testeMulheres sem nome: a história por trás da História

Por Fabiane Pereira*

Mulheres sem nome é inspirado em (duas) histórias reais vividas no período da Segunda Guerra Mundial. Martha Hall Kelly passou vários anos pesquisando e viajando pela Alemanha, França e Estados Unidos para entender esse universo sombrio — e carregado de lembranças — da vida de mulheres que se encontraram no único campo de concentração feminino Ravensbrück, na Alemanha.

Antes de ler pensei que seria mais um livro sobre os (absurdos) atentados contra a humanidade comandados por Hitler, entre o final da década de 1930 e o início da década de 1940, mas Mulheres sem nome é um livro interessantíssimo, costurado por fatos históricos e personagens femininas empoderadas numa época em que empoderamento passava longe da teoria, mas era prática diária e garantia de sobrevivência.

Estamos acostumadas a ler a história das guerras sob a ótica masculina, mas, neste romance, a autora opta por uma narrativa carregada de detalhes nem um pouco piegas protagonizada por três mulheres num dos (recentes) momentos inexplicáveis da história — o cenário é o regime totalitário alemão, cujas atrocidades jamais encontraram justificativas —, e como a Segunda Guerra Mundial afetou diretamente a vida delas.  

A socialite nova-iorquina Caroline Ferriday está sobrecarregada de trabalho no Consulado da França, em função da iminência da guerra. O ano é 1939 e o Exército de Hitler acaba de invadir a Polônia, onde Kasia Kuzmerick vai deixando para trás a tranquilidade da infância conforme se envolve cada vez mais com o movimento de resistência de seu país. Distante das duas, a ambiciosa Herta Oberheuser tem a oportunidade de se libertar de uma vida desoladora e abraçar o sonho de se tornar médica-cirurgiã, a serviço da Alemanha. A história das três se cruzam no campo de concentração feminino de Ravensbrücke, de forma controversa em alguns casos, todas realizam seus desejos mais íntimos pela persistência.

Sabemos tão pouco sobre as mulheres que vieram antes de nós… A história é predominantemente masculina, por isso livros como Mulheres sem nome ajudam a preencher esta lacuna. Mas não pense que a leitura é fácil. Martha Hall Kelly não poupa detalhes nem ameniza algumas passagens estarrecedoras e isso acaba por nos remeter a imagens terríveis. Sabiamente, a autora estruturou o livro em capítulos narrados por cada uma das três protagonistas, o que permite que o leitor no auge do incômodo respire ao entrar em algum momento mais “leve” da vida de outra personagem.

Caroline Ferriday é o respiro a que me refiro acima. Suas angústias giram em torno do desejo de amar e ser correspondida — e isso a torna mais próxima dos leitores. “Desisti dos homens, Roger — declarei. Aos trinta e sete anos, havia me resignado a permanecer solteira“, diz Caroline logo no início do livro. Sua vida é marcada pela filantropia (ela ajuda franceses desalojados, refugiados europeus em busca de asilo e tem um Fundo para Famílias Francesas que auxilia órfãos que se perderam dos pais por qualquer razão) e pela paixão por Paul Rodierre, um ator judeu, francês e casado, que corresponde aos seus sentimentos, porém a guerra os separa por um longo período.

Mulheres sem nome

Inspirado em personagens reais da Segunda Guerra Mundial, "Mulheres sem nome" conta a história de três mulheres que foram esquecidas pelo tempo.Leia um trecho: http://bit.ly/2mnX1G9

Posted by Editora Intrínseca on Friday, November 24, 2017

 

Já Kasia Kuzmerick era uma adolescente apaixonada por Pietrik Baroski quando teve a juventude suspensa e os sonhos adiados por causa da guerra. Capturada como “espiã” pelos nazistas, viu sua vida e a vida de sua mãe e irmã mudarem completamente ao chegarem em Ravensbrück. As passagens de Kasia são as mais difíceis de serem digeridas pelo leitor. “Éramos como moscas presas no mel, vivas mas sem viver de fato“, diz em um dos momentos delicados do livro. Em outro, narra a forma como foi recebida no campo de concentração: “recolheram o que trazia comigo: um lenço, meu relógio, aspirina, os últimos vestígios de uma vida normal. E ainda raspou minha cabeça de modo indelicado.” E continua: “agiu sem nenhuma consideração com o fato de que eu era jovem e ela estava me violando de maneira irreversível. Tive pouco tempo para lamentar.” Talvez não tenham sido os sonhos o que a fez persistir, mas o ódio que passou a nutrir dentro de si. “Em certos dias, o ódio era a única coisa que me fazia seguir adiante“, conta.

