testeGarimpando o passado remoto

 

Num livro, tudo pode parecer rápido, uma página pode contar uma longa espera, mas viver cada minuto de Em nome dos pais foi uma aventura difícil de descrever. Imagine o que foi, por exemplo, a busca pelo delator dos meus pais, que os entregou às mazelas da tortura na ditadura? Eu tinha apenas um nome, precisava saber se estava vivo e onde morava, porque ele sumira havia mais de quarenta anos.

Depois de localizado, o que não foi nem um pouco fácil, aconteceu a viagem até o sítio de sua família, no interior do Espírito Santo. E eu queria que o leitor fosse comigo. Não bastava investigar, mas contar como investiguei. Queria que o leitor tivesse noção de como pode ser demorado mergulhar no passado.

Houve esse momento, depois de muito esforço, em que tudo começou a dar certo. Seguiu-se a viagem até o sítio, que foi realizada durante o dia. Só que, quanto mais eu me aproximava do endereço, mais o sol desaparecia no horizonte. Depois de uma curva numa estrada de terra, vimos um incêndio na mata e o ambiente ganhou cores dramáticas e ares de um livro do J.R.R Tolkien ou de O senhor dos anéis

Já era noite quando, enfim, bati na porta do delator que fora chefe do grupo de estudantes, delatara todos e sumira. O que fazer? Como começar essa conversa perdida no tempo com perguntas nada fáceis, mais de quatro décadas depois? O leitor poderá conferir o resultado no livro.

Em outros momentos a procura era por um papel. Tive de ler e reler cinco volumes e um apenso, o processo que meus pais e seus companheiros responderam na Justiça Militar, até ver o nome que procurava: o do capitão que comandara o departamento de repressão do Exército em Vitória. O nome foi um grande achado, mas havia homônimos, e uma nova barreira se impôs à minha frente.

Por falar em homônimos, um dos militares que teve atuação fundamental no inquérito policial militar tinha 182 deles — uma montanha de pessoas com o mesmo nome do Brasil. Por esse motivo, tive de descartar 181, num longo e desgastante processo de apuração.

Minha busca passou por tentar ouvir os militantes de movimentos contrários à ditadura que atuaram junto com meus pais, passando pelo líder que virou delator, mas também os militares que atuaram na produção do IPM, na repressão e até na tortura aos meus parentes. O livro revela o nome de uma dezena desses militares e um dos capítulos é justamente “Frente a frente com o torturador”.

Foi assim que se construiu Em Nome dos Pais. Estou acostumado a fazer jornalismo investigativo como repórter em Brasília. No livro, porém, eu buscava um passado remoto, o que me fez ter a sensação de procurar agulhas num palheiro.

testeA presença feminina no girar da Roda do Tempo

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

Como amantes da literatura de fantasia, para nós é sempre um prazer trabalhar com esse gênero, sobretudo com um clássico como A Roda do Tempo. Como editoras, é sempre muito gratificante trabalhar com livros realmente bons, com uma base de fãs tão envolvida e envolvente. E, por fim, como mulheres, é sempre um momento de alegria encontrar livros com personagens femininas bem-construídas.

Em muitas das histórias de fantasia mais tradicionais (estamos falando com você, O Senhor dos Anéis!), a mulher é relegada a um papel secundário, como a donzela elfa que decide esperar pelo marido humano, a feiticeira poderosa que só aparece para resolver um pequeno enigma sobrenatural e depois desaparece ou a mulher figurante que só dá as caras no final da trama para se casar com um dos protagonistas depois que ele retorna de suas aventuras.

Esse, felizmente, não é o caso de A Roda do Tempo – algo tão revolucionário para a época que, no começo da publicação da série, corria o boato de que Robert Jordan era o pseudônimo de uma escritora. Em entrevistas, o próprio autor declarou ter feito o possível para criar mulheres realistas e de personalidade forte, como as que o cercavam. Sua esposa, Harriet, foi editora da série e teve um papel fundamental na publicação, pois Jordan sempre ouvia seus conselhos. (Ao contrário de certos personagens masculinos de A Roda do Tempo…)

Jordan não teve medo de dar protagonismo às personagens femininas fortes, que aparecem como narradoras em todos os livros e têm sempre falas maravilhosas. Um de nossos momentos favoritos é quando um dos personagens principais vem pedir conselhos para a amiga, Egwene, e comenta que nunca conversou sobre qual era o papel do homem com seus amigos, e ela logo responde: “Então é por isso que vocês fazem um péssimo trabalho”.

