testeOblivion Song, nova HQ do autor de The Walking Dead, chega às livrarias em abril

Em abril, a Intrínseca lançará Oblivion Song, a mais recente HQ de Robert Kirkman, aclamado autor de The Walking Dead e vencedor do Prêmio Eisner, o mais importante do universo dos quadrinhos.

Na trama ilustrada pelo italiano Lorenzo de Felici, trezentos mil moradores da Filadélfia desaparecem subitamente e vão parar em Oblivion, uma nova dimensão repleta de criaturas ameaçadoras.

Dez anos depois, o governo já desistiu de procurar mais sobreviventes, mas Nathan Cole não se deu por vencido… Ele retorna todos os dias para a inóspita dimensão, na esperança de salvar aqueles que estão sozinhos, perdidos e amedrontados.

Mas quem Nathan tanto procura talvez não deseje ser encontrado…

O primeiro volume reúne os fascículos de 1 a 6 da série e chega às livrarias no dia 13 de abril. Não perca!

testeBlack Hammer ganha adaptação para TV e cinema

Os direitos de Black Hammer foram adquiridos pela Legendary Entertainment, produtora de vários filmes de sucesso, como Batman Begins, Círculo de Fogo e Jurassic World. A história ganhará adaptações para as telas de cinema e para a TV, ainda sem data de estreia.

Black Hammer se destaca entre as produções de Jeff Lemire, um dos maiores nomes dos quadrinhos atualmente. Eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo Eisner Awards, o principal prêmio internacional de quadrinhos, a obra explora os percalços na vida de heróis em decadência.

Black Hammer é minha declaração de amor aos super-heróis. É muito mais que um livro: trata-se de todo um universo, composto por muitas séries, e isso vai se desdobrar em vários projetos para a TV e o cinema”, disse o autor.

Uma das coisas que mais atraiu a produtora foi a possibilidade de expandir o mundo de Black Hammer com novas ideias de Jeff Lemire. O autor estará envolvido nos roteiros das adaptações: “Quanto mais projetos eu tenho, mais criativo sou. Quanto mais eu puder fazer, mais farei.”

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Digam nos comentários quais atores deveriam participar da produção!

testeAs origens secretas de Black Hammer

 
Black Hammer é recheado de referências e todo mundo sabe disso. A criação de Jeff Lemire é uma ode aos quadrinhos clássicos de super-heróis, seja com homenagens diretas ou com pequenos easter eggs. Porém, o mais interessante na obra é o diálogo histórico que o autor constrói entre as gerações de personagens ao explorar a evolução psicológica dos superseres – das eras mais inocentes dos gibis até o niilismo e a questionamentos filosóficos da pós-modernidade.

Em 1938, Superman fazia sua primeira aparição, em Action Comics #1, dando início à era de popularização dos super-heróis. Um ano depois surgia o Capitão Marvel, posteriormente renomeado Shazam — fonte de inspiração para o alter ego de Gail Gibbons, a Menina de Ouro. Ao contrário do Shazam, Gail não se transforma em adulta ao dizer a palavra mágica: ela retorna a sua forma infantil, e isso a deixa completamente transtornada. Fruto do otimismo e da bravura de sua década, a heroína entra em conflito consigo mesma logo que os anos começam a passar, cada vez querendo ficar mais tempo em sua forma heroica para conservar o vigor da infância.


 
Mas a maior parte dos personagens de Black Hammer vem da era de prata: Abraham Slam, Libélula e Coronel Weird, por exemplo. Apesar de Abe ser inspirado em dois heróis de épocas distintas (Capitão América e Demolidor), sua personalidade é um claro reflexo do herói idealista. Ele é a encarnação do sonho americano: acredita que, com esforço suficiente, tudo é possível. Talvez por isso seja o único conformado com a vidinha pacata na fazenda. A satisfação de ter ganhado a última grande batalha é o suficiente para Slam.

A história da origem de Libélula está fortemente ligada ao Homem-Coisa e ao Monstro do Pântano, heróis criados para aproveitar a onda dos quadrinhos pulp de terror que inundou o mercado americano nos anos 1970. A quebra da quarta parede, recurso utilizado por Lemire no primeiro volume, é uma narrativa típica das antologias de contos do gênero.


 
Por fim, como representante da era de bronze temos o Guerreiro de Marte, claramente inspirado no Caçador de Marte, da DC. O desenvolvimento de personagem além da persona heroica remete diretamente ao clima noir das histórias do Batman, que nesse período recuperava o clima soturno após a série de TV de sucesso dos anos 1960. Sua sexualidade e sua relação com Gail também remetem aos temas polêmicos desse período, como o uso de drogas e o surgimento de personagens declaradamente homossexuais.

