teste3 conselhos sobre a Síria

Por Ivan Mizanzuk*

Foto por Gabriel Chaim

“Eu quero morrer na Síria.” Foram essas as palavras de um refugiado sírio que entrevistei em 2016.

Naquele ano, eu realizava uma série de entrevistas com brasileiros que tiveram algum contato com os recentes conflitos do Oriente Médio. Era parte de uma espécie de documentário para o meu podcast, Projeto Humanos, e tinha como objetivo fazer um mosaico dessas histórias, começando no 11 de Setembro até a (ainda corrente) Guerra da Síria. Em algum momento, me vi conversando com sírios que moravam no Brasil — o Ahmed e o Elia, para ser mais preciso. O primeiro, um jovem dentista muçulmano de Damasco que veio para o Brasil, em 2013, como refugiado, fugindo da guerra; o segundo, um atleta cristão de Aleppo, que veio como imigrante na década de 1970 porque era fã do Pelé.

Antes de entrevistá-los, fiz a lição de casa: li muito sobre a Guerra da Síria, sobre os abusos realizados pelos dois últimos ditadores, Hafez al-Assad e Bashar al-Assad, os únicos dois presidentes que o país teve nos últimos quarenta anos. A julgar pelas informações fornecidas pela mídia ocidental, era óbvio que minhas entrevistas com Ahmed e Elia seriam descrições completas sobre quão horríveis os governos da família Assad eram e são.

Mas Elia e Ahmed gostavam de Assad. E isso inutilizou todo o meu preparo. “Sim, as eleições são fraudulentas. Mas Assad é um presidente forte, e todos querem a Síria. Todos! EUA, Israel, Arábia Saudita, todos querem tomar nosso país. Por isso, precisamos ser protegidos.” Por pouco, quase cometi o erro gigantesco de querer ensinar a história da Síria aos próprios sírios, mas consegui me calar a tempo e ouvir as histórias deles.

E este é o primeiro conselho que dou àqueles que se interessam pela Síria: esqueça tudo que você entende de política, costumes e seu modelo de sociedade ideal. Apenas ouça. Quanto antes você se livrar dessas noções “ocidentais”, mais rápido vai começar a entender. E daí você vai perceber o que eu percebi: que em todo lugar do mundo há quem goste de seu presidente, há quem o critique e o chame de ditador e há quem seja pragmático e pense: “Se não ele, quem?” A verdade, se é que ela existe, está em algum desses espectros.

O segundo conselho: após deixar de lado tudo que você pensa saber e ouvir atentamente as histórias dessas pessoas, volte e comece a construir pontes com o Ocidente. No caso de nós, brasileiros, por termos sido colônia portuguesa, estamos acostumados com um modelo de Estado em que, a certa altura, a religião passou a atuar mais na esfera privada do que na pública (ao menos é o que se espera na teoria). É o modelo que “herdamos” da Revolução Francesa, no final do século XVIII, no qual Estado e Igreja são instituições que devem ser independentes. Hoje, esse é o modelo de sociedade que desejamos. Mas imagine que o estabelecimento de um Estado laico não tenha ocorrido séculos atrás, que, em vez de cristã, a população fosse em sua maioria muçulmana e que a separação entre religião e política tivesse sido imposta por um governo que subiu ao poder na base da força, na segunda metade do século XX.

Foi o que aconteceu na Síria, com o agravante de que isso tudo foi durante a Guerra Fria, um momento em que dificilmente um país conseguiria sobreviver se não escolhesse um lado . Como tantos países no Oriente Médio nesse período, os alinhamentos não eram tanto uma questão de ideologia, e sim de sobrevivência.

No imaginário ocidental, temos o péssimo costume de reduzir o Oriente Médio inteiro às questões religiosas, taxando-os de fanáticos. E, ao fazermos isso, deixamos de notar como a religião ganha conotações políticas na região, especialmente na Síria, já que esse modelo ocidental de separação das duas esferas é nosso pressuposto. Quando Hafez al-Assad subiu ao poder, na década de 1970, passou a impor políticas de secularização, proibindo, por exemplo, mulheres de usarem o véu, uma recomendação no islamismo. Parte da população o acusa de forçar uma ocidentalização dos costumes, o que gerou conflitos internos já naquela época.

E, sendo um governo autoritário, parte da população (especialmente os camponeses e os mais pobres nos centros urbanos) usou o discurso religioso como forma de resistência, como foi o caso de mulheres que faziam questão de usar o véu. Entender a religião como expressão política pode nos parecer estranho, mas é possível compreender se fizermos algumas pontes históricas. Não sei se aqui há formas “certas” ou “erradas” de agir. Apenas foi assim que aconteceu.

