testeAs origens secretas de Black Hammer

 
Black Hammer é recheado de referências e todo mundo sabe disso. A criação de Jeff Lemire é uma ode aos quadrinhos clássicos de super-heróis, seja com homenagens diretas ou com pequenos easter eggs. Porém, o mais interessante na obra é o diálogo histórico que o autor constrói entre as gerações de personagens ao explorar a evolução psicológica dos superseres – das eras mais inocentes dos gibis até o niilismo e a questionamentos filosóficos da pós-modernidade.

Em 1938, Superman fazia sua primeira aparição, em Action Comics #1, dando início à era de popularização dos super-heróis. Um ano depois surgia o Capitão Marvel, posteriormente renomeado Shazam — fonte de inspiração para o alter ego de Gail Gibbons, a Menina de Ouro. Ao contrário do Shazam, Gail não se transforma em adulta ao dizer a palavra mágica: ela retorna a sua forma infantil, e isso a deixa completamente transtornada. Fruto do otimismo e da bravura de sua década, a heroína entra em conflito consigo mesma logo que os anos começam a passar, cada vez querendo ficar mais tempo em sua forma heroica para conservar o vigor da infância.


 
Mas a maior parte dos personagens de Black Hammer vem da era de prata: Abraham Slam, Libélula e Coronel Weird, por exemplo. Apesar de Abe ser inspirado em dois heróis de épocas distintas (Capitão América e Demolidor), sua personalidade é um claro reflexo do herói idealista. Ele é a encarnação do sonho americano: acredita que, com esforço suficiente, tudo é possível. Talvez por isso seja o único conformado com a vidinha pacata na fazenda. A satisfação de ter ganhado a última grande batalha é o suficiente para Slam.

A história da origem de Libélula está fortemente ligada ao Homem-Coisa e ao Monstro do Pântano, heróis criados para aproveitar a onda dos quadrinhos pulp de terror que inundou o mercado americano nos anos 1970. A quebra da quarta parede, recurso utilizado por Lemire no primeiro volume, é uma narrativa típica das antologias de contos do gênero.


 
Por fim, como representante da era de bronze temos o Guerreiro de Marte, claramente inspirado no Caçador de Marte, da DC. O desenvolvimento de personagem além da persona heroica remete diretamente ao clima noir das histórias do Batman, que nesse período recuperava o clima soturno após a série de TV de sucesso dos anos 1960. Sua sexualidade e sua relação com Gail também remetem aos temas polêmicos desse período, como o uso de drogas e o surgimento de personagens declaradamente homossexuais.

A união de todos no exílio resulta na narrativa gráfica pós-moderna: uma família disfuncional dividindo o mesmo espaço, com uma narrativa baseada quase exclusivamente em diálogos e nos conflitos internos de cada ex-herói, sem um foco tão grande nos vilões ou na ameaça do mês. O desenvolvimento de personagens está acima da ação, e isso irrita alguns deles.


 
Se Alan Moore desconstruiu o gênero ao dar profundidade aos heróis urbanos em Watchmen e Kurt Busiek narrou com maestria o ponto de vista de pessoas comuns em um mundo habitado por deuses em Marvels, Lemire desmistifica todos os conceitos construídos em 80 anos de indústria e eleva o desenvolvimento de personagens a um novo patamar.

testeBlack Hammer terá continuações publicadas no Brasil

A Intrínseca vai lançar o segundo e o terceiro volumes de Black Hammer, a premiada graphic novel de Jeff Lemire, Dean Ormston e Dave Stewart. The Event e Age of Doom ainda não possuem data nem título em português confirmados. O primeiro volume, Origens secretas, chegou às livrarias brasileiras no início de maio.

Abraham Slam, Menina de Ouro, Coronel Weird, Madame Libélula e Barbalien eram os maiores heróis do mundo, mas depois da grande batalha final ficaram presos em uma cidade rural. Mesmo depois de dez anos, eles ainda não descobriram como chegaram lá e, principalmente, por que não conseguem sair. Seu antigo líder tentou escapar desse misterioso purgatório, mas teve um trágico fim.

No segundo volume, The Event, uma jovem consegue atravessar as barreiras invisíveis da cidade e, enquanto remexe o passado de cada um, dá uma nova esperança aos heróis.

 Eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo Eisner Awards, principal prêmio internacional de quadrinhos, Black Hammer faz referências aos heróis da era de ouro de HQs. Seus personagens são complexos e humanos, e a maestria de Dave Stewart ao brincar com cores fortes e impactantes acompanha os dilemas dos personagens.

O primeiro volume, Origens secretas, reúne os primeiros seis fascículos originais e conta ainda com posfácio do autor, perfis da construção de personagens e esboços originais.