheia —, ela trata em frases concisas e certeiras de sentimentos como a saudade, o medo, a paixão e a alegria, sempre em sua caligrafia característica, enfeitada com ilustrações singelas. [+]

O livro sem figuras, de B. J. Novak — Um livro sem figuras? O que tem de divertido nisso? Combinando simplicidade e criatividade de uma forma surpreendentemente engenhosa, O livro sem figuras inspira risadas toda vez que é aberto, criando uma experiência de diversão e interação entre adultos e crianças e apresentando aos pequenos leitores a poderosa ideia de que a palavra escrita pode ser uma fonte infinita de alegria e travessuras.

Um livro original e divertido capaz de transformar qualquer leitor em um verdadeiro comediante, que vai fazer as crianças implorarem para ouvir a história repetidas vezes. [+]

 

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Paris versus New York, de Vahram Muratyan — Vahram Muratyan é um jovem artista gráfico de origem armênia criado em Paris. Em 2010, depois de uma longa temporada em Nova York, ele criou o blog Paris versus New York como uma espécie de registro visual de suas experiências, um bem-humorado confronto entre duas das mais míticas cidades do mundo. O sucesso foi surpreendente e o blog teve mais de cinco milhões de visitas em um ano. A sofisticada batalha visual, travada por um amante de Paris vagando por Nova York, se transformou em livro e firmou o artista como um designer renomado, com uma carteira de clientes que inclui grandes nomes da moda, entre eles Prada e Chanel.

Este amistoso confronto artístico é dedicado aos amantes de Paris, de Nova York e àqueles que estão divididos entre as duas cidades. [+]

A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal — Um dos mais importantes ceramistas da atualidade, Edmund de Waal era fascinado pela coleção de 264 miniaturas japonesas entalhadas em madeira e marfim guardadas no apartamento do tio-avô, que vivia em Tóquio. Nenhuma daquelas peças era maior do que uma caixa de fósforos e, no entanto, seu valor revelou-se grandioso.

Mais tarde, quando herdou estes netsuquês, Edmund descobriu que, além da riqueza artística, eles carregavam uma história muito maior: revelavam o passado de sua família e eventos cruciais do século XX. A partir dessa delicada coleção, A lebre com olhos de âmbar, obra vencedora do Costa Book Award na categoria Biografia e finalista do South Bank Sky Arts Award na categoria Literatura, transporta o leitor desde um império em Odessa — passando pela Paris do fin-de-siècle e pela Viena ocupada pelos nazistas — até o Japão e a Inglaterra contemporâneos. [+]

Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver — Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassínio ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive.

Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável. [+]

Eu me chamo Antônio, de Pedro Gabriel — Em seu primeiro livro, Pedro Gabriel apresenta uma narrativa que transita por todas as fases de um relacionamento amoroso: com um estilo simples e acessível, mas nem sempre óbvio, o leitor acompanha os encontros e desencontros de Antônio. Percebe-se uma irreverência no tom de versos e trocadilhos como: “Invista nos amores à primeira vista”. Outras emoções são apresentadas de forma singela, quando há uma separação, por exemplo: “Você, distante, diz tanto sobre mim”. Enquanto a angústia, sentimento que faz parte da instabilidade de qualquer casal, também é citada no livro: “Na dança do amor: dor pra cá, dor pra lá”.

Antônio é um personagem sensível e verossímil, talvez seja por isso que os leitores cultivem a dúvida sobre até onde vai a linha tênue que separa a realidade da ficção. [+]

testeDa dificuldade de se amar nas cidades grandes nos dias de hoje

 

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Mark Weber

Enquanto nos enlaçávamos na noite, misturando nossas pessoas, eu não pensava em mais nada, a gente se amava, e era sábado. De manhã, na cachoeira. Você em você dentro d’água. Eu te querendo de fora. Daqui a pouco eu já não saberia quem éramos, pois como disse Heráclito: um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, porque mudam as águas e muda o homem, que homem?, qual deles?, você?, você quem?, e a gente se amava.

Na segunda-feira de tarde, de repente, fiquei séria. Trabalho. Contrato. Compromisso. Imposto. Problema. Família. Mas que confusão era essa, qual era a “eu” que eu preferia? A romântica? A competente? A desiludida? Mas que bobagem. Já passou a moda ser a confusa louca de filme francês louco e confuso. E a gente se amava.