A união de todos no exílio resulta na narrativa gráfica pós-moderna: uma família disfuncional dividindo o mesmo espaço, com uma narrativa baseada quase exclusivamente em diálogos e nos conflitos internos de cada ex-herói, sem um foco tão grande nos vilões ou na ameaça do mês. O desenvolvimento de personagens está acima da ação, e isso irrita alguns deles.


 
Se Alan Moore desconstruiu o gênero ao dar profundidade aos heróis urbanos em Watchmen e Kurt Busiek narrou com maestria o ponto de vista de pessoas comuns em um mundo habitado por deuses em Marvels, Lemire desmistifica todos os conceitos construídos em 80 anos de indústria e eleva o desenvolvimento de personagens a um novo patamar.

testeDeuses americanos: um quadrinho impossível

Por Fábio Moon*

Uma das maiores qualidades da prosa de Neil Gaiman é sua capacidade de envolver os leitores, descrevendo qualquer mundo com tal facilidade que, não importa quão fantástico seja, soa sempre estranhamente familiar. Ao lermos uma de suas histórias, concluímos que, sim, é claro que deuses existem. É claro que estão entre nós. Provavelmente já cruzamos com um deles alguma vez na vida. Gaiman nos faz acreditar (e nós acreditamos) que tudo é possível.

E agora acreditamos, inclusive, que é possível adaptar Deuses americanos – seu livro mais aclamado, mais ousado, mais denso – para os quadrinhos.

P. Craig Russell, parceiro de Gaiman de longa data, traça com maestria a rota dessa viagem, decidindo o que deve ser mantido do texto original e o que deve ficar a cargo das imagens. As ilustrações de Scott Hampton nos apresentam o mundo pelo qual Shadow viaja, um mundo repleto de personagens fantásticos, que nosso herói conhece à medida que cruza a América à beira da tempestade.

Esta adaptação convida muitos outros artistas incríveis para fazerem, eles também, parte desta jornada alucinante. Os leitores ainda são agraciados com o fascinante processo de criação do livro, com uma espiadinha no layout original a lápis de Russell e na arte-final de Hampton e dos demais artistas.

Todos a bordo? A viagem pela América de Shadow, do sr. Wednesday e de tantos outros está apenas começando. Os deuses aguardam.

Fábio Moon é um dos quadrinistas brasileiros mais importantes da atualidade. Junto com o irmão, Gabriel Bá, é autor de Daytripper, Casanova e Dois irmãos.

Deuses americanos: Sombras

testeLançamentos de abril

Confira as sinopses dos nossos lançamentos do mês:

Estúpida, eu?: A blogueira que conquistou seu lugar no mundo da moda, de Camila Coutinho

Criado mais de dez anos atrás para trocar informações com as amigas numa época em que o conteúdo criativo na internet ainda engatinhava, o Garotas Estúpidas se tornou um dos maiores blogs de moda do mundo.

Em Estúpida, eu?, a designer de moda por formação e empreendedora por destino Camila Coutinho compartilha o que fez para transformar — com muita inteligência e jogo de cintura — o que era apenas um hobby em um grande negócio, além de compartilhar suas ideias sobre o que podemos esperar do futuro da moda em um mundo cada vez mais conectado.

 

Comer para não morrer: Conheça o poder dos alimentos capazes de prevenir e até reverter doenças, de Michael Greger com Gene Stone

Comer para não morrer trata de um estilo de alimentação capaz de prevenir, controlar e até reverter muitas das principais causas de morte da atualidade: a dieta à base de vegetais, tendência global conhecida também por plant-based diet.

Com uma linguagem clara e bem fundamentado em estudos acadêmicos, o livro oferece dicas práticas sobre o que comer e em qual quantidade, e ensina como ter uma relação mais saudável com os alimentos para garantir uma vida mais duradoura e com mais qualidade.

 

No tempo dos feiticeiros, de Cressida Cowell

Nesta nova aventura da criadora da série Como treinar o seu dragão,somos apresentados ao jovem feiticeiro Xar, cujos poderes ainda não despertaram, e à menina guerreira Desejo, cujo maior sonho é ser reconhecida pela mãe.

Xar e Desejo foram ensinados a odiar um ao outro, pois os guerreiros querem acabar com todo tipo de Magia, mas terão que superar as diferenças e enfrentar um mal que pode destruir seus lares.

 

Nix, de Nathan Hill

Samuel é um professor universitário e escritor fracassado que tem a monotonia de sua vida interrompida quando descobre que sua mãe cometeu um crime absurdo, atraindo a atenção da internet e de todos os noticiários.

