testeAntes da queda: quando a sobrevivência é a nossa última escolha

Por João Lourenço* 

“Senhores passageiros, sejam bem-vindos e obrigado por escolherem a nossa companhia aérea.” 

Durante o aviso que antecede os voos, costumo prestar atenção na reação das pessoas ao meu redor. Algumas não conseguem esconder o nervosismo, param o que estão fazendo e ficam atentas; outras simplesmente ignoram. Sou do segundo time. Prefiro acreditar que jamais vou precisar seguir aquelas “dicas” de sobrevivência. Afinal, se houver mesmo um acidente, quais serão as minhas chances?

Notícias de quedas de aviões sempre reacendem o nosso medo de voar. Eu, como não tenho estômago para acompanhar depoimentos de pessoas que perderam amigos e familiares em desastres aéreos, prefiro ouvir as histórias daqueles que por alguma razão — sorte? destino? — deixaram de embarcar no último minuto. 

Em Antes da queda acontece o contrário. Scott Burroughs, um pintor fracassado, entra no avião quando a porta da aeronave já está para fechar. Neste caso, não se trata de um voo comercial, mas de um jato particular que transporta apenas onze passageiros, entre eles alguns dos homens mais influentes dos Estados Unidos. O voo, de aproximadamente 50 minutos, é entre a exclusiva ilha de Martha’s Vineyard e Nova York. Mas, dezoito minutos após a decolagem, o avião cai no oceano Atlântico. Enquanto tenta domar o pânico, pensando em uma forma de sobreviver, Scott escuta o choro e o pedido de socorro de uma criança. É J.J., filho mais novo do diretor do canal de notícias mais assistido nos EUA, a ALC News. O desejo de sobreviver vence o frio e o medo de Scott. Mesmo com o ombro deslocado, ele nada por cerca de 18 quilômetros até a praia, puxando J.J. com a ajuda de uma corda e uma almofada de flutuação. 

Esse poderia ser um breve resumo do livro: duas pessoas tentando sobreviver após a queda de um avião. Mas esse trecho está apenas nas primeiras páginas do novo thriller de Noah Hawley

Após o acidente, Antes da queda segue em capítulos que se dividem entre o passado dos personagens que não sobreviveram e o presente de Scott e J.J. Mesmo salvando a vida de um menino de quatro anos, Scott provoca questionamentos na mídia e na população: seria ele um herói ou um farsante? O motivo: a última série de pinturas de Scott é sobre desastres, como imagens de aviões em chamas. Além disso, os personagens que morrem no acidente são pessoas influentes, endinheiradas e invejadas, o que levanta muitas suspeitas sobre a queda do avião.

Âncora do programa mais assistido da rede ALC News, o sensacionalista Bill Cunningham ficou famoso graças a David, diretor da emissora e pai de J.J. Inconformado com a morte do chefe, o jornalista está disposto a descobrir a qualquer custo o que realmente aconteceu de errado no voo — mesmo que para isso ele tenha que grampear telefones de autoridades e pessoas poderosas.  

Antes da queda também relata momentos honestos de compaixão, como a relação que Scott desenvolve com o menino J.J. Abalado com o acidente, o garoto quase não fala mais, abrindo exceção apenas quando está ao lado de quem o salvou. São muitas emoções que o livro proporciona e, quando se trata de deixar o público na expectativa, o autor Noah Hawley não decepciona. 

Além de escritor, Noah também é roteirista, diretor e produtor das séries mais badaladas da TV americana, como Bones, Fargo e Legion — essa última já é a série mais comentada deste ano. Em artigo para a revista Vanity Fair, que considerou Noah o homem que representa o futuro de Hollywood, o autor afirma que tenta separar e distinguir as mídias durante o processo criativo, mas, no final, uma coisa acaba levando à outra. Ele explica: “Eu quero que o livro seja um livro. Mas, então, percebo que o que escrevi pode se tornar um filme e isso é ótimo. Mas esse não era o meu objetivo quando comecei a escrever o livro.” Não era o objetivo, mas Antes da queda vai virar filme. Antes mesmo de chegar às livrarias, os direitos de adaptação cinematográfica do livro foram comprados pela produtora Sony. 

