testeSobre o amor

Recentemente, fui curadora da TAG — uma espécie de Clube do Livro mais moderno e orgânico, que vale conhecer — e indiquei como título do mês o livro Stoner, do autor americano John Williams.

Como todo bom livro, Stoner ainda segue retumbando em mim. Volta e meia penso nele, e foi assim que preparei meu papo com a turma da TAG, em que os leitores debatem a leitura do mês. Entre dezenas de belos momentos, talvez ancorada na minha própria vida e nas suas questões, escolhi ler um trecho em voz alta que, acho eu, é de uma sabedoria absoluta. Fala do amor, essa chama, esse refúgio, esse sonho com que todos sonhamos e que, pela dificuldade de ser levado adiante, acaba por ser uma das grandes questões humanas.

Disse o narrador: “Na sua mocidade, Stoner imaginara o amor como um estado absoluto do ser ao qual uma pessoa, se tivesse sorte, podia aceder um dia; na idade adulta, decidira que era o paraíso de uma falsa religião, que uma pessoa devia encarar como uma divertida incredulidade, um suave desprezo familiar e uma nostalgia embaraçada. Agora, na meia-idade, começava a perceber que não era nem um estado de graça nem uma ilusão; via-o como um ato humano de transformação, uma condição que era inventada e alterada de momento para momento, de dia para dia, por meio da vontade, da inteligência e do coração.”

Não existe amor sem vontade, sem dedicação e sem o esforço contínuo da vontade, da inteligência e do coração. Quando um desses três pilares esmorece, sofre o amor — sofremos todos nós, sujeitos conjugadores desse amor.

Copiei esse trecho da prosa de John Williams e colei no meu armário para que eu possa lê-lo todos os dias e nunca mais esquecê-lo. Stoner não é um livro sobre o amor. Talvez seja um pouco sobre a solidão, o contraponto do amor conjugado — embora alguns amores possam ser bastante solitários também. Stoner, como muitos bons romances, é um livro sobre tudo. Mas esse trecho é um mantra ancorado na maturidade — o amor é um ato humano de transformação. Se isso não for bonito, sinceramente, não entendo nada de beleza.

 

PS: Eu estava em casa numa noite dessas e uma amiga querida lá de Pelotas, que aqui no Sul preferimos chamar afetuosamente de Satolep, me manda por WhatsApp um trecho de Stoner que a fez se lembrar de mim. Bem, vocês já sabem qual é… Afinal, toda amizade é mesmo um tipo de amor muito especial.

testeSimulacro

Três horas da tarde, as pedras coruscam na rua. Na seção de história natural, os dinossauros ressonam. Entre os livros infantis, uma menina sonha castelos e fadas. Na contabilidade, no fundo do corredor acarpetado de verde, até os números bocejam de tédio enquanto os romances escondem longas tardes numa praia remota e a brisa, presa entre a capa e a contracapa, não leva o perfume do mar até ela.

Ela olha o relógio, três horas da tarde. Dentro do shopping, o ar-condicionado engana o verão. As estações estão nas páginas dos livros, não nesse emaranhado de caminhos ladrilhados, de vitrines e objetos inúteis.

Dentro da livraria, no corredor dedicado aos autores franceses, ela estica sua mão e tira um livro da prateleira. Sursis. Uma velha edição de Sartre que havia muito não se achava. Nessa livraria moderna e informatizada, entre os lançamentos da semana e os mais vendidos, aquele exemplar distoa. Mas como foi parar ali? De que gaveta se furtou, de que prateleira caiu? De que sala, de que biblioteca, de que mãos? Ela folheia o livro. Também na história de Sartre faz calor e alguém espera seu destino. Assim como Mathieu está à beira de um horrível futuro, o que a aguardará?

Três e dez e ele não veio. Marcou numa livraria para esperá-lo com calma — em que outro lugar teria tão agradável companhia? Na seção de culinária, alguém procura uma receita de creme brullé; entre os norte-americanos, Philip Roth disseca Newark; não há uma seção para literatura polonesa, mas ela encontra Singer nas edições de bolso.

Três e dezoito, pensa em sua mãe. Talvez tivesse sido melhor combinar o encontro num bar. Seria mais fácil. Duas taças de vinho branco e meia dúzia de frases. Se ele queria ir embora, que fosse. Não haveria de ser ela a segurá-lo ali naquela cidade, naquele casamento.