Kasia foi transformada, contra sua vontade, numa “Coelha” devido aos experimentos da médica Herta Oberheuser, que servia ao Exército alemão. A Dra. Oberheuser chamava todas as mulheres de cobaias experimentais de Króliki, coelha em polonês. Essas mulheres — na verdade, jovens entre 15 e 20 anos que haviam sido presas por violarem regras de Hitler — eram vítimas de experiências com sulfonamida. Kasia e as muitas mulheres foram operadas como parte de uma complexa série de experiências médicas que replicava ferimentos traumáticos. A equipe comandada pela Dra. Oberheuser aplicava culturas de bactérias aos ferimentos para provocar gangrena gasosa, então administraram sulfa em algumas para provar uma teoria científica. O fato é várias se tornaram mancas e/ou aleijadas e pulavam pelo campo para poderem se locomover, daí serem chamadas de Coelhas.

Herta era uma mulher cujos princípios éticos tangenciavam a servidão inquestionável ao Estado alemão. “Era triste ver os bens de alguém serem levados daquela maneira, mas os judeus haviam sido alertados. Eles sabiam quais eram as exigências do Führer. Aquilo era lamentável, mas não era novidade, e era pelo bem da Alemanha“, comenta em um dos momentos que nos faz questionar como foi possível toda uma nação se enganar e concordar com o totalitarismo de Hitler. ” Hitler é a nossa esperança. Em pouco tempo, ele nos livrou das favelas. E precisa dominar. A Alemanha não pode prosperar sem ter para onde expandir. Ninguém devolverá as terras que perdemos“, acreditou Herta e outros milhares que embasaram as atrocidades cometidas pelo ditador alemão.

Há uma passagem de tempo, a guerra chega ao fim e a esperança volta a ter espaço na vida dessas mulheres que só sobreviveram graças a sororidade, conceito que naquela época nem sequer existia. Por terem umas às outras — sejam como amigas, irmãs ou na relação entre mãe e filha — como exemplos de coragem, as relações afetivas se fortaleceram a ponto de serem molas propulsoras de sobrevivência.

Mulheres sem nome é um livro feminista mesmo sem ter a pretensão de sê-lo. É uma história forte que nos faz agradecer o momento em que vivemos — por mais difícil que esteja sendo 2017 — e nos dá forças para lutar contra tudo aquilo que nos limita como ser humano. É um livraço! É a história por trás da História.

*Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM.

testeBig Little Lies: o que ficou de fora da série

*Por Luana Freitas e Nina Lopes

Para você que acabou de ver Big Little Lies na HBO e, assim como nós aqui na Intrínseca, não consegue parar de comentar sobre a série, fizemos uma breve comparação para mostrar que o universo da história é muito maior no livro da Liane Moriarty, o que torna tudo ainda mais interessante.

1- A violência contra Jane é mais detalhada

Já é tenso ver na tela a cena de violência sofrida por Jane, mas muitos detalhes ficaram de fora na adaptação para a série. Jane ainda sofre uma violência verbal que a deixa traumatizada e a faz adquirir novos hábitos. Por exemplo, ela corre com frequência porque foi chamada de gorda feiosa. Além disso, ela não foi parar naquela cidade por mero acaso e na cena final há um embate fortíssimo quando ela reencontra alguém indesejado do passado. Vale a pena ler o diálogo deles no livro!