Terça-feira. Bethania cantava “eu que não sei nada do mar, descobri que não sei nada de mim”, mas como conflito existencial saiu de moda, mudei de música na hora. Strangers in the night. Esquentou. E a gente se amava.

Quarta. Clube da esquina. “Se um dia você for embora, vá lentamente como a noite que amanhece sem que a gente saiba exatamente como aconteceu.”

Quinta. Tudo confuso. Alguém tem o direito de se entregar pra alguém, mesmo sabendo que o tempo passa e as coisas mudam, e o homem, e o rio, e os dias, sentimentos, quem pode me garantir que estaremos livres de sofrer desenganos?, só se for um mentiroso, desenganos fazem parte da vida, mas como são amargos, quanta tristeza, a pessoa toda achando que é feliz, e, pá, desengano — eu tenho medo. Não posso. Não devo. Não mesmo.

Mas chegou a sexta. E a questão filosófica “é possível amar e apostar em ser feliz ou é melhor nem começar pra não quebrar a cara depois?” virou apenas saudade de você.

E a gente se amava?

 

testeO país das dúvidas

Lavanda

“Lavender/Flower Infusion”, Jan Lamr (2014)

No cemitério das minhas certezas, jaz o Coelho da Páscoa.

Talvez ele tenha sido o primeiro defunto que sepultei, naquele longínquo jardim vazio da imaginação dos meus seis anos.

Não lembro direito. Mas não esqueço do cheiro de decepção, chocolate e coroa de flores, por sinal, enjoativo.

Hoje, o cemitério das minhas certezas está superpovoado. Impossível decorar a data de cada epitáfio. Nem os motivos das mortes.

Passeio por lá de vez em quando, levo rosas vermelhas, choro um pouquinho, acendo velas aos montes, e às vezes até acho graça.

Quase sempre esbarro em lápides estranhas: um sonho perdido, um partido político, um rapaz louro, uma noite no Baixo Leblon, uma palavra dita no ouvido.

Outro dia esbarrei numa lápide nova: “grandes amores”. Estranhei muitíssimo. Acreditei em grandes amores a vida inteira. Briguei por eles. Varei noites. Sofri e morri de prazer vez por outra. Vi acontecer com alguém, presenciei, tenho provas.

Finalmente entendi que a certeza que se foi só diz respeito às duas palavras juntas. Tenho certeza que existem grandes. Tenho certeza que existem amores. E até ainda desconfio que grandes amores existam. E, enquanto continuar desconfiando, beberei vodka, ouvirei blues, usarei lavanda, escreverei coisas diversas, acreditarei na humanidade, fecharei os olhos quando beijo, e outras coisas assim, meio bobas.

 

testeBodas de ar

Di Cavalcanti, “Baile Popular” (1972)

Di Cavalcanti, “Baile Popular” (1972)

Passam rapazes, passam moças, passam pernas, desejos, risos, passam amores.
O verão tem essa mania de lembrar a gente de que é passageiro.
Primeiro vagão da maria-fumaça do ano, ele invade janeiro e fevereiro nos alertando: “aproveite, a vida passa”.
Depois do Carnaval, a história é outra.
Até então, torna-se obrigatório se divertir, bailar, beijar, namorar. Os amores de verão são assim, solares, aluados, leves, despretensiosos.
Por essa época, os casais mais antigos podem sofrer tempestades. Vai que um dos dois se sente atraído pelo clima, e tem necessidade de passeios? Quando isso acontece, o outro, coitado, sente na alma um frio de medo de perder seu amante pelos ares. E redescobre, uma vez mais, que tudo muda, o verão é só uma estação do ano, só mais um marco no calendário.
Na verdade, quem passa mudando as temperaturas é o tempo.

 

testeProva de Amor

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O amor tá doido pra ir embora o quanto antes.

Eu lamento.

O amor também lamenta.

É que não tá fácil pra ele, no momento, esse momento. Nem o próximo.

Tá desinteressante. Desagradável. Meio roubada. Muito difícil.

Eu entendo.

Viver no meio de um monte de coisas que não lhe agradam?

Desconsideração, enganação, celebrity show, interesse comercial, roubalheira, grosseria, exibição, engarrafamento, faqueiro de prata, avareza, arrastão, fofoca de jornal, promiscuidade intelectual, gente deslumbrada, gente interesseira, conversa chata, incerteza, injustiça. Não lhe agrada dar like em ego de ninguém. Inversão de valor. Deslealdade. Traição barata. Bajulação. Não lhe agrada.