Três horas e vinte e cinco, e no almoxarifado chegam caixas vindas de São Paulo. Um homem paga com seu cartão Visa os dois volumes de Dom Quixote.

Três horas e trinta e oito, para além das paredes, dos carpetes e dos livros de autoajuda, a metrópole faísca sobre o sol. Ali dentro, um senhor busca por Borges, seção literatura latino-americana. Ela volta pelos corredores. Onde estava mesmo? Ah, autores franceses. Seus dedos correm pelas lombadas coloridas. Por fim, encontra o velho Sursis, o exemplar surrado. No caixa, dizem-lhe: “Este livro não está catalogado, senhora, alguém deixou-o por aí, perdeu-o…”.

Ela recorda que ele costumava ser bastante pontual, mas muita coisa mudou desde então. Talvez devesse ter marcado num parque. Numa boutique. Num sinal de trânsito. Mas de qualquer modo, ele não viria. Olhou o livro órfão e sorriu: há sempre alguém perdendo alguma coisa em algum lugar deste mundo.

testeDos sonhos

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Quem frequenta vestiários sabe da camaradagem que por vezes se instala entre seus frequentadores. É até engraçado, mas algumas mulheres com quem convivo eu só vejo seminuas — talvez seja essa quase nudez que nos permita uma intimidade que não teríamos numa praça ou mesa de bar.

Dia destes, após a natação, vi uma mãe vestindo, com grande confusão, seu filho pequeno. Eu, que sou mãe de meninos, senti uma nostalgia do tempo em que também precisava segurar meus guris para enfiar-lhes a fralda. Ri daquela ginástica maternal — um dos tantos jogos que nós, mães, temos de fazer para tocar adiante os dias das nossas crianças —, assim como uma senhora de idade já bem avançada. Ambas, de calcinha e sutiã, comentamos dos nossos meninos pequenos e das suas estrepolias. A senhora disse: “Meu filho já tem 50 anos e mora longe daqui. Mas, sempre que sonho com ele, é um menino de fraldas. Nos meus sonhos ele nunca cresceu.”

Achei aquilo muito lindo. Meus próprios sonhos têm seus predicados e personagens favoritos. Quando meu padrinho, Ricardo, morreu — durante muitos anos ele foi como um irmão mais velho para mim —, por muitos meses, toda noite eu sonhava com ele. Sua morte súbita foi um choque. Foi nos sonhos que nos despedimos. Depois, embalada pelos nossos oníricos encontros, acabei escrevendo um romance (Os Getka, ed. Record) e transformei-o em personagem principal. Assim como nos sonhos a gente revive nossos amores, na literatura, de forma um pouco mais consciente, revivo pessoas e afetos.

A casa azul da minha infância em Cidreira até hoje é meu palco predileto. Meus sonhos têm o hábito de desenrolar-se entre aquelas paredes há muito perdidas. Era por lá que meu padrinho passava todas as noites. Lá, meus meninos — que nunca entraram naquele chalé — engatinharam e falaram. Cada alegria e cada dor desta vida, durante minhas noites, migraram para lá. Já morei em vários lugares, e minhas férias há mais de trinta anos têm muitos destinos. Mas a casa azul segue firme e confiante, rainha dos meus sonhos até hoje.

Ultimamente, virou palco de outras histórias. Passei a sonhar com os primeiros anos do meu casamento. Mas, em vez de São Paulo, aquela vida de outrora se desenrola no chalé azul da Avenida Mostardeiro que meu avô Jan construiu. Um a um, noite após noite, meus amores e minhas saudades têm migrado para lá.

 

testeBordando a vida

Viajo por dez dias e, na volta, encontro tudo igual, talvez um pouquinho pior: tristes declarações da nossa presidente apoiando as barbáries do MST e mais um atentado absurdo em Jerusalém. Aqui em casa, tirando a morte de uma das plantas da minha varanda, tudo segue harmoniosamente igual.

As manchetes de jornal, já velhas, esperavam-me sobre a escrivaninha quando cheguei, e num ZH de domingo encontro uma matéria interessante sobre “as prendas femininas”. Dessas férias, eu trouxe uma sacola de lãs para tecer no inverno que se aproxima. Sempre trancei agulhas ¾ de pequena, minha mãe me ensinou a tricotar. Ela dava lãs para as três filhas, e nós mesmas fazíamos nosso guarda-roupa de inverno.

