testeEspelho, espelho meu: existe alguém mais ferrado do que eu?

Estreia da atriz Cara Delevingne na literatura, Jogo de espelhos é um romance reconfortante e inspirador

Por Pedro Martins*

É cada vez mais difícil encontrar histórias jovens que não pequem pela mesmice. Felizmente, não é o caso de Jogo de espelhos, romance de estreia da atriz Cara Delevingne em parceria com a escritora Rowan Coleman, que retratam a adolescência por uma lente genuína e inspiradora.

Ser jovem não é fácil. Muitos esquecem, mas trata-se de um período em que olhar para o espelho e se sentir bem chega a ser questão de sorte. Afinal, na maioria das vezes, aquele reflexo nem sequer lhe representa. É só uma farsa; um escudo cuidadosamente projetado, construído e reformado a cada dia. É compreensível que muitos prefiram fechar as cortinas para se manter a salvo da crueldade do mundo.

Mas este não é o caso de Naomi, Rose, Leo e Red, que são obrigados a formar uma banda para um projeto escolar e, por ironia do destino, chegam ao sucesso. Tão diferentes entre si, através da música eles encontram um caminho para enfrentar seus problemas: a amizade.

No entanto, tudo desmorona quando Naomi desaparece misteriosamente e, semanas depois, é encontrada entre a vida e a morte no rio Tâmisa. Em coma, ela não pode revelar aos amigos e aos familiares seus porquês. Todos sabem que Naomi costumava fugir de casa, mas dessa vez foi diferente. A dúvida que paira no ar é: teria sido uma tentativa de suicídio ou um ataque?

Premissa parecida com a de Cidades de Papel, certo? Errado! As motivações para os sumiços de Margo e Naomi não têm nada em comum. Enquanto John Green se propõe a contar uma história despretensiosa e poética de amor juvenil, Delevingne vai de alcoolismo a transtornos mentais. Suas metáforas, poucas e certeiras, não romantizam as situações.

Profunda em sua leveza, a escrita de Cara e Rowan empresta grande verdade à história. No ritmo da própria adolescência, os diálogos e os dilemas saltam às páginas, fazendo a trama avançar em tom de urgência. Apesar de não impressionar, o enredo investigativo tampouco decepciona, entrelaçando-se com o que há de melhor no livro: os personagens. Com suas explosões emocionais, Red, Leo e Rose em poucas páginas despertam empatia do leitor e tornam a história encantadora – mesmo que de maneira angustiante.

Em Jogo de espelhos há pouco espaço para o riso. Faz sentido: na juventude, não são raros os momentos que vivemos mergulhados no medo e no suspense. E isso de forma alguma torna o livro chato. Pelo contrário: através da escrita, Delevingne encontrou o caminho para a empatia, sentimento que tanto falta ao que a indústria do entretenimento tem produzido.

Alcoolismo, drogas, conflitos de sexualidade, ausência paterna, abusos, bullying, depressão… As figuras carimbadas do universo adolescente estão por toda a trama, mas escritas sob um olhar fresco que as afasta do clichê. Delevingne definitivamente não está preocupada em cumprir a check-list da duramente criticada geração mimimi. Nada soa forçado ou está para uma falsa militância. Acima de tudo, Jogo de espelhos traz conforto e inspiração àqueles que se sentem perdidos – para quem Cara dedica o livro.

*Pedro Martins descobriu a magia da leitura aos oito anos por meio dos livros de J.K. Rowling. Essa paixão o levou a ser gerente de conteúdo do Potterish.com e o empurrou em direção ao jornalismo, possibilitando-o escrever sobre literatura para diversos portais, do britânico The Guardian ao brasileiro Omelete.

testeDe homofobia à gordofobia, Becky Albertalli conquista leitores e Hollywood

Por Pedro Martins*

Depois de conquistar leitores em mais de trinta países com o bem-humorado e poético Simon vs. a agenda Homo Sapiens, Becky Albertalli volta às prateleiras de lançamentos com Os 27 crushes de Molly.