Para ele, é uma surpresa ainda maior quando, ao contrário da imagem de boa moça que se casou cedo com o namoradinho da escola, a mídia passa a retratá-la como uma hippie radical de passado sórdido. Aclamado pela crítica, o livro será adaptado para série protagonizada por Meryl Streep e produzida por J.J. Abrams.

 

Todas as coisas belas, de Matthew Quick

Aos 18 anos, Nanette nunca se sentiu realmente parte do grupo. Tudo muda quando ela ganha um livro de seu professor preferido, o clássico cult O ceifador de chicletes, e fica fascinada com a mensagem de que pode ser de fato quem é.

Encantada com esse novo mundo que se abre, ela se permite, pela primeira vez, tomar as próprias decisões. No entanto, aos poucos Nanette percebe que a liberdade pode ser um desejo arriscado e começa a se perguntar se a rebeldia não cobra um preço alto demais.

 

Deuses americanos: Sombras, de Neil Gaiman

Mistura de road trip, fantasia e mistério, Deuses americanos alçou Gaiman à fama mundial e ao posto de um dos maiores escritores de sua geração.

Agora, os fãs de quadrinhos e da obra-prima do autor — adaptada também para uma celebrada série de TV — têm mais um motivo para comemorar: chega às livrarias o primeiro volume das graphic novels inspiradas em Deuses americanos, com os traços e as cores vibrantes de P. Craig Russell e Scott Hampton.

 

O senhor do caos, de Robert Jordan

No sexto volume da épica saga de fantasia, as intrincadas tramas continuam a se desenrolar. Robert Jordan demonstra toda a sua maestria ao resolver os conflitos dos volumes anteriores ao mesmo tempo que cria novos suspenses. A ordem e as antigas instituições desmoronam, abrindo caminho para o senhor do caos.

testeDe Sandman à Mitologia Nórdica

Por Bruno Machado*

Sandman, Gaiman e o Martelo de Thor (Fonte)

Não é de hoje que as pessoas procuram explicar o que não compreendem por meio dos deuses. Se os céus demonstravam sua fúria com raios e trovões, os gregos acreditavam ser culpa de Zeus, enquanto os escandinavos apontavam o brutamontes Thor como responsável pela bagunça. Ao longo dos séculos, as divindades que surgiam — ou eram descobertas, dependendo da sua crença — se mostravam seres complexos, com relações e disputas internas, e suas sagas inspiravam pessoas por todo o mundo.

Quando dois quadrinistas, Jack Kirby e Stan Lee, decidiram que as brigas, birras e dramas de Valhala dariam um excelente quadrinho capitaneado pelo agora loiro, musculoso e usuário de capacete com asinhas Thor, não faziam a menor ideia do impacto que essas histórias fariam na vida de um menino de sete anos que morava no interior da Inglaterra: Neil Gaiman. Um voraz consumidor de literatura fantástica e quadrinhos desde criança, Gaiman viu que a carreira no jornalismo não era exatamente o que buscava, e começou a trabalhar como roteirista das histórias em quadrinhos que tanto lia na juventude.

Se Lee e Kirby reimaginaram os deuses nórdicos, ele faria o mesmo com Sandman, e alcançaria o sucesso ao repensar como o Sonho e as demais entidades conhecidas por Eternos interagiam com os mundos e personagens das mais diversas origens. Lúcifer, por exemplo, é um príncipe frustrado, que quer abdicar de seu domínio no submundo. Interessados dos mais diversos lugares aparecem, e entre eles uma comitiva um tanto peculiar: as divindades nórdicas, que querem o inferno como território para usar de barganha e evitar o Ragnarök, o fim do mundo nórdico. O estranhamento se dá quando percebemos que os deuses de Gaiman não são como a cultura pop nos mostrava: Thor não é um paladino da justiça, loiro e eloquente, e sim  uma divindade ruiva e grosseira; Odin não é apenas sábio, e sim uma criatura soturna e estranha. Loki é o mais próximo da ideia que tínhamos do personagem, ardiloso e egoísta, mas é curioso ver o deus da traição como parte dos deuses, e não seu inimigo.

Os Deuses Nórdicos na visão da Marvel e como eles são retratados em Sandman.

Esse relacionamento de Gaiman com os deuses nórdicos foi fundamental para a sua obra. Em seu livro mais conhecido, Deuses americanos, Odin continua como líder e responsável por arquitetar seus planos por trás dos panos. Ao se mudar para os Estados Unidos, o escritor começou a imaginar um universo no qual divindades tivessem ido para o país junto dos primeiros colonos, divindades que só permaneceriam vivas enquanto houvesse gente que as louvasse.

No livro, o grande plano de Odin é vencer novas divindades, como a Tecnologia e Mídia, e manter os deuses antigos relevantes em um mundo que aparentemente os esqueceu. Para ajuda-lo nessa batalha entre os deuses, Odin conta com a ajuda de um humano comum, que é trazido para uma jornada épica pela América e testemunha o maior conflito da história. Falar mais sobre a participação das divindades nórdicas em Deuses americanos é entrar na zona de spoilers, mas os leitores mais atentos descobrirão que nomes podem esconder mais do que se imagina.

Uma carreira de sucessos literários depois, era hora de o autor prestar tributo aos mitos escandinavos em uma obra exclusiva. Em Mitologia nórdica, os heróis e a fantasia dão lugar à pesquisa histórica.

Alternando histórias sombrias e divertidas, Neil Gaiman mostra por que os mitos escandinavos são tão fascinantes. Com histórias que variam do casual ao épico, os contos vão desde a criação do martelo Mjolnir — e a “culpa” que Loki teve na criação da arma mais poderosa dos nove mundos –, à origem absurda da poesia, ou ao dia que Thor se vestiu de noiva para fingir ser a deusa Freya.

Segundo Gaiman, porque têm um final no Ragnarök e um recomeço, os mitos nórdicos são, de certa forma, mais vivos: os mitos gregos e romanos são estáticos, sempre no mesmo ponto, sem nunca se desenvolverem ou terem um fim.  É possível se perguntar se o crepúsculo dos deuses já aconteceu, ou se Thor ainda está martelando gigantes por aí. E é essa peculiaridade que chamou a atenção de um menininho de sete anos, que levou consigo essa paixão até que pudesse, quase quarenta anos depois, prestar a devida homenagem aos mitos nórdicos.

Deixe-se encantar pelos deuses nórdicos de Gaiman você também.

 

*Bruno Machado é assistente de Marketing, Nerdices e Redes Sociais na Intrínseca

testeNimona, uma vilã que me ajudou a ser mais feliz

Por Rayssa Galvão*

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Quando eu era mais nova e a internet não era tão comum, sempre matava aula para ir à livraria atrás de tudo o que eu pudesse encontrar em matéria de quadrinhos. Eu amava aquelas edições de HQs mais literárias, com ilustrações tão lindas que dava dor no coração de virar as páginas. Edições tão difíceis de encontrar (e caras) e tão lindas que ficavam junto com os livros de artes.

A escola acabou, mas o amor pelas histórias em quadrinhos, não. Hoje em dia eu procrastino o trabalho, em vez de matar aula (que o pessoal da Intrínseca não leia isso). E, poxa, tem muita coisa boa de todas as nacionalidades e de todos os gêneros literários.

Quando a gente fala em história em quadrinho, pensa logo em super-herói. E, realmente, hoje em dia não tem nada mais evidente na nossa mídia pop do que a velha guerra Marvel versus DC. E, mesmo que essas histórias existam há bastante tempo e tenham um público fiel (quem me emprestou o primeiro volume de Elektra foi o meu pai!), aqui no Brasil o que fazia mais sucesso eram as tirinhas de jornal, que foram evoluindo para periódicos — e assim nasceu a maravilhosa Turma da Mônica, que não demorou a virar revista e fazer o maior sucesso. Com a internet, esse formato das tirinhas e charges no jornal foi ganhando uma cara nova, e hoje em dia é o que mais faz sucesso aqui no Brasil, em termos de HQ. Sua timeline (se você for uma pessoa feliz) deve estar cheia deles!

Turma da Inbonha

Meu amor por quadrinhos começou trocando revistinhas da Mônica no sebo. 2 por 1. (Fonte)

Foi revirando a internet atrás de coisa boa para ler enquanto procrastinava algum trabalho que eu descobri a Noelle Stevenson.

Quando li Nimona pela primeira vez, acho que por volta de 2012, a série ainda não estava completa (mas já tinha um pedação). A Noelle publicava uma página por semana no Tumblr, e eu ficava para morrer esperando a continuação. E o legal de ler Nimona é que era uma coisa totalmente diferente dos quadrinhos a que eu estava acostumada.

Veja bem, o legal das HQs é que elas não precisam se restringir a um gênero. Tem coisa de tudo que é tipo: pequenas tiradas e críticas políticas, crônicas da vida cotidiana, sagas de heróis com superpoderes (valeu, Batman, te amo para sempre), histórias de fantasia. Tem uma vertente das histórias em quadrinhos que é mais literária — é como um livro desses de fantasia do nosso top 10 de todos os tempos, só que já pensado no formato dos quadrinhos. A mais famosa é a série Sandman, do Neil Gaiman, mas tem títulos fenomenais que viraram filmes lindíssimos, como 300, Persépolis e Sin City — além de livros fenomenais que viraram HQ, como a maravilhosa série A Roda do Tempo! Só que, mesmo com toda essa variedade, eu nunca tinha encontrado uma HQ com uma personagem principal feminina como a Nimona.