Era lei lá em casa, e aprendi muito naquelas noites entre meadas e fios. Engraçado que bordar, tricotar e costurar tenham sido afazeres crucificados até pouco tempo atrás. É verdade que, durante muitos anos, o feminismo e o capitalismo não admitiam que mulher produzisse para consumo próprio. Bordar, só se fosse na fábrica, para não deixar morrer de fome os cinco filhos analfabetos.

Não tenho nada contra mulheres que não gostam de tricotar ou cozinhar ¾ cada um faz o que quer com o tempo livre, inclusive nada, o que sempre é uma boa alternativa. Mas não compreendo a vergonha que alguns veem no exercício dessas “habilidades tipicamente femininas”.

O trabalho manual guarda em si um alento, um abandono, um recanto no qual os pensamentos fluem, dão voltas junto com a linha e transcendem. Sempre pensei muito enquanto bordava. Aliás, foi atrás de uma máquina de costuras que enveredei pelo caminho inexorável das histórias, pois eu tinha uma confecção quando comecei a escrever meu primeiro livro.

É bem verdade que bordar sempre clareou minhas ideias. E não só as minhas — tenho várias amigas (arquitetas, fotógrafas, publicitárias, advogadas) que nas horas vagas também empunham suas agulhas assim como faziam suas avós donas de casa, assim como fazia Penélope esperando o retorno do seu Ulisses. Se durante algum tempo nos envergonhamos disto, do talento das mãos para a criação, isso ficou no passado.

Seria tão ridículo quanto se envergonhar do nosso próprio ventre fecundo.“Eu gosto da metafísica, só pra depois. Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz. Falar as falas certas: a de Lurdes casou, a das Dores se forma, a vaca vez, aconteceu. As santas missões vêm aí, vigiai e orai que a vida é breve”, pois o feminino se encontra em muitas coisas, assim como na voz de Adélia Prado.

testeCriando os filhos para o mundo

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Na imagem, meu avô no passaporte que o trouxe até o Brasil, há exatos oitenta anos.

A Brigada Militar de Porto Alegre postou um tuíte pedindo que a população circule pelas ruas “carregando somente o necessário”, porque, claro, não há segurança para ninguém. Você pode ser assaltado a qualquer hora do dia na esquina de casa, com arma na cabeça, e lá se vai sua bolsa, seu celular, seu carro, seu casaco, sua esperança, sua paz de espírito e, dependendo do desfecho, sua vida.

Como todo mundo, deixei de fazer muitas coisas que outrora fazia com tranquilidade: evito andar de carro à noite, sair a pé depois que escurece, carregar cartões bancários à toa, estacionar na rua… Deixei de ir a eventos em lugares distantes quando não tenho companhia.

Triste lembrar que houve um tempo, quando morei fora, em que eu sonhava com Porto Alegre. Agora, vejam só: roubaram Porto Alegre de nós. Roubaram-na dos nossos filhos, que tiveram de aprender a entrar e sair correndo do carro, a não falar com estranhos e a não dar informações pela rua por causa dos sequestros-relâmpagos que grassam por aqui.

A verdade é que roubaram o Brasil dos brasileiros. Mas o mais triste é saber que roubaram o país dos nossos filhos. Um país que era para ser deles, com um futuro bonito. Um país onde um cidadão de bem pagaria seus impostos em dia — impostos altos, vá lá — para ter um suporte estatal à altura do seu investimento cotidiano.

Lembro, com uma pontada de tristeza, que meu avô polonês atravessou meio mundo na terceira classe de um navio — com uma das mãos à frente e a outra atrás —, levando consigo nada mais do que sonhos, em busca de uma vida boa aqui nesta terra. Hoje, quero que meus filhos façam o caminho inverso ao do velho Jan W.

“Aqui, não”, eu lhes digo (com um nó no peito). Pode parecer egoísta, mas prefiro ser egoísta com o país a ser com meus meninos. Quero-os acreditando que pode dar certo, que existem leis e que elas regulam a sociedade em todas as instâncias. Quero-os andando pela rua com tranquilidade, não como andamos por aqui, onde a própria polícia — que nem salários em dia recebe — avisa que devemos levar “somente o necessário”.

Acontece que necessito de muitas coisas. Necessito sair de casa com a alma leve. Necessito saber que meus filhos, andando pela rua, não vão cruzar com um maluco armado, capaz de fazer qualquer coisa por um par de tênis. Porém, não temos mais lugares seguros: arrastões em supermercados, em restaurantes, até em igrejas. Relatos horríveis.

Onde estão nossos governantes? O que têm feito de efetivo? Aqui no estado, ou aparecem para dar explicações de salários parcelados, ou postam fotos supérfluas de eventos supérfluos enquanto a cidade é devastada por uma onda de violência sem limites. Lá em cima, no Planalto, a turma está mais ocupada com a distribuição de cargos fundamentais da República, nessa queda de braço desavergonhosa pelo poder.

Já perdi Porto Alegre, meus filhos já a perderam (sem nem sabê-lo, coitadinhos, que houve um tempo em que a gente brincava na calçada até a hora do jantar). Do futuro do Brasil, só o tempo dirá. Do futuro dos meus filhos, digo que trabalharei para que seja longe daqui. E digo com tristeza, podem acreditar.

testeAs possibilidades do impossível

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Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura (fonte)

“Porque nossa história será sempre, felizmente, uma história inacabada. Por isso, temos que continuar sonhando, lendo e escrevendo, que é a maneira mais eficaz de aliviar nossa condição mortal, derrotar a corrosão do tempo e converter o impossível em possibilidade.”

Assim termina o discurso de Mario Vargas Llosa ao receber o Prêmio Nobel. Tal e qual o último parágrafo, toda a fala é preciosa e guarda passagens belíssimas. Mas esse trecho serve, para mim, como oração: hei de lê-lo todas as noites.

Como uma oração, pensarei nele a cada manhã, quando o peso dos problemas, de tocaia para além da minha cama, ameaçar o pouco de inspiração que o sonho me deixou. Pensarei nele quando estiver triste, sozinha, no vácuo entre o passado e o futuro, porque nossa história está sempre inacabada, e tudo que anda pelo meio pode experimentar uma reviravolta.

Vou lê-lo todas as tardes antes de, despindo-me de horários, compromissos e chatices da vida comezinha, entrar no mundo da minha ficção; vou lê-lo como um mantra, um caminho, uma certeza. Porque escrever é, antes de tudo, o maior alívio para a finitude, a maior proeza contra a morte, a maior argúcia com a qual se pode combater a realidade mesquinha.

Tantas vezes escrevi aquilo que eu gostaria que acontecesse… Em várias ocasiões (vocês podem achar que não, mas é verdade), coisas que escrevi me aconteceram inesperadamente. Também contei uma história tentando roubar da realidade seu provável desfecho, mas a vida encontrou maneiras de contornar a ficção, e o que eu nunca quis acabou me acontecendo. A ficção me trouxe coisas que a vida levou embora, de modo que, na minha existência, o real sempre há de confundir-se com o sonhado, e cada romance que terminei é um pouco um diário criptografado da minha própria existência — não porque o que vivi esteja lá, mas porque meus pensamentos, desejos e ansiedades misturaram-se às frases que escrevi ao longo dos muitos anos que me ocupo de ficcionar.

O que o tempo corroeu está vivo e altaneiro em alguma página por aí, e o que ainda não foi escrito trará consigo os signos de um futuro de possibilidades ainda nem sonhadas. Graças à literatura, todos aqueles que escrevem e leem podem enganar a vida real, engrandecê-la, transmutá-la e dela vingar-se sempre, absolutamente sempre que quiserem, amém.

 

testeDe tanto odiar

Coluna Leticia

Fonte: New Yorker

As pessoas odeiam demais. Eu sei, estamos vivendo tempos difíceis. A Petrobras está indo para o beleléu, nossas contas mensais estão indo para o céu…

Ler as notícias, hoje em dia, dá ódio na gente. Fomos rebaixados, sequestrados, vulgarizados, esquecidos, enganados, intimados a pagar a conta, financiados por ditadores e roubados por políticos. Mas, por favor, precisamos nos controlar.