Poxa, crush! Por que não me notas?

Enquanto o maior conflito de Simon era o medo de que descobrissem sua homossexualidade, a questão de Molly é impossível de esconder: ela é gorda. Aos 17 anos, Molly já viveu 26 paixões, mas todas dentro de sua cabeça. Isso porque, temendo a rejeição, ela nunca sequer tentou se declarar para os crushes. No entanto, quando sua irmã começa a namorar, Molly se vê ainda mais solitária. Por sorte, um dos melhores amigos da cunhada é um garoto hipster, fofo e lindo: perfeito para o seu primeiro beijo. Só tem um problema, que atende pelo nome de Reid. Fã de Tolkien, colega de trabalho e meio esquisito, Molly nunca se apaixonaria por ele, não é mesmo?

“Esse segundo livro foi muito mais difícil. Precisei reescrevê-lo sete vezes”, revela Becky ao blog da Intrínseca. “Ao contrário de Simon, Molly me trouxe questões que eu ainda não superei por completo, e escrever sobre essas coisas que me incomodam fez parte de um contínuo processo de superação.”

Quando viu a capa brasileira de Os 27 crushes de Molly pela primeira vez, Becky conta que não conseguia parar de admirá-la. “Além de ser bonita e de combinar com a capa de Simon, esta é a primeira vez que vejo uma garota parecida comigo numa capa de livro. Pode parecer bobo, mas capas como essa teriam me ajudado de verdade na adolescência”, diz a autora, elogiando o trabalho da designer Aline Ribeiro. “Leitores de outros cantos do mundo, que nem sabem português, estão encomendando a edição brasileira por se sentirem representados.”

Para a autora, a importância da representatividade está na reflexão não distorcida da realidade. “Eu quero ter certeza de que meus livros são lugares seguros e inclusivos para os meus leitores, muitos dos quais pertencem a grupos marginalizados pela sociedade”, explica. “É claro que no mundo existem problemas maiores do que um garoto enfrentando dificuldades com sua sexualidade ou do que uma garota que quer arranjar um namorado e não consegue, mas para mim era muito mais do que isso. Era desesperador me sentir excluída daquele jeito”, relembra a escritora, que antes de se dedicar à escrita trabalhava como psicóloga.

Pelo caminho da representatividade, Becky conquistou leitores como nunca havia imaginado. Publicada em dezenas de idiomas, a autora, que também é fangirl e já escreveu muita fanfic, hoje lida com histórias inspiradas em seus próprios livros. “Eu comecei a ler as fanfics assim que terminei meu último livro do universo de Simon, Leah on the Offbeat, porque agora não tenho mais medo de esbarrar em histórias que pudessem me influenciar”, conta. “Sempre me pedem para escrever um livro do ponto de vista de Blue, mas não é algo válido. Já sabemos de tudo que acontece; não teria suspense algum. Também não tenho interesse em continuar a história de Simon, pois o que me motiva a escrever é a ideia de formar casais. Mas é muito divertido revisitar esses personagens sob a visão dos leitores. Algumas cenas são escritas exatamente como eu as imaginava.”

Em 2016, como recordação de sua visita à Bienal do Livro de São Paulo, a autora levou para casa um exemplar de Simon autografado por seus leitores.

Em paralelo às fanfics, este ano Becky revisitou Simon de outra maneira ainda mais inesperada: nos sets de filmagem. Formalmente, a autora não tem nenhum cargo na produção, mas, à convite da direção, opinou em (quase) tudo: do roteiro à escolha do elenco. “Eles me mantiveram ciente de tudo e, para minha alegria, estávamos em sintonia. Também tive sorte de filmarem na cidade onde moro, Atlanta. Eu estava no set praticamente dia sim, dia não. Nunca me cansava.”