O mundo anda meio carente de modelos femininos no poder, né? É verdade que a gente tem histórias com super-heroínas, mas essas revistas mais comerciais, apesar de maravilhosas, têm uma necessidade de agradar o público masculino (como se o público masculino só fosse ficar feliz com uma mulher de corpo magnífico, poucas “frescuras” e dependência crônica de homens).

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Elektra mostrando a que veio (e que também precisa agradar o público masculino) na capa da edição número 1, uma das revistas mais maravilhosas que eu já li.

Além disso, o mundo dos autores de histórias em quadrinhos é muito masculino. Parando para pensar, a maioria dos autores que me vêm à cabeça são homens: Neil Gaiman, Stan Lee, André Dahmer… O mesmo acontece com nomes de protagonistas, tanto nas revistinhas de heróis quanto nas mais ~obscuras~: Sandman, Homem-Aranha, Constantine. Os poucos personagens femininos mais fáceis de lembrar ou são parte de um grupo (como a Tempestade, de X-Men), ou são coadjuvantes (como a Morte, de Sandman), ou são protagonistas mais “delicadas”, como em Persépolis.

Foi aí que a Noelle Stevenson inovou, criando a Nimona, e foi com isso que eu me encantei, tantos anos atrás. A Nimona é uma protagonista feminina que, além de não seguir os padrões de beleza típicos das protagonistas dos quadrinhos (mesmo as vilãs), não precisa de uma justificativa para ser má. Ela não precisa ser louca, não precisa viver um relacionamento abusivo, não precisa querer vingança. Uma protagonista que pode ser o que ela quiser (tanto porque é metamorfa, quanto porque é dona de si). Uma protagonista multifacetada, que não precisa de justificativas para suas ações ruins, mas que também pode ser boa sem a necessidade de um longo flashback explicativo (porque não é uma ação que vai contra a “construção do personagem”). E uma mulher que não deixa de ser amada e querida por ser quem é — pelo contrário, a gente acaba a história querendo mais Nimona na nossa vida!

Quando conheci essa personagem que pode ser o que quiser, eu meio que me senti autorizada a ser assim também. Não preciso explicar todo o meu passado para justificar alguma ação contrária à norma ou ao que as pessoas esperam de mim. E ninguém vai deixar de me amar se eu for imperfeita.

Amei ler Nimona e amei trabalhar em cada pedacinho desse livro — inclusive voltando no tempo, até minha infância de leitora da Mônica, para improvisar onomatopeias. E acho que você vai amar também, porque é sempre muito bom encontrar um livro que quebra padrões e vai além do que a gente esperava. Uma dessas histórias que fazem a gente se sentir compreendida.  Porque, às vezes, a gente só quer tocar o terror e matar inocentes, sem precisar de justificativa.

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Agora é que a Intrínseca para de me mandar trabalho!

 

* Rayssa Galvão já nasceu meio nerd. Hoje em dia procrastina o trabalho – de revisar livros de fantasia e quadrinhos – lendo outros livros de fantasia e quadrinhos.

testeTirania e nostalgia em quadrinhos

Por Alexandre Sayd*

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Nos anos 1980, bem antes do Estado Islâmico, da crise migratória ou mesmo do 11 de Setembro, o ditador da Líbia já era Kadafi, enquanto o tirano no governo da Síria era Hafez al-Assad, pai do atual presidente. Assim, apesar da distância de três décadas, ao lermos O árabe do futuro, do francês Riad Sattouf, temos a sensação de que o tema e o cenário escolhidos pelo quadrinista continuam estranhamente contemporâneos.

Na premiada trilogia, Sattouf narra em forma de quadrinhos sua infância e juventude. De pai sírio e mãe francesa, ele passou seus primeiros anos na Líbia e na Síria após o pai, doutor em história pela Universidade de Sorbonne, em Paris, conseguir emprego como professor nos dois países.

A partir das memórias, experiências e sensações de uma criança, o autor nos dá a oportunidade de vivenciar, sem preconceitos, esses dois universos. Este é o primeiro de vários aspectos geniais e talvez seja o grande trunfo da obra de Riad Sattouf: ele não tem a pretensão de nos ensinar nada, não pretende apresentar um ensaio geopolítico ou uma aula de história. Aprendemos muito com a obra, mas de forma natural e reflexiva.

É impressionante como a memória do autor é prodigiosa. Ela se apresenta com uma riqueza de detalhes que transcende em muito o meramente visual, com cheiros, sabores e impressões pessoais de quando Riad tinha pouquíssima idade. Ele se lembra de minúcias como o cheiro da França — em oposição ao cheiro da Líbia —, seus pratos preferidos e até mesmo de sonhos.