E quando começamos a ver como é difícil entender a Síria, lanço meu terceiro conselho: ouça as histórias do seu povo. Só através delas entenderemos melhor esses conflitos e suas contradições. À primeira vista, tudo pode parecer muito exótico e diferente, mas a realidade é que muitas das questões são bastante familiares.

Por isso, O árabe do futuro é um tesouro. Sendo o povo árabe um grupo que em geral preserva muito sua privacidade, a autobiografia de Riad Sattouf é corajosa ao expor a intimidade da família. Filho de pai sírio e de mãe francesa, o autor consegue estabelecer as pontes necessárias para que compreendamos a complexidade do desenvolvimento da Síria, do pan-arabismo e das promessas e sonhos que habitavam as mentes daquela época, naquela região.

Não vou dizer aqui que todo sírio ama seu país, pois seria uma generalização perigosa, mas, quando Riad mostra como o pai amava a Síria, entendo melhor o Ahmed, o refugiado sírio que entrevistei, quando ele disse que, apesar de tudo, deseja ser enterrado em sua terra natal.

O árabe do futuro é uma história em quadrinhos (ou graphic novel, para os que preferem termos mais chiques) que até o momento conta com três volumes. O primeiro foi lançado em 2015 aqui no Brasil, e a Intrínseca acabou de lançar o terceiro. A cada vez que o volume que estou lendo termina e vejo “Continua…” na última página, abraço minha edição e digo “até breve”. Não à toa, em 2014, ano da publicação original, o primeiro volume ganhou o Grande Prêmio no festival de quadrinhos de Angoulême, uma das premiações mais importantes do mercado Europeu. Além de colecionar esse e vários outros prêmios no currículo, o autor Riad Sattouf também foi um dos colaboradores do polêmico jornal satírico Charlie Hebdo, entre 2004 e 2014.

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Em 2011, a Síria possuía em torno de 20 milhões de habitantes. Estimativas variam, mas acredita-se que a guerra no país já tenha matado cerca de meio milhão de pessoas. Até 2017, o número de refugiados já passava dos 5 milhões. Se contarmos os que se deslocaram internamente, percebemos que mais da metade do país teve sua estrutura de vida afetada. É a maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial.

Certa vez, conversando com Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, ele me disse: “Quando falamos sobre o Holocausto, é importante humanizarmos aqueles números. Foram 6 milhões de judeus que morreram nos campos, sim, mas temos que ver isso como 6 milhões de histórias que deixamos de contar.”

Para aqueles que pretendem humanizar esses números sírios, a obra de Riad é mais do que recomendada, pois nos lembra que, ao menos desde 1978, havia casais se apaixonando, sonhos sendo construídos, famílias se desentendendo e corações batendo.

 

Ivan Mizanzuk é de Curitiba e tem 34 anos. Além de professor e escritor, é também host dos podcasts AntiCast e Projeto Humanos, nos quais debate frequentemente sobre política, artes, religião e coisas estranhas.

Twitter: @Mizanzuk

 

teste5 motivos para ler O árabe do futuro

A série autobiográfica O árabe do futuro conta a história de Riad Sattouf, um menino filho de mãe francesa e pai sírio, que ainda bem pequeno vai morar na Líbia e depois na Síria. Os primeiros três livros englobam os anos entre 1978 e 1987, período em que os dois países árabes passavam por regimes ditatoriais.

Vencedor do prêmio principal do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, em 2015, o graphic novel teve mais de 90 mil exemplares vendidos na França e foi traduzido para 16 línguas. Riad Sattouf é um renomado quadrinista francês e ex-colaborador da revista Charlie Hebdo. Tem 17 livros publicados e também atua como roteirista e diretor de cinema. 

Separamos cinco motivos pelos quais você não pode deixar de conhecer a série O árabe do futuro:

 

1 – Quem não gosta de aprender se divertindo?

Não é preciso ser amante de história para gostar do livro, mas o pano de fundo da série vai fazer com que você aprenda sem perceber. Acompanhando o dia a dia de Riad, conhecemos o quadro político e cultural de três países e as diferenças entre eles. O livro verde de Kadhafi, os conflitos entre sunitas e xiitas e o posicionamento do Ocidente frente a Israel são assuntos muito comentados pelo pai do menino, um homem muito inteligente e crítico, mas ainda com muitos pensamentos conservadores da época. Pelos olhos do autor, vemos como é crescer dentro da cultura islâmica, divido entre dois mundos completamente opostos.