“Para respeitá-los, eu não quis dar dicas aos atores sobre seus personagens, mas todos foram maravilhosos”, acrescenta, orgulhosa. “Nick Robinson (Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros) se transformou em Simon de corpo e alma, e Katherine Langford (13 Reasons Why), por exemplo, já era fã do livro, então a gente conversava muito no set.”

Becky com figurantes no set do filme: “Os estudantes mais legais da Creekwood!”

As filmagens terminaram em abril e, mesmo não tendo assistido ao filme finalizado, Becky já tem uma cena favorita, que, inclusive, não está no livro. Trata-se de quando Simon revela a sexualidade para sua mãe. “Eu nunca me esquecerei daquele momento. Dos produtores aos jornalistas que estavam nos visitando, ninguém conseguia parar de chorar”, relembra, emocionada. “Eu estou tão ansiosa para assistir ao filme que a primeira coisa que faço assim que acordo é checar no meu e-mail se o convite chegou!”

Produzido pela mesma equipe que levou A culpa é das estrelas para os cinemas, Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens deve chegar às telonas em março de 2018. Por enquanto, se você se apaixonou por Simon, conheça Molly, já nas livrarias!

 

*Pedro Martins descobriu a magia da leitura aos oito anos por meio dos livros de J.K. Rowling. Essa paixão o levou a ser gerente de conteúdo do Potterish.com e o empurrou em direção ao jornalismo, possibilitando-o escrever sobre literatura para diversos portais, do britânico The Guardian ao brasileiro Omelete.

testeSilenciar sentimentos implode a alma

Por Pedro Martins*

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Com mais de 200 mil cópias vendidas e milhões de seguidores on-line, o “desenhador de palavras” Pedro Gabriel lançou no mês passado seu terceiro livro, Ilustre Poesia, fechando a trilogia de pré-romance do seu alter ego, Antônio, personagem que há quatro anos vem sendo “escrito, vivido”.

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Frente a uma pilha enorme de pequenos papéis, usados e depois rasgados, Pedro Gabriel, das profundezas de sua alma, deu à luz Antônio, dando corpo às angústias vivalmas: coragem, rancor, liberdade, amor — e à sua ilustre poesia.

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Com o sucesso inusitado nas redes sociais, veio o primeiro livro: Eu me chamo Antônio, uma antologia do início de sua criação, revelando o boêmio apaixonado que era Antônio a discorrer sobre a vida com o pesado traço a nanquim. Após algum tempo, veio o Segundo, quando o personagem sai dos bares em direção ao mundo dos sonhos, enquanto Pedro se aventura timidamente na prosa, valendo-se de parágrafos curtos e isolados. Por fim, entretanto, algumas palavras simplesmente não cabiam mais dentro das fronteiras dos guardanapos. Nem as ilustrações. E, como na primeira vez em que Antônio viu a luz do dia, o poder de encanto de Ilustre Poesia é único.

Se com os dois livros anteriores Pedro Gabriel já havia mudado a concepção de poesia para muitos — especialmente jovens —, algo que acreditavam ser necessariamente acadêmico, chato e distante demais de si mesmos, desta vez fica ainda mais evidente a importância de sermos poetas, ainda que apenas da nossa própria vida.

Ao longo de pouco mais de duzentas páginas, criador, criatura e leitor dialogam uma prosa filosófica sobre a importância de “usar os olhos da imaginação, interagir com a inconsciência e dialogar com o inexplicável”, pois “quem acredita só no que vê não dá espaço à própria poesia”.

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Como o Universo, todos temos buracos negros nas profundezas da alma. Tolo, porém, é aquele que confunde silenciar com exterminar. Como dizia Lavoisier, no auge do século XVIII: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Apesar de serem substantivos abstratos, não seria diferente com os sentimentos: mandá-los para buracos negros não os faz se dissipar. Na vida, basta uma faísca para que eles explodam. Silenciar sentimentos implode a alma. E, para discorrer sobre o assunto, Pedro Gabriel chega a se transformar num metamorfo de profissões.