2- A atitude de Bonnie na festa é bem mais contextualizada

Parem as máquinas! Essa foi minha maior decepção com a série. Como assim não explicam o que leva Bonnie a agir daquela forma na festa? A verdade é que ela guarda segredos cabeludíssimos sobre o seu passado e sua família e só os leitores de Pequenas grandes mentiras vão saber quais são!

3- Ed, o melhor marido

Achamos que nosso querido e amado Ed ficou um pouco bobo, com cara de coitado e mal-amado na série. Segura essa bomba: Madeline não trai Ed no livro. Pelo contrário, a personagem é construída de tal forma que uma atitude dessas seria inverossímil. Além disso, Ed não fica por aí lançando olhares megalascivos para outras mulheres. Porém, nem tudo está perdido para você que gosta de uma bela treta: há, sim, casos de infidelidade no livro. Mas envolve uma babá e o marido de uma mulher atribulada — e pancadaria generalizada.

4- Renata não faz as pazes com Jane até a festa, mas é a primeira a sair em defesa do grupo de mulheres

Levanta a mão quem achou estranho Renata e Jane conseguirem se entender assim tão de repente. Pois é, no livro as pazes não são feitas com tanta facilidade, rola muita treta ainda entre as duas até que a paz seja selada — e não é Jane quem corre atrás disso. Entretanto, é importantíssimo ressaltar que quem toma a iniciativa de selar o acordo de silêncio sobre o(a) responsável pela morte investigada pela polícia parte da executiva — sim, minha gente, a cena do assassinato é MUITO mais complexa do que vimos na tela (só digo que Ed e Nathan estavam no meio e foram soterrados de sororidade).

5- O leilão da virgindade de Abigail

Algo que ficou em segundo plano na série, mas é fundamental para a trama do livro foi a ideia de Abigail leiloar a própria virgindade em prol das vítimas de exploração sexual infantil. O diálogo de Madeline com a filha é muito mais histérico, cru e comovente do que a estapafúrdia confissão/argumento sobre a traição contra Ed. E Nathan, como qualquer pai na mesma situação faria, correu para falar com Madeline quando descobriu as intenções da filha. Ah, e é a solução surpreendente desse problema que leva a uma das cenas mais tensas da história!

6- O depois da festa: como cada personagem ficou

Muita gente se questionou por que não deixaram a série com mais episódios já que ficaram muitas pontas soltas após o capítulo final. Sim, a cena da praia com todas as mulheres reunidas transbordou delicadeza e entendimento, mas como todo mundo ficou? Jane correu atrás dos direitos de Ziggy depois que a identidade do pai do menino foi descoberta? Como Celeste tentou lidar com o trauma das agressões físicas? Jane ficou na cidade? E a relação conturbada de Madeline e Bonnie? A polícia descobriu quem foi o assassino? Isso tudo e muito mais é explicado no livro, nenhuma trama fica solta no ar.

7- Celeste vai fazer terapia sozinha

No livro Perry nem sonha que Celeste conversa com uma terapeuta. Na verdade, ela busca escondido uma profissional que trabalhe especificamente com vítimas de violência doméstica. Se você achou interessante o foco dado aos aspectos psicológicos da relação da vítima de agressão com o seu agressor, vai gostar de saber que no livro foi dado muito mais espaço para as consequências psicológicas que permeiam a vida de quem sofre bullying, quem é agredido fisicamente, quem se vê obrigado a guardar um segredo terrível.

Obviamente sempre que um livro serve de inspiração para o cinema e a TV haverá diferenças, já que cada meio tem sua linguagem e recursos próprios. Aqui na Intrínseca todos nós ficamos apaixonados pela maneira como a obra de Liane Moriarty foi trabalhada na série. Este texto é só para instigar os leitores que já estão morrendo de saudades de Madeline, Celeste e Jane a mergulhar ainda mais nessa trama e se deliciar com os pequenos grandes detalhes que ficaram de fora, mas estão logo ali no livro.

* Luana Freitas e Nina Lopes são editoras assistentes de livros estrangeiros na Intrínseca e adoram uma história de mistério com personagens femininas fortes.

testeMulheres, uni-vos!