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(Ba dum tsss – Fonte)

Mas não basta ter meia dúzia de personagens bacanas para nos impressionar, não. Nós já discutimos um pouco sobre a riqueza de culturas e variedade nos povos de A Roda do Tempo, mas, ao construir seu mundo, Jordan fez mais do que apenas basear os costumes dos povos em um mashup interessante do mundo real: ele criou novas dinâmicas sociais que, no mínimo, nos fazem refletir sobre o mundo em que vivemos. Ou seja, não só não faltam personagens femininas fortes na série como também, logo no começo, somos surpreendidos por algo ainda mais incomum: uma sociedade em que as mulheres não são vistas como inferiores aos homens. Muitos leitores aceitam com facilidade dragões, magia e personagens que vivem centenas de anos, mas um mundo no qual as mulheres não são “cidadãs” de segunda classe parece ser automaticamente descartado como inverossímil. Não tomar o machismo como “natural” e explorar os papéis sociais torna a obra de Jordan mais rica.

O primeiro exemplo começa logo no início da história, quando somos apresentados a uma pequena vila rural onde, como tantas outras, além da figura de prefeito há uma mulher conhecida como Sabedoria, uma espécie de guia e curandeira. O poder nessas pequenas cidades é dividido entre dois conselhos: o de homens, que cuida de assuntos muitas vezes secundários, e o círculo das mulheres, que resolve tudo o que há para ser resolvido e, de vez em quando, passa por cima do conselho dos homens.

Isso mostra que, além de incluir sociedades matriarcais (não vamos entrar em mais detalhes sobre elas para não dar spoilers), Jordan também criou inversões interessantes nas culturas tradicionais do livro: em vez de privilégio masculino, há privilégio feminino. Mesmo no caso dos Aiel, uma cultura guerreira em que os clãs estão sempre em conflito, com pilhagens frequentes, as mulheres têm uma sensação de segurança maior do que os homens. Elas não são as mais vulneráveis da sociedade e não precisam temer andar desacompanhadas, pois não correm um risco maior de sofrer violência sexual. Ou seja: exatamente o oposto do que vivemos.

É claro que Jordan criou uma explicação para que mesmo as sociedades tradicionais tenham “privilégio feminino”. Centenas de anos antes de a narrativa principal começar, os homens capazes de canalizar o Poder Único (ou seja, “fazer magia”) enlouqueceram e quase destruíram o mundo. As mulheres continuaram sãs. Isso repercute até o momento atual da história, no reino de Andor, governado sempre por rainhas. Em todo o universo, as mulheres são mais ouvidas, dominam as conversas e a política. Não é possível ter Aes Sedai, figuras poderosas que manipulam o destino das nações, sem que se crie um preconceito velado contra os homens dessa sociedade, fazendo com que as mulheres sejam consideradas mais confiáveis, competentes e perigosas. Alguns leitores se irritam com as personagens “mandonas” do livro por falta de costume, mas, para nós, qualquer obra em que as mulheres não ocupem apenas um papel submisso na trama é muito bem-vinda.

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(“Acha que tem direito de dizer como eu devo me vestir? Homem nenhum tem esse direito, nem sobre mim e nem sobre qualquer outra mulher! Se eu decidisse sair nua, isso não seria da sua conta!” Nynaeve, arrasando no quinto livro, As Chamas do Paraíso.” – Fonte)

* Flora e Rayssa são amigas, amantes de fantasia, feministas de carteirinha e fãs de A Roda do Tempo

teste14 coisas que você precisa saber antes de começar a ler A Roda do Tempo

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

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Os livros de Robert Jordan compõem uma das maiores séries de fantasia de todos os tempos, literalmente: são 14 volumes que narram uma jornada cheia de reviravoltas, em que heróis e anti-heróis enfrentam um grande desafio — parar de brigar entre si e se unir para salvar o mundo. Aqui estão 14 coisas que você precisa saber antes de começar a leitura:

 

1) George Martin é fã

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Martin fez várias homenagens a Jordan em seus livros. A mais conhecida é a Casa Jordayne, cujo brasão é uma pena de escrever em um fundo verde. O nome de seu lorde é Trebor, ou seja, “Robert” ao contrário.

 

2) Está entre as dez séries de fantasia mais populares de todos os tempos

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A Roda do Tempo vendeu mais de 80 milhões de exemplares ao redor do mundo. Apesar de ser considerado “o Tolkien americano”, Jordan criou seu próprio universo, sem reaproveitar elfos, anões e dragões, além de não se limitar a influências da mitologia europeia. Se tiver receio de encarar uma série tão longa, lembre-se: não é à toa que Jordan é referência em literatura fantástica.

