testeA vida não é filme

Por Elisa Menezes*


Devemos tomar o cuidado de não julgar nossos relacionamentos pelas expectativas que nos foram impostas por um veículo estético que costuma estar equivocado. A culpa é da arte, e não da vida.

Essa é uma das ideias centrais do novo livro do escritor e filósofo Alain de Botton. Em O curso do amor, ele é o primeiro a reconhecer que não se trata de tarefa fácil, dado o bombardeio romântico a que somos submetidos há gerações. Não são poucas as histórias que terminam com a celebração de um casamento, seja nos contos de fada — “e viveram felizes para sempre” —, seja nas novelas da TV. É como se a humanidade inteira fosse embalada por Fábio Jr., que dia após dia repete em nossos ouvidos: “Carne e unha, alma gêmea, bate coração. As metades da laranja, dois amantes, dois irmãos. Duas forças que se atraem, sonho lindo de viver.”

Para dar conta da complexidade do relacionamento amoroso, Botton faz uso da mesma arma com que Shakespeare disseminou o ideal do amor romântico: a ficção. Romeu e Julieta saem de cena e entram Rabih e Kirsten. A tragédia dos jovens amantes que pertencem a famílias inimigas dá lugar aos desafios da convivência cotidiana entre duas pessoas que decidiram viver juntas a grande, difícil, surpreendente, tediosa e por vezes insana experiência do casamento.

Um casamento não começa com o pedido, nem no primeiro encontro. Começa muito antes, com o nascimento da ideia de amor, e, sendo mais exato, com o sonho de uma alma gêmea.

É por isso que o autor inicia sua história com a primeira paixão de Rabih, aos 15 anos, aquela que moldará sua compreensão do amor por décadas. O sentimento não revelado (nem correspondido), alimentado por poucos elementos concretos e muita idealização, deixará uma marca permanente em Rabih, que “continuará acreditando na possibilidade de dois seres humanos se entenderem e sentirem empatia de forma rápida e incondicional, e na chance de um fim definitivo para a solidão”.

Como nem toda produção artística é romântica, vale lembrar que nos anos 1980 os Paralamas do Sucesso já alertavam, em vão: “A vida não é filme, você não entendeu, de todos os seus sonhos não sobrou nenhum. Ninguém foi ao seu quarto quando escureceu, e só você não viu, não era filme algum.”

É justamente aquilo que costuma ficar de fora dos filmes — e que constitui a essência do casamento — que Botton está interessado em mostrar. Trata-se da versão estendida da história de Rabih e Kirsten, na qual assistimos a expectativas e desentendimentos, fantasias e frustrações, solidão e companheirismo, infantilidade e amadurecimento.

São os episódios mais corriqueiros que geram identificação imediata, como o sentimento de injustiça diante da divisão de tarefas domésticas e a mágoa acumulada pelo cônjuge não ser capaz de ler todos os nossos sinais (para nós, evidentes; para eles, dúbios). Compartilhamos as angústias do casal fictício, pois são universais.

Ao esmiuçar o casamento de Rabih e Kirsten, Botton demonstra como as experiências pessoais, a infância e a relação com os pais estão na essência de muitas atitudes que tomamos em nossos relacionamentos amorosos. Transferimos aos parceiros as expectativas que tínhamos em relação aos nossos progenitores, aqueles seres que por anos se dedicaram a cuidar, limpar, alimentar, ensinar e (tentar) compreender cada desejo dos filhos. “Aceitar os riscos dessa transferência”, diz Botton, “significa dar prioridade à empatia e à compreensão em detrimento da irritação e do julgamento”. E completa: “Duas pessoas podem vir a entender que os súbitos acessos de ansiedade ou hostilidade podem nem sempre ter sido causados diretamente por elas — e, portanto, nem sempre deveriam suscitar fúria ou orgulho ferido.”

O autor entremeia a história do casal com comentários e reflexões — como os trechos em itálico deste texto e as aspas do parágrafo anterior — pautados na psicologia, na filosofia e na história, criando assim uma narrativa que mescla ensaio e ficção.

O nascimento dos filhos é terreno fértil para o surgimento de novos desafios, e é alvo também da franqueza certeira de Botton, que aponta os sentimentos ambíguos que podemos nutrir em relação àqueles que mais amamos. “Tudo é incrível — da primeira vez”, diz o autor, referindo-se ao deleite do casal diante da novidade de cada ínfima ação de seus filhos, como engolir um pedaço de banana ou segurar um copo. “Nem Kirsten nem Rabih jamais conheceram essa mistura de amor e tédio”, conclui.

