testePaixão, ciúmes, conspirações e muito glamour nas suítes do Ritz

Por Vanessa Corrêa*

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“Quando sonho com uma vida após a morte (…) a ação sempre acontece no Ritz de Paris”, definiu Ernest Hemingway. Assim como o escritor americano, muitas das maiores personalidades do século XX consideravam o luxuoso hotel localizado na Place Vêndome, no coração da capital francesa, um dos cenários mais importantes da época.
untitledDesde a inauguração, em 1898, o Ritz passou a receber em suas suítes e seus salões a nata da sociedade francesa e grandes celebridades mundiais dos círculos artísticos, políticos e literários. De Marcel Proust a F. Scott Fitzgerald, passando por Sarah Bernhardt e Coco Chanel, o hotel sempre exerceu um fascínio entre os poderosos, ricos e famosos e viveu um período especialmente interessante durante a ocupação nazista em Paris, na Segunda Guerra Mundial.

Em junho de 1940, a cidade assistiu perplexa à chegada do exército alemão, e não foi nenhuma surpresa quando os oficiais nazistas mais graduados escolheram o Ritz como sua residência na Paris ocupada. A partir de então, os luxuosos ambientes do hotel, sobretudo o bar, comandado pelo experiente barman Frank Meier, serviram como cenário para casos de amor clandestinos e perigosas conspirações.

Esse período turbulento da história parisiense é retratado em detalhes em O hotel na Place Vendôme, de Tilar J. Mazzeo. Além de narrar os acontecimentos históricos mais importantes presenciados pelos funcionários e hóspedes do hotel desde a inauguração, a autora traçou de forma hábil os perfis de algumas das maiores personalidades da primeira metade do século XX. E todas, de uma forma ou de outra, passaram pelos suntuosos quartos do Ritz.

 

Coco Chanel

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A estilista mais famosa da França já era residente de longa data do hotel Ritz quando a guerra estourou. Antes do conflito, Chanel fez parte do seleto grupo de nobres, artistas e intelectuais que viveram o apogeu do hotel de luxo, nas décadas de 1920 e 1930.

Ao contrário de muitos dos integrantes da elite parisiense, ela não viu motivo para fugir da cidade com a chegada das tropas nazistas, em 1940. Sua principal boutique ficava localizada na rue Cambon, ao lado do Ritz, e, apesar de ter decidido manter a loja fechada durante a ocupação alemã, Chanel continuou morando de maneira bastante confortável no hotel.

Já na casa dos 60 anos, a estilista teve um longo caso amoroso com o oficial alemão Hans Von Dincklage durante o período em que Paris ficou sob domínio nazista. Esse relacionamento e as tentativas de retirar os sócios judeus do controle de sua perfumaria renderam a Chanel acusações de colaboração com o regime nazista, e a estilista foi alvo de investigação das autoridades francesas após a guerra.

 

Ernest Hemingway

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Um dos nomes mais consagrados da literatura americana, Hemingway é até hoje homenageado no Ritz: o famoso bar na lateral do hotel, na rue Cambon, carrega o sobrenome do escritor. De personalidade forte e amante de uma boa farra, ele era presença constante no hotel desde a década de 1920.

Em 1944, nos dias que antecederam a saída das tropas nazistas de Paris, Hemingway e outros correspondentes de guerra iniciaram uma competição para ver quem seria o primeiro a entrar na cidade libertada. O escritor não venceu a corrida, mas posteriormente se gabou diversas vezes de ter sido o responsável pela “libertação” do Ritz, de onde expulsou sem a menor cerimônia oficiais do exército britânico recém-instalados no hotel.

Tendo “libertado” também a valiosa adega do Ritz, Hemingway passou as semanas seguintes bebendo os melhores vinhos franceses em sua suíte, na companhia de amigos como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Robert Capa, enquanto aguardava a chegada da jovem e bela jornalista Mary Welsh a Paris. Foram dias felizes para o escritor, que criou no hotel sua versão particular do paraíso.

 

Robert Capa

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O maior fotojornalista de guerra de todos os tempos já rondava o bar do Ritz quando era apenas o jovem aspirante a fotojornalista Endre Friedman, em 1933. Foi nessa época que o imigrante húngaro decidiu que suas fotografias teriam mais chances de serem vendidas a um bom preço se fossem assinadas por seu alter ego, um glamouroso e bem-sucedido fotógrafo americano, a quem deu o nome de Robert Capa.