 

2 – O rei dos baixinhos

É o olhar infantil de Riad que transforma temas complexos em momentos irônicos e cômicos. A ingenuidade do menino nos apresenta o cotidiano de um mundo que conhecemos apenas através de manchetes de jornais, fazendo uma análise livre dos estereótipos com que geralmente olhamos para a cultura árabe. Crianças briguentas reproduzindo discursos de guerra, racionamento de comida e professores violentos são aspectos distantes da nossa realidade, mas ainda assim essas memórias nos fazem relembrar nossa própria infância. Mesmo que não tenhamos crescido em meio a uma ditadura, quem nunca brigou com os amigos na escola, comeu até passar mal ou odiou um professor?

 

3 – Para os fãs de Persépolis e Maus


Assim como Maus e Persépolis, a série apresenta uma visão distinta sobre um conflito cultural que marcou — e ainda marca— uma geração. O embate ideológico entre Ocidente e Oriente está presente diariamente em todos os principais veículos de informação, mas raramente temos a chance de observar esse mundo de perto. As consequências dos regimes autoritários árabes perduram até hoje, mas a realidade desses países é muito distante do nosso dia a dia. Por isso, a experiência de alguém que viveu naquele período é essencial para entendermos as nuances do conflito. Assim como Persépolis, O árabe do futuro acompanha a vida do autor, mostrando as dificuldades e desafios de crescer em um regime autoritário e repressor. Essas obras provam que histórias em quadrinhos não são só para crianças. O traço, as cores e os diálogos tornam a história interessante, profunda e ao mesmo tempo leve.

 

4 – Nostalgia e alegria

Mesmo na Síria, a cultura pop da década de 1980 não passou despercebida. Se você viveu essa década, vai adorar ter um momento nostálgico com Riad. No terceiro livro, o menino se inspira em Conan, o bárbaro para enfrentar as crianças malvadas do vilarejo, juntando gravetos para fazer sua arma e reproduzindo a careta de Arnold Schwarzenegger.

 

5 – É uma história sobre a dificuldade de se encaixar

O livro aborda ditaduras, tradições religiosas e conflitos culturais, mas também é uma história sobre um menino tentando se encaixar. Seu cabelo loiro já destoa na multidão, mas a falta de conhecimento sobre a língua e a religião fazem com que ele se sinta um peixe fora d’água, um estrangeiro tanto na Europa quanto no Oriente Médio. Ao longo dos livros, vemos Riad se aventurando pelas práticas islâmicas, buscando a aceitação de seus amigos e observando com curiosidade as tradições dos países. Com isso, aprendemos junto com ele as tradições dos países. O resultado é que nós, leitores, também aprendemos muito com ele. 

 

O terceiro livro da série já está disponível nas livrarias! Saiba mais

testeTirania e nostalgia em quadrinhos

Por Alexandre Sayd*

árabefacebook

Nos anos 1980, bem antes do Estado Islâmico, da crise migratória ou mesmo do 11 de Setembro, o ditador da Líbia já era Kadafi, enquanto o tirano no governo da Síria era Hafez al-Assad, pai do atual presidente. Assim, apesar da distância de três décadas, ao lermos O árabe do futuro, do francês Riad Sattouf, temos a sensação de que o tema e o cenário escolhidos pelo quadrinista continuam estranhamente contemporâneos.

Na premiada trilogia, Sattouf narra em forma de quadrinhos sua infância e juventude. De pai sírio e mãe francesa, ele passou seus primeiros anos na Líbia e na Síria após o pai, doutor em história pela Universidade de Sorbonne, em Paris, conseguir emprego como professor nos dois países.

A partir das memórias, experiências e sensações de uma criança, o autor nos dá a oportunidade de vivenciar, sem preconceitos, esses dois universos. Este é o primeiro de vários aspectos geniais e talvez seja o grande trunfo da obra de Riad Sattouf: ele não tem a pretensão de nos ensinar nada, não pretende apresentar um ensaio geopolítico ou uma aula de história. Aprendemos muito com a obra, mas de forma natural e reflexiva.

É impressionante como a memória do autor é prodigiosa. Ela se apresenta com uma riqueza de detalhes que transcende em muito o meramente visual, com cheiros, sabores e impressões pessoais de quando Riad tinha pouquíssima idade. Ele se lembra de minúcias como o cheiro da França — em oposição ao cheiro da Líbia —, seus pratos preferidos e até mesmo de sonhos.

Impressiona em Sattouf, também, o domínio da arte de narrar em quadrinhos. Os personagens têm expressões hilárias e contagiantes, totalmente adequadas às cenas em que estão inseridos. O desenho lembra um pouco o dos Peanuts (“Charlie Brown”), de Charles M. Schulz, e Calvin e Haroldo, de Bill Watterson; porém com um uso muito diferente das cores, que, em O árabe do futuro, variam de acordo com o país retratado — na Líbia predomina o amarelo, na França, o azul, e na Síria, o rosa.