A chegada das crianças não apenas modifica a dinâmica do casal como impõe a Kirsten e Rabih papéis até então desconhecidos: mãe e pai. Naturalmente, a intimidade entre os dois é afetada, o desejo muitas vezes fica soterrado pelas novas responsabilidades; a culpa passa a ser uma espécie de bumerangue que marido e mulher jogam um para o outro. Novamente, a crença no amor incondicional nos leva a ter os piores tipos de comportamento justamente com quem amamos.

O nível de exigência que infligimos ao parceiro e a busca fantasiosa por um casamento perfeito — em vez de satisfatório — são mais uma cortesia do ideal do amor romântico. E não adianta pensar que o problema está no outro: a perfeição simplesmente não existe, é difícil que uma paixão resista ao cotidiano de louça suja, estresse no trabalho ou aperto financeiro. Mesmo a pessoa mais interessante, autêntica, compreensiva e gentil é incapaz de passar no teste da vida a dois sem revelar manias irritantes, fetiches esquisitos ou falhas de caráter. Já dizia Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal.”

Mais do que somente narrar os altos e baixos de uma relação, O curso do amor oferece um olhar empático a cada um dos cônjuges. Ao investigar as motivações, anseios e inseguranças por trás de atitudes que soam incompreensíveis no dia a dia, o autor nos convida a refletir e a perdoar — a nós mesmos e ao outro. Apesar de todos os efeitos físicos e emocionais que provoca, o amor, afinal, não é mágica, e sim mais uma habilidade que podemos (e devemos) desenvolver. Ao final, Kirsten e Rabih aprendem a apreciar as pequenas doses de felicidade e sentem que juntos são muito mais fortes e capazes de enfrentar qualquer desafio.

 

Elisa Menezes é jornalista, editora e curadora do Garimpo Clube do Livro.

teste4 coisas que você vai aprender sobre o amor

Fonte Pascal Champion

Aparentamos saber muito sobre como começa o amor e quase nada acerca de como ele pode durar.

Em O curso do amor, encontramos um guia sobre os dilemas da vida moderna e as complexidades de um relacionamento amoroso duradouro. A narrativa segue a trajetória de um casal que passa pelas várias fases do amor, da paixão à crise no casamento. Em seu retorno à ficção, o escritor e filósofo Alain de Botton nos faz refletir sobre nossos ideais românticos e como eles se modificam no dia a dia. Nesse processo, aprendemos que amar é mais habilidade do que entusiasmo.

Separamos 4 lições que você vai aprender em O curso do amor!

 

1 – Você vai reavaliar todas as suas inseguranças

Quem nunca se apaixonou à primeira vista? Quem nunca teve medo de se abrir ou sentiu ciúme? Em O curso do amor, Rabih se encanta por Kirsten instantaneamente, mas precisa lidar com seus medos e inseguranças para que os dois possam ficar juntos. Ninguém é perfeito ou inocente, mas todos estão tentando o seu melhor.

 

2 – Você vai aprender a perdoar os outros – e a si mesmo

Depois do período inicial de paixão, vêm as brigas. Rabih e Kirsten precisarão aprender a lidar com suas diferenças se quiserem ser felizes. A cada desentendimento, o autor explora como trabalhar essas emoções e como contornar as desavenças. Aprendemos que os defeitos de quem amamos também podem ser qualidades e que nossas frustrações talvez não estejam relacionadas com quem amamos. Mas, acima de tudo, aprendemos a perdoar.

 

3 – Você vai perceber que não está sozinho

Estamos acostumados a ver histórias românticas com lutas heroicas e grandes declarações de amor. Essas histórias, apesar de comoventes, não tratam dos problemas que nós, reles mortais, vivenciamos. Por isso, acreditamos que nossas dificuldades são uma limitação nossa. Talvez se víssemos nossos problemas refletidos na arte, conseguiríamos lidar melhor com eles. Entenderíamos que todos nós passamos por momentos de tédio, raiva e decepção. Até com a pessoa que mais amamos.

 

4 – Você vai se entender

Em meio à narrativa do casal, há trechos em itálico que nos fazem refletir sobre a essência do amor, oferecendo observações e ensinamentos sobre nossa maneira de amar. Descobrimos que nossa noção de amor e fidelidade deriva de movimentos religiosos e filosóficos, e descobrimos que colocamos tantas expectativas em nossos parceiros por esperarmos um amor incondicional como o que recebemos de nossos pais. Depois de ler os trechos em itálico, você vai parar, olhar para o horizonte e repensar todas as suas atitudes.