Por Fabiane Pereira*

“Precisamos ver experiências de mulheres reais, mesmo que isso envolva violência doméstica, assédio sexual, romance, infidelidade ou divórcio.” Esta declaração foi dada pela atriz e produtora Reese Witherspoon numa coletiva de imprensa recente do Television Critics Association.Para quem não está ligando o nome à pessoa, Reese já levou um Oscar e um Globo de Ouro, além de ter estrelado incontáveis filmes icônicos — como nosso guilty-pleasure preferido, Legalmente Loira.

Com atuações marcantes e um discurso engajado, Reese Witherspoon também faz parte do projeto Pequenas grandes mentiras, que reúne várias mulheres talentosíssimas. O livro foi escrito pela australiana Liane Moriarty e já na semana de lançamento tornou-se best-seller do The New York Times. A obra foi adaptada para a TV pela HBO e a série estreia no domingo, 19 de fevereiro. Com 7 episódios, Big Little Lies conta com a produção de Reese e Nicole Kidman que, com Shailene Woodley, Zoë Kravitz e Laura Dern fazem parte do elenco. Resumindo, uma série baseada num livro escrito por uma mulher sobre os dilemas das mulheres e realizada por mulheres preocupadas com uma questão primária: igualdade entre os sexos.

No livro e na série, acompanhamos a história de três mulheres, todas mães, que, aparentemente, têm vidas perfeitas. Até que um dia um assassinato abala suas rotinas e aquela perfeição torna-se um suspense sombrio cujo enredo prende o leitor/espectador.

 

A revolução feminina

O mundo está mudando. Pesquisas divulgadas pelo Facebook apontam que a maior parte dos compartilhamentos são feitos por mulheres, e uma das razões, ouso dizer, é porque o protagonismo feminino veio para ficar.

Inclusive, várias atrizes de Hollywood — algumas das personalidades mais conhecidas do planeta — têm se posicionado diante das questões de direitos das mulheres. Um deles é o “lugar de fala”, conceito que representa a busca pelo fim da mediação: cabe às mulheres falarem por si, como protagonistas de suas próprias histórias e lutas.

Beyoncé e Madonna, divas da música pop, aproveitam qualquer oportunidade midiática para empoderar outras mulheres através de seus discursos engajados. O mesmo se dá com atrizes do primeiro escalão do cinema mundial: Reese Witherspoon, Patricia Arquette, Emma Watson, Meryl Streep e tantas outras.

Estas mulheres representam milhares de outras no mundo todo quando pedem que sejamos tratadas da mesma forma que os homens, tendo os mesmos direitos, principalmente no que diz respeito aos salários e às oportunidades. Para todas estas mulheres, o feminismo não deve ser uma luta apenas das mulheres porque ser feminista não significa nada mais do que querer a igualdade entre os gêneros.

 

Protagonismo em Pequenas grandes mentiras

Aos 40 anos, a atriz e produtora Reese Witherspoon tem uma trajetória muito bem-sucedida na defesa da participação e do empoderamento das mulheres em Hollywood, um mercado extremamente machista. A artista já declarou inúmeras vezes que por décadas foi a única mulher no set de filmagem.

Por este engajamento, a Otter Media, empreendimento parceiro da AT&T e do The Chernin Group, propôs à atriz que criassem, juntos, uma nova empresa multimídia, a Hello Sunshine, que produzisse conteúdo feito por e para mulheres. Reese atuará na Hello Sunshine por meio de sua produtora, a Pacific Standard, que já esteve envolvida em projetos como os filmes Livre e Garota Exemplar, ambos dando voz às questões femininas.

No Brasil, centenas de mulheres do meio artístico têm participado com frequência de debates públicos para discutir os melhores caminhos para ampliar a participação feminina no setor audiovisual, na literatura e nos palcos.

A verdade é que já caminhamos muito, mas a estrada ainda é longa. Por tudo isso: mulheres, uni-vos!

