testeMichael Lewis, a não ficção que une Wall Street a Hollywood

Por Rennan Setti*

Ao longo de três décadas e 13 obras marcantes, Michael Lewis conquistou status de autor incontornável na não ficção americana. Isso graças a um talento raro para encontrar personagens, dramas e suspenses dignos de filmes em assuntos que, pela complexidade invulgar, a maioria dos autores desprezaria como complicados demais para contar com graça. O exemplo mais recente é O projeto desfazer, que Lewis acaba de lançar no Brasil. A obra reconstitui com estilo ao mesmo tempo rigoroso e comovente a colaboração entre os psicólogos israelenses Amos Tversky e Danny Kahneman, cujas ideias ganharam fama com o sucesso mundial de Rápido e devagar: duas formas de pensar

Os livros de Lewis têm o fôlego de roteiros instantâneos, e Hollywood já sabe disso. O primeiro filme veio em 2009, baseado em The Blind Side. Um sonho possível conta a história de um garoto negro, saído de um lar destruído que, graças ao apoio de uma família desconhecida, ascendeu ao apogeu do futebol americano. O filme proporcionou a Sandra Bullock um Oscar e a Lewis, a reputação de pé-quente nas telas. 

Mas, a despeito da narrativa cativante, Um sonho possível não era um clássico Lewis. O homem que mudou o jogo, de 2011, era. Inspirado em Moneyball e estrelado por Brad Pitt e Jonah Hill, o filme tinha os ingredientes mais preciosos ao autor: um assunto curioso e complicado e protagonistas que vão de encontro ao consenso. Lewis mostra como o time Oakland A’s formou um time matador de beisebol abdicando do instinto, que sempre dominou o esporte, em favor de um método heterodoxo: análise de dados. O filme foi indicado a seis Oscars.           

 Em 2015 viria a terceira transposição para o cinema da obra de Lewis. A grande aposta (baseado em A jogada do século) é uma espécie de cautionary tale das finanças, um testemunho sobre os malefícios de uma sociedade construída em torno da ganância, que recupera a trajetória de quatro sujeitos que ousaram se posicionar contra a euforia que transpirava no mercado às vésperas da crise hipotecária que provocaria o colapso de 2008. 

Aqui, Lewis está em seu terreno predileto: Wall Street. Nos anos 1980, egresso da prestigiosa London School of Economics (LSE), Lewis foi trabalhar como trader de títulos no mítico banco de investimentos Salomon Brothers. Mais do que dinheiro, a experiência proporcionou a ele um ponto privilegiado de observação dentro de uma indústria que mexia com o imaginário popular àquela época, como prova o sucesso de Wall Street, do cineasta Oliver Stone, e Fogueira das vaidades, de Tom Wolfe, ídolo máximo de Lewis. A partir do dia a dia no Salomon Brothers, o autor publicaria em 1989 O jogo da mentira, referência para quem quer mergulhar naquela exótica cultura de risco, cobiça e fortuna.

 Lewis retornaria ao universo financeiro em diversas ocasiões. Além de A jogada do século, outros títulos de destaque nessa seara são Bumerangue, uma autópsia das bolhas que o dinheiro barato alimentou pelo mundo nos anos 2000, e Panic, que reconstitui recentes episódios de pânico financeiro. Sua obra imediatamente anterior a Projeto desfazer foi Flash Boys: revolta em Wall Street. O tema principal é a ascensão de técnicas que permitem realizar milhares de transações na Bolsa na velocidade do milissegundo, a chamada alta frequência (HFT, na sigla em inglês). Poucos autores seriam capazes de transformar o HFT em algo palpitante. Mas Lewis conseguiu encontrar nesse terreno árido uma historia de contornos heroicos, onde um outsider se insurge contra o establishment de Wall Street e denuncia as trapaças por trás do novo modelo. 

 

 Um dos segredos para a eficácia do que Lewis escreve é o respeito a duas regras fundamentais do jornalismo, profissão que ele adotaria após a experiência no Salomon Brothers: clareza e, acima de tudo, gente.   

 “Como explicar CDS e CDO (dois complexos instrumentos financeiros) para minha mãe? Ela sempre foi meu parâmero: se minha mãe não pode entender o que eu estou dizendo, não tenho porque dizê-lo”, escreveu o autor na Vanity Fair, onde colabora com frequência. “Mas nunca é suficiente explicar coisas complicadas para o leitor. Primeiro, o leitor precisa querer saber sobre aquilo. Meu trabalho (em A jogada do século) era fazer com que ele quisesse muito saber sobre CDS e CDO. Os personagens maravilhosos que previram o colapso do sistema financeiro se tornaram a solução para esses dois problemas.”

*Rennan Setti é jornalista

testeLançamentos de junho

EstanteIntrinseca_Jun2015_600px

O clique de 1 bilhão de dólares, de Filipe Vilicic — Aos 26 anos, o paulistano Mike Krieger tornou-se milionário. A trajetória de um dos idealizadores do Instagram e os bastidores da compra do aplicativo pelo Facebook em 2012 são detalhados pelo jornalista Filipe Vilicic, editor de Ciência e Tecnologia da revista e do site de Veja. [Leia +]

Quem é você, Alasca? (Edição comemorativa de 10 anos), de John Green — Publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 2005, o romance de estreia de John Green ganha agora uma edição comemorativa, com um revelador texto de apresentação assinado pelo autor, cenas extras cortadas do manuscrito original, detalhes do processo de edição do romance e respostas de John às perguntas dos fãs. [Leia +]

Estação Onze, de Emily St. John Mandel Vencedor do Arthur C. Clarke Award, importante prêmio do Reino Unido dedicado à literatura de ficção científica, e finalista do National Book Award, Estação Onze, de Emily St. John Mandel, reflete sobre arte, fama e efemeridade, e sobre como os relacionamentos nos ajudam a superar tudo, até mesmo o fim do mundo. [Leia +]

Os Guinle, de Clóvis Bulcão — Sinônimo de luxo, glamour e opulência, as lendas em torno do sobrenome Guinle obscureceram a atuação da família como empreendedores pioneiros no século XX. Clóvis Bulcão resgata o papel da dinastia no processo de industrialização brasileira, na exploração de petróleo e até mesmo na popularização do futebol como preferência nacional. [Leia +] Confira as colunas de Clóvis Bulcão para o blog

Moneyball: O homem que mudou o jogo, de Michael Lewis — No comando de um dos times de menor orçamento da liga de beisebol americana, Billy Beane mudou a história do esporte ao empregar alto conhecimento em matemática para determinar o modo de jogar e selecionar os atletas contratados pela equipe. A saga, narrada por Michael Lewis, também chegou ao cinema protagonizada por Brad Pitt[Leia +]

Isla e o final feliz, de Stephanie Perkins — Isla é uma menina tímida que estuda em uma escola americana em Paris. Ela é apaixonada por Josh, mas nunca teve contato com ele. Um dia, os dois se encontram por acaso em Nova York, e o sonho de Isla começa a se tornar realidade. Mas, para ficarem juntos, eles terão que enfrentar desafios como dramas familiares, dúvidas quanto ao futuro e a possibilidade de seguirem caminhos diferentes. [Leia +]

Galveston, de Nic Pizzolatto — Diagnosticado com uma doença terminal, Roy pressente que o chefe, um mandachuva em Nova Orleans, quer vê-lo morto. Conhecido entre os membros da gangue pelo apelido de Big Country, ele desconfia de que o serviço de rotina para o qual foi enviado possa ser uma emboscada. E de fato é. Do criador, roteirista e produtor executivo da série True Detective, Galveston é um romance brutal e envolvente. [Leia +]

Os Dois Terríveis (Série Os Dois Terríveis — Vol. 1), de Jory John e Mac Barnett | Ilustrado por Kevin Cornell — Miles era o garoto mais terrível de sua escola, mas acaba de se mudar para a entediante cidade de Vale do Bocejo, conhecida unicamente por suas muitas vacas. Só que Vale do Bocejo já tem um rei das travessuras. E dos bons. Se quiser roubar o posto, Miles vai ter que se superar. [Leia +]

Como não ser um babaca: Guia de etiqueta para o cotidiano, de Meghan Doherty — Com exemplos bem-humorados e ilustrações divertidíssimas, a designer e ilustradora Meghan Doherty apresenta inúmeros cenários em que há potencial para “comportamento babaca”, como no trânsito, nos relacionamentos e até na internet, e nos convida a refletir sobre como nossas ações podem afetar os outros. [Leia +]

Bebês submarinos, de Seth Casteel — Seth Casteel provocou alvoroço na internet e nas livrarias ao apresentar suas fotos divertidas e inusitadas de cães adultos e filhotes mergulhando na água para abocanhar bolinhas e brinquedos. Nesse terceiro livro, o autor de Cachorros submarinos e Filhotes submarinos fotografa os bebês mais fofos de todos os tempos debaixo d’água. [Leia +]

Serena, de Ron Rash — Pemberton e Serena são um casal ambicioso, determinado a derrubar todas as árvores das montanhas da Carolina do Norte para aumentar sua fortuna durante a Grande Depressão. Mas um projeto de parque nacional ameaça esses planos. Pemberton passa a subornar as pessoas mais influentes para manter sua propriedade e seu poder. Já Serena recorre a outros argumentos. Para sustentar o grande império, os dois vão passar por cima de tudo. Até deles próprios. [Leia +]