Uma década mais tarde, já estabelecido como um dos mais talentosos e corajosos fotógrafos de sua geração, Capa voltaria ao hotel para acompanhar a libertação de Paris do domínio nazista. Lá, reencontraria os amigos de longa data Ernest Hemingway, Martha Gellhorn e Irwin Shaw. O fotógrafo chegou à capital francesa algumas semanas após fazer a cobertura de guerra mais importante de toda a sua carreira: o desembarque das tropas aliadas na Normandia, que ficou conhecido como Dia D.

Inteligente, divertido e extremamente sedutor, Capa iniciou um caso de amor com a atriz sueca Ingrid Bergman, uma das mais belas estrelas do cinema da época, nas dependências do Ritz. Assim como Hemingway, o fotógrafo não recusava uma boa bebida ou uma partida de pôquer. Certa vez, chegou a ser feito “refém” por funcionários do hotel, que exigiam que ele pagasse sua elevada conta antes de partir para a próxima aventura.

 

Martha Gellhorn

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Casada com Ernest Hemingway, a fotógrafa Martha Gellhorn teve muito sucesso na carreira, mas pouca sorte no amor. Além de se preocupar com a amizade do marido com a atriz Marlene Dietrich, a quem se referia como uma “pequena cobra venenosa e repulsiva” e com quem acabaria disputando também o amor de um oficial do exército americano, Gellhorn foi a última a saber do caso entre Hemingway e Mary Welsh, que ajudaria a colocar um fim em seu já frágil casamento.

Talentosa e corajosa, Gellhorn sempre buscou estar no meio da ação durante os anos da guerra, e suas reportagens eram alvo de inveja e ciúme do marido, que se recusou a ajudá-la a chegar à Europa para a cobertura da fase final do conflito. Mesmo assim Gellhorn conseguiu atravessar o oceano Atlântico e chegou ao velho continente a tempo de testemunhar o Dia D e voltar a Paris após a libertação da cidade. A fotógrafa ficou famosa por seus registros da libertação do campo de concentração de Dachau, na Alemanha. Foi uma das primeiras testemunhas de todo o horror imposto aos prisioneiros do regime nazista e, de certa forma, jamais se recuperou das cenas que viu.

 

Marlene Dietrich

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Uma das grandes divas do cinema da época, a atriz de origem alemã naturalizou-se americana anos antes da Segunda Guerra Mundial e atuou de forma ativa ao lado dos Aliados, viajando para diversas frentes de batalha e estrelando mais de quinhentos espetáculos para elevar o moral das tropas em combate.

Entre as viagens, passou temporadas no hotel Ritz, onde estreitou sua amizade com Ernest Hemingway, provocando o ódio da esposa do escritor, Martha Gellhorn. A bela atriz era extremamente competitiva e ciumenta e detestava dividir os holofotes no hotel, onde era considerada a rainha do bar. Não foi à toa que, no início de julho de 1945, Dietrich ficou muito contrariada ao descobrir que o Ritz estava hospedando outra grande estrela do cinema, a beldade sueca Ingrid Bergman.

 

Duque e duquesa de Windsor

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O antigo rei Edward VIII da Grã-Bretanha e Wallis Simpson, a americana divorciada que escandalizou o mundo e levou o rei a abdicar do trono britânico, eram hóspedes regulares do hotel Ritz. Com conhecidas inclinações pró-fascistas, o duque e a duquesa de Windsor eram motivo de preocupação para o governo britânico, que temia que o casal se aliasse a Hitler em conspirações contra os exércitos aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo, foram exilados nas Bermudas durante o conflito, o que não impediu que colaborassem ativamente com os alemães.

Após a guerra, o duque e a duquesa de Windsor voltaram à Europa, a Paris e ao Ritz. Na década de 1950, o hotel seria o cenário de um grande escândalo envolvendo o casal e um riquíssimo herdeiro americano, em uma história que acabou com as esperanças de Edward de retomar o trono da Grã-Bretanha e abriu caminho para a coroação da então princesa Elizabeth, hoje rainha Elizabeth II.

