testeEm Praia de Manhattan, Jennifer Egan visita o período que transformou os EUA em uma superpotência

Por João Lourenço*

Em 2011, após vencer o Pulitzer de ficção por A visita cruel do tempo, a vida de Jennifer Egan ganhou novas cores e desafios. Com uma obra que transpõe as barreiras narrativas, Egan virou sinônimo de “experimental”, de “diferente”. Mas a fama repentina também trouxe problemas. Afinal, como lidar com os rótulos recebidos pela crítica? Como deixar a repercussão de lado? Foram essas as questões que a autora enfrentou durante o processo de criação de Praia de Manhattan, sua primeira ficção histórica. “Quem disse que eu tenho que ter a mesma sorte e sucesso novamente? É insano pensar assim. Racionalmente, sei disso. Mas, emocionalmente, ainda acredito que todo trabalho novo deve ser tão bom ou superior ao anterior.” Em alguns momentos, a pressão a fez pensar que nunca mais conseguiria publicar outro livro. “Tinha dias que me sentia como uma completa fraude”, confessa a autora. 

Praia de Manhattan demorou seis anos para chegar às livrarias. Ambientado nas décadas de 1930 e 1940, o romance conta a história de Anna Kerrigan, uma mulher que percorre cenários obscuros e perigosos de Nova York para desvendar o desaparecimento do pai. Livro histórico com pitadas de romance policial à Agatha Christie, Praia de Manhattan explora a relação entre pais e filhos, tema recorrente na obra da autora. Egan costuma dizer que não gosta de escrever sobre pessoas próximas e experiências pessoais, mas não há como negar: toda obra de arte expressa um pouco (ou muito) da vida do seu criador. Neste caso, vale lembrar que Egan não teve um bom relacionamento com o pai, e a busca de Anna pode ser vista como a busca da própria autora por respostas. Em uma tarde nublada, enquanto atravessávamos o East River em direção a Manhattan, questionei Egan sobre o tema. Ela demorou um pouco para encontrar as palavras, era como se estivesse pensando no assunto pela primeira vez: “Olha, você tem razão, eu não escrevo sobre minhas experiências, mas talvez eu tenha tentado fazer as pazes com meu pai por meio da ficção.” 

Jennifer Egan por Pieter M. Van Hatten

Jennifer Egan também é conhecida por ser uma grande cronista da sociedade contemporânea. Isso não é diferente em Praia de Manhattan. Apesar de ter nascido décadas após os acontecimentos do livro, Egan relata detalhes e curiosidades como se tivesse presenciado tudo da primeira fila. Esse momento transformador da história dos Estados Unidos, que ajudou o país a se tornar uma superpotência, chega ao leitor em ritmo ágil e único.

Leia a entrevista:

 

A visita cruel do tempo ganhou o Pulitzer e colocou seu nome no mapa literário internacional. Como esse reconhecimento afetou o seu trabalho? 

Tamanha atenção atrapalhou o processo do meu novo livro, Praia de Manhattan. Não estava acostumada com esse tipo de sucesso. As expectativas aumentaram e, com isso, a alegria que tinha em escrever diminuiu um pouco. Após passar mais de um ano na estrada para divulgar o meu último livro, não sabia qual direção seguir. Me senti presa. Tinha a sensação de que nada que eu fizesse seria bom o suficiente. A pressão atrapalhou bastante, a ponto de duvidar dos meus instintos — e eu não tenho nada sem eles. 

 

Parece que você ainda se surpreende com a quantidade de leitores que ganhou nos últimos anos. 

Por muito tempo acreditei que ninguém observava meu trabalho. Tinha o reconhecimento de pessoas próximas, mas pensei que ninguém se importava. Esse é um bom sentimento, pois você se sente livre para fazer qualquer coisa. Quando seu nome está sob o radar de um público maior, as coisas mudam um pouco. A pressão do sucesso me paralisou. Uma pessoa precisa de muita sorte para encontrar sucesso no mundo das artes. Passei a me preocupar demais em não desapontar os leitores, em criar expectativas que não poderia cumprir. Quando entrava nesse buraco negro, cheio de dúvidas e frustrações, dizia para mim mesma que o mundo não iria acabar se eu não escrevesse um bom livro novamente. Tinha dias que me sentia como uma completa fraude.

 

Qual o maior desafio que você enfrentou com Praia de Manhattan

Até então eu já tinha explorado vários malabarismos em termos de estrutura e linguagem, e esse livro pedia algo convencional. Não estava mais acostumada com o estilo tradicional, linear. Esse foi o grande desafio: como escrever um livro com começo, meio e fim, sem me apoiar em experimentações de estrutura. 

 

Praia de Manhattan se passa nas décadas de 1930 e 1940. Isso explica o tom mais convencional que o livro exigiu?

Sim, um pouco. Ao mesmo tempo, não acredito que o livro precisa ser convencional apenas porque a narrativa acontece no passado. Foi uma combinação de várias coisas. O período me empurrou para o lado tradicional, sim, mas eu também estava cansada de experimentações. Após anos dedicada a testes técnicos, de estrutura e de novas formas de narrativa, foi desafiador escrever um romance nos moldes tradicionais. 

 

Em outra ocasião, você me disse que começa a pensar na narrativa e em personagens apenas após responder as perguntas sobre tempo e espaço. Neste caso, o que levou você a esse período?

Foi a atmosfera. A ideia do livro começou quando pensei em Nova York como uma cidade portuária — algo que não fazemos mais. Você pode morar aqui e nunca prestar atenção na água, nos rios, no significado disso tudo. Em seguida, minha curiosidade me levou ao Arsenal da Marinha do Brooklyn, onde muitas mulheres trabalharam antes e durante a Segunda Guerra Mundial, algo bastante incomum para a época.

 

Quais foram as recompensas do processo de pesquisa?

Parece que parte vital da história da humanidade sempre está morrendo. Praia de Manhattan se passa nas décadas de 1930 e 1940, então, em cerca de dez anos, quase ninguém vai estar vivo para nos contar detalhes daquele período. Entrevistei muitas pessoas que viveram esses anos. Me aproximei delas porque não era suficiente ler relatos em livros. Eu estava interessada em pequenas coisas, queria saber como foi a infância delas, o que faziam. O processo de pesquisa em si foi a grande recompensa que Praia de Manhattan me ofereceu. Isso me enriqueceu como pessoa. Independentemente de como o livro for recebido, essa é uma experiência que ninguém pode tirar de mim. Hoje, vejo a cidade com olhos diferentes. Observo os prédios, as construções, com uma perspectiva diferente.

Você é conhecida por ser uma grande observadora da sociedade americana contemporânea. No novo livro, você escreveu sobre um período distante da sua realidade. Como foi?