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM.

testeA presença feminina no girar da Roda do Tempo

Por Flora Pinheiro e Rayssa Galvão*

Como amantes da literatura de fantasia, para nós é sempre um prazer trabalhar com esse gênero, sobretudo com um clássico como A Roda do Tempo. Como editoras, é sempre muito gratificante trabalhar com livros realmente bons, com uma base de fãs tão envolvida e envolvente. E, por fim, como mulheres, é sempre um momento de alegria encontrar livros com personagens femininas bem-construídas.

Em muitas das histórias de fantasia mais tradicionais (estamos falando com você, O Senhor dos Anéis!), a mulher é relegada a um papel secundário, como a donzela elfa que decide esperar pelo marido humano, a feiticeira poderosa que só aparece para resolver um pequeno enigma sobrenatural e depois desaparece ou a mulher figurante que só dá as caras no final da trama para se casar com um dos protagonistas depois que ele retorna de suas aventuras.

Esse, felizmente, não é o caso de A Roda do Tempo – algo tão revolucionário para a época que, no começo da publicação da série, corria o boato de que Robert Jordan era o pseudônimo de uma escritora. Em entrevistas, o próprio autor declarou ter feito o possível para criar mulheres realistas e de personalidade forte, como as que o cercavam. Sua esposa, Harriet, foi editora da série e teve um papel fundamental na publicação, pois Jordan sempre ouvia seus conselhos. (Ao contrário de certos personagens masculinos de A Roda do Tempo…)

Jordan não teve medo de dar protagonismo às personagens femininas fortes, que aparecem como narradoras em todos os livros e têm sempre falas maravilhosas. Um de nossos momentos favoritos é quando um dos personagens principais vem pedir conselhos para a amiga, Egwene, e comenta que nunca conversou sobre qual era o papel do homem com seus amigos, e ela logo responde: “Então é por isso que vocês fazem um péssimo trabalho”.

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(Ba dum tsss – Fonte)

Mas não basta ter meia dúzia de personagens bacanas para nos impressionar, não. Nós já discutimos um pouco sobre a riqueza de culturas e variedade nos povos de A Roda do Tempo, mas, ao construir seu mundo, Jordan fez mais do que apenas basear os costumes dos povos em um mashup interessante do mundo real: ele criou novas dinâmicas sociais que, no mínimo, nos fazem refletir sobre o mundo em que vivemos. Ou seja, não só não faltam personagens femininas fortes na série como também, logo no começo, somos surpreendidos por algo ainda mais incomum: uma sociedade em que as mulheres não são vistas como inferiores aos homens. Muitos leitores aceitam com facilidade dragões, magia e personagens que vivem centenas de anos, mas um mundo no qual as mulheres não são “cidadãs” de segunda classe parece ser automaticamente descartado como inverossímil. Não tomar o machismo como “natural” e explorar os papéis sociais torna a obra de Jordan mais rica.

O primeiro exemplo começa logo no início da história, quando somos apresentados a uma pequena vila rural onde, como tantas outras, além da figura de prefeito há uma mulher conhecida como Sabedoria, uma espécie de guia e curandeira. O poder nessas pequenas cidades é dividido entre dois conselhos: o de homens, que cuida de assuntos muitas vezes secundários, e o círculo das mulheres, que resolve tudo o que há para ser resolvido e, de vez em quando, passa por cima do conselho dos homens.

Isso mostra que, além de incluir sociedades matriarcais (não vamos entrar em mais detalhes sobre elas para não dar spoilers), Jordan também criou inversões interessantes nas culturas tradicionais do livro: em vez de privilégio masculino, há privilégio feminino. Mesmo no caso dos Aiel, uma cultura guerreira em que os clãs estão sempre em conflito, com pilhagens frequentes, as mulheres têm uma sensação de segurança maior do que os homens. Elas não são as mais vulneráveis da sociedade e não precisam temer andar desacompanhadas, pois não correm um risco maior de sofrer violência sexual. Ou seja: exatamente o oposto do que vivemos.