>> Leia um trecho de O hotel na Place Vendôme

 

Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

testeLançamentos de outubro

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Confira as sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

O martelo de Thor, de Rick Riordan: No segundo livro da série Magnus Chase e os deuses de Asgard, o filho do deus Frey descobrirá que casamentos arranjados ainda não saíram de moda: para recuperar o martelo de Thor, que está nas mãos dos inimigos, Loki, o deus da trapaça, propõe uma aliança entre semideuses e gigantes. [Leia +] [Leia um trecho]

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Deuses americanos, de Neil Gaiman: Deuses americanos é, acima de tudo, um livro estranho. E foi essa estranheza que tornou o romance, publicado pela primeira vez em 2001, um clássico imediato. Nesta nova edição, preferida do autor, o leitor encontrará capítulos revistos e ampliados, artigos, uma entrevista com Gaiman e um inspirado texto de introdução. [Leia +] [Leia um trecho]

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A filha perdida, de Elena Ferrante: Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de Leda, uma professora universitária de meia-idade que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide passar férias no litoral sul da Itália. [Leia +] [Leia um trecho]

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Uma noite na praia, de Elena Ferrante: Após ganhar um gatinho de presente do pai, a pequena Mati fica tão fascinada que acaba esquecendo na praia a sua melhor amiga: a boneca Celina. Deixada para trás na areia deserta e sem saber como voltar para casa, Celina vai enfrentar uma noite interminável, cheia de sustos e surpresas, além da companhia indesejada de um salva-vidas cruel e seu terrível ancinho. [Leia +]

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A garota com a tribal nas costas, de Amy Schumer: A atriz, roteirista, comediante vencedora do Emmy e estrela de um filme indicado ao Globo de Ouro Amy Schumer expõe seu passado em histórias sobre a adolescência, a família, relacionamentos e sexo, e divide as experiências que a tornaram quem ela é – uma mulher com a coragem de desnudar a própria alma e se colocar diante do que acredita, tudo isso enquanto faz as pessoas rirem. [Leia +] [Leia também: O que você precisa saber sobre Amy Schumer]

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O hotel na Place Vendôme, de Tilar J. Mazzeo: Em O hotel na Place Vendôme, Tilar Mazzeo investiga a história do Hôtel Ritz, marco cultural desde a sua inauguração na Paris de fin de siècle até a era moderna. Além disso, faz uma crônica extraordinária da vida no Ritz durante a Segunda Guerra Mundial, quando o hotel serviu ao mesmo tempo de quartel-general dos mais graduados oficiais alemães e de lar dos milionários que permaneceram na cidade. [Leia +]

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Como matar a borboleta-azul: Uma crônica da era Dilma, de Monica Baumgarten de Bolle: Conta-se que, na década de 1970, atormentados por uma superpopulação de coelhos, os ingleses adotaram uma política tão bem-intencionada quanto equivocada, que culminou com a extinção da borboleta-azul no sul do país. O triste fim da bela borboleta é a metáfora escolhida pela economista Monica Baumgarten de Bolle para descrever a desconstrução do Brasil durante os anos de Dilma Rousseff (2011-2016) à frente da nação. [Leia +] [Leia também: Por que Borboleta-azul?]

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O guia essencial do vinho: Wine Folly, de Madeline Puckette e Justin Hammack: Com explicações claras e acessíveis, O guia essencial do vinho: Wine Folly reúne informações imprescindíveis sobre as uvas mais cultivadas do planeta, apresenta as características de cada uma – afinal, qual é a diferença entre Cabernet Sauvignon e Pinot Noir? –, ensina sobre harmonização com alimentos e até mesmo a degustar e a servir a bebida. Tudo isso com um projeto gráfico inteligente e intuitivo que é um verdadeiro convite a uma taça. [Leia +]

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Tony e Susan, de Austin Wright: Há vinte e cinco anos, Susan Morrow deixou Edward Sheffield, seu primeiro marido. Certo dia, ela recebe um embrulho que contém o manuscrito do primeiro romance de Edward, que pede que ela o leia. Susan se vê às voltas com seu passado, obrigada a encarar a própria escuridão e a dar um nome para o medo que corrói seu futuro e que vai mudar sua vida. O livro será adaptado para os cinemas em Animais Noturnos. [Leia +][Leia um trecho]

Sully – o herói do rio Hudson, de Chesley B. “Sully” Sullenberger com Jeffrey Zaslow: Em 15 de janeiro de 2009, o comandante Sullenberger habilidosamente deslizou um Airbus sobre o rio Hudson, em Manhattan, após perder os dois motores da aeronave, salvando todas as 155 vidas a bordo. O incidente inspirou o comandante a contar a própria história: uma trajetória de dedicação, esperança e prontidão, que revela as importantes lições aprendidas por ele na infância, durante o serviço militar e depois, trabalhando como piloto da aviação civil.

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