 

3) Foge do eurocentrismo

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É verdade que a série tem muitos elementos que lembram a Idade Média europeia, inclusive cavaleiros, inquisição religiosa e outras analogias, mas dá para notar a influência de muitas outras culturas e religiões. Diversas palavras e nomes foram tirados da cultura árabe e da religião hebraica — como um dos nomes do vilão principal, Shai’tan —, e o próprio conceito de tempo cíclico, a tal roda do tempo, vem do hinduísmo.

4) Não é só descrição de paisagem

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Nós amamos fantasia, mas quem nunca suspirou de exaustão diante de um longo parágrafo descrevendo toda a flora de um continente imaginário que atire a primeira pedra. Para nossa sorte, Jordan traz personagens interessantes que quebram a monotonia das descrições. Um queridinho dos fãs é Mat, que prefere se manter longe dos conflitos. Durante um discurso dramático, com um de seus amigos tentando mergulhar de cabeça em uma situação perigosa, Mat aparece ao fundo com dois cavalos, gesticulando, desesperado, para que o amigo monte no animal e fuja com ele.

 

5) Lugar de mulher é… no livro de fantasia

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Jordan não limita as personagens femininas a papéis secundários e donzelas indefesas. Apesar de o primeiro livro ter sido lançado há 26 anos, não faltam mulheres fortes. Um dos reinos, por exemplo, é governado exclusivamente por rainhas, e há também uma sociedade de mulheres guerreiras.

 

6) Não é só mais uma fantasia medieval

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Sim, A Roda do Tempo tem aspectos parecidos com a série de TV Game of Thrones e a trilogia O Senhor dos Anéis. Mas também possui inúmeras diferenças marcantes. Uma delas é que o universo não corresponde à Idade Média. Segundo Jordan, é como se a história se passasse no fim do século XVII, mas a pólvora jamais tivesse sido inventada.

 

7) É uma distopia

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Como a história se passa num mundo aparentemente medieval, é fácil pensar que se refere ao passado, mas os acontecimentos de A Roda do Tempo na verdade se passam no futuro! O tempo da roda se divide em 7 Eras, que passam em ciclos. Nossa Era já passou, e tudo o que resta dela são resquícios e ruínas. Ao longo dos livros, é possível encontrar várias dicas de “objetos mitológicos”, de lâmpadas a usinas nucleares. Dá até para brincar de caçar referências!

 

8) É muito mais que uma história

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Como todo bom gênio da fantasia, Jordan criou mais do que uma história: ele construiu um mundo. As complexidades são tantas e seu universo é tão bem-feito que existe até um sistema de RPG baseado na série. Os povos são muito diversos, e você vai se divertir aprendendo as particularidades de cada um ao longo dos livros.

 

9) Apesar da fantasia, nem tudo tem solução mágica

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Jordan não quis criar saídas fáceis, e representou muito bem temas realistas e polêmicos, como a loucura, a escravidão e o preconceito. A falta de comunicação e a demora em enviar mensagens nesse mundo praticamente medieval afetam a política, as guerras e o humor das pessoas ao redor.

 

10) A magia não funciona da forma que estamos acostumados

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Uma das coisas mais legais da série é o uso do Poder Único: a força que alimenta a magia nos livros. Existem diferenças no uso para homens e mulheres (e o uso por homens é considerado tabu). Além disso, o mecanismo é mais complexo que simplesmente decorar feitiços: as Aes Sedai aprendem a “tecer” fios de elementos do Poder Único de forma a criar uma trama que traga os resultados desejados.

 

11) As intrigas políticas vão ganhando destaque

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Com o passar dos livros, o universo da obra se amplia e as maquinações aumentam. O Jogo das Casas, porém, nem sempre tem um final sangrento. Enquanto a política do mundo real nos faz chorar, a do universo de Jordan muitas vezes é motivo de riso, com críticas veladas muito bem-humoradas.