Eu tinha o desejo de me sentir conectada a outra época, um passado que não vivi. Esse período me interessa, pois está ligado ao momento em que os Estados Unidos se tornaram uma superpotência. Os eventos que se desencadearam depois da Segunda Guerra Mundial nos colocaram nesse patamar. Saímos da guerra vencedores, fortes e não perdemos nem a metade do que os europeus e os soviéticos perderam. Isso proporcionou uma posição de extremo poder. Muito do que somos hoje, essa noção de “América”, começou naquela época. Infelizmente, agora estamos vendo o outro lado do que significa ser uma superpotência. Pessoalmente, tenho sentimentos conflitantes em relação aos Estados Unidos. Me sinto distante e fascinada ao mesmo tempo.

 

Depois dessa experiência com um romance histórico, o que podemos esperar nos próximos livros: a escritora tradicional ou a experimental?

Experimental. Afinal, já tenho algumas ideias não convencionais em andamento. Acredito que eu precisava de um tempo. Mas agora estou animada com o que vem pela frente. Quero escrever mais rápido. Meus filhos são adolescentes, não precisam tanto de mim. Ou seja, tenho mais tempo para trabalhar. Algo curioso aconteceu durante o processo desse último livro. Como disse, me senti bastante perdida. Então, dividi o dia em dois períodos. Assim, trabalhei em Praia de Manhattan e em outro livro ao mesmo tempo. Já tenho o primeiro rascunho do próximo. 

 

Parece que você está correndo contra o tempo. 

Sim. Pretendo lançar um livro a cada dois ou três anos. Sou muito velha para passar cinco ou seis anos no mesmo livro. Sinto a idade chegando e tenho que ser realista e prática. Estou bem, mas tenho amigos que morreram cedo. Esse tipo de coisa acontece. Então, preciso ser mais rápida. Ainda há tanto que tenho para dizer.

 

testeA vida de Anthony Doerr antes de Toda luz que não podemos ver

*Por Nina Lua

Ainda me lembro do meu primeiro mês no Rio de Janeiro: era fevereiro, estava quente, eu morava de favor e sentia uma saudade imensa de casa. Vim para o Rio para fazer faculdade, e lá se vão quase dez anos. Quatro estações em Roma se passa no ano da minha vinda para o Rio e também fala de uma mudança de cidade: Anthony Doerr — que à época ainda não era um autor best-seller e famoso mundialmente — ganha uma bolsa para morar um ano em Roma se dedicando à escrita. Nenhuma outra exigência: ele recebe um apartamento e um estúdio na Academia Americana de Artes e Letras, além de uma bolsa mensal, para ficar por lá escrevendo. Mas nem tudo é tão simples… Doerr e a esposa acabaram de ter gêmeos. De qualquer forma, a oportunidade é boa demais para recusar. Assim, lá vão os pais de primeira viagem e os bebês, rumo à Itália.

Crédito: Anthony Doerr

Doerr sente um misto de encanto e estranhamento com a nova vida. Em primeiro lugar, porque sai de Boise, uma cidade nos Estados Unidos com cerca de 200 mil habitantes, fundada em 1862, e vai parar em Roma, que tem quase 3 milhões de habitantes e ninguém sabe ao certo quando foi fundada — estima-se que em 800 a.C., mas até isso dá margem discussão. Eu também saí de uma cidade relativamente pequena (Petrópolis) ao vir para o Rio, então entendo bem quando Doerr fala sobre a estranheza que sente em relação à quantidade de carros nas ruas, à confusão dos pedestres, à mistura geral de coisas que parecem desconexas.

Outros estranhamentos dele são bem americanos: ele acha engraçado que os legumes e as verduras sejam vendidos na feira, e não no supermercado; acha curiosíssimo que os italianos fiquem encantados com seus bebês gêmeos e façam gracinhas para eles; e não entende muito bem a existência de açougue, padaria, mercearia etc., tudo separado.

Talvez todas as novidades sejam um pouco imobilizadoras, ou talvez isso seja comum para os escritores, mas o fato é que, quando se vê sem nada para fazer além de escrever, Doerr acaba não conseguindo escrever muito. Ele chega em Roma já com um esboço do que se tornaria Toda luz que não podemos ver, mas o romance acaba saindo só sete anos depois.

A demora compensa: o livro ganha um dos prêmios literários mais importantes do mundo — o Pulitzer —, vira um best-seller e é lançado em vários países. Entre eles o Brasil, onde foi publicado pela Intrínseca. Com o sucesso de Toda luz que não podemos ver, que já vendeu mais de 130 mil exemplares por aqui, a editora decidiu publicar o livro de memórias do autor em que ele relata o ano que passou em Roma. E foi assim que Quatro estações em Roma me encontrou no Rio de Janeiro, quase dez anos depois de Doerr ter voltado da Itália para os Estados Unidos e quase dez anos depois de eu ter vindo me aventurar por aqui. Não acredito em destino, mas não posso negar que a vida é cheia de coincidências.

* Nina Lua é editora assistente de livros estrangeiros da Intrínseca e ainda está se adaptando à vida na metrópole.

testeComo um caramujo

Por Vanessa Corrêa* 

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Resolver um quebra-cabeça sem conseguir enxergar as peças parece uma tarefa impossível? Não para Marie-Laure LeBlanc, que perdeu completamente a visão aos seis anos e se acostumou a ser desafiada pelos intrincados mecanismos que seu pai construía em peças de madeira.

No mundo de Marie-Laure as distâncias são calculadas em passos e os caminhos são memorizados por meio de esquinas, bueiros, ralos nas calçadas e cruzamentos de ruas. É assim que a menina aprende a voltar para casa após passar mais um dia entre os corredores do Museu Nacional de História Natural de Paris, onde seu pai trabalha. E é assim também que ela vencerá a distância entre a Rue Vauborel até a padaria de Saint-Malo, quando o caos da Segunda Guerra tornar necessária sua ajuda para a resistência francesa.

As ruas e os edifícios de Paris que não podem ser vistos pelos olhos de Marie-Laure são reconhecidos por seus dedos em uma detalhada maquete de madeira construída por seu pai. É também por meio das pontas dos dedos que a menina absorve as histórias de Júlio Verne nos livros que ganha de presente. Tendo como únicos amigos o pai e os funcionários do museu, ela encontra no capitão Nemo e no professor Aronnax, do livro 20 mil léguas submarinas, novos companheiros, que despertam sua paixão pelos mistérios das criaturas marinhas.