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Universo, galáxias, planetas, estrelas, o Sol e a Lua. Em “À espera de uma colisão”, primeira parte do livro, Pedro assume o lugar de um ilustre astrônomo. Talvez o de um astronauta, também. E por que não o de um editor de astros?

“No céu poético, a galáxia é o poema; as estrelas são as palavras; os planetas, os versos; os asteroides, as sílabas; e o átomo é a letra.”

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Céu, pássaros, mares, oceanos e o corpo humano. Em “A força de um nó frágil”, capítulo subsequente, o poeta se mostra um talentoso geólogo, oceanógrafo e biólogo refletindo: já que o corpo humano é composto por mais de 70% de água, por que não mergulhar dentro de si mesmo?

“Para muitos, existem cinco oceanos em nosso planeta. A poesia discorda. Ela acredita que, se cada pessoa tem a capacidade de fazer transbordar seus sentidos, o mundo deveria ter, além dos seus grandes mares, mais 7 bilhões de pequenos oceanos.”

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Por fim, a própria Ilustre Poesia — Antônio — nos mostra “O destino das palavras”, personificando sentimentos das angústias anteriores à sua criação, quando era usado para limpar mãos engorduradas e logo após descartado — “ah, se soubessem quanto dói…” —, e à felicidade dos dias atuais, por ter conhecido alguém que mostrasse ao mundo sua capacidade de servir também como tela final para uma obra de arte, e não mais apenas um rascunho.

“Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Esperança. Eu me chamo Antônio, mas poderia me chamar Saudade. Coragem. Amor. Distância. Na fragilidade da minha pele, qualquer delicadeza deixa marcas.”

E você, como se chama? Já parou para dar voz à sua Ilustre Poesia?

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Pedro Martins, viciado em livros, filmes e séries, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Agora, ele tem mais um lugar onde se aventurar: o blog da Intrínseca.

testeO noturno mundo de Clarice Freire

Por Pedro Martins*

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Lançado em 2014, após o sucesso de Eu me chamo Antônio, de Pedro Gabriel, Pó de lua foi outra aposta bem-sucedida da editora Intrínseca, vendendo mais de 70 mil cópias em todo o Brasil. Após o intervalo de quase dois anos e com quase 1,5 milhão de seguidores on-line, a recifense Clarice Freire volta às prateleiras de lançamentos com Pó de lua nas noites em claro, que promete encantar não só os antigos, como também os futuros leitores.

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A concentração de arte no sangue da família Freire sempre foi alta. Wilson, o pai, é um médico apaixonado pela escrita. A mãe, Lúcia, além da assistência social, também se dedica à arte de ilustrar. Sofia, a irmã, é musicista. O primo, Marcelino Freire, foi ganhador do Prêmio Jabuti. E Clarice? Ela, sem dúvidas, não negou seus genes:

— Comecei a escrever poesia na infância. Quando chegava da escola, meu pai estava sempre escrevendo ou compondo com seu amigo Antônio Carlos Nóbrega e eu ficava em cima. Ele me dava uma poesia e dizia: “Termina ela para mim.” Isso me incentivou. Eu era muito tímida e me lembro de sempre estar no meu quarto escrevendo. Desde aquela época, tudo saía em forma de poesia.

 

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“Escritora de poesia desenhada”: Para mim, palavras são muito mais do que várias letras juntas formando uma semântica. Elas podem ser um desenho, um objeto, qualquer coisa. Nunca consegui separar uma coisa da outra.

 

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Apesar de poetisa desde criança, Clarice fez sua primeira viagem à lua somente em 2010.

Formada em publicidade e propaganda, trabalhou por sete anos na área. Entre uma tarefa e outra na agência, fazia sua poesia desenhada despretensiosamente, “para respirar”, mas ritualmente jogava tudo fora antes de ir embora. Certo dia, ao chegar ao trabalho, viu tudo de volta à mesa:

— Pensei que alguém estivesse com raiva de mim e tivesse feito pirraça.