É claro que Jordan criou uma explicação para que mesmo as sociedades tradicionais tenham “privilégio feminino”. Centenas de anos antes de a narrativa principal começar, os homens capazes de canalizar o Poder Único (ou seja, “fazer magia”) enlouqueceram e quase destruíram o mundo. As mulheres continuaram sãs. Isso repercute até o momento atual da história, no reino de Andor, governado sempre por rainhas. Em todo o universo, as mulheres são mais ouvidas, dominam as conversas e a política. Não é possível ter Aes Sedai, figuras poderosas que manipulam o destino das nações, sem que se crie um preconceito velado contra os homens dessa sociedade, fazendo com que as mulheres sejam consideradas mais confiáveis, competentes e perigosas. Alguns leitores se irritam com as personagens “mandonas” do livro por falta de costume, mas, para nós, qualquer obra em que as mulheres não ocupem apenas um papel submisso na trama é muito bem-vinda.

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(“Acha que tem direito de dizer como eu devo me vestir? Homem nenhum tem esse direito, nem sobre mim e nem sobre qualquer outra mulher! Se eu decidisse sair nua, isso não seria da sua conta!” Nynaeve, arrasando no quinto livro, As Chamas do Paraíso.” – Fonte)

* Flora e Rayssa são amigas, amantes de fantasia, feministas de carteirinha e fãs de A Roda do Tempo

testeAs mulheres de Gillian Flynn

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Especializada em personagens complexas, enredos intricados e grandes reviravoltas, Gillian Flynn construiu histórias que exploram o que existe de mais sombrio em cada um de nós. Mas, de todas as características marcantes de suas narrativas, são suas personagens femininas que a destacam dos demais autores. Depois de Garota exemplar, a Intrínseca publicou mais três livros da autora: Lugares escuros, Objetos cortantes e o conto O adulto.

Garota Exemplar foi lançado no Brasil em 2013 e há dois anos o sorriso de Amy assombrou a todos na adaptação cinematográfica do best-seller. A imagem do casamento idealizado é desconstruída através dos relatos divergentes entre marido e mulher em um thriller difícil de parar de ler e de assistir.

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Em Lugares escuros, o trauma sofrido por Libby Day é o ponto de partida para uma reflexão sobre as falhas da memória e como as mentiras da infância podem esconder segredos terríveis.

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Objetos cortantes mostra a jornada de Camille Parker para revelar o que sua família quis esconder por anos. E como esses segredos a consumiram.

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Lançamento mais recente no Brasil, o conto O adulto narra a história de uma charlatã que aplica pequenos golpes. O convite de uma cliente para realizar uma limpeza de aura em uma casa mal–assombrada parece ser a chance perfeita para ganhar muito dinheiro. No entanto, nada acontece como o esperado.

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testeAs mulheres do meu livro IV

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A atriz e inventora Hedy Lamarr (fonte)

A austríaca Hedy Lamarr foi um ícone do cinema internacional. Ao aparecer nua, simulando um orgasmo, no filme tcheco Êxtase, de 1933, embalou o sonho de milhões de homens em todo o planeta. Em 1949, ela apimentaria o épico Sansão e Dalila com cenas bastante sensuais para a época, especialmente por se tratar de obra com temática bíblica. Mas Hedy também ficou conhecida por sua capacidade intelectual. Em 1940, em plena Segunda Guerra, ela patenteou um aparelho que despistava as transmissões de rádio — engenhoca tida como mãe da telefonia celular.

Hedy Lamarr, personagem do meu livro Os Guinle, foi uma das muitas namoradas de Jorginho Guinle. Um caso bem diferente dos outros namoros do playbloy com estrelas de Hollywood. Afinal, o affaire com Marilyn Monroe aconteceu quando ela era uma garota de programa desconhecida. Com Rita Hayworth, o romance se deu na fase decadente da atriz. Já com Hedy, a aproximação ocorreu em 1958, com ela no auge.

Jorginho revelou em sua autobiografia detalhes sexuais de algumas ex-namoradas, mas o seu relato sobre Hedy é diferente dos demais, já que ele a considerava muito inteligente. Sem contar que ela entendia profundamente de arte moderna, o que o impressionava. Segundo ele, foi graças ao namoro com Hedy que conheceu o pintor francês Pierre Soulages, os americanos Jackson Pollock e Franz Kline, o alemão Hans Hartung, entre outros artistas.

