testePor que é tão difícil inovar no Brasil

l_img8_instagram_blog_01a_semtextoUm típico empreendedor brasileiro: preso no labirinto da burocracia

Repare que o título desta coluna é uma afirmação, não uma pergunta. Afinal, tal constatação já se tornou praxe. Mas é raro encontrar explicações. Vamos a elas.

Tentei empreender dois projetos: o primeiro com uma startup de impressão 3D e o segundo com uma empresa de mapeamento indoor. Desisti de ambos no meio do caminho. O primeiro foi para a frente, de forma tímida, depois da minha saída. O segundo desapareceu. Independentemente do sucesso ou do fracasso posterior, por que caí fora, sem arrependimentos?


1.

Por um fator simples: é difícil fazer negócios éticos no Brasil. Por exemplo, no meio do caminho para lançar a startup de impressoras 3D, que seriam acopladas à mão, surgiu um problema. Como tudo no país, mesmo para uma empresa tida como startup — logo, como seria no Vale do Silício, algo meio que “de garagem”, que mereceria facilidades —, é preciso, antes de operar, ter aprovações mirabolantes, que passam por contadores, advogados, cartórios… No meu caso, descobrirmos vários obstáculos.

Em teoria, precisaríamos de uma licença específica para instalar uma empresa de fabricação de qualquer coisa, de qualquer escala. E a nossa não poderia ser na região de São Paulo em que estávamos (o Centro!). Tudo isso custaria MUITO para ser superado. Algo que uma startup não conseguiria encarar. Em meio ao papo com outros sócios, surgiram formas de se esquivar da questão. A maioria exigia o “jeitinho brasileiro”. Sou contra “jeitinho” e achava adequado não correr o risco, ainda mais por ser tão apaixonado por escrita e jornalismo — não queria que essas minhas facetas fossem afetadas pelos problemas de empreendedor. Logo, optei por não me meter em qualquer provável futura lama.


2.

Rixas entre os sócios é algo típico em startups, mas que poderia ser superado. Porém, olhando agora com a devida distância temporal, percebi que as brigas tinham muito a ver com o fato de não podermos nos dedicar ao que queríamos, ao nosso trabalho, às nossas ideias. Na maior parte do tempo só discutíamos empecilhos burocráticos, leis e por aí vai. A parte chata. Nada a ver com o core do negócio. Isso não só me desmotivou como fez nascerem as rixas. Esse panorama brasileiro, de 70%, 80%, por vezes 90% do tempo — e da massa cerebral — do empreendedor iniciante ser gasto com cartórios e afins, por meses, destrói vontades e parcerias.

 

3.

Ah, e o principal. Descobri que não queria me dedicar tanto assim a impressoras 3D e mapeamento indoor. Minha praia é comunicação (e contar histórias: escritas, visuais, como forem). Se um dia regressar a esse mundo empreendedor — sobretudo se for para enfrentar as chatices brasileiras —, provavelmente me voltarei a áreas relacionadas a essa paixão. Entre nós, esse foi o fator decisivo. Se não fosse por isso, teria enfrentado, com muita raiva e inveja dos colegas americanos do Vale do Silício — com suas devidas facilidades que fazem de lá o maior polo de inovação do planeta —, as questões 1 e 2.

 

Porém, vamos sair do pessoal

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Graava, uma câmera que edita automaticamente os vídeos feitos: mais uma bela ideia de brasileiros, mas realizada no Vale do Silício

É regra.: todo empreendedor que conheço reclama da estupidez da burocracia brasileira. Municipal, estadual ou federal. Tanto faz. Há burrice em todas as alçadas. E o ecossistema nacional de negócios, principalmente os digitais — que exigem agilidade para se adequar, garantir a inovação e competir de igual para igual com a concorrência —, sofre com isso. Até os gigantes.

Vejamos, por exemplo, o caso do Google. Há dois anos, em papo com Hugo Barra, mineiro de grande renome em sua área e então vice-presidente da marca (hoje está na chinesa Xiaomi), perguntei: “Por que, apesar do interesse das grandes empresas pelo mercado brasileiro, os melhores smartphones e tablets demoram a chegar por aqui?” A resposta: “Queremos entrar no Brasil e vender produtos baratos. Mas é extremamente difícil fazer negócios neste país. A complicada e burocrática legislação brasileira coloca barreiras únicas no mundo para quem quer investir ou empreender. Há práticas fiscais e logísticas, além de leis protecionistas exageradas, que não são vistas em outras nações. Nesses quesitos negativos, o Brasil é incomparável.”

Sim, é de chorar. E a visão cruel sobre o ambiente de empreendedorismo brasileiro é uniforme entre os que aqui batalham para inovar.

Em almoço com Alex Tabor, CEO do Peixe Urbano, ele recordou como foi uma tormenta abrir seu negócio inovador de vendas on-line de cupons de ofertas. “No Brasil, às vezes demora meses só para conseguir o CNPJ (o registro inicial da empresa; ou seja, só para dar o start)”. Agora, quando ele foi abrir uma holding nos Estados Unidos, tudo se mostrou fácil. “Lá são exigidos só os documentos que fazem sentido serem apresentados e o processo leva dias”, completou.

Não é coincidência eu ter ouvido algo similar de Nelson Mattos, brasileiro que foi vice-presidente do Google e que hoje atua como consultor no Vale do Silício, sendo membro da renomada BayBrazil, organização que promove conversas entre inovadores brasileiros e californianos. Para ele, “não faltam mentes criativas em nosso país”. O problema é que “essas cabeças não conseguem trabalhar no Brasil devido a tantos impedimentos governamentais. Muitas vezes, as pessoas precisam se mudar para criar uma empresa inovadora”.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_WEBEm outras palavras, os labirintos surrealistas à la Franz Kafka à frente de qualquer empresário iniciante acabam expulsando os brasileiros de sua própria nação. Para onde eles levam suas ideias criativas — e, muitas vezes, fonte de milhões de dólares (que poderiam ser reais)? Vão para os Estados Unidos, para Israel, para a Inglaterra, para o Canadá etc. — ambientes que recebem os inovadores de portas abertas.

É para onde foi, por exemplo, Marcelo do Rio, outro brasileiro inovador, que criou em terras tupiniquins a cervejaria Devassa, vendida depois para a Schincariol. Após se admirar com o mundo tecnológico, ele se mudou para o Vale do Silício. Lá, com dois brasileiros, fundou a Graava, que fabrica uma interessante câmera filmadora capaz de editar automaticamente os vídeos feitos. Se for um fracasso, ou um sucesso maior que o da GoPro, pouco importa para o contexto desta coluna. O fato é que o Brasil perdeu Marcelo do Rio e a bela ideia da Graava. Disse ele em conversa que tivemos: “Não tenho a menor dúvida da competência do empreendedor brasileiro, extremamente criativo, habilidade que usa até para compensar a ineficiência do Estado. Não faltam mentes no Brasil. Falta estrutura.”

Não à toa há mãos brasileiras em diversas empreitadas reconhecidas em todo o mundo como de extrema criatividade. Caso do Facebook e do Instagram, sobre o qual escrevi este livro . Pena que esses cérebros não sobreviveriam — ao menos não da mesma forma saudável — em sua terra natal.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares