testeAzul e Branco: O Topo do Mundo e a Fronteira

Por Ciro Nolasco*

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A fronteira. (fonte)

Quando eu saio de casa, sempre repito um mesmo ritual. Calço os tênis, passo os fones de ouvido por dentro da camisa, coloco-os nos ouvidos e ouço podcasts enquanto caminho. Vez ou outra, olho para o céu. Em algumas dessas vezes, acabo realmente observando.

Penso quais das estrelas além daquele manto azul ainda brilham, quais são meros fantasmas de um astro que não está mais lá; se existe vida, se ela é inteligente, se está nos evitando. Será que buracos negros são portais para outros universos? Essa curiosidade me fascina e me assusta. Depois de fazer uma quantidade incontável de questionamentos, percebo que errei uma rua em que devia entrar ou perdi o ponto de ônibus onde tinha que saltar.

Eu sigo com a minha vida – com a minha rotina. Mas existem aqueles que, movidos por essa inquietação, saltam para o desconhecido, para a fronteira – para compreendê-la. São os exploradores, a vanguarda da espécie humana.

A humanidade sempre vai conviver com alguma fronteira. Com o passar dos séculos e com nosso desenvolvimento, essa barreira se modifica. Toma novas formas, como a floresta, a noite, o mar, as montanhas e até mesmo outros povos. A princípio, é muito difícil para nós – indivíduos do século XXI – compreender a complexidade e magnitude da exploração de fronteiras passadas. Afinal, já temos esses locais dominados. Ninguém mais considera uma área de bosque ou o oceano pontos excepcionalmente desconhecidos. As lendas geradas por tais lugares, como bruxas, mulas sem cabeça e monstros do mar, já foram extintas. Por isso, voltar a examinar esses períodos de descobrimento com olhos contemporâneos pode ser desafiador. Tentemos fazer isso agora.

No fim do século XIX, a fronteira era o Círculo Polar Ártico, o território acima do paralelo 80 N, o enigmático cume do planeta. Hoje, com imagens de satélite e os efeitos do aquecimento global, essa área do globo carece de segredos como os do século XIX. Por volta de 1870, o local se tornou intrigante por conta da sua dificuldade de acesso e do ambiente exótico. Representava tudo que era desconhecido para a humanidade.

CAPA_NoReinoDoGelo_GO “Polo Norte [era] o topo do mundo. O ápice, o apogeu, o auge. Não só uma região magnética, mas também uma ideia magnética. Assomava como obsessão pública e enigma planetário — tão sedutor e desconhecido”. É como coloca a obra No Reino do Gelo, cuja ambientação tem sucesso em apresentar as condições, as motivações e os sentimentos dos membros de uma expedição ao Ártico. O livro acompanha George Washington De Long e sua busca por uma rota para o Polo Norte em 1879. Empreitada sem certezas – sequer de retorno.

Imagine você, no final do século XIX, na proa de um navio exploratório; sentindo o gelado vento marinho no rosto, olhando ao longe. Você não sabe o que há além e não tem como saber. Força o olhar para tentar identificar qualquer coisa que não seja gelo. O barco tem dificuldade de navegar por causa da grande quantidade de banquisas – água do mar congelada – e icebergs. O frio intenso causa queimaduras e é uma luta se manter aquecido. Além do som do bater da mandíbula – por conta da temperatura baixa – e do quebrar do gelo com a passagem do barco pela água, o silêncio impera. Acompanhando esse sossego, o horizonte se preenche somente de branco e azul, de água e gelo, por quilômetros e quilômetros, milhas e mais milhas náuticas. Sua imaginação passa a preencher as lacunas que você – o explorador – criou.

Existiram muitas teorias sobre o que haveria além da barreira de gelo que impedia as caravanas exploratórias de chegarem ao Ártico. Por algum tempo, por exemplo, imaginava-se que o Polo Norte não sofria de fato com temperaturas terrivelmente negativas, mas sim que um oceano com clima e mar amenos, como o Caribe ou o Mediterrâneo, existia no topo do globo – como se fosse assim por conta do contato constante com a luz solar. Segundo essa teoria, o gelo que os navios encontravam fazia parte de um cinturão que cercaria o mar calmo e quente. A ideia de esse ambiente ser real tinha tanta força nos círculos sensíveis ao assunto como a de que haveria uma Sociedade Ártica vivendo no centro do polo. As duas teorias, por algum tempo, nortearam o imaginário e a discussão sobre o extremo norte do planeta e só foram deixadas de lado com o aumento na frequência de expedições ao território e com as conquistas por elas alcançadas.

A partir de meados do século XIX, expedições para o Ártico se tornaram frequentes. Apesar da mística sobre o lugar ter diminuído conforme o conhecimento aumentava, a contemplação do desconhecido se manteve. O explorador simplesmente não conseguia deixar a curiosidade de lado. A motivação política e econômica que existia na exploração – de achar uma rota marítima para o comércio que cortasse o polo – deu lugar à pura vontade da conquista. Exploradores, cientistas, filantropos e entusiastas queriam saber o que havia no topo do globo. Muitos grupos falharam ao tentar se aventurar pelo território. Algumas expedições resultaram em desistência, morte de exploradores e até mesmo no sumiço da expedição, como foi o caso da de John Franklin (1845), que teve um dos navios encontrado somente em 2014. Entre elas, a caravana de De Long e o USS Jeannette também se depararam com dificuldades no seu caminho.

O cenário de conquista é favorável para uma história de superação individual. A exploração do Ártico está cheia de contos de sobrevivência. A expedição Polaris (1871) teve seu capitão morto por envenenamento. Quando o navio ficou preso no gelo, a tripulação sem líder ficou à deriva numa banquisa por seis meses antes de ser resgatada. Tripulações inteiras desapareceram e só sabemos suas histórias por conta de um punhado de sobreviventes – quando houve algum. Os que são lembrados são os nomes dos líderes de expedição, aqueles que buscaram compreender os mistérios da fronteira.

Existe uma contenda entre dois homens sobre quem foi o primeiro a chegar ao Polo Norte. Frederick Cook (1908) e Robert Peary (1909) dizem ter chegado ao local em momentos diferentes. Ambos teriam ido pela via marítima até onde o gelo permitiu e continuaram ou caminhando ou por meio de trenós puxados por cães. Somente a palavra desses homens prova a sua chegada ao polo. Os trajetos que tomaram, o tempo e como foram levantam muitas dúvidas sobre a veracidade de suas histórias. Apesar disso, Cook e Peary puderam tirar proveito desse status de “Primeiro no Polo” enquanto viveram, porque não havia quem fosse até lá para ver. Essas histórias apenas alimentavam a aura de mistério sobre o tema e criavam novas dúvidas.

Com o caminhar do século XX e seus acontecimentos – como as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria –, a exploração do território ficou para segundo plano, até o momento em que outros fatores, como o aquecimento global, a exploração espacial e imagens de satélites, transformaram as discussões sobre a área mais setentrional do planeta. Mais uma vez, a expansão do conhecimento permitiu à humanidade alçar novos voos, deixando o Polo Norte e seus segredos para trás.

O Ártico do século XIX e início do XX não é o mesmo de um século depois. Aquele colosso de gelo diminuiu em tamanho e mistério para dar lugar a outra fronteira: o espaço. Não por isso o Norte deixou de ser intrigante “com sua solitária grandiosidade, com suas miragens e seus estranhos efeitos de luz, seus parasselênios e halos vermelho-sangue, suas densas atmosferas de nevoeiro que alteravam e ampliavam os sons”. O Polo Norte continua implacável e fascinante àqueles que ousarem desvendar suas belezas.

 

Ciro Nolasco é formado pela UFRJ em História, mas ensina inglês. Tem uma grande coleção de contos de fantasia fantástica e ficção científica incompletos. Aprecia contemplar a imensidão das coisas.

testeHistórias reais que mais parecem ficção

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Nem sempre histórias incríveis são focadas em contos fantásticos, mistérios imaginários ou ficção científica. Separamos quatro livros impressionantes que mostram como, às vezes, a realidade cria histórias tão impressionantes quanto a ficção.

Deixado para morrer

untitledParecia que tudo correria normalmente para um grupo de alpinistas que planejava subir ao topo do Evereste em maio de 1996. Até que uma tempestade inesperada atingiu a montanha mais alta do mundo.

O grupo foi atingido diretamente, e seus integrantes se separaram ao longo do caminho. Assim que a equipe de resgate chegou, uma escolha impossível foi feita: alguns alpinistas simplesmente não poderiam ser resgatados, devido a sua localização e sua condição física após a tempestade.

Beck Weathers foi um dos que foi dado como morto após o resgate, mas doze horas depois, cego, sem luvas e coberto de gelo, ele surgiu caminhando na direção do acampamento. Como ele sobreviveu? Você terá de ler para saber.

A história de Beck foi uma das que inspirou o filme Evereste, estrelado por Jake Gyllenhaal, Keira Knightley e Josh Brolin.

Além do relato assustador de Beck, é interessante ver quão fiel à realidade é a descrição da escalada. Ideal para aqueles que se interessam pelo assunto, e pelo que acontece quando tudo dá errado.

A última viagem do Lusitânia

lusitaniagrndeEm maio de 1915, o transatlântico Lusitânia saiu de Nova York com destino a Liverpool, na Inglaterra, levando um número recorde de crianças e bebês a bordo. Apesar da tranquilidade da tripulação e dos passageiros, a Europa entrava no décimo mês da Primeira Guerra Mundial, e uma viagem daquele tipo era obviamente um risco.

O que o capitão do navio não esperava é que a rota do Lusitânia encontraria a do submarino alemão Unterseeboot-20 e do serviço secreto britânico, ficando no centro de um dos maiores desastres navais já documentados.

Apesar de ser um dos maiores naufrágios da história, a história do Lusitânia era desconhecida do grande público até ser recontada por Erik Larson – autor de No Jardim das feras e de O demônio na Cidade Branca –, que recorreu a documentos oficiais, recortes de jornal, diários e obras escritas pelos sobreviventes para escrever sobre a tragédia.

É isso que eu faço

Lynsey Addariograndeitswhatido era uma fotojornalista que tentava se estabelecer profissionalmente quando os atentados de 11 de Setembro mudaram o mundo. Por ter alguma experiência no Afeganistão, ela foi chamada para voltar ao Oriente Médio e cobrir a invasão americana ao país.

Essa foi apenas a primeira de muitas vezes que Lynsey abdicou do conforto de sua vida para relatar as crueldades da guerra.

Em É isso que eu faço ela retrata os afegãos antes e depois do estabelecimento do regime talibã, a destruição e revolta no Iraque e expõe a cultura de violência contra a mulher no Congo

Além disso, relata a ocasião do próprio sequestro durante a guerra civil na Líbia, que ganhou destaque na mídia internacional.

O livro teve os direitos vendidos para o cinema, e o filme será produzido por Steven Spielberg.

No reino de gelo

CAPA_NoReinoDoGelo_GNo século XIX, o mundo era um pouco mais misterioso do que atualmente. Uma das grandes questões era sobre o que poderia existir no Pólo Norte.

Enquanto as teorias variavam entre civilizações perdidas, continentes inteiros e um imenso bloco de gelo deserto (o que obviamente é a resposta mais sem graça e a verdade) algumas pessoas acreditavam que de alguma forma o ponto extremo do planeta seria na verdade um oceano quente e navegável.

Para colocar tais teorias à prova, diversos exploradores rumaram ao Norte. E, como o padrão da lista, as coisas não foram muito positivas.

No reino do gelo mostra todo o processo da exploração liderada por George Washington De Long, desde a escolha do navio perfeito – o USS Jeannette – à luta pela sobrevivência da tripulação.

 

testeLançamentos de junho

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Confira sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

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Loney, de Andrew Michael Hurley – Quando os restos mortais de uma criança são descobertos durante uma tempestade de inverno numa extensão da sombria costa da Inglaterra conhecida como Loney, Smith é obrigado a confrontar acontecimentos terríveis e misteriosos ocorridos quarenta anos antes, quando ainda era jovem e visitou o lugar. Com personagens ricos e idiossincráticos, um cenário sombrio e a sensação de ameaça constante, Loney é uma leitura perturbadora e impossível de largar, que conquistou crítica e público. Uma história de suspense e horror gótico, ricamente inspirada na criação católica do autor, no folclore e na agressiva paisagem do noroeste inglês. [Leia +]

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A ditadura acabada, de Elio Gaspari – A mais aclamada obra sobre o regime militar no Brasil chega à conclusão com o livro A ditadura acabada. No quinto volume da Coleção Ditadura, o jornalista Elio Gaspari examina com riqueza de detalhes o período de 1978 a 1985, desde o final do governo do presidente Ernesto Geisel e a posse de seu sucessor, o general João Baptista Figueiredo, até a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral.

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A publicação de A ditadura acabada é a conclusão da obra definitiva sobre um dos períodos mais turbulentos da história do Brasil, resultado de uma extensa pesquisa e do acesso a uma documentação até então inédita. Os cinco volumes da Coleção Ditadura foram reunidos em um luxuoso box, também disponível em versão digital. [Leia +]

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F de falcão, de Helen Macdonald – Best-seller do The New York Times, F de falcão é um livro de memórias nada usual que narra a história de Helen Macdonald a partir do momento em que viaja até a Escócia para comprar um falcão. Devastada por uma forte depressão após a morte de seu pai, Helen se encontra em um abismo e nada mais faz sentido em sua vida. Porém, ao praticar a falcoaria com Mabel, sua nova ave de rapina, e ler os diários de T. H. White, clássico autor da literatura inglesa, ela começa a entender que o luto é um estado que não pode ser evitado, mas que pode ser superado — inclusive com a ajuda de um inusitado açor.

A premiada escritora britânica participará da Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece entre os dias 29 de junho a 3 de julho. Saiba mais

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Liderança, de Alex Ferguson e Michael Moritz – O que é necessário para levar uma equipe ao máximo de sucesso e mantê-la no topo por um bom tempo? Sir Alex Ferguson é um dos poucos líderes que sabem de fato a resposta a essa pergunta. Nos 38 anos em que atuou como técnico de futebol, ele alcançou a impressionante marca de 49 troféus e fez do Manchester United uma das maiores marcas do mundo. Nesse livro franco e inspirador, ele revela os segredos por trás de sua carreira repleta de recordes. [Leia +]

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Gentil como a gente, de Fernanda Gentil – Com leveza e humor, Fernanda Gentil conta uma história de amores vivida por uma família singular e ao mesmo tempo igual à de todo mundo. Mocinha (ou Fernanda?) briga e, com a frequência de eclipses lunares, pede desculpas. Quando quer, sabe ser fofa. E mostra-se craque em entender as diferenças entre o feminino e o masculino, mata no peito, sai de impedimento, bota para escanteio e bate um bolão. Porque o que Fernanda mais quer é fazer e ser feliz. Sem firulas. Gentil. Como a gente. [Leia +]

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Lugar Nenhum, de Neil Gaiman – Publicado pela primeira vez em 1997, a partir do roteiro para uma série de TV, o sombrio e hipnótico Lugar Nenhum, primeiro romance de Neil Gaiman, anunciou a chegada de um grande nome da literatura contemporânea e se tornou um marco da fantasia urbana. Ao longo dos anos, diferentes versões foram publicadas nos Estados Unidos e na Inglaterra, e Neil Gaiman elaborou, a partir desse material, um texto que viesse a ser definitivo: esta Edição Preferida do autor inclui um texto de introdução assinado por Gaiman, uma cena cortada e um conto exclusivo. [Leia +]

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No reino do gelo, de Hampton Sides – No final do século XIX, o mundo era bem diferente de como o conhecemos hoje. Os Estados Unidos eram um jovem país em acelerado crescimento após a Guerra Civil, invenções tecnológicas apareciam a todo momento e muitas partes do globo ainda continuavam completamente inexploradas. Entre elas estava o Polo Norte. No reino do gelo conta a fascinante história de heroísmo e determinação do navegador George De Long e da tripulação do navio americano USS Jeannette na conquista de um dos locais mais implacáveis do planeta. [Leia +]

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Welcome to Night Vale, de Joseph Fink e Jeffrey Cranor – O podcast Welcome to Night Vale conta as histórias da cidade de Night Vale, uma amistosa comunidade no meio do deserto onde todas as teorias da conspiração são reais. No formato de um programa de rádio, Cecil Palmer, locutor da rádio comunitária, informa a todos as pequenas estranhezas da pacata cidadezinha — onde fantasmas, anjos, alienígenas e agências governamentais misteriosas e ameaçadoras fazem parte do cotidiano dos cidadãos. Desta vez, a chegada de um homem de paletó bege faz com que as vidas de duas mulheres, cada uma com seu mistério, vire de cabeça para baixo. [Leia +]

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A outra história, de Tatiana de Rosnay – Aos vinte e quatro anos, Nicolas Duhamel se depara com um segredo perturbador, há décadas mantido a sete chaves por sua família. Perplexo, ele parte em uma cruzada na busca por suas verdadeiras origens, uma empreitada que o inspira a escrever seu primeiro romance, O envelope. Após três anos do inesperado e estrondoso sucesso mundial do livro, Nicolas é um autor vaidoso, com muitos fãs. Contudo, não consegue mais escrever nem uma linha sequer. Hospedado em um luxuoso resort na Toscana, ele tenta vencer o bloqueio criativo, mas o que Nicolas encontra lá poderá colocar em jogo todo o seu futuro. [Leia +]