É no mar que Marie-Laure acaba encontrando consolo após ter sua vida virada de cabeça para baixo pela guerra. Fugindo da ocupação nazista em Paris, ela acaba se refugiando com o pai na pequena cidade de Saint-Malo, no norte da França, e em poucos meses perde todas as referências de sua antiga existência, até restarem somente lembranças e tristezas.

Ajudada pela corajosa governanta Madame Manec, a garota encontra forças no contato com a areia, com conchas, moluscos, algas e as águas geladas do oceano Atlântico. Marie-Laure sonha em ser um caramujo. Mas a menina não quer viver encolhida e escondida de todos. O que ela quer, e o que inveja no caramujo com sua concha, é um refúgio, onde possa estar protegida dos horrores que já enfrentou e dos que ainda estão por vir.

>> Leia um trecho de Toda luz que não podemos ver

 

Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

teste10 livros para o Dia das Mães

Confira nossas sugestões de presentes:

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Como eu era antes de você, de Jojo Moyes Lou Clark, uma jovem cheia de vida e espontaneidade, perde o emprego e é obrigada a repensar toda sua vida. Will Traynor sabe que o acidente com a motocicleta tirou dele a vontade de viver. O que Will não sabe é que a chegada de Lou vai trazer de volta a cor à sua vida. E nenhum deles desconfia de que esse encontro irá mudar para sempre a história dos dois.

Depois de emocionar milhares de leitores no mundo todo, o irresistível romance de Jojo Moyes chega aos cinemas em 16 de junho com roteiro adaptado pela própria autora e estrelado por Emilia Clarke (Game of Thrones) e Sam Claflin (Jogos Vorazes). [Leia +] 

Leia também:  Assista ao trailer e confira a trilha sonora do filme
Conheça a nova capa do livro inspirada no cartaz do filme

Alucinadamente feliz: Um livro engraçado sobre coisas horríveis, de Jenny Lawson  Longe de ser uma pessoa comum, Jenny Lawson se considera uma colecionadora de transtornos mentais: depressão altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada, distúrbio de automutilação brando, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania (que é a compulsão de arrancar os cabelos). Por essa perspectiva, sua vida pode parecer um fardo insustentável. Mas não é.

Após receber a notícia da morte prematura de mais um amigo, Jenny decide não se deixar levar pela depressão e resolve revidar com intensidade, lutando para ser alucinadamente feliz. Mesmo ciente de que às vezes pode acabar uma semana inteira sem energia para se levantar da cama, ela resolve que criará para si o maior número possível de experiências hilárias e ridículas a fim de encontrar o caminho de volta à sanidade. [Leia +]

Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr —  Marie-Laure, cega aos seis anos, vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural. Na Alemanha, o curioso órfão Werner se encanta pelo rádio.

Uma história arrebatadora contada de forma fascinante. Com incrível habilidade para combinar lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, o premiado autor Anthony Doerr constrói, em Toda luz que não podemos ver, um tocante romance sobre o que há além do mundo visível. [Leia +]

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Eu sou o Peregrino, de Terry Hayes  Uma mulher é brutalmente assassinada em um hotel decadente de Manhattan, seus traços dissolvidos em ácido. Um pai é decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita. Na Síria, um especialista em biotecnologia tem os olhos arrancados ainda vivo. Restos humanos ardem em brasas na cordilheira Hindu Kush, no Afeganistão. Uma conspiração perfeita, arquitetada para cometer um crime terrível contra a humanidade, e apenas uma pessoa é capaz de descobrir o ponto exato em que todas essas histórias se cruzam.

Romance de estreia do renomado roteirista britânico Terry Hayes (Mad Max 2 e Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão), Eu sou o Peregrino é uma narrativa ágil, com ritmo alucinante, cujos personagens são construídos de forma primorosa em toda a sua complexidade psicológica. Uma jornada épica e imprevisível contra um inimigo implacável. [Leia +]

É isso que eu faço: Uma vida de amor e guerra, de Lynsey Addario — Após os atentados de 11 de Setembro, a fotojornalista Lynsey Addario foi chamada para cobrir a invasão americana ao Afeganistão. Nesse momento, ela fez uma escolha que se repetiria muitas vezes depois: abrir mão do conforto e da previsibilidade a fim de correr o mundo confrontando com sua câmera as mais duras verdades.

As imagens captadas pelas lentes de Lynsey parecem buscar sempre um propósito maior. No livro, ela retrata os afegãos antes e depois do regime talibã, os cidadãos vitimados pela guerra e os insurgentes no Iraque, expõe a cultura de violência contra a mulher no Congo e narra a ocasião do próprio sequestro, orquestrado pelas forças pró-Kadafi durante a guerra civil na Líbia. [Leia +]

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O amor segundo Buenos Aires, de Fernando Scheller Com largas avenidas, cafés em estilo europeu e bairros charmosamente decadentes, Buenos Aires é o lugar perfeito para histórias de amor inesquecíveis. A capital argentina é cenário e, ao mesmo tempo, personagem do primeiro romance de Fernando Scheller, repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

É por amor que Hugo deixa o Brasil rumo à capital argentina. Embora o relacionamento com Leonor não sobreviva, seu fascínio pela cidade resiste à dor da separação e à descoberta de que sofre de uma grave doença. Hugo cria laços com o arquiteto Eduardo e com a comissária de bordo Carolina, que evidenciam o poder regenerador das amizades verdadeiras. Ele se reaproxima de seu pai, Pedro, que troca a rotina de um casamento desgastado por uma vida em que é possível encontrar profundos afetos. [Leia +] Leia também: Colunas de Fernando Scheller publicadas no blog

Uma pergunta por diaTodos os dias criamos uma imensa quantidade de registros em celulares, redes sociais e aplicativos. No entanto, quase nunca temos o hábito de retornar a eles. Às vezes podem parecer só besteiras, mas quantos desses relatos não mostrariam nosso crescimento e nossas mudanças em todos esses anos?