 

Se você não conhece Alain de Botton, está na hora de conhecer. O autor usa literatura, filosofia e psicologia para responder a algumas das expectativas mais básicas do ser humano. De Botton também é autor de Religião para ateus, Como Proust pode mudar sua vida, A arte de viajar e Arte como terapia, títulos publicados em mais de 30 países.

O curso do amor já está disponível nas livrarias! Saiba mais

testeLançamentos de agosto

 

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

Meu livro. Eu que escrevi, de Duny — Duny é uma celebridade de alcance mundial, rainha das grosserias e desbocada. Estrela da websérie Girls in the House, criada por Raony Phillips, Duny lança uma autobiografia recheada de ironia, lacres e histórias divertidas sobre a sua busca desesperada pela fama. [Leia +]

 

Os 27 crushes de Molly, de Becky AlbertalliDa mesma autora de Simon vs. a agenda Homo Sapiens, o livro conta a história de Molly, uma garota que já viveu muitas paixões, mas só dentro da própria cabeça. Aos 17 anos, ela acumulou vinte e seis crushes. Embora sua irmã gêmea, Cassie, viva dizendo que Molly precisa ser mais corajosa, a garota não consegue suportar a ideia de levar um fora. Então, age com muito cuidado. Para ela, garotas gordas sempre têm que ser cautelosas. [Leia +]

 

Hoje vai ser diferente, de Maria Semple A vida de Eleanor está uma bagunça, e ela sabe que a culpa é toda dela. Só que hoje ela vai ser uma pessoa melhor e vai fazer diferente. Mas antes mesmo de começar, a vida já lhe dá uma rasteira, e a força a abandonar suas humildes ambições e acordar para um novo e inesperado futuro. Uma história hilária e otimista sobre uma mulher que acorda determinada a ser a melhor versão dela mesma. [Leia +]

O livro vai ser adaptado como minissérie para a HBO com Julia Roberts no papel principal.

 

 

Fantasma, de Jason ReynoldsFantasma é um garoto que sempre soube que correr era o seu forte, mas nunca levou a atividade muito a sério. Até que, certo dia, ele disputa uma corrida contra um dos melhores atletas de uma equipe que está treinando na pista de atletismo do parque. E vence. O treinador quer ele entre para a equipe de qualquer jeito. O problema é que Fantasma tem muita raiva dentro de si e também um passado que tenta desesperadamente deixar para trás.

Finalista do National Book Award de 2016, um dos prêmios literários de maior relevância no mercado, Fantasma aborda com leveza temas como bullying, representatividade, invisibilidade social e racismo. [Leia +]

 

O curso do amor, de Alain de BottonRabih e Kirsten se conhecem e logo se apaixonam. Eles se casam, têm filhos. A sociedade nos faz acreditar que esse é o fim da história, quando, na verdade, é apenas o começo. Em seu retorno à ficção, o filósofo Alain de Botton discute, através da história de Rabin e Kirsten, as complexidades de um relacionamento amoroso duradouro. Um livro extremamente provocativo e verdadeiro para todos que acreditam no amor.  [Leia +]

 

Por trás dos seus olhos, de Sarah PinboroughLouise é mãe solteira, trabalha como secretária e está presa à rotina. Em uma rara saída à noite, ela conhece um homem no bar e se deixa envolver. Embora ele se vá logo depois de um beijo, Louise fica muito animada por ter encontrado alguém.

Ela só não esperava que seu novo e casadíssimo chefe seria o homem do bar. Apesar de ele fazer questão de logo esclarecer que o beijo foi um equívoco, os dois passam a ter um caso. Em uma terrível sequência de erros, Louise acaba ficando amiga da esposa do amante. E, se você acha que sabe para onde esta história vai, pense de novo, porque Por trás de seus olhos não se parece com nenhum livro que já tenha passado por suas mãos. [Leia +]

 

A grande saída, de Angus Deaton Vencedor do Prêmio Nobel de Economia, o economista Angus Deaton, um dos maiores especialistas em estudos sobre pobreza, apresenta um estudo que analisa por que as desigualdades ainda são tão presentes no cenário global e examina os padrões históricos e atuais por trás das nações ricas e com boas condições de saúde. [Leia +]

testeComo sobreviver ao amor

 

Fonte Hajin Bae

Rabih e Kirsten se conhecem e logo se apaixonam. Eles se casam, têm filhos. A sociedade nos faz acreditar que esse é o fim da história, quando, na verdade, é apenas o começo. A maioria dos romances conta a trajetória do casal para ficar junto e termina com um lindo “e viveram felizes para sempre”. Raramente encontramos uma história de amor que retrate nossos relacionamentos como realmente são.