Na realidade, era Elisa Lacerda, sua diretora de arte, que nada tinha de pirracenta:

— Fiquei nervosa, disse que ela não tinha o direito de mexer no meu lixo, mas todos começaram a contra-argumentar. Elisa, então, criou um blog para mim: “Pelo menos agora você terá onde guardar suas ideias, e os desenhos levaremos para casa” — conta, brincando que hoje os amigos se recusam a devolvê-la seu “lixo”.

— Escolhi publicidade e propaganda porque era o curso que mais conseguia comportar esse meu lado criativo. Mas se agora estivesse começando do zero, faria tudo de novo — confessa.

Logo, a publicidade foi como uma madrasta do bem, que a “permitiu ter uma visão de mundo extraordinária”, ajudando-a a lapidar suas habilidades:

— Antes, minha escrita era muito prolixa, e a redação publicitária me fez consertar isso. Também estudei muito sobre criatividade. Cheguei até a fazer cursos na Argentina e na Espanha sobre isso. Hoje me dedico inteiramente à literatura, o que tem sido incrível. Mas ainda aplico todos os ensinamentos daquela área no meu processo artístico, algo que se deu muito bem com a internet. Devemos sempre ter sede de aprender e sermos bons, independentemente de qualquer coisa — diz a autora.

Para encerrar, cita Fernando Pessoa:

—Tudo vale a pena se a alma não é pequena.

 

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Clarice Freire: A literatura para mim sempre foi um meio de sobrevivência. Não é fácil morar dentro de mim, então para não enlouquecer coloco para fora tudo o que está em ebulição.

 

— Só conseguimos ser felizes quando investimos nos nossos sonhos.

Cedo ou tarde, foi isso que ela fez.

— Seja nos livros, seja na internet, Pó de lua faz parte tanto da minha vida quanto da dos leitores, que se veem nas poesias. Muitas vezes queremos dizer alguma coisa e não sabemos como fazê-lo, mas os escritores sabem, pois passam pelas mesmas angústias da alma que nós. É por isso que os amamos.

 

Viagens

Viajar à lua rotineiramente para coletar tanto não é uma tarefa fácil. A diversão ganhou ares de trabalho, e, em época de produção dos livros, ela segue uma rotina rigorosa:

— Raimundo Carrero, grande autor de Pernambuco, diz que o escritor é um operário como qualquer outro, mas um operário das palavras. Há momentos em que ou você fica horas sentado tendo em mente a necessidade de produzir, ou não produz nada.

 

A dedicação exclusiva à carreira artística mudou tudo:

— Apesar do material básico não ter mudado (papel e caneta nanquim), as diferenças são notórias. Substituí o rabisco rápido por algo mais complexo, estou sempre estudando para aprimorar o traço e a escrita e experimentando outros materiais. É um trabalho muito meticuloso.

Todos os originais são produzidos no Recife e, de tempos em tempos, voam junto com Clarice para o Rio de Janeiro, onde está sediada a Intrínseca. Em reuniões de até oito horas, passam pelas mãos dos editores e dos designers, que discutem “como podemos trabalhar aquilo da melhor forma”. Às vezes a editora também vai ao Recife:

— Uma vez chegamos a imprimir tudo em preto e branco no papel sulfite e fizemos um trabalho de colagem, literalmente, para depois mostrar ao designer, que reproduziu digitalmente.

Para ser produzido, o primeiro livro levou pouco mais de seis meses. O segundo, em contrapartida, foi matutado durante quase dois anos:

— Foi um desafio imenso, mas extremamente prazeroso. Há uma mistura de poesia e prosa, e uma linha narrativa mais definida, então tínhamos de fazer com que o leitor conseguisse aproveitar aquilo. É mais uma conquista — orgulha-se.