 

12) Você vai passar a entender um monte de referências espalhadas por aí

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A série é tão querida pelos amantes de fantasia que George Martin não é o único a incluir referências em sua obra. Isso acontece em vários jogos, como o primeiro da série Dragon Ages, e a Blizzard já incluiu referências em World of Warcraft e Diablo. Além disso, algumas bandas já fizeram músicas em homenagem à série. A mais famosa é do Blind Guardian:

13) Nem todos os livros foram escritos por Robert Jordan

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Após a morte de Jordan, Brandon Sanderson assumiu a série. Com a ajuda da viúva de Jordan, Harriet Ridgney, que trabalhava como editora do marido, Sanderson escreveu três livros a partir das anotações do autor. Sanderson já era fã convicto da série e afirma que cresceu lendo e relendo os livros lançados até então. Ele é mais conhecido pela série Mistborn, mas não decepcionou os fãs de A Roda do Tempo.

 

14) Vai ter série!

Harriet Ridgney, viúva de Jordan, anunciou este ano que os direitos de adaptação de A Roda do Tempo foram vendidos e a obra será transformada em uma série de TV. Para quem acha que “o livro é melhor porque tem mais detalhes”, a hora de começar a ler é agora. Afinal, A Roda do Tempo gira, e as Eras vêm e vão, mas a internet continua cheia de spoilers.

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Flora e Rayssa se conheceram através do amor mútuo por livros de fantasia. Para editar a série A Roda do Tempo, as duas abriram mão do contato com amigos e família. Elas trocam GIFs quando sentem falta de conviver em sociedade.

testeSobre minha escrita – Personagens

Histórias são sempre sobre alguém fazendo alguma coisa. Às vezes, a coisa pode até ser o tema central, mas o que proporcionará a emoção da leitura é o tanto que aquele alguém foi modificado por essa coisa. Um épico sobre uma guerra nunca será apenas acerca do conflito armado, mas de como a vida de determinada pessoa foi alterada por seus horrores. Um romance a respeito de um desencontro não terá impacto se não percebermos a sutileza de quanto aquele desencontro afetou quem se envolveu. Uma trama policial nunca vai somente relatar um crime, mas de que maneira o evento subverteu a forma de as pessoas implicadas passarem a enxergar o mundo.

Por isso, o elemento mais importante de uma história é o personagem. Nós, leitores, estamos sempre em busca de personagens fortes e inesquecíveis. Por eles vamos nos afeiçoar e torcer. Desejaremos viver suas aventuras e nos reconhecer em suas atitudes. Daremos risada, choraremos, odiaremos e xingaremos quando merecerem. E, quando fecharmos o livro, provavelmente ainda teremos bons sonhos, como se fossem reais.

Gosto, particularmente, daquele personagem que o escritor pouco descreveu fisicamente. Quero conhecê-lo por seus propósitos, suas ações, seus sentimentos e suas escolhas. A menos que seja fundamental saber que seus olhos são verdes, caso isso tenha importância no rumo da história, prefiro tirar minhas próprias conclusões sobre o quão marcante seu olhar pode ser. Também gosto de personagens que trazem conflitos aparentemente insolúveis. Quanto maior o “grau de dificuldade” em sair de uma situação, mais empolgante ele costuma ser.

Sempre entro na escrita de um romance com foco nisso. Quem será meu personagem? O que ele vai fazer? De onde vem e para onde vai? Qual é seu passado? Que problema tem de resolver? Qual evento exterior vai afetar seu interior, a ponto de transformá-lo e isso influenciar outras pessoas ao redor? Pedro, em Surpreendente!, e Vinícius Becker, em A máquina de contar histórias, trouxeram tais perguntas em sua composição.

Desde que me tenho por gente, personagens da literatura vêm ajudando a costurar a colcha de retalhos da minha vida de escritor e ser humano. Não escondo que invejo a enorme capacidade de muitos colegas autores para compor personagens memoráveis e atemporais. Imagino como seria perfeito se eu pudesse um dia pagar uma bebida a alguns desses personagens, para passar uma tarde inteira ouvindo-os discorrer sobre suas experiências. Em alguns casos, até descobrir o que aconteceu tempos depois do ponto final de suas histórias.

Finalizo o texto trazendo a seleção dos dez personagens para quem eu realmente gostaria de ter pagado uma bebida — chá, chope, refrigerante, hidromel ou uísque, dependendo do caso: Holden Caulfield (O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger); Rob Fleming  (Alta fidelidade, Nick Hornby); Hercule Poirot (de vários livros de Agatha Christie); Capitu (Dom Casmurro, de Machado de Assis); James Bond (de vários livros de Ian Fleming); Hazel Grace (A culpa é das estrelas, de John Green); Frodo (O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien); Auggie (Extraordinário, de R.J. Palacio); Alice (Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll); e, por fim, Dom Quixote (O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes).