testeHidra de três cabeças? Dilma, Lula, e Trump

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A Hidra de Lerna da políitca americana: Donald Trump. (Fonte)

Diz-se que a Hidra de Lerna é uma serpente com múltiplas cabeças e que, se, porventura, uma delas for cortada, nascem outras duas em seu lugar. A Hidra de Lerna, assim como outros seres exóticos, habita o universo de O livro dos seres imaginários, de Jorge Luis Borges, um de meus escritores prediletos.

Por que, porém, falo da Hidra? Afinal, pediram-me que escrevesse uma coluna sobre a borboleta-azul. Explico.

Tenho pensado muito na eleição de Donald Trump aqui nos Estados Unidos. Tenho refletido sobre o que o presidente eleito revelou até agora sobre sua personalidade, suas preferências e seus planos econômicos. Cheguei à conclusão de que ele é como a Hidra de Lerna: uma criatura que tem a cabeça de Collor, a cabeça de Lula e a cabeça de Dilma.

 

A cabeça de Collor

Trump nasceu rico, como Collor. Durante sua campanha, prometeu “drenar o pântano de Washington”, livrando-se das grandes corporações e dos lobistas que influenciam políticos por interesse próprio. Espécie de caçador de marajás à americana. Trump não quer morar na Casa Branca, a residência oficial, embora tenha de fazê-lo ao menos durante parte da semana. Nos fins de semana, talvez possa retornar à sua casa da dinda: a Trump Tower, em Manhattan.

A cabeça de Lula

Ao longo de toda a campanha, Trump prometeu lutar pela classe trabalhadora americana, os supostos destituídos pela globalização. Como todo líder populista, valeu-se da retórica nós contra eles. Portanto, teve de identificar quem eram “eles”. Os “eles” de Trump dividiam-se basicamente em dois grupos, não mutuamente excludentes: as elites corruptas, ou a zelite, e a mídia mentirosa, ou a mídia golpista. O presidente eleito também salientou, em diversas ocasiões, que “ama aqueles que têm pouca educação”. Carismático e de fala simples, incendiou paixões e multidões, como o “filho do Brasil”.

A cabeça de Dilma

Finalmente, depois desse preâmbulo, chego à borboleta-azul. No livro, destaco algumas políticas adotadas por Dilma que beneficiaram mais os ricos do que o povo: a bolsa empresário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), as desonerações para recuperar a irrecuperável indústria nacional, os planos mirabolantes de investimento em infraestrutura — como o Plano Brasil Maior e o Plano de Investimento em Logística —, as medidas protecionistas que garantiriam o ressurgimento da indústria ao reservar o mercado local para as empresas nacionais.

Trump promete resgatar a indústria e aumentar a disponibilidade de empregos. Almeja fazê-lo por meio do protecionismo, dos investimentos em infraestrutura, dos cortes de impostos para as empresas, sobretudo para as maiores. Trump, na economia, tem, inequivocamente, a cabeça de Dilma, cérebro da Nova Matriz. Há inclusive planos para “reformular o Federal Reserve” (FED, o Banco Central americano). Talvez o tornando mais politizado, como fez Dilma? A ver.

 

Hidra de Lerna, borboleta-azul, laranja mecânica: essa história não deve acabar bem.

>> Leia um trecho de Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma

testeA PF deve focar só em corrupção?

 Antônio Cláudio Mariz de Oliveira

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (fonte)

O jornal Folha de S.Paulo dedica sua manchete de hoje a uma entrevista com o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que chegou a ser cotado para assumir o ministério da Justiça num possível governo de Michel Temer, mas que já foi “descartado” por suas declarações a respeito da Lava Jato.

Numa de suas respostas, Oliveira é taxativo. Diz que “a Polícia Federal precisa ter outros focos paralelos à corrupção”, que “o crime organizado está tomando conta do país”, e assim por diante.

Há quem veja nesse posicionamento uma perigosa mensagem subliminar de esvaziamento da Operação Lava Jato. Pessoalmente, espero que não. Mas, na posição de quem estuda crimes contra a arte há cinco anos, vejo na entrevista uma brecha para os brasileiros finalmente cobrarem mais atenção, por exemplo, à investigação do roubo do Museu da Chácara do Céu, ocorrido no Rio de Janeiro em fevereiro de 2006.