Em O curso do amor, o escritor e filósofo Alain de Botton lança mão da ficção para discutir, através da história de Rabih e Kirsten, as complexidades de um relacionamento amoroso duradouro. Ao acompanhar o percurso do casal, vivenciamos com eles o surgimento da paixão, os insights que nos chegam com a maturidade, e o que ocorre com nossos ideais românticos sob as pressões do dia a dia. Botton não se atém apenas ao despertar do amor, mas elabora como esse sentimento pode se manter vivo ao longo dos anos.

 

Os desafios da relação de Rabih e Kirsten são intercalados por comentários e anotações, o que resulta em uma narrativa ao mesmo tempo ficcional, filosófica e psicológica que nos ajuda a entender não só os personagens apresentados, mas também a nós mesmos. O resultado é uma experiência única, que faz com que o leitor se identifique com esses personagens e com suas histórias amorosas.

Espirituoso, perspicaz e profundamente comovente, O curso do amor é um guia e uma reflexão sobre os relacionamentos modernos. Um livro extremamente provocativo e verdadeiro para todos que acreditam no amor.

 

 

Leia um trecho do romance que chega às livrarias a partir de 10 de agosto:

O hotel fica num afloramento rochoso, meia hora a leste de Málaga. Foi projetado para receber famílias e inadvertidamente revela, sobretudo durante as refeições, os desafios de fazer parte de uma. Rabih Khan tem quinze anos e está de férias com o pai e a madrasta. O clima entre eles é pesado, e a conversa, hesitante. Já se passaram três anos desde a morte da mãe de Rabih. As refeições são servidas diariamente numa varanda com vista para a piscina. De vez em quando, a madrasta faz um comentário sobre a paella ou o vento que sopra forte do sul. Ela é de Gloucestershire e gosta de jardinagem.

 

Um casamento não começa com o pedido, nem no primeiro encontro. Começa muito antes, com o nascimento da ideia de amor, e, sendo mais exato, com o sonho de uma alma gêmea.

 

Rabih vê a garota pela primeira vez no tobogã da piscina. Ela é cerca de um ano mais nova que ele, com cabelos castanho-avermelhados bem curtos, como os de um garoto, pele morena e braços e pernas esbeltos. Usa blusa listrada, short azul e chinelos amarelo-limão. No punho direito, há uma fina pulseira de couro. Ela olha para Rabih, esboça um sorriso pouco entusiasmado e se ajeita na espreguiçadeira. Passa algumas horas observando o mar, pensativa, ouvindo seu walkman, e, de vez em quando, rói as unhas. Os pais estão próximos a ela, a mãe de um lado folheando um exemplar da revista Elle e o pai do outro, lendo um romance de Len Deighton em francês. Como Rabih vai descobrir depois no livro de registro de hóspedes, ela é de Clermont-Ferrand e se chama Alice Saure.

Ele nunca sentiu nada nem mesmo parecido. A sensação o domina completamente desde o início. Não tem nada a ver com palavras — que eles nunca vão trocar. É como se, de certa forma, sempre a tivesse conhecido, como se ela detivesse a resposta para sua existência e, principalmente, para uma zona de dor e confusão dentro dele. Nos dias seguintes, Rabih a observa pelo hotel a distância: no café da manhã, usando um vestido branco de bainha florida, pegando um iogurte e uma pera no bufê; na quadra de tênis, desculpando-se com o treinador por suas jogadas de fundo de quadra num inglês de sotaque bem marcado e com uma polidez comovente; e numa caminhada (aparentemente) solitária em volta do campo de golfe, fazendo uma pausa para contemplar cactos e hibiscos.

 

Pode surgir muito rapidamente essa certeza de que outro ser humano é sua alma gêmea. Nem é necessário falar com a pessoa; talvez nem sequer saibamos o nome dela. O raciocínio lógico não entra em jogo. O que importa, na verdade, é a intuição; uma sensação espontânea que parece mais precisa e digna de respeito por ignorar os processos normais do raciocínio.