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À parte da técnica, as madrugadas antes usadas para descanso hoje são para trabalho:

— Confesso que muitas vezes me bate certa culpa por preferir as madrugadas. Somos julgados, chamados até de vagabundos, mas é quando minha cabeça mais trabalha.

Tão forte é essa relação que chegou até a inspirá-la. Seu segundo livro é dividido em capítulos-horas: à meia-noite, “as ruas se calam”; à 1h, “a boca se cala”; às 2h, “o pensamento fala”; às 3h, conhecemos “os moradores da noite”; as 4h, surgem “os primeiros raios do Sol”; e, às 5h, os “sentimentos dourados”.

— Quando o planejei, entrei no mundo noturno e comecei a pensar numa personagem, que no início do livro foge de casa, aventura-se explorando o subjetivismo introspectivo da noite e surpreende-se por descobrir que, apesar de passarmos pelas noites (algumas difíceis, escuras), sempre amanhecemos.

 

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Clarice Freire: Os livros são dois retratos diferentes de uma mesma alma. O segundo é algo novo. O leitor pode esperar um mergulho numa madrugada muito viva.

 

Afluências

Apesar de não escrever literatura infantil, em seu reino permeado por muito Pó de lua, Clarice está sempre acompanhada de grandes fadas-madrinhas e padrinhos mágicos da literatura, da música e do cinema:

— Sem dúvidas, os poetas contemporâneos são meus melhores amigos. Durante a produção do segundo livro, estive acompanhada de Cecília Meireles e Paulo Leminski (a irreverência dele me ensina muito e a delicadeza dela me encanta). Na prosa, sou apaixonada por Jostein Gaarder, autor de O mundo de Sophia e A garota das laranjas, um dos melhores livros que já li. Aliás, é um desejo enorme publicar um romance. Quero investir nisso, estudar. Mas jamais abrirei mão da poesia. No cinema, sempre achei a estética de Tim Burton fabulosa: ao mesmo tempo que é sombria, tem uma delicadeza sem igual. A vida é assim também — diz, usando o personagem Edward, mãos de tesoura como exemplo, que a maravilhou por ser, a princípio, repulsivo, mas, quando conhecido a fundo, demonstrar “uma pureza e uma doçura enorme”.

No campo musical, Clarice também se aventura. Influenciada pelo pai e por Nóbrega, já compôs em parceria com diversos musicistas. Um dos seus últimos trabalhos foi a letra “Leveza”, inspirada num dos seus próprios poemas, para o álbum de estreia de sua irmã, Sofia:


Ao ser solicitada para escolher uma música que representasse o conceito de Pó de lua (“diminuir a gravidade das coisas”), entretanto, a autora diz ser impossível:

— Cada poesia tem uma trilha sonora específica, na realidade.

 

Os desejos de Clarice

— Desejo que nosso país um dia invista verdadeiramente na cultura e na produção artística, para que tenhamos artistas realizados compartilhando todas as maravilhas de que são capazes — almeja a artista.

Um bate-papo descontraído de pouco mais de uma hora deixou evidente que Clarice Freire é, sem dúvidas, uma personagem tridimensional: sonha “amar até o fim”, tem medo de “passar nula pelo mundo”, arrepende-se de todas as vezes que deixou de fazer algo por medo e, se tudo correr bem, em dez anos quer “ser plena”.

Pó de lua nas noites em claro já está disponível nas livrarias físicas e on-line. Em breve, Clarice viajará por todos os cantos do país para se encontrar com os leitores e autografar.

— A editora Intrínseca faz questão de que o primeiro lançamento seja na cidade do autor. É uma delicadeza muito bonita.

 

Pedro Martins, viciado em livros, filmes e séries, descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian. Agora, ele tem mais um lugar onde se aventurar: o blog da Intrínseca.

testeO brilho de escrever poesia em guardanapos

Por Pedro Martins*

Artigo publicado originalmente no jornal The Guardian

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O poeta brasileiro Pedro Gabriel começou a escrever poemas em guardanapos quando estava sem papel. Agora, após dois livros e milhões de seguidores on-line, seus desenhos deslumbrantes estão fadados ao reconhecimento internacional, escreve Pedro Martins, repórter do The Guardian.