Impressiona em Sattouf, também, o domínio da arte de narrar em quadrinhos. Os personagens têm expressões hilárias e contagiantes, totalmente adequadas às cenas em que estão inseridos. O desenho lembra um pouco o dos Peanuts (“Charlie Brown”), de Charles M. Schulz, e Calvin e Haroldo, de Bill Watterson; porém com um uso muito diferente das cores, que, em O árabe do futuro, variam de acordo com o país retratado — na Líbia predomina o amarelo, na França, o azul, e na Síria, o rosa.

A história certamente perderia muito se transportada para outro formato que não o da graphic novel, e a qualidade da narrativa, somada à força da temática — que é crescer sob a tirania das ditaduras árabes —, coloca O árabe do futuro no mesmo patamar que Maus, de Art Spiegelman, sobre o holocausto, e Persépolis, de Marjane Satrapi, que expõe a opressão da mulher no mundo islâmico, em especial no Irã.

Na infância, Riad era louro e bem diferente do árabe médio, o que fazia dele um outsider instantâneo, com frequência excluído e hostilizado pelas outras crianças, que o tratavam por “judeu” e “filho do cão”. Nos ambientes mais isolados e remotos, sua família, em especial ele e a mãe, eram vistos pelos demais como extraterrestres. Isso não o impediu de fazer alguns amigos, que normalmente acabavam fascinados por seu exotismo e seus brinquedos do primeiro mundo.

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Riad tinha como grande herói e maior referência o pai, Abdel-Razak. Como leitor, vi no personagem um homem cheio de contradições e preconceitos, que se opõe ao obscurantismo religioso e às superstições do mundo árabe ao mesmo tempo que exalta figuras como Kadafi e al-Assad, incapaz de admitir os danos que esses tiranos causam aos países que governam. Enquanto critica o “atraso” de seus próprios pares e defende que o ensino deve ser livre do dogma religioso, Abdel afirma a todo instante a superioridade dos países islâmicos, defende o pan-arabismo e se recusa a enxergar a precariedade e a violência à qual expõe a si mesmo e a sua família.

As contradições presentes no pai de Sattouf se mostram, de certo modo, um reflexo de seu ambiente de origem. Especialmente na Síria, onde a família de Riad vive em uma pequena vila próxima à cidade de Homs, fica claro o contraste cultural entre a cidade grande e o interior, assim como entre os ricos e os mais pobres. Nos dois casos, os primeiros são muito mais ocidentalizados e livres das superstições e limitações religiosas.

Ao longo da história de Riad e sua família, somos introduzidos às particularidades desses dois mundos, ambos retratados de forma exótica. As crianças francesas são muito mais dependentes, imaturas e desinteressantes do que seus novos colegas árabes. No entanto, a comida na França é abundante e há lojas cheias de brinquedos, enquanto na Líbia, a comida é gratuita, mas escassa e pouco variada, e a distribuição dos alimentos ocorre em dias alternados para homens e mulheres, de modo a evitar contato entre os dois sexos. Já na Síria muitas crianças utilizam roupas de plástico que são réplicas das roupas verdadeiras: sapatos de plástico, no formato de tênis, com cadarços e tudo; uniformes escolares de plástico, com uma pintura que reproduz o cinto dos uniformes verdadeiros.

ArabeDoFuturo2_capa_MAINO segundo livro, lançado recentemente no Brasil, nos revela ainda mais sobre a Síria. Riad começa a frequentar a escola, onde encontra uma educação violenta e altamente doutrinária, com castigos físicos e cheia de leituras do Corão e exaltações ao presidente al-Assad. Lentamente ele passa a compreender melhor o mundo ao seu redor, até mesmo adquirindo uma visão crítica, e nós o acompanhamos nesse processo. Para leitores ocidentais, parece clara a maneira como a violência da sociedade se reflete no comportamento das crianças, que vivem brigando entre si e massacram animais como cães e sapos por esporte.

Percebemos também com maior nitidez como as mulheres são oprimidas e limitadas, reduzidas a cidadãs de segunda categoria — não há meninas nas escolas, e uma parente de Riad acaba assassinada por seus familiares após engravidar fora do casamento. Por fim, as contradições internas da Síria ficam mais evidentes em momentos como quando Riad e o pai vão ao bairro cristão para comprar carne de porco, ilegal no país, ou quando em uma visita à casa de um general importante os adultos consomem álcool, também proibido.

A obra é viciante, daquelas que nos deixam com pena de terminar a leitura. A parte boa é que os dois primeiros volumes estão disponíveis no Brasil, e já há um terceiro a caminho.