Precisamos fazer alguma coisa produtiva com esse ódio todo pingando na nossa vida cotidiana feito infiltração, nem que seja um passaporte para uma viagem sem volta. Quem sabe lá na quietude das ilhas Maurício o ódio fosse diminuindo, diminuindo… Sei lá. Não sei se há corrupção nas ilhas Maurício, desvios bilionários, água potável, transporte público decente, atendimento médico e bons salários. Só sei que não quero morar nas ilhas Maurício. Por outro lado, eu moraria feliz no Uruguai, a terra do meu amigo Mauricio Rosencof — uma pessoa em cujo coração só existe luz e poesia, embora o destino e a história política tenham lhe subtraído doze anos de existência da forma mais cruel que se possa imaginar.

Você aí de dedo em riste, falando alto, xingando o cara do carro em frente, vociferando contra o verde ou o vermelho, em vez de odiar, pesquise a vida do meu amigo Mauricio Rosencof — não vou contar aqui, não. Leia os livros dele — no congestionamento, no ônibus lotado e quente, na sala de espera do médico, mas leia. A gente aprende mais com o Mauricio Rosencof do que lendo as manchetes políticas e econômicas deste nosso país — e odeia menos.

De tanto odiar, estamos ficando vulgares, tristes, cinzentos, melancólicos e com pressão alta. Estamos nos transformando em pessoas intolerantes: dedos em riste, mãos nas buzinas, carros nas vagas para deficientes. Estamos odiando o cidadão ao lado, o vizinho de cima, a moça grávida, o colega de trabalho, o senhor na faixa de pedestres. Odiar tanto assim faz mal à saúde e não nos aproxima nem um pouco de um futuro melhor.

testeAmar não é acertar

O mundo anda com uma mania de perfeição que venho achando muito rasa. Penso nisso toda hora. Não estou falando de política — Deus me livre trazer este assunto à baila por aqui. Estou falando de relacionamentos. Mães e filhos, namorados, cônjuges, amigos, relações familiares em geral.

Parece que tudo precisa ser perfeito. Assim como sentir tristeza hoje em dia virou uma espécie de doença, errar também virou sinal de desamor.

É claro que acertar é bom. Todos queremos ser os melhores pais do mundo, os melhores companheiros, os melhores amigos, amantes e irmãos. Os mais engraçados, leves, sinceros, sexys e justos. Mas toda relação — baseada no amor ou na amizade — está sujeita a escorregões e tombos. Porque a constância, a presença cotidiana, os anos, as transformações e as turbulências pelas quais cada um de nós passa ao longo desta vida, tudo isso exige uma série constante de ajustes. E ajustar aperta, pinica, dói às vezes. Ajusta-se o que está errado, o que mudou de tamanho mas ainda serve, vale a pena.

Mães erram com seus filhos toda hora. Mesmo tentando fazer o melhor, erramos. Erramos cotidiana e constantemente, erramos cheias de amor. Casais são injustos uns com os outros todos os dias. Sadios são aqueles que conseguem, depois de um perrengue qualquer, respirar fundo e começar de novo, zerando as mágoas e as minúsculas injustiças cotidianas.

Hoje, as contas se acumulam nos relacionamentos. E aí, quando a fatura está no vermelho, é hora de tocar adiante. Troca-se o par, contas zeradas, e o jogo começa outra vez da casa 1 do tabuleiro. As relações familiares, nesse ponto, suportam mais os dissabores — ninguém pode trocar de mãe, pai e irmão a cada quatro anos. De um modo ou de outro, as famílias se aturam, já que não tem jeito mesmo. Mas quantas vezes a gente vai dormir se sentindo péssimo — afinal, no calor do afeto, erramos com alguém? Só erra quem tenta. E tentar é amar. Hoje em dia, todo erro é visto como defeito. Discordo disso. Enquanto tentamos, estamos presentes. Enquanto estamos presentes, é sinal de que existe o amor.

Afinal, amar não é acertar. Amar é tentar.

E, ao errar, tenta-se de novo.

Sempre.

testeDuvido, logo existo

Há uma hora na vida em que parte das nossas certezas se transformam em dúvidas. Nesse momento, quase tudo aquilo em que acreditávamos parece ter sua importância relativizada — outras vontades, outros sonhos, meros esporos invisíveis de futuros diversos parecem crescer dentro de nós, passeando pela corrente sanguínea, pelos sonhos e pesadelos, pelos mais distraídos pensamentos.