Uma pergunta por dia convida a registrar suas respostas a uma variedade de questões, das mais simples às mais complicadas, como “Para onde você quer fazer sua próxima viagem?” ou “Escreva a primeira linha da sua autobiografia”. Em cada página há espaço para cinco respostas, uma por ano, ao longo de cinco anos. Com o passar do tempo, quando voltar a um dia já anotado, o dono do diário encontrará seus pensamentos anteriores, num exercício divertido e construtivo de recordar e refletir. [Leia +]

Operação Impensável, de Vanessa Barbara — Neste romance, vencedor do Prêmio Paraná de Literatura em 2014, Vanessa Barbara acompanha os cinco anos de relacionamento entre Lia e o programador Tito, um amor pontuado por e-mails espirituosos, vocabulário próprio, muitas sessões de cinema e longas e disputadas partidas de jogos de tabuleiro. Com toques de humor ácido, ela desvenda a lenta desintegração de um casamento. O afeto e a cumplicidade dão lugar à desconfiança, a um clima de tensão e de ameaças implícitas. Como na Guerra Fria, objeto de pesquisa da dissertação de mestrado de Lia, não há um confronto bélico declarado, embora algo sempre pareça prestes a explodir. [Leia +] Leia também: Colunas de Vanessa Barbara publicadas no blog

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A sexta extinção, de Elizabeth Kolbert — Ao longo dos últimos quinhentos milhões de anos, o mundo passou por cinco extinções em massa. Hoje, a sexta extinção vem sendo monitorada, e a causa não é um asteroide ou algo similar, e sim a própria raça humana. Vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção de 2015, A sexta extinção explica de que maneira o ser humano tem alterado a vida no planeta como absolutamente nenhuma espécie fez até hoje. Para isso, Kolbert apresenta trabalhos de dezenas de cientistas em diversas áreas e viaja aos lugares mais remotos em busca de respostas. [Leia +]

Miniaturista, de Jessie Burton — Após um casamento arranjado com um ilustre comerciante de Amsterdã, Nella Oortman recebe um extraordinário presente: uma réplica de sua nova casa em miniatura, capaz de ajudá-la a desvendar os segredos — e perigos — da família. Eleito o melhor livro de 2014 pelo Observer e traduzido para 32 idiomas, Miniaturista é uma magnífica história de amor e obsessão, traição e vingança, aparência e verdade. [Leia +]

testeO céu nem sempre protege, nem os dinossauros nem a nós

Por Amâncio Friaça*

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Uma camada de argila que revolucionou a ciência

Walter Alvarez tinha um sério problema para o qual precisava da ajuda do pai. Walter era geólogo, e seu pai, o físico Luis Alvarez, foi o vencedor do Prêmio Nobel de Física de 1968 pela descoberta de um grande número de estados de ressonância das partículas elementares — proporcionada pela sua invenção da câmera de bolhas de hidrogênio líquido. Luis era um sujeito que adorava desafios exóticos. Certa vez havia usado um detector de raios cósmicos para descobrir se a pirâmide egípcia de Quéops continha uma câmara secreta, que segundo a lenda estaria repleta de tesouros. No final, verificou que o interior da Grande Pirâmide era pura rocha sólida.

Agora, Luis tinha mais um mistério para solucionar. Quando Walter trabalhava em Gubbio, nos Apeninos italianos, encontrou um paredão especial de calcário que havia sido o fundo do oceano há milhões de anos. Ao escavar, Walter observou uma imensa quantidade de fósseis, em geral quase microscópicos. No entanto, havia uma camada de argila, com pouco mais de um centímetro de espessura, que formava um minideserto geológico. Abaixo dessa camada, ele identificou calcário do último estágio do período cretáceo, no fim da era secundária, a era dos dinossauros.

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Camada de argila em Gubbio, com um bombom marcando o local. Foto: Elizabeth Kolbert

A parede descoberta por Walter estava repleta de foraminíferos, minúsculas criaturas marinhas que possuem conchas dos mais diversos formatos. Os foraminíferos da camada inferior, pertencente ao Cretáceo, eram relativamente grandes e muito diversificados. Na camada seguinte, os foraminíferos simplesmente desapareciam. Eles só voltavam a aparecer nos estratos de calcário acima, já pertencentes ao período terciário, quando os dinossauros estavam extintos. Os foraminíferos de cima eram de espécies diferentes dos que estavam abaixo da lâmina de argila, menores e menos variados. O que intrigou Walter Alvarez foi justamente a transição tão repentina.

Como a maioria dos geólogos até então, a formação de Walter havia sido uniformitarista, linha de pensamento que prega que a extinção de uma espécie acontece de forma gradual. Mas não era isso que aquela camada de argila mostrava. Parecia haver uma descontinuidade real e abrupta entre o Cretáceo e o Terciário. Além disso, era intrigante a coincidência da época da extinção dos grandes foraminíferos com a dos dinossauros. Para começar a resolver o enigma, ele precisava datar a camada de argila.

Coube a seu pai, Luis Alvarez, imaginar um método para determinar a idade da argila: medir a quantidade de irídio — elemento raro do grupo dos metais preciosos, que inclui o ouro e a platina. Quando os resultados vieram, o espanto foi total. O irídio na camada de argila entre o Cretáceo e Terciário vinda da Itália era trinta vezes mais abundante do que o esperado na Terra! Alvarez logo percebeu que o material teria que ter origem extraterrestre, já que o irídio é muito mais abundante em asteroides do que em nosso planeta.

A descoberta levou a uma hipótese extremamente ousada: se um asteroide tivesse se chocado com a Terra na época da extinção dos dinossauros, no final do Cretáceo, ele poderia ser a causa tanto do excesso de irídio como da própria extinção dos animais. Para confirmar, eles buscaram outras amostras de argila da camada de transição Cretáceo-Terciário.

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Foraminíferos têm formas peculiares e, às vezes, extravagantes. Foto: ER Degginger/ Science Source

Fragmentos vindos da Nova Zelândia mostravam um excesso de irídio de vinte vezes, e outros, provenientes da Dinamarca, tinham uma superabundância de 120 vezes! Em todos os casos, as camadas de calcário acima e abaixo da argila na transição apresentavam composição química similar. Com base nesses dados todos, Alvarez, pai e filho, junto com Frank Asaro e Helen V. Michel, do Lawrence Berkeley Laboratory, puderam publicar na renomada revista científica Science seu escandaloso artigo: “Uma causa extraterrestre para a extinção Cretáceo-Terciário”.

As reações ao artigo da Science foram, em geral, de repúdio, já que utilizava argumentos astrofísicos para explicar o fim de toda uma era geológica, o Mesozoico. Geólogos e biólogos também ficaram furiosos com a intromissão de um Nobel de Física no que consideravam um assunto no qual eles eram os especialistas. Além disso, Walter foi acusado pela comunidade científica de se colocar contra o uniformitarismo, visão-padrão dentro da teoria da evolução, abraçada desde Darwin. Alvarez acabou sendo chamado de catastrofista, o que era praticamente um xingamento para os biólogos evolucionistas da década de 1980.