Riad Sattouf é cartunista e cineasta. Ele é mais conhecido por seu trabalho ao longo de dez anos no jornal de humor francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um ataque terrorista orquestrado pelo Estado Islâmico em janeiro de 2015. Seu filme Les Beaux gosses recebeu o César de melhor filme em 2010, e o primeiro volume de O árabe do futuro ganhou em 2015 o prêmio principal do Festival de Angoulême, considerado o mais importante do mundo dos quadrinhos. Com a crise migratória, Sattouf ajudou seus familiares da Síria a conseguir refúgio na França.

Alexandre Sayd é jornalista e descendente de franceses e libaneses.

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Tudo tem uma primeira vez, de Vitória Moraes (Viih Tube) — Como foi o seu primeiro beijo? E a primeira vez que teve coragem de dizer “eu te amo” para alguém? Ou que vacilou feio com uma amiga? Em Tudo tem uma primeira vez, Vitória Moraes, a Viih Tube, fala abertamente e com muito bom humor sobre os grandes (e primeiros) momentos da adolescência.

Viih tem posições firmes e um jeito só seu de contar histórias de meninos e meninas que estão conectados à internet 24 horas por dia e usam as redes sociais para tudo. Com suas palavras, faz um retrato divertido de quem é o adolescente da atualidade. [Leia +]

Todos envolvidos, de Ryan Gattis Na tarde de 29 de abril de 1992, um júri absolveu três policiais brancos do Departamento de Polícia de Los Angeles acusados de usarem força excessiva para controlar um civil negro chamado Rodney King. Menos de duas horas depois, a cidade explodiu em violência. Em seis dias, sessenta pessoas morreram. Mas muitas mortes não foram contabilizadas: fora da zona principal de protestos, algumas gangues se aproveitaram dos tumultos para acertar as próprias contas.

Inspirado nesse momento e narrado do ponto de vista de dezessete personagens, o romance de Ryan Gattis apaga as fronteiras entre vítimas e criminosos e transforma a história dos protestos em uma vívida e eletrizante obra de ficção. Uma narrativa ambiciosa e arrebatadora, um épico sobre crime e oportunismo, vingança e lealdade. [Leia +]

Temporada de acidentes, de Moïra Fowley-Doyle — Acontece todo ano, na mesma época. Todo mês de outubro, inexplicavelmente, Cara e sua família se tornam vulneráveis a acidentes. Algumas vezes, são apenas cortes e arranhões — em outras, acontecem coisas horríveis.  A temporada de acidentes faz parte da vida de Cara desde que ela se entende por gente. E esta promete ser uma das piores.

No meio de tudo, ainda há segredos de família e verdades dolorosas, que Cara está prestes a descobrir. Neste outubro, ela vai se apaixonar perdidamente e mergulhar fundo na origem sombria da temporada de acidentes. Por quê, afinal, sua família foi amaldiçoada? E por que eles não conseguem se livrar desse mal? [Leia +]

 

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Uma chance de lutar, de Elizabeth Warren — Um dos nomes mais relevantes na corrida presidencial dos Estados Unidos em 2016, a senadora Elizabeth Warren é um retrato perfeito da realização do sonho americano: filha de um zelador e uma telefonista, venceu as dificuldades da família e o lugar-comum da época de que o principal objetivo de toda mulher era conseguir um bom casamento. Ela tornou-se professora em Harvard, atuou como consultora do Congresso americano e assistente do presidente Barack Obama.

Neste relato, Elizabeth deixa transparecer a fibra que a fez chegar aonde está e expõe a abrangência de seus conceitos sobre o endividamento e o sistema financeiro, que extrapolam o cenário norte-americano. [Leia +]

Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro), de Geoff RodkeyOs gêmeos Claudia e Reese, de 12 anos, não poderiam ser mais diferentes, mas em uma coisa eles são realmente idênticos: a determinação em sair ganhando na terrível guerra travada entre os dois! No primeiro volume da série, tudo começa com uma polêmica no refeitório da escola, quando Claudia sofreu um ataque cruel e covarde do próprio irmão. Aos poucos, a guerra se acirra e, das ruas de Nova York, passa para o universo ficcional de um jogo on-line.