Fazer o quê?

Tá bom, amor. Você tá cada vez mais raro, cada vez mais raso, cada vez mais caro, cada vez mais pouco.

Mas não vai embora, não!

Ainda tem um ou outro louco por aqui acreditando que você é valioso.

 

testeOde à besteira

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A besteira surpreendente

A besteira rotineira

A besteira divertida

A besteira só besteira

A besteira inteligente

A besteira de criança

A besteira comovida

A besteira sem medida

A besteira que é uma dança

A besteira convincente

A besteira irrefutável

A besteira inevitável

A besteira que apaixona

A besteira de verão

A besteira faz mal não

A besteira que aprisiona

A besteira sussurrada

A besteira que é murmúrio

A besteira que é calada

A besteira calafrio

A besteira no escuro

A besteira que é fogosa

A besteira filosófica

A besteira poesia

A besteira abençoada

A besteira que é uma rosa

A besteira maluquice

Besteira devastadora

Besteira sabedoria

Besteira minha senhora

Besteira minha burrice.

 

testeWhat a wonderful world

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Isso não é um texto político.

Nem poema saudosista.

Nem manifesto alarmista.

Não é lamento, nem julgamento.

Nem tem finalidade explícita.

É apenas uma história, um simples relato, uma lembrança.

O ano era 1976. Sábado à noite. Jovens discutiam política num boteco. Muitos citavam Marx. Do outro lado da rua acontecia uma festa, um tanto hippie, num velho casarão de Olinda.

Optei pela festa.

Raul Seixas cantava na vitrola. Antes de acontecer o que aconteceu, fiquei a observar o mundo, através daquela parte que acontecia ali, entre as paredes do velho casarão. O desejo estava no ar. Muita fumaça. As pessoas, um tanto loucas, dançavam. Havia gente com flores nos cabelos. Havia gente com dizeres libertários nas camisas. Uma moça bonita acreditava no que o rapaz dizia ao seu ouvido. Meu amigo gay e seu namorado trocavam juras de amor eterno. Um casal tomava um só drink, com dois canudos, ambos alheios ao entorno. A concentração de beijos por metro quadrado só perdia para a concentração de gargalhadas. Brincava-se de tudo. Muitos estavam bêbados, mas todos estavam lúcidos. Éramos, todos, da oposição. Contra a corrupção, contra a desigualdade social, contra a tortura, contra a violência. Todos éramos a favor dos direitos humanos, da verdade, da descriminalização do aborto e da maconha, e isso em nada tinha a ver com partidos políticos, mas com nossos anseios. Vivíamos numa ditadura. A anistia ainda não havia acontecido, nem as eleições diretas para presidente, nem qualquer outro sinal de abertura, porém nós estávamos abertos. A palavra “esperança” não houvera sido banalizada por slogans, e era o que nos movia.

Então, aconteceu.

Meu olhar cruzou com o dele e ambos nos estranhamos. Ele tinha um cabelo liso e longo. Me tirou para dançar. Chamava-se Pedro e me fazia girar no salão. Entramos numa inexplicável sintonia. Era como se só nós dois tivéssemos consciência de que aquele lugar, aquele dia e aquele momento iam morrer afogados no rio que conduz o tempo. E que o futuro, lá longe, jamais iria compreender a doidice que acontecia à nossa volta. Tocou “What a Wonderful World”. Nos beijamos.

testeExistência

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Uma desgraça vive abraçada comigo, pra se consolar dela própria.

Todos os dias brigo com ela.

Sai, desgraça, deixa eu viver a minha vida.

Ela argumenta que não pode sair porque faz parte de mim. Tenho ganas de me decepar, mas não sei por onde começo. Então me faço de vítima. Logo eu? O que foi que fiz pra merecer isso? Alguma explicação plausível?

Ela não para de falar. Diz que é vital, que é necessária, que pertence ao mundo tanto quanto céu e nuvem, e tal, e coisa. Quando vejo, perdi a hora, com a conversa. Está vendo, dona Desgraça? Quer derrotar a minha vida inteira? Não se trata de derrota, ela logo me corrige, a questão é só a luta.

Às vezes, eu canto pra ela.

Às vezes, ela até gosta.

“Once there was a way to get back homeward…”

Um Beatles sempre cai bem. Tem hora inclusive que ela chora.