Desenvolvido pelo naturalista francês Georges Cuvier (1769-1832), o catastrofismo defendia o desaparecimento abrupto de várias espécies ao mesmo tempo e foi considerado por grande parte dos geólogos uma doutrina equivocada e inteiramente ultrapassada. Mas Alvarez provou estar certo. Embora a biosfera possa se manter estável em média por uns 100 milhões de anos, ela às vezes sofre um colapso generalizado. A grande extinção que deu fim aos dinossauros, há 65 milhões de anos, foi a quinta de uma série de extinções em massa, a primeira tendo acontecido há 425 milhões de anos. A queda do asteroide que marcou a extinção Cretáceo-Terciário, atualmente conhecida como evento de extinção Cretáceo-Paleógeno (K-Pg), promoveu a extinção em massa de cerca de 75% das espécies de plantas e animais da Terra. O asteroide tinha 10 quilômetros de diâmetro e liberou 100 milhões de megatons na explosão. Para comparar, a bomba de Hiroshima foi de 15 quilotons.

Além da onda de choque que varreu o planeta em horas e de um megatsunami, o impacto seguiu-se de uma chuva de detritos incandescentes que caiu, durante semanas, por toda a superfície da Terra e gerou incêndios globais. Porém, o pior ainda estaria por vir. O local de impacto, a península de Yucatán, no México, continha rochas ricas em enxofre. A colisão criou aerossóis à base de sulfato — extremamente eficazes para bloquear a luz solar. E cerca de sessenta vezes mais matéria do que a do asteroide foi pulverizada e lançada à atmosfera. Após o calor abrasador da queda do material mais pesado, os aerossóis entraram em ação bloqueando a luz e resfriando o planeta. Foi o início de um mortal “inverno nuclear”. A fotossíntese cessou e as temperaturas despencaram. Foram liquidadas as grandes comunidades vegetais típicas da época dos dinossauros e todos os animais terrestres com mais de 20 quilos morreram.

link-externoLeia também: Quatro cientistas que mudaram nossa concepção sobre a origem e o fim da vida

 

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Evento de Tunguska. Foto: Leonid Kulik Expedition, Wikipedia

O céu continua nos ameaçando

O chamado Evento de Tunguska é uma versão atual, em escala menor, do impacto que acabou com os dinossauros. Em 30 de junho de 1908, uma grande explosão ocorreu em Tunguska, bem no meio da Sibéria. A explosão achatou 2 mil quilômetros quadrados de floresta de taiga. Não há registro de vítimas, mas apenas porque a região é pouquíssimo povoada. Porém, testemunhas a centenas de quilômetros do centro da colisão foram arremessadas longe devido à força da onda de choque.

Acredita-se que a explosão tenha sido causada pela queda de um pequeno asteroide ou um fragmento de cometa. Contudo, nenhuma cratera de impacto foi encontrada. O objeto deve ter explodido em pleno ar a uma altitude de 5 a 10 quilômetros em vez de se chocar com a superfície da Terra. As estimativas de diâmetro variam de 60 a 190 metros, dependendo se o meteoro era um fragmento de cometa, cujo principal constituinte é gelo, ou um asteroide, composto de rocha de maior densidade. É o maior evento de impacto na Terra registrado pela história. A energia da explosão foi entre 10 e 30 megatons.

E a história se repetiu — ao menos na Rússia. No dia 15 de fevereiro de 2013, um meteoro gigante (ou bólido) explodiu sobre a cidade russa de Chelyabinsk, na região dos montes Urais. Embora o evento tenha deixado um saldo de ao menos mil feridos e grandes danos materiais — o enorme teto de uma fábrica foi arrancado —, felizmente ninguém morreu. E isso apesar da energia do impacto ter sido de 440 quilotons.

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Passagem do meteoro em Chelyabinsk. Foto: AP

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Local do impacto do meteoro em Chelyabinsk. Foto: AP

Para a sorte dos moradores de Chelyabinsk, a explosão ocorreu na alta atmosfera, 24 quilômetros acima da cidade. Foi uma surpresa total para a comunidade científica, que aguardava para o mesmo dia a aproximação máxima com a Terra do asteroide 2012DA14, que passaria — e passou — a apenas 27.700 quilômetros acima de Sumatra. Na verdade, essa foi a maior aproximação de um asteroide já registrada. Passou tão perto da Terra que cruzou a órbita dos satélites geoestacionários, a 36 mil quilômetros do nosso planeta.

Porém, os dois eventos não estavam relacionados. O asteroide 2012DA14 passou em uma direção alinhada à órbita terrestre, enquanto o bólido que atingiu a Terra vindo da direção do Sol seguiu uma trajetória que quase tocava a órbita de Vênus. O meteoro tinha diâmetro de 18 metros, peso de 11 mil toneladas e velocidade de aproximação da Terra de 67 mil quilômetros por hora. Já o asteroide tinha um diâmetro de 30 metros, massa de 40 mil toneladas e velocidade relativa de 28 mil quilômetros por hora. Se tivesse penetrado a atmosfera terrestre, teria produzido uma explosão de 700 quilotons a uma altitude de 16 quilômetros. A maior energia do impacto e a menor altura resultariam em consequências muito mais graves do que as do bólido de Chelyabinsk.

O fato de o meteoro de Chelyabinsk não ter sido percebido antes da entrada na atmosfera é um alerta para o perigo que nos ronda no espaço. Há muitos asteroides que passam muito perto da Terra, os chamados NEOs (da sigla em inglês, Near-Earth Objects, ou Objetos Próximos à Terra). Alguns deles passam tão perto de nós quanto a órbita da Lua. A monitoração dos NEOs é importante se quisermos evitar catástrofes no futuro. Mesmo os bólidos, os meteoros gigantes, que são menores que os asteroides, já geram uma quantidade de energia considerável ao impactar com a atmosfera terrestre, e a grande maioria até agora não tem sido detectada.

Segundo informações divulgadas pelo Programa de NEOs da NASA, entre 1994 e 2013 556 eventos de bólidos de níveis variados de energia foram registrados. O bólido de Chelyabinsk foi o com maior energia de impacto da lista, e catorze tinham uma energia maior do que 2,5 quilotons. O monitoramento continuado dos NEOs é essencial para a prevenção de catástrofes que atinjam nosso planeta e a humanidade.

 

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Talvez a grande ameaça esteja bem aqui

Porém, talvez a maior ameaça à vida na Terra não seja extraterrestre, mas sim nós mesmos. Desde a Revolução Industrial, a atividade humana tornou-se o principal motor de mudança ambiental planetária e está prejudicando a estabilidade da vida no planeta.

Entramos numa nova época, o Antropoceno, o período da Humanidade — termo cunhado em 2000 por Paul Crutzen, Prêmio Nobel de Química de 1995 por seu trabalho sobre a destruição da camada de ozônio. As pressões que exercemos na Terra ultrapassam, em muitos casos, a capacidade de recuperação do planeta. Todos conhecem o aquecimento global causado pela queima de combustíveis fósseis, porém, a maior transgressão que estamos cometendo é contra a biodiversidade. Um certo grau de extinção é totalmente natural. No entanto, a ação humana está causando uma taxa de extinção de espécies de cem a mil vezes maior ao nível pré-industrial.