Com uma narrativa totalmente original, incluindo fotos, capturas de tela dos jogos, registros de chats e muitas mensagens trocadas pelo celular entre os pobres pais dos beligerantes, Os irmãos Tapper declaram guerra (um contra o outro) mostra, de forma autêntica e hilária, os conflitos entre dois irmãos adolescentes numa era saturada de recursos visuais e digitais. [Leia +]

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O árabe do futuro 2: Uma juventude no Oriente médio (1984-1985), de Riad Sattouf — Segundo volume da trilogia que narra o choque cultural vivido por uma criança nascida na França que passou os primeiros anos de vida dividida entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. Nessa sequência, o premiado quadrinista Riad Sattouf, ex-colaborador do jornal Charlie Hebdo e que participou da última edição da Flip, relata seu primeiro ano como aluno de uma escola síria, onde enfim aprendeu a ler e escrever em árabe enquanto enfrentava um ambiente rígido e violento.

Comparado aos aclamados Maus e PersépolisO árabe do futuro exibe uma visão reveladora sobre o conflito entre culturas que está definindo o século XXI. Com traço simples e narrativa fluida e divertida, Riad fornece ao mesmo tempo uma análise do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de uma infância tão plural e de cores tão fortes. [Leia +]

Aceitação, de Jeff VanderMeer —  É inverno na Área X, a misteriosa região selvagem que há trinta anos desafia explicações e repele pesquisadores de expedição após expedição, recusando-se a revelar seus segredos. Enquanto sua geografia impenetrável se expande, a agência responsável por investigar e supervisionar a área — o Comando Sul — entra em colapso. Uma última e desesperada equipe atravessa a fronteira, determinada a alcançar uma remota ilha que pode conter as respostas que eles tanto procuram.

Último livro da trilogia de ficção científica Comando Sul, Aceitação conecta os dois livros anteriores, Aniquilação e Autoridade, em capítulos breves e acelerados, narrados da perspectiva de personagens cruciais. Página após página, os mistérios são aos poucos solucionados, mas as consequências e as implicações dos acontecimentos passados jamais serão menos profundas ou aterrorizantes. [Leia +]

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teste[O ÁRABE DO FUTURO: A LEITURA DO PRESENTE]

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Um livro nunca é só um livro. Muitas vezes vem acompanhado por um sopro de liberdade, um desabafo, um ato político, uma forma de escapar à censura. É um desdobramento de mundos, visões, histórias. Quem lê perde fronteiras e ganha criatividade. A imaginação é um território livre, independente, que recusa a presença de interferências externas. Não há poços de petróleo dentro das nossas ideias. Nenhuma “grande” potência vai querer invadir o que a gente pensa (pelo menos até o fechamento deste texto).

Quando a Intrínseca anunciou que publicaria o primeiro volume da trilogia O árabe do futuro, do quadrinista sírio-francês Riad Sattouf, fiquei muito feliz. Sabia que os leitores brasileiros teriam em mãos uma belíssima graphic novel, que pode muito bem ser classificada como livro de história, pois retrata com olhar infantil uma realidade adulta do mundo árabe entre 1978-1984. E, infelizmente, essa visão do menino Riad está mais atual do que nunca. A tragédia no periódico Charlie Hebdo em janeiro desse ano, onde o próprio autor chegou a trabalhar como ilustrador, e as sucessivas guerras estão aí para provar que o mundo está seguindo em frente andando para trás.

link-externoLeia um trecho de O árabe do futuro

Eu li em poucas horas. O encantamento faz a gente avançar nas páginas, mergulhar em cada quadro, esquecer todo o nosso redor. Muito já foi escrito sobre esse livro. Para isso existem artigos muito mais interessantes e completos escritos por críticos muito mais gabaritados sobre geopolítica ou sobre conflitos no mundo árabe. Minha leitura é puramente sentimental. Me prendi aos fatores sensíveis e deixei livres os fatos históricos da obra, riquíssimos por sinal. Enquanto lia, eu anotava. Um livro pode nos captar por um diálogo, uma imagem, uma cena, um diálogo, ou pelo todo. Esse livro foi pelo todo.

A França é uma maravilha. Aqui todo mundo pode fazer o que tem vontade” (p.9). As falas do pai do menino Riad norteiam as páginas do livro, que pode ser considerado uma espécie de autobiografia ilustrada. Nessa graphic novel, talvez o traço mais marcante seja a ilusão de que as “grandes” potências econômicas ditam o que é liberdade. As pessoas esquecem que ser livre é um ponto de vista, ou um ponto de fuga. A definição de liberdade muitas vezes bate asas até pousar em outra interpretação. O pai de Riad, e outros imigrantes, acredita que a França é uma pátria onde se pode fazer de tudo. Onde se é inteiramente livre. Bobagem. São as grades que mudam de formato. Nós nos prendemos a outras coisas. E outras coisas nos prendem. Todos somos livres de alguma forma. Todos somos condenados de algum jeito. O banho de sol pode ser no deserto na Síria ou uma quitinete em Paris.

link-externoLeia também: Revivendo o passado através de O árabe do futuro, por José Messias

[Continua na próxima semana.]