O autor de Antes da queda, Noah Hawley (Fonte)

Considerado pelo The New York Times um dos melhores suspenses de 2016, Antes da queda explora temas bastante pertinentes da nossa vida cotidiana. O autor nos lembra que vivemos em uma sociedade em que Fake News e Click Bait já estão inseridos na maneira como consumimos notícia e conteúdo em geral — e isso é perigoso. 

O sensacionalismo perpetrado por Bill Cunningham não é muito diferente daquele que se encontra em diversos canais — vide o número de matérias falsas e sem fundamento que foram ao ar durante a corrida presidencial americana. No caso de desastres aéreos, isso tende a piorar. Não há limite para a invasão de privacidade dos familiares daqueles que não tiveram a mesma sorte de Scott e J.J. Uma das questões levantada por Noah é a seguinte: se há tanto sensacionalismo na mídia, a culpa é de quem produz a informação ou de quem a consome? 

Em Antes da queda, somos confrontados com os bastidores da vida, com tudo aquilo que a TV não está interessada em mostrar. Afinal, por trás de qualquer desastre ou escândalo, existem pessoas. Ao lado de Scott, aprendemos que o tecido da vida é frágil e que a questão da sobrevivência não tem apenas a ver com riqueza financeira ou força física. Como diz Jack LaLanne, guru do mundo fitness e herói pessoal de Scott, tudo é possível, tudo é alcançável. Você só tem que querer muito! 

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeMeu peixe

natação

No final da adolescência, em função de uma lesão no joelho, comecei a nadar por recomendação médica. Nunca mais parei. Sou uma pessoa que adora esportes e a natação sempre foi o meu esporte de base. Longos trechos dos meus livros foram pensados embaixo da água, nas piscinas desta vida.

O meu primogênito eu o coloquei na água aos três meses — aulas de natação para bebês. Ah, as mães de primeira viagem são afoitas… João entrou e saiu da natação ao longo de vários anos. Um dia engrenou na coisa, entrou na equipe do Clube União em Porto Alegre e seguiu nadando, nadando, nadando. A natação virou uma parte importante da sua vida, uma parte fundamental.

Ano passado, por dificuldades de logística, morando fora de Porto Alegre, João ficou sem clube. Durante alguns meses, passou as tardes vendo séries na televisão, estava acabrunhado. A falta da endorfina, pensei. Então, como mãe nadadora, procurei o treinador dele em Porto Alegre e iniciamos um treinamento a distância. Eu recebia os treinos e, diariamente, passava-os a João. Comprei um cronômetro, alguns livros e me muni de paciência para acordar cedo aos sábados e domingos e correr com ele para o clube perto de onde morávamos — um clubezinho supersimpático, mas que só tinha uma piscina social, comprida. Sim, dava para treinar, o problema é que ela se enchia de sócios nos finais de semana. O remédio então era sempre chegar antes, e madrugávamos.

Durante dez meses, meu filho de 13 anos treinou diariamente comigo — eu fui a equipe dele, ele foi a minha. Escrever exige disciplina, paciência e persistência — praticar um esporte a sério, também. Vi João acirrar a sua vontade nas muitas horas que passamos juntos, eu tentando dar o meu melhor, João dando o seu melhor. Se chovia, era sob a chuva. Se fazia calor, lá estava eu, em qualquer mísera sombra. Foi uma experiência e tanto — a natação uniu-me ainda mais ao meu filho adolescente numa época em que estes dois mundos, o dos pais e o dos filhos, costumam apartar-se um pouco.

No último sábado, já de volta à sua equipe no União, meu filho competiu por uma vaga nos Jogos Escolares 2015, cuja final será no Ceará. Das três provas que nadou, ganhou um Ouro e uma Prata. Ele garantiu a sua vaga, mas, para mim, vendo-o nadar com aquela garra, aquele menino tão crescido, com uma musculatura de fazer inveja a muito marmanjo, com uma força de vontade de fazer mais inveja ainda… Bem, vendo-o nadar, meu coração se encheu de alegria. Eu estava lá com ele em cada braçada, estive lá com ele em todas as suas piscinas. Não sei o que João pensa enquanto nada, eu — enquanto nado — tenho pensado que ele é uma das histórias mais bonitas que já escrevi.