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A sexta extinção - CAPA E LOMBADA.inddA humanidade deu início à sexta extinção em massa dos últimos 500 milhões de anos. Vivemos em tempos muito perigosos. Com as espécies que desaparecem, perdemos recursos fundamentais para a nossa sobrevivência. Contudo, perdemos muito mais. Cada ser vivo que vai embora leva um pedaço do nosso mundo simbólico. São extintas também várias espécies de beleza, do que é admirável e do que é sublime.

Em A sexta extinção, livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção de 2015, Elizabeth Kolbert explica de que maneira o ser humano alterou a vida no planeta como absolutamente nenhuma espécie o fizera até hoje. Para isso, lança mão de trabalhos de dezenas de cientistas nas searas mais diversas e vai aos lugares mais remotos em busca de respostas. Eleito um dos melhores livros do ano pelo The New York Times, o livro trata de temas complexos de forma simples e acessível, e é indicado tanto para estudiosos quanto para leigos no assunto. 

 

Amâncio Friaça é astrônomo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Trabalha em astrobiologia, cosmologia, evolução química do universo e nas relações entre astronomia, cultura e educação. Foi o responsável pela revisão técnica da edição revista de Uma breve história do tempo, lançada em 2015 pela Intrínseca.

 

testeSemana especial Toda luz que não podemos ver

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Toda luz que não podemos ver foi o grande vencedor do Pulitzer de 2015 na categoria ficção. O romance de Anthony Doerr vem encantando milhares de leitores e está na lista de mais vendidos dos veículos nacionais há sete meses.

Ambientado na França e na Alemanha de antes e durante a Segunda Guerra Mundial, Toda luz que não podemos ver conta as histórias de Marie-Laure, uma garota cega francesa, e Werner, um órfão alemão que recebe dos nazistas a missão de descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia.

Toda luz que nao podemos verPara debater mais sobre Toda luz que não podemos ver, convidamos os nossos parceiros para uma semana de ações especiais. Confira os posts e os vídeos divididos por tema:

O que torna Toda luz que não podemos ver um romance inesquecível?
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Uma carta para o personagem favorito:
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Trechos favoritos:
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Sugestões de livros com histórias passadas na Segunda Guerra Mundial:
Parafraseando livros| Sobre livros e traduções |Fleur de Lune

link-externo Leia A bondade nos tempos de guerra
Conheça o vencedor do Pulitzer Anthony Doerr
Oito livros sobre histórias durante a Segunda Guerra Mundial

testeQuatro cientistas que mudaram nossa concepção sobre a origem e o fim da vida

Por Bernardo Barbosa*

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A Terra existe há 4,5 bilhões de anos e o Homo sapiens moderno está por aí há mais ou menos duzentos mil. Mas não faz nem três séculos que o ser humano começou a ter conhecimentos embasados sobre a origem e o fim das espécies. Conheça alguns dos estudiosos que nos deram algumas das melhores pistas sobre como é habitar este planeta.

 

1 – Georges Cuvier (batizado Jean-Léopold-Nicolas-Frédéric Cuvier) (1769-1832)

cuvier009O naturalista francês especializou-se no estudo de fósseis, interpretando-os com uma precisão sem precedentes. Graças a ele, o grande público conheceu o mastodonte, a preguiça-gigante e o pterodáctilo, entre outras espécies. A partir dos fósseis, Cuvier chegou à teoria de que havia seres sem representantes no presente, gerando a ideia até então inédita de extinção ainda no fim do século XVIII. Na época, ninguém acreditava, ao menos abertamente, que Deus poderia criar seres vivos passíveis de desaparecimento.

No entanto, para Cuvier a extinção das espécies se devia exclusivamente a grandes catástrofes que assolavam a Terra de tempos em tempos. Ele refutava a noção de evolucionismo, defendendo que cada organismo só poderia funcionar como um todo; a mutação de uma espécie a inviabilizaria. Sua noção de catastrofismo viria a ser superada em seguida pelas teorias de Lyell e Darwin, mas retomada no século XX com o desenvolvimento dos estudos sobre as extinções em massa.

 

2 – Charles Lyell (1797-1875)

Charles_Lyell_printO britânico Lyell era advogado e ficou famoso como geólogo. Rejeitava o catastrofismo e defendeu o uniformitarismo, ou seja, a noção de que a Terra é moldada por processos constantes e semelhantes ao longo de grandes espaços de tempo. Tais mudanças, segundo Lyell, são imperceptíveis para os seres humanos, cuja vida tem uma duração ínfima em termos geológicos. Ele conseguiu comprovar, por exemplo, mudanças graduais no nível dos oceanos.

A aparente estabilidade da sequência de processos que moldam a Terra também levou Lyell a defender que o mesmo se aplicaria aos seres que habitam o planeta; era essa a sua ideia de evolução das espécies. No entanto, o britânico não abraçou a noção de seleção natural, que marcou a teoria de seu contemporâneo e amigo Charles Darwin.

 

3 – Charles Darwin (1809-1882)

220px-Charles_Darwin_seated_cropApesar de Lyell não concordar com a teoria da seleção natural, sua obra influenciou o britânico Charles Darwin de forma decisiva. A bordo do navio Beagle, em que rodou o planeta ao longo de cinco anos, ele devorou a obra do geólogo e assimilou a tese de um fluxo permanente e gradual de mudanças ao longo de um extenso período de tempo.

Darwin passou praticamente duas décadas desenvolvendo sua teoria de origem e evolução das espécies. Só publicou suas ideias em meados do século XIX, mas revolucionou a biologia ao estruturar os mecanismos que agem no processo evolutivo.

 

4 – Walter Alvarez (1940)

841163Filho de um vencedor do Prêmio Nobel de Física, o geólogo americano encontrou evidências para a extinção que varreu os dinossauros da Terra. No fim dos anos 1970, durante pesquisas de campo na Itália, Alvarez encontrou uma camada de terra com 65 milhões de anos de idade com concentrações incomuns de irídio, mineral raro no planeta mas muito abundante em asteroides.

A descoberta do geólogo e de sua equipe levou à teoria de que um asteroide atingiu a Terra, causando a criação de uma nuvem de detritos que cobriu o planeta e levou a uma extinção em massa — foi o fim de 75% das espécies da Terra, incluindo os dinossauros. Nos anos seguintes, mais de cem depósitos de irídio em alta concentração foram detectados nos mais diversos pontos do planeta. Além disso, foi encontrada uma gigantesca cratera no México causada pelo impacto de um asteroide, local que hoje é tido como o ponto original dessa extinção em massa.