 

A paixão se materializa em torno de uma série de elementos: um chinelo amarelo despreocupadamente pendendo do pé; uma edição de Sidarta, de Hermann Hesse, na toalha ao lado do protetor solar; sobrancelhas bem definidas; um jeito distraído de responder aos pais e uma maneira de pousar a bochecha na palma da mão enquanto leva à boca pequenas colheradas de musse de chocolate no jantar.

Instintivamente, Rabih deduz toda a sua personalidade a partir desses detalhes. Contemplando as pás de madeira do ventilador girando no teto do quarto, ele escreve na mente a história de sua vida ao lado dela. A garota será melancólica, mas do tipo que sabe se virar. Vai confiar nele e rir da hipocrisia das outras pessoas. Às vezes, poderá parecer ansiosa em relação a festas e à convivência com as demais meninas na escola, sintomas de uma personalidade sensível e profunda. Até esse momento, terá sido solitária e jamais terá confiado completamente em alguém. Os dois vão ficar sentados em sua cama, brincando de entrelaçar os dedos das mãos. Nem ela terá imaginado que seria possível uma ligação assim entre duas pessoas.

Então, certa manhã, sem aviso prévio, ela foi embora. Um casal holandês com dois meninos pequenos ocupa a mesa de Alice. A garota e os pais deixaram o hotel ao amanhecer para pegar o voo da Air France de volta para casa, explica o gerente.

O acontecimento é insignificante. Eles jamais voltarão a se ver. Rabih não conta a ninguém. Ela desconhece totalmente as intenções dele. Contudo, se a história tem início aqui — embora Rabih mude e amadureça muito ao longo dos anos — é porque sua compreensão de amor manterá por décadas a exata estrutura que assumiu pela primeira vez no hotel Casa Al Sur, no verão de seus quinze anos. Ele continuará acreditando na possibilidade de dois seres humanos se entenderem e sentirem empatia de forma rápida e incondicional, e na chance de um fim definitivo para a solidão.

Rabih vai vivenciar anseios tão bons quanto amargos por outras almas gêmeas perdidas, avistadas em ônibus, entre prateleiras de supermercados e nas salas de leitura de bibliotecas. Terá exatamente o mesmo sentimento aos vinte anos, durante um semestre de estudos em Manhattan, por uma mulher sentada à sua esquerda no metrô da linha C, em direção ao norte da ilha; aos vinte e cinco, no escritório de arquitetura em Berlim onde será estagiário; e aos vinte e nove, em um voo de Paris a Londres, depois de uma breve conversa sobre o canal da Mancha com uma mulher chamada Chloe: o sentimento de enfim ter deparado com uma parte de seu próprio ser perdida há muito tempo.

 

Para o romântico, há apenas um pequeno passo que separa ver um estranho de relance e formular uma conclusão majestosa e substancial: a de que a pessoa talvez possa representar uma resposta completa às questões implícitas à existência.
Essa intensidade pode parecer trivial, até cômica, mas tal respeito pelo instinto não é um planeta de menor importância na cosmologia dos relacionamentos. Ela é o sol, subjacente e central, em torno do qual orbitam os ideais contemporâneos de amor.
A fé romântica sempre deve ter existido, mas apenas nos últimos séculos vem sendo abordada para além de uma doença; só recentemente a busca por uma alma gêmea pôde alcançar o status de algo próximo ao objetivo de vida. Um idealismo que antes se voltava para deuses e espíritos foi redirecionado para figuras humanas — um gesto ostensivamente generoso, mas carregado de consequências hostis e instáveis, pois não é nada simples para qualquer ser humano honrar, pela vida inteira, perfeições que possa ter demonstrado para um observador de imaginação fértil, seja na rua, seja no trabalho, seja no assento ao seu lado no avião.

 

Rabih levará muitos anos e vai precisar de várias experiências amorosas para chegar a algumas conclusões diferentes, para reconhecer que exatamente aquilo que um dia ele considerou romântico — intuições silenciosas, anseios instantâneos, a crença em almas gêmeas — é o que o impede de aprender a fazer seus relacionamentos darem certo. Vai entender que o amor só dura quando não somos fiéis às suas sedutoras ambições iniciais e que, para ter um relacionamento duradouro, precisará abrir mão dos sentimentos que desde o início o levaram a amar. Precisará aprender que o amor é mais habilidade do que entusiasmo.