A história certamente perderia muito se transportada para outro formato que não o da graphic novel, e a qualidade da narrativa, somada à força da temática — que é crescer sob a tirania das ditaduras árabes —, coloca O árabe do futuro no mesmo patamar que Maus, de Art Spiegelman, sobre o holocausto, e Persépolis, de Marjane Satrapi, que expõe a opressão da mulher no mundo islâmico, em especial no Irã.

Na infância, Riad era louro e bem diferente do árabe médio, o que fazia dele um outsider instantâneo, com frequência excluído e hostilizado pelas outras crianças, que o tratavam por “judeu” e “filho do cão”. Nos ambientes mais isolados e remotos, sua família, em especial ele e a mãe, eram vistos pelos demais como extraterrestres. Isso não o impediu de fazer alguns amigos, que normalmente acabavam fascinados por seu exotismo e seus brinquedos do primeiro mundo.

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Riad tinha como grande herói e maior referência o pai, Abdel-Razak. Como leitor, vi no personagem um homem cheio de contradições e preconceitos, que se opõe ao obscurantismo religioso e às superstições do mundo árabe ao mesmo tempo que exalta figuras como Kadafi e al-Assad, incapaz de admitir os danos que esses tiranos causam aos países que governam. Enquanto critica o “atraso” de seus próprios pares e defende que o ensino deve ser livre do dogma religioso, Abdel afirma a todo instante a superioridade dos países islâmicos, defende o pan-arabismo e se recusa a enxergar a precariedade e a violência à qual expõe a si mesmo e a sua família.

As contradições presentes no pai de Sattouf se mostram, de certo modo, um reflexo de seu ambiente de origem. Especialmente na Síria, onde a família de Riad vive em uma pequena vila próxima à cidade de Homs, fica claro o contraste cultural entre a cidade grande e o interior, assim como entre os ricos e os mais pobres. Nos dois casos, os primeiros são muito mais ocidentalizados e livres das superstições e limitações religiosas.

Ao longo da história de Riad e sua família, somos introduzidos às particularidades desses dois mundos, ambos retratados de forma exótica. As crianças francesas são muito mais dependentes, imaturas e desinteressantes do que seus novos colegas árabes. No entanto, a comida na França é abundante e há lojas cheias de brinquedos, enquanto na Líbia, a comida é gratuita, mas escassa e pouco variada, e a distribuição dos alimentos ocorre em dias alternados para homens e mulheres, de modo a evitar contato entre os dois sexos. Já na Síria muitas crianças utilizam roupas de plástico que são réplicas das roupas verdadeiras: sapatos de plástico, no formato de tênis, com cadarços e tudo; uniformes escolares de plástico, com uma pintura que reproduz o cinto dos uniformes verdadeiros.

ArabeDoFuturo2_capa_MAINO segundo livro, lançado recentemente no Brasil, nos revela ainda mais sobre a Síria. Riad começa a frequentar a escola, onde encontra uma educação violenta e altamente doutrinária, com castigos físicos e cheia de leituras do Corão e exaltações ao presidente al-Assad. Lentamente ele passa a compreender melhor o mundo ao seu redor, até mesmo adquirindo uma visão crítica, e nós o acompanhamos nesse processo. Para leitores ocidentais, parece clara a maneira como a violência da sociedade se reflete no comportamento das crianças, que vivem brigando entre si e massacram animais como cães e sapos por esporte.

Percebemos também com maior nitidez como as mulheres são oprimidas e limitadas, reduzidas a cidadãs de segunda categoria — não há meninas nas escolas, e uma parente de Riad acaba assassinada por seus familiares após engravidar fora do casamento. Por fim, as contradições internas da Síria ficam mais evidentes em momentos como quando Riad e o pai vão ao bairro cristão para comprar carne de porco, ilegal no país, ou quando em uma visita à casa de um general importante os adultos consomem álcool, também proibido.

A obra é viciante, daquelas que nos deixam com pena de terminar a leitura. A parte boa é que os dois primeiros volumes estão disponíveis no Brasil, e já há um terceiro a caminho.

Riad Sattouf é cartunista e cineasta. Ele é mais conhecido por seu trabalho ao longo de dez anos no jornal de humor francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um ataque terrorista orquestrado pelo Estado Islâmico em janeiro de 2015. Seu filme Les Beaux gosses recebeu o César de melhor filme em 2010, e o primeiro volume de O árabe do futuro ganhou em 2015 o prêmio principal do Festival de Angoulême, considerado o mais importante do mundo dos quadrinhos. Com a crise migratória, Sattouf ajudou seus familiares da Síria a conseguir refúgio na França.

Alexandre Sayd é jornalista e descendente de franceses e libaneses.