 

A sexta extinção - CAPA E LOMBADA.inddAs descobertas de Cuvier, Lyell, Darwin e Alvarez levam à explicação do paleontólogo David Raup, citado em A sexta extinção sobre a história da vida na Terra: “Longos períodos de tédio interrompidos pelo pânico ocasional.”

Em A sexta extinção, vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção de 2015, Elizabeth Kolbert explica de que maneira o ser humano alterou a vida no planeta como absolutamente nenhuma espécie o fizera até hoje. Para isso, lança mão de trabalhos de dezenas de cientistas nas searas mais diversas e vai aos lugares mais remotos em busca de respostas. Eleito um dos melhores livros do ano pelo The New York Times, o livro trata de temas complexos de forma simples e acessível, e é indicado tanto para estudiosos quanto para leigos no assunto.

link-externoLeia outro artigo sobre A sexta extinção

 

Bernardo Barbosa é jornalista, ser humano e, por isso, teme as retaliações do mundo natural. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias EFE.

testeO inferno somos nós

Por Bernardo Barbosa*

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É como se estivéssemos à beira de um abismo e, sem muita noção do que estamos prestes a fazer, continuássemos seguindo adiante. A sexta extinção: Uma história não natural, livro de Elizabeth Kolbert vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção em 2015, investiga como o ser humano se firmou como “espécie daninha” na Terra a ponto de provocar uma extinção em massa — fenômeno capaz de alterar drasticamente a vida no planeta que só ocorre em intervalos de dezenas de milhões de anos. No atual ritmo, as indicações são de que caminhamos rumo ao nosso próprio extermínio.

“Não é algo que fazemos porque nossa espécie é gananciosa ou má. Acontece porque humanos são humanos. Muitas das qualidades que nos tornaram bem-sucedidos — somos espertos, criativos, móveis e colaborativos — podem ser destrutivas para a natureza”, afirmou Kolbert ao The New York Times.

Em A sexta extinção, a autora traduz em termos práticos e em linguagem acessível o que está em jogo — ou ao menos deveria estar — nas convenções mundiais sobre o clima e outros eventos do gênero. Cada capítulo parte da extinção de uma determinada espécie para exemplificar as consequências da interferência humana (caça predatória, desmatamento, mudança climática etc.) e revelar como conseguimos subjugar, intencionalmente ou não, todas as outras formas de vida da Terra. Ao mesmo tempo, mostra que o ser humano é capaz de esforços inimagináveis pela preservação de outras espécies que não a sua. É o caso, por exemplo, da cientista do zoológico de San Diego que se dedica a tentar fazer com que o corvo-do-havaí Kinohi ejacule e seu esperma seja usado para inseminar fêmeas também mantidas em cativeiro (a espécie está extinta na natureza e sobrevive com cerca de cem exemplares em centros de pesquisa).

A sexta extinção - CAPA E LOMBADA.inddKolbert rodou o mundo para colher casos concretos do que o homem fez e faz de bom e de mau. O extraordinário esforço de reportagem (ela fez carreira na redação do jornal The New York Times e hoje integra a equipe da revista The New Yorker) rendeu o prêmio Pulitzer, e ninguém menos que Barack Obama resolveu incluir o livro em sua lista de leituras de férias. Do presidente americano aos meros mortais, qualquer leitor de A sexta extinção poderá aprender sobre diversas vertentes do vandalismo humano: desde o extermínio do arau-gigante, um pássaro gigante que não voava e virou fonte fácil de alimento no Atlântico Norte, entre os séculos XVI e XIX; passando pela contaminação fatal de diversas espécies de anfíbios ao redor do mundo por um fungo que pegou carona em grandes deslocamentos humanos; até chegar à acidificação dos oceanos que está acabando com a Grande Barreira de Corais, cuja existência poderá se resumir a “bancos de pedra em erosão acelerada” já em 2050, segundo um artigo científico publicado pela revista Nature e citado no livro.

E, no entanto, Kolbert ressalta como até algumas centenas de anos atrás parecia que o homem mal sequer acreditava no conceito de extinção; a ideia aparece entre o fim do século XVIII e o começo do XIX com os estudos do naturalista Georges Cuvier. A possibilidade de uma extinção em massa causada ou acelerada por um agente externo — uma grande catástrofe ou uma “espécie daninha” — ainda demoraria muito para ser aceita. Só no começo da década de 1990 se pôde comprovar que a quinta extinção em massa — a que varreu, entre outras espécies, os dinossauros há cerca de 66 milhões de anos — ocorreu após a queda de um asteroide. Se não temos o mesmo impacto imediato da queda de um corpo extraterrestre, o que estamos fazendo não fica nada longe se levarmos em conta a escala de tempo do planeta, medida em milhões de anos.

“Eles (os outros seres vivos) não estavam prontos para nós”, disse E. O. Wilson, renomado biólogo americano e um dos principais estudiosos da ação humana na Terra, em entrevista a Kolbert anterior à publicação de A sexta extinção. “Em outras palavras, somos únicos enquanto destruidores. Em escala global, nunca houve nada como o ser humano”, acrescentou.

De fato, até onde se sabe, não há trajetória no planeta comparável à nossa. O ser humano começou a transformar o ambiente para valer há mais ou menos dez mil anos, quando dominamos a agricultura e deixamos de ser nômades. Kolbert descreve como nos espalhamos pelo mundo em velocidade admirável, nos adaptando a praticamente todo tipo de variação ambiental e carregando conosco inúmeros invasores. Junte isso ao fato de que, de acordo com dados da ONU e do governo americano, desde o começo do século XX a população humana se multiplicou por quatro e nossa expectativa de vida dobrou. Para a natureza, essa conta está cada vez mais longe de fechar.

Somos a única espécie que tem consciência dos caminhos que pode seguir e depende basicamente das próprias escolhas. Somos a espécie responsável pela sexta extinção e, ao mesmo tempo, a única que pode tentar interrompê-la. Em entrevista à National Geographic, Kolbert resumiu:

“A história de Kinohi aparentemente reúne todas as qualidades do ser humano que, de alguma forma, são o assunto do livro. É sobre a incrível inteligência e preocupação das pessoas, de seus esforços heroicos para salvar partes do mundo natural — e ao mesmo tempo ele persiste com ataques cada vez maiores.”

link-externoLeia um trecho de A sexta extinção: uma história não natural

Bernardo Barbosa é jornalista, ser humano e, por isso, teme as retaliações do mundo natural. Trabalhou no jornal O Globo e na agência de notícias EFE.

testeConheça o vencedor do Pulitzer Anthony Doerr

Por João Lourenço*

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Abril é um mês diferente em Nova York. Marca o início da primavera e a chegada dos dias longos e das noites azuis. Abril é quando o Central Park floresce, o casaco pesado retorna ao armário e as mesas voltam às calçadas. Em uma Manhattan menos visível a olho nu, abril também é o mês de apostas e expectativas. A questão entre escritores, editores e, claro, leitores é a mesma: quem vai levar o Pulitzer de ficção? Além de ser o prêmio de maior prestígio da literatura americana, o Pulitzer não divulga os finalistas antes da cerimônia.