Jorginho conta ainda que Hedy pensava em casamento. Como se sabe, isso não aconteceu. Aliás, o namoro acabou de forma abrupta. Ela lhe pediu de presente uma obra de arte bem cara do suíço Alberto Giacometti e Jorginho não pôde regalar a amada por causa de uma viagem urgente ao Rio de Janeiro. Quem quiser saber mais detalhes sobre a versão de Hedy sobre o episódio é só ler Os Guinle.

testeA tribo escondida por trás dos luxuosos prédios de Nova York

Wednesday Martin Primates of Park Avenue New York upper east side

Wednesday Martin tinha um desejo comum a muitos pais: criar o filho num ambiente seguro e propiciar uma boa educação para ele. Mas a busca por uma escola de qualidade em Nova York não foi uma tarefa fácil e levou a escritora para o Upper East Side, a região mais rica da cidade.

A mudança para o cobiçado endereço de Manhattan trouxe muitas surpresas para Wednesday. Mãe de primeira viagem e nova na área, ela teve que se adaptar a uma vizinhança de famílias poderosas com hábitos e rotinas muito diferentes daqueles aos quais estava acostumada. Muito mais do que encontrar um apartamento e uma boa escola, a ida para o bairro nobre significou a descoberta de um mundo totalmente desconhecido para a autora.

O Upper East Side era tudo aquilo que se via em filmes e séries de TV, mas com um agravante: o luxo por trás dos prédios escondia uma tribo de mães megarricas, obsessivas com a aparência e motivadas por ambições altíssimas. Ao conhecer esse ambiente em que ter uma cobertura e uma babá à disposição era algo banal, Wednesday se viu isolada e perdida.

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Fazer amizades e conversar com os novos vizinhos parecia ser uma missão quase impossível. Apesar de estar em uma área onde tudo é sofisticado e distante da realidade de muita gente, a escritora percebeu que esse grupo de mulheres tinha muita coisa em comum com ela: o glamour ostentado em bolsas de grife e salto alto não as livrava da pressão de serem boas mães. A maternidade se mostrava ainda mais cruel em Nova York.

A obrigação de estarem perfeitas e de serem sempre 100% dedicadas aos filhos gerava muito mais que ansiedade. Fofocas, intrigas, depressão e vícios eram alguns dos problemas que vinham acompanhados do peso de serem as principais responsáveis pela criação dos filhos.

untitledE foi a partir dessa dificuldade de se integrar e da curiosidade despertada por comportamentos tão inusitados que Wednesday resolveu escrever Primatas da Park Avenue, livro que traz suas percepções sobre a experiência nesse cenário. Com olhar crítico e usando os seus conhecimentos em antropologia, ela passou a observar os rituais de acasalamento, os ritos sagrados e o comportamento das mães na saída da escola.

Os cumprimentos não retribuídos, a superficialidade das relações, os carrões com motoristas e as bolsas caríssimas exibidas como trunfo pelas mulheres são algumas das questões abordadas no livro. A autora também revela as relações de poder nos casamentos, em que os maridos pagam bônus para as esposas que se comportam bem. Entretanto, a principal descoberta de Wednesday veio a partir da tragédia, quando se viu obrigada a aceitar a ajuda das mulheres que antes encarava como fúteis e agressivas. Foi só em meio à dor que lhe foram revelados os laços profundos de amizade que unem todas as mulheres.

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Leia um trecho do livro

Com uma narrativa curiosa e cheia de ironia, Wednesday traz à tona comportamentos e questões que assolam o universo feminino. A insegurança e o medo de não ser uma boa mãe, a amizade e os desejos de consumo mostram que, apesar das diferenças, a tribo do Upper East Side não é tão distante assim das outras mulheres.

testeA calça jeans teste

Por Vanessa Mello*

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Eu estava de malas prontas para viajar para Buenos Aires com as minhas amigas em junho de 2011. Na lista de coisas para comprar: alfajor, vinho, doce de leite e uma calça jeans Levi’s 572. Estava procurando esse modelo havia alguns meses e tinha certeza de que essa peça tão desejada seria minha companheira por um longo tempo.