Há uma hora, para todo mundo, em que a própria vida cotidiana parece ter ficado pequena, como uma roupa da estação passada que é descartada do armário de uma criança por não servir mais. É uma hora difícil, como são difíceis os partos, com o tanto de sangue e mistério que guardam, com seus perigos, as superstições, o medo e o futuro cheio de novidades. É uma hora difícil — é preciso mexer-se do lugar, mudar a perspectiva, aventurar-se. É preciso fazer a bainha da nossa própria ansiedade, separar-se das velhas certezas e assumir a dúvida como guia.

Algumas boas certezas são fundamentais nesta vida; são como o alicerce sobre o qual erguemos nossa existência. Mas a dúvida tem que estar em algum lugar, latente sempre, atenta ao presente e ao futuro, duvidando, como um desses cães de guarda que passam a madrugada latindo no portão. Há um ditado que diz: “A chave da sabedoria é a dúvida.” Segundo meu médico pessoal, é duvidando que a gente vai adiante.

Muitos artistas fizeram da dúvida o ponto de partida da sua arte. Como Van Gogh, Robert Mapplethorpe, Bispo do Rosário e uma lista eclética de nomes de todos os tempos e lugares. Muitos autores escreveram belíssimos romances sobre a caminhada pessoal que a dúvida inaugura, como Somerset Maugham, em O fio da navalha, e o japonês Kenzaburo Oe — cuja dúvida e superação pessoal se materializaram na figura de um filho excepcional —, com seu inesquecível Jovens de um novo tempo, despertai — duas das grandes leituras da minha vida.

testeO batom vermelho

Sempre fui uma excelente aluna mas, ao terminar o colégio, decepcionei-me pois não entrei na faculdade. Tinha feito apenas o vestibular da UFRGS. Quando o listão veio sem meu nome, prometi a mim mesma que, no ano seguinte, estaria entre os primeiros colocados. Assim, matriculei-me num cursinho e meti a cara nos livros.

Durante vários meses, estudei por mais de dez horas diárias. Quando enfio uma coisa na cabeça, sou meio maluca — naquele tempo, criei uma regra: copiava fórmulas e conceitos, colando-os por paredes, gavetas e recantos do meu quarto. A regra era nunca passar por um desses papéis sem lê-lo, de forma que, para vestir um agasalho ou pegar uma bolsa, eu antes tinha que enfrentar fórmulas de física, regras de português, três ou quatro equações matemáticas.

Bem, foi um tempo em que eu demorava bastante para me vestir. Porém, acordando cedo o suficiente para ler toda aquela papelada, eu me arrumava, lascava um batom vermelho nos lábios e ia para o cursinho. Como era muito atenta, fui convidada a integrar o grupo dos alunos que tinham aulas extras, aqueles considerados capazes de passar no vestibular com louvor. Eu estudava tanto que, tendo entrado no cursinho a fim de cursar arquitetura, já pensava em trocar para medicina, pois a turma dos crânios era quase toda de aspirantes a médicos. Enfim, o ano em que me matei de estudar foi também o ano do Plano Collor, uma época financeiramente desastrosa para nossa família. Recordo que, muitas vezes, saía mais cedo de casa e caminhava até o cursinho — era um jeito de fazer exercício e também de economizar a grana da passagem, que renderia um cinema no sábado.

Certa manhã, numa segunda-feira, venci as dezenas de quadras até a aula e, meio atrasada, sentei-me no meu lugar habitual lá no fundo. Por causa da pressa, esquecera-me de aplicar o batom vermelho. Então, o professor de matemática começou a sua aula — era um cara engraçado, falador e envolvente. Em determinado momento, viu-me lá no fundo e gritou:

— Ah, não! Sem o batom vermelho?! E numa segunda-feira? Vai nos dar azar a semana inteira! Pararei a aula até que a senhorita faça o favor de aplicar o nosso batom.

Foi uma risada geral.

Quase morri de vergonha, mas saquei o batom da bolsa, surgiu um espelhinho de uma colega e a aula seguiu seu curso. Alguns meses depois, a UFGRS publicou uma pequena lista de segunda chamada e meu nome estava lá. Eu ficara em centésimo primeiro lugar, e um aluno desistira. Entrei, portanto, para arquitetura. Foi uma passagem breve, e sempre me ficou a dúvida de como teriam sido as coisas se eu tivesse terminado o cursinho e prestado o tal vestibular para medicina. Mas aí, então, seria outro enredo para esta minha vida. Quanto ao batom vermelho, nunca mais usei.