Pedro está sempre com a cabeça nas nuvens, fervilhando de ideias numa mistura de palavras que, pelas peripécias do destino, o levou ao estrelato, e seus livros tiveram mais de 200 mil cópias vendidas. Num país onde o hábito da leitura ainda não é tão forte, conseguir ser publicado é algo extremamente difícil.

“Nunca pensei que isso fosse se tornar minha fonte de renda. Hoje em dia, posso dizer que vivo de poesia e de ilustração, mas três anos atrás era impossível pensar nisso”, conta o autor de 32 anos.

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Naturalmente, o que todos se perguntam é de onde veio essa ideia.

“O primeiro guardanapo surgiu quando eu estava voltando do trabalho, certo dia, e tinha esquecido meu caderno de anotações em casa. Você pode ficar parado no trânsito, mas suas ideias não. Eu estava com muita vontade de escrever. Quando desci do ônibus, resolvi ir ao Café Lamas, um tradicional bar no Rio de Janeiro que costumava visitar, e naquele momento a única plataforma que eu tinha para me expressar era a pilha de guardanapos à frente. Então, de uma forma muito natural, comecei a desenhar e me encantei, passei a gostar de me manifestar naqueles pedacinhos de papel tão frágeis.”

Depois disso, Pedro fotografou seu trabalho e criou uma página no Facebook para mostrar sua ideia ao grande público, batizando-a de “Eu me chamo Antônio”. Mas por que Antônio? Por causa de sua timidez.

“Costumo dizer que ele sou eu com um pouco mais de coragem para me expressar. Meu nome é Pedro Antônio Gabriel, mas ninguém me chama de Antônio. Então, ao criar esse alter ego, encontrei uma forma de manter minha identidade sem assinar como Pedro Gabriel.”

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Atualmente, não há mais dúvidas de que cada vez mais a internet se mostra um meio de comunicação infinito. Nada passa despercebido pelos internautas, e não seria diferente com Antônio. Seis meses após o primeiro guardanapo, a página começou a atrair um imenso tráfego de usuários, o que chamou a atenção da Intrínseca, que propôs a Pedro a ideia de levar seu trabalho também para a mídia off-line em forma de livro. O resultado são dois best-sellers no Brasil: Eu me chamo Antônio e Segundo — Eu me chamo Antônio. Um terceiro está a caminho.

“Hoje em dia, tenho quase 1 milhão de seguidores on-line, mas não atribuo meu sucesso a números, e sim ao conteúdo que apresento. Independentemente do número de seguidores, desde o primeiro guardanapo que postei mantive um conceito do Antônio em mente. Os leitores sabem que há alguém como eles por trás de tudo aquilo. Obviamente, esse sucesso também está atrelado ao fato de que escrevo sobre sentimentos universais — os mais diversos tipos de amor, saudade, liberdade etc. —, mas de uma forma diferente, usando um jogo de palavras. É como se eu tentasse retratar um pouco da minha própria vida também”, explica o autor.

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Além de inusitado, o processo de criação do autor também é influenciado por uma pluralidade linguística de berço. Filho de brasileira com suíço e nascido no Chade, ex-colônia da França na África, Pedro cresceu falando francês, mas sempre conviveu numa casa onde “a língua em que nos comunicávamos não era a língua de ninguém”. Aos treze anos, quando veio para o Brasil, sua inexperiência com o português o atiçou a prestar atenção à sonoridade, aos processos de formação e às grafias das palavras.

“Só fui perceber a importância desse período que vivi fora do Brasil recentemente, quando encontrei minha voz por meio dos guardanapos. Além da linguagem em si, toda a riqueza com que convivi nesses doze anos na África foram fundamentais para eu desenhar minha poesia; tudo é um reflexo do que vivi em algum momento da vida.”