A 572 caiu perfeitamente no meu corpo. Era confortável, combinava com tudo e, o principal, era 36! Naquele tempo, era uma alegria poder comprar uma peça nesse tamanho. Foram meses de preparação (leia-se: dieta) para voltar a vestir o número queridinho da maioria das mulheres. Por isso, essa calça tornou-se uma referência no armário, e nunca mais saiu de lá!

Você deve estar se perguntando por que estou escrevendo sobre esse blá-blá-blá de calça jeans. Mas tenho certeza de que vai entender depois de ler A mulher perfeita é uma vaca. Eu me lembrei da peça enquanto lia o livro das gêmeas Anne-Sophie e Marie-Aldine Girard.

Capa_mulherperfeitavaca_MAINNa obra, as autoras explicam o que é uma calça jeans teste. Se você não tem uma, deve conhecer alguma amiga que guarda um jeans bem escondidinho no armário. A calça jeans teste é aquela peça que experimentamos de tempos em tempos para verificar se engordamos demais.

Às vezes, ela nem cabe mais em você. Mas permanece lá, guardada, na esperança de um dia voltar à ativa. É uma espécie de balança, só que muito mais real! Afinal, você sabe exatamente como aquela calça vestia em você. Não há maneira melhor para descobrir se emagracemos ou não.

Com muito bom humor e ironia, Anne-Sophie e Marie-Aldine mostram que não tem problema manter uma calça jeans teste no guarda-roupa: o problema é não aceitar que o nosso corpo (e gosto) pode mudar.

Mulheres normais engordam e mudam de tamanho ao longo dos anos. Faz parte. Talvez eu demore um pouco para tirar a minha 572 do armário ou talvez volte a vesti-la em algum momento. Vai saber…

Você tem uma calça jeans teste? Com que situação você  mais se identifica?

“Que alegria imensa! Que vitória quando conseguimos fechar nosso velho Levi’s!”

 Frase a ser repetida para levantar o ânimo em caso de fracasso:

“É normal! É verão, e no calor a gente retém mais líquido.”

 Se um dia você não conseguir fazer a calça passar nem pelas coxas, diga:

“Não estou nem aí! Aliás, ninguém mais usa esse modelo hoje em dia.”

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 Leia também Para de sentir culpa: a mulher perfeita não existe
Lista de músicas vergonhosas, mas que amamos mesmo assim

*Vanessa Mello é analista de mídias sociais no departamento de Marketing. Ama Nutella, praia, histórias emocionantes e viagens. E se considera uma mulher sem culpa depois de ler A mulher perfeita é uma vaca.

 

testeA mulher perfeita é uma vaca

 

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Quem não conhece uma mulher que já brigou com a balança, se inscreveu na academia várias vezes ou já sentiu vergonha do pileque que tomou com as amigas no fim de semana? Todo mundo já passou por isso ou conhece
alguém assim. Mas o que leva as mulheres a viver nessa luta para serem perfeitas?

A busca para ser magra, culta, ativa, sem olheiras, legal e divertida faz mal e pode até causar depressão. E o pior: não evita celulite nem flacidez. Para mostrar que essa mulher perfeita é uma ilusão, as irmãs gêmeas Anne-Sophie Girard e Marie-Aldine Girard decidiram falar do assunto com leveza e muita irreverência.

Em A mulher perfeita é uma vaca, as duas afirmam que é possível parar de sentir culpa e deixar de lado essas neuroses. Por que as mulheres querem ser como aquelas das capas de revista? Por que gastam tantas horas tentando chegar a um nível que não existe? O livro – um guia definitivo para todas as pessoas normais — aborda desde temas como feminismo a dicas de como se comportar com a nova namorada do ex ou como ter a consciência de que um quilinho extra pesa menos em uma alma mais leve.

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