testeUm navegar impreciso com Moby

Lembranças de uma antiga relação, iniciada por fax e terminada em Porcelain

Por Carlos Albuquerque*

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Cidade de Nova York, 1989 (Foto: Julie Hermelin)

Avistei Moby pela primeira vez em 1995. Era uma época de navegações rudimentares. Tanto era que conversamos por fax — sugestão do próprio artista, para que não precisasse ouvir sua “voz irritante” — numa entrevista para o “Rio Fanzine”, publicado no Segundo Caderno, do jornal O Globo.  Naquela época — quando os Mamonas Assassinas estouravam em todo o Brasil e o ex-jogador de futebol americano O. J. Simpson era absolvido da acusação de assassinato da ex-mulher e de um amigo, após um célebre julgamento —, Moby era visto por nós, eu e Tom Leão, que editávamos a seção, como uma espécie de ponta de lança do som eletrônico, aquele que, vindo dos subterrâneos, iria se apossar da rebeldia associada ao rock e transformar o mundo.  Esquecemos, claro, de avisar ao mainstream, mas isso foi outra história.

Era o tempo de Everything Is Wrong — um álbum grandioso, eufórico, libertário —, e Moby revelou-se um entrevistado divertido e sagaz, mesmo num papo engessado como aquele. Elogiou Kate Bush, confirmou sua paixão pelo seriado Twin Peaks (cujo tema foi incluído no seu primeiro hit, “Go”, de 1990) e ironizou Eric Clapton (“Não confio em homens que tocam guitarra e usam ternos Armani com uma camiseta”).

A segunda visão foi mais perto, em 1996, num dos grandes templos da música, o mitológico teatro Fillmore, em San Francisco, que recebe o público com uma cesta de maçãs frescas, resquício do passado hippie da cidade californiana. Era a turnê do desafiador álbum Animal Rights, considerado um suicídio comercial, já que deixava para trás o som digital e abraçava a estética punk rock. No palco, Moby — parente distante do escritor Herman Melville, autor do clássico Moby Dick — brilhou mais do que os majestosos candelabros que decoram o local, com uma apresentação explosiva. Para usar uma expressão ancestral, foi o bicho.

A terceira e derradeira aparição foi a mais próxima, um contato imediato nos bastidores do V Festival, em Chelmsford, Inglaterra, no ano 2000. Por conta do crescente sucesso do álbum Play, lançado no ano anterior, e que venderia mais de 10 milhões de cópias, Moby era um dos destaques do evento, ao lado de Paul Weller, Richard Ashcroft, Supergrass e Leftfield. Encontrei-o tomando sol, em pé, perto de uma das mesas da área de alimentação