O interessante é que, mesmo anos após seu primeiro guardanapo, Antônio ainda tem uma necessidade peculiar ao criar: “Já perdi as contas de quantos guardanapos criei até hoje, mas foram mais de 2 mil. Todos desenhados no Café Lamas. Costumo dizer que meu escritório é o bar, um privilégio para poucos.”

E será que, após milhares de guardanapos, Antônio ainda se surpreende?

“Quando a gente se habitua a alguma coisa, parece que ela começa a perder um pouco do brilho. Por incrível que pareça, ainda sinto muito prazer em fazê-los; ainda me surpreendo com o que tenho a dizer. Claro que não vou me forçar a criar guardanapos novos somente para alimentar o grande público que me acompanha; sempre vou criar em função das minhas emoções. Antônio e as manifestações em guardanapos vão durar enquanto eu sentir verdade nisso. Óbvio que não produzo a mesma quantidade dos primeiros meses, mas sempre que sento no Lamas novas ideias vêm à minha cabeça e saio de lá com uma ressaca de poesia.”

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“Falo com um público eclético. Em palestras que ministro, quando os alunos conseguem enxergar que poesia pode ser feita com um simples ‘jogo de palavras’, começam a enxergá-la como algo interessante. Eu me chamo Antônio também serviu de porta para os mais jovens conhecerem a poesia consagrada. Pelas minhas redes sociais, muitos conheceram Drummond, Manuel de Barros, Paulo Leminski, Arnaldo Antunes e outros fantásticos poetas mestres que me inspiram no dia a dia.”

Para todo escritor, o novo e o desafiador deve ser sempre encorajado. Quando perguntado se algum dia pretende dizer adeus a Antônio, Pedro deixou claro que pretende, sim, aventurar-se em outros mundos, mas que ainda tem muitas ideias inovadoras para Antônio apresentar:

“O primeiro livro é inteiro feito de guardanapos fotografados, e nele fica bem claro que Antônio é um boêmio. Há até uma linguagem de bar, alguns trocadilhos. No segundo, já existem alguns parágrafos isolados, tímidos, e algumas ilustrações, como se Antônio tivesse saído dos bares e entrado no mundo dos sonhos. No terceiro, haverá um casamento muito forte entre o guardanapo e a prosa, com textos maiores. Antônio é um personagem de um romance que está sendo escrito e vivido. Minha ideia é que esses três livros formem uma espécie de trilogia de um pré-romance, mantendo o lado visual, claro, que é minha marca. Talvez uma mistura de graphic novel com prosa”, continua o autor.

Os guardanapos acima fotografados para esta matéria foram retirados dos dois livros já publicados por Pedro, e isso não foi um processo fácil. Não basta escolher um guardanapo qualquer e traduzi-lo; é necessário escolhê-los a dedo, considerando quais são passíveis de tradução, para depois traduzi-los e redesenhá-los, reinterpretá-los.

“Para uma publicação no exterior, eu faria um apanhado de guardanapos dos primeiros livros, como uma antologia, mesclando o que mais gostei dos dois, escolhendo os que são traduzíveis, e adicionaria conteúdos inéditos. Assim acredito que conseguiria entregar um trabalho bacana aos leitores de outros países.”

Para encerrar uma longa conversa por Skype na qual o relógio parecia estar parado, decidi fazer algumas perguntas rápidas que revelam muito sobre uma pessoa:

Um sonho?
Que as pessoas leiam mais e valorizem a literatura, pois aqueles que leem conhecem o infinito.

Um medo?
Que eu perca minha inspiração, a sensibilidade mais bonita que a gente tem.

Em dez anos eu…
Quero ter pelo menos um romance do Antônio publicado e estar mais estabelecido no mercado editorial, com livros fora do Brasil também.

 

Pedro Martins é repórter do jornal britânico The Guardian e webmaster do site Potterish.com.
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