Há dez anos — dez! — o inquérito está aberto, sofrendo sucessivas ampliações de prazo. Há quem pense que esse é um assunto menor, menos importante, algo que não mereceria destaque no horizonte de um eventual novo ministro. Lembro, no entanto, que roubo de arte movimenta 6 bilhões de dólares por ano em todo o mundo e que só perde em dimensão para o tráfico de drogas e armas.

Não me move o debate sobre se haverá ou não um novo governo, ou se Oliveira ocuparia ou não o cargo de ministro da Justiça. O que me move é lutar para que a investigação do maior roubo de arte do país — um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI — avance. Cobre você também.

Para saber mais sobre essa história, leia um trecho de A arte do descaso.

testeUm helicóptero, um submarino e 298 agentes

Coluna Cristina

O esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo. (fonte)

“A única coisa que une uma nação é sua cultura. Protegê-la é o mesmo que proteger a nação.” Se você tivesse que adivinhar o autor dessa frase, em quem apostaria? Um curador? Um historiador de arte? Um colecionador? Para a surpresa de boa parte dos brasileiros, ouvi essa afirmação da boca de um policial m-i-l-i-t-a-r: o coronel italiano Giovani Pastore, um carabinieri setentão que, por mais de treze anos, comandou o esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo.

Em junho de 2013, enquanto apurava material para o livro A arte do descaso, encontrei Pastore em Roma. Estivemos juntos por algumas horas, passeamos pela cidade, e ele me levou à sede do TPC, um palácio de paredes amarelas que não costuma receber turistas, muito menos jornalistas.

Fundado pela Polícia Militar em 1969 e ligado diretamente ao Ministério da Cultura, a única instância a que responde hoje em dia, o TPC tem em seus quadros nada menos do que 298 agentes distribuídos por doze unidades regionais. Todos eles passam por cursos e são treinados para identificar peças roubadas ou falsificadas. Como se não bastasse, ainda dispõem de um helicóptero e um submarino ultramodernos, que lhes permite realizar operações de campo semelhantes às de Hollywood.

A principal ferramenta de trabalho do TPC é, no entanto, uma gigantesca base de dados virtual instituída por lei, em 2004, na gestão do presidente Carlo Ciampi. É o Leonardo. Só os carabinieri têm acesso a ela:

— Temos aqui mais de 3 milhões de registros (de peças desaparecidas), 530 mil com fotos — disse Pastore, de peito inflado, mostrando-me a tela de um computador do TPC. — O banco de dados do FBI tem poucos milhares de registros. O do Art Loss Register, que atua de forma privada no Reino Unido, cerca de 400 mil. Estamos muito à frente.

“Marine” (de Monet), “Les deux balcons” (de Dalí), “La danse” (de Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (de Matisse), pinturas roubadas do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2006, estão lá. Quando vi, não acreditei.

— O Leonardo está conectado à base de dados da Interpol — explicou Pastore. — Se essas obras que você busca aparecem aqui é porque a Interpol foi avisada e fez todo o processo de registro da forma como estabelecemos.

O trabalho diário dos agentes do TPC consiste em comparar os mais diversos catálogos de leilão, de feiras de arte e de exposições em geral com os registros do Leonardo. Quando os policiais fazem um cruzamento, muito mais comum do que podemos imaginar, cortam a cidade às pressas e dão início à investigação.

Pastore já foi chamado para ministrar aulas sobre como montar uma equipe policial especializada no combate ao roubo de arte em Cuba, Equador, Colômbia, México, Rússia, Canadá e Croácia. Jamais foi convidado para vir ao Brasil.

Em suas palavras, o primeiro passo para conseguir algo assim é “que o poder público queira isso”.

— É o poder público que, por lei, define o que é o patrimônio cultural de um país e estabelece as punições aos que agirem contra ele. Também é o poder público que tem os instrumentos necessários para criar e equipar uma unidade voltada para esse assunto. É ele, por fim, que fixa as linhas mestras do trabalho policial. Então o primeiro passo (da criação de uma força capacitada como o TPC) é convencer o governo. Depois, o Congresso.

A boa notícia diante de tudo isso é que, ainda de olho no Leonardo, Pastore prometeu:

— Se algum dia essas pinturas forem vistas na Itália, voltarão para o Rio imediatamente.