Quando vou dormir, a desgraça se aninha ao meu lado. Sonhamos juntas. Acontece que ela acorda antes de mim e se põe a me passear feito uma lagarta de fogo. É ao acordar que minha desgraça me deixa mais inviável.

Reclamei com o meu psiquiatra. Pedi colo de filha. Escrevi livro, roteiro de cinema, programa de televisão.

Finalmente, caiu a ficha. Eu sou apenas mais uma. Todo mundo tem uma desgraça abraçada a si mesmo, ela nem é esse monstro todo, e o nome dela não é desgraça, é existência.

“Sleep pretty darling, do not cry. And I will sing a lullaby.”

 

testeA MÚSICA DE CAIO E MARIA AUGUSTA

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A história de amor de Caio e Maria Augusta, pais da escritora e roteirista Adriana Falcão e protagonistas do livro Queria ver você feliz, é embalada por Learnin’ the Blues, um clássico swing-blues, com doses de jazz, dos anos 1950.

Confira a versão feita por Gregório Duvivier e Clarice Falcão em homenagem aos avós dela:

testeA gente nunca acha que a vida dos nossos pais pode virar um livro

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A gente nunca acha que a vida dos nossos pais pode virar um livro.

Mesmo que seja uma história muito boa.

E mesmo que a gente escreva livros.

Eu sabia que a história de um casal tão intenso quanto os meus pais, que termina com ele se matando, e ela morrendo de overdose, era bonita. Eu vivi essa história. Mas só tive a ideia de escrever o livro há uns três anos, quando estava com as minhas irmãs e a gente resolveu abrir o famoso baú de recordações para reler as cartas deles. Lembramos de fatos engraçados, outros difíceis, outros malucos, rimos e choramos, foi uma noite inesquecível.

Foi uma vida inesquecível.

Meu pai era o meu herói, como são todos os pais muito bacanas que existem. Era charmoso, inteligente, gentil, moderno, enigmático. Calado e pensativo. O que já era um indício da depressão que se agigantaria depois era só um charme a mais, quando eu era criança. Ah, ele assoviava sempre, ótimas canções. E, nas brincadeiras de esconder, escolhia lugares impensáveis, cada um mais doido do que o outro. O nome dele era Caio. Ele sorria com a boca torta e a gente achava lindo.

Minha mãe foi a pessoa mais interessante que já conheci. Inteligentíssima, cultíssima, engraçadíssima, muito dramática. Tudo com ela era no superlativo. Sua mania de prever tragédias, insuportável a ponto de se tornar cômica. Seu humor,  infalível. Mas nada impedia que, meia hora depois de dizer uma graça absurda, ela  ameaçasse se jogar da janela por um motivo qualquer. Pelo menos uma vez por mês ela ameaçava se jogar da janela. Neurótica? Bipolar? Borderline? Nenhum psiquiatra jamais conseguiu dar um diagnóstico, enquadrá-la em alguma patologia. O nome dela era Maria Augusta.

A paixão da minha mãe pelo meu pai era ainda mais exagerada do que a dona. Ele era a razão da vida dela. Depois vinha eu. Depois vinham as cachorras. A Rosina e a Patrícia, minhas irmãs, desde pequenas lidaram com a preferência da mamãe por mim de uma forma elegantíssima. O papai amava loucamente aquela mulher. Aliás, loucura, no melhor sentido da palavra, era uma coisa que sempre combinava com ela.

Aí o tempo veio vindo, colorindo mais forte seus desenhos. A depressão dele virou doença. Os exageros dela terminaram passando da conta.

Aos 46 anos, ele se matou. Alguns anos depois, ela se excedeu na dose de remédios para dormir e não acordou mais.

Foi triste.

Mas houve muitos momentos mágicos e muitos engraçadíssimos.

Como na manhã em que ela me ligou, eu não estava em casa, e ela cismou que eu tinha morrido afogada. Ela correu para a praia, em desespero, e começou a perguntar a todas as pessoas que passavam se tinham visto uma moça loura se afogando. Como ninguém teve a competência de informa-la a respeito do meu afogamento, ela procurou o salva-vidas. O rapaz estava conversando com um colega, na areia, embaixo da cadeira alta onde ficavam os salva-vidas. Ela perguntou sobre a suposta moça morta. Ele afirmou que não houvera nenhum caso de afogamento naquele dia. Ela refutou “Como é que eu posso ter certeza, se o senhor não está prestando atenção direito?” Então subiu na cadeira e se pôs a tomar conta do Oceano Atlântico. Eu estava no supermercado.