No dia 20 de abril, enquanto o prêmio era anunciado na Universidade de Columbia, Anthony Doerr estava em Paris, tomando sorvete com os filhos. Shauna Doerr, mulher do escritor, acompanhava escondida o resultado da premiação pelo Youtube. “Ela entrou tremendo na sala e disse que eu era o vencedor. Demorei um pouco para entender do que ela estava falando. Logo após a notícia, meu celular começou a tocar. Atendi ligações até a hora de ir dormir. Eu sabia que o prêmio seria divulgado naquele dia, mas tentei não pensar nisso.”

Inesperado para o escritor, o prêmio reforçou o prestígio de que Toda luz que não podemos ver já desfrutava entre o público. Há mais de um ano, o romance está na lista de mais vendidos do New York Times. Após o anúncio da honraria, a editora americana de Doerr mandou imprimir mais 100.000 cópias do livro. Apenas nos EUA, mais de 1 milhão de exemplares da obra já foram vendidos. E não para por aí: Scott Rudin, produtor dos filmes A Rede Social e Capitão Philips, vai adaptar o livro para o cinema.

Esse é o quinto livro de Anthony Doerr. Antes, ele já havia publicado duas coletâneas de contos, The Shell Collector e Memory Wall; um livro de memórias sobre o ano que passou na Itália, Four Seasons in Rome; e um romance, About Grace. Todos foram premiados, mas nenhum fez tanto barulho quanto Toda luz que não podemos ver.

Capa_TodaLuzQueNaoPodemosVer_WEBCom mais de 500 páginas, o romance histórico é ambientado na Alemanha e na França antes e durante a Segunda Guerra Mundial. A obra entrelaça as histórias de uma garota cega francesa, um garoto órfão alemão e um oficial nazista em busca de uma joia extremamente valiosa. A narrativa se move entre presente, passado e futuro. Segundo Doerr, a técnica imprime velocidade e suspense à trama — e também permite ao leitor um respiro entre as histórias de cada personagem.

A regra mais importante de Doerr, seguida durante a criação do romance, era não permitir que o livro soasse como uma aula de história. Ao todo, ele demorou 10 anos para finalizá-lo. “Não é uma tarefa fácil escrever um livro desse tamanho quando você é pai de gêmeos. A semelhança entre ser pai e escritor de ficção é que você não tem como prever o futuro: é impossível saber se você está fazendo um bom trabalho como pai, assim como é impossível saber se está fazendo um bom trabalho como escritor.”

Para Doerr, um bom livro deve ensinar uma lição e nos transportar para lugares que até então desconhecíamos, lugares capazes de nos fazer sonhar por um futuro melhor. Como leitor, a maior lição que tirei de Toda luz que não podemos ver foi o lembrete de que a vida real também pode ser um lugar mágico. Visíveis ou não, pequenos milagres nos rodeiam e acontecem o tempo todo.

Questionado diversas vezes sobre o sucesso da obra, Doerr é categórico: “Não tenho como explicar como um livro faz mais sucesso do que o outro, nem quero pensar muito nisso. Sou grato e fico contente em saber que as pessoas podem redescobrir esse livro em futuras gerações, quando eu já estiver debaixo da terra. Isso é fascinante!”.

 link-externoLeia um trecho de Toda luz que não podemos ver

Anthony Doerr nasceu e foi criado nos arredores de Cleveland, Ohio. Filho do proprietário de uma pequena gráfica e de uma professora, seu interesse por literatura surgiu logo na infância. “Não tinha como ser diferente. Minha mãe, além de dar aulas de ciência e matemática para mim e meus dois irmãos, também lia para a gente antes de nos colocar para dormir.” Ao contrário dos irmãos mais velhos, ele não estava apenas interessado em ouvir as histórias fantásticas de Nárnia, de C.S. Lewis. Queria saber como o autor criava um universo tão rico e particular.

Após terminar o Ensino Médio, Doerr desbravou cantos remotos, como África e Nova Zelândia, onde passou meses cuidando de uma fazenda de ovelhas. Também trabalhou em um lavatório de peixes no Alasca. De volta aos EUA, estudou História e Inglês. Em seguida, apesar de sempre ter mantido um diário pessoal e escrito inúmeros contos que nunca chegaram a ser compartilhados com ninguém, inscreveu-se em um curso de escrita criativa. “Fui atrás do curso para criar coragem para publicar algo. De onde eu venho, ninguém te leva a sério quando você diz que quer ser um escritor. As pessoas costumam achar que isso é um hobby e não uma profissão. Estudar literatura e os mecanismos da ficção me ajudaram a deixar essa mentalidade de lado.”

Hoje, aos 41 anos, Anthony Doerr mora em Boise, Idaho, com a mulher e os filhos gêmeos, de 11 anos. “Tudo que eu desejo agora é continuar indo para o meu escritório, de bicicleta, para criar e recriar universos fantásticos. Fico feliz com o Pulitzer, mas não quero ser uma celebridade ou coisa do tipo. Sinto que agora posso trabalhar com mais calma, deixar um pouco a pressão de lado.”

link-externoLeia também: A metáfora da esperança de Jennifer Egan ou “tudo começou aqui”, por Marcelo Costa

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaare com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Agora, está em NYC tentando escrever seu primeiro romance.

testeToda luz que não podemos ver recebe o Pulitzer de ficção

Foto_Toda luz que nao podemos verToda luz que não podemos ver, romance de Anthony Doerr, foi o grande vencedor do prêmio de ficção da edição 2015 do Pulitzer. Mais de dois mil e quinhentos trabalhos jornalísticos e artísticos foram inscritos nas vinte e uma categorias da tradicional premiação da Universidade de Columbia, cuja lista de vencedores foi divulgada no último dia 20.

Recém-publicado no Brasil, o livro de Anthony Doerr apresenta uma história arrebatadora sobre uma garota francesa cega e um menino alemão durante a Segunda Guerra Mundial. O autor, que também é historiador, levou dez anos para escrever a obra. Finalista do National Book Award em 2014, Toda luz que não podemos ver é também um enorme sucesso de público — já vendeu mais de 1 milhão de exemplares nos Estados Unidos e figura há mais de um ano na lista de best-sellers do The New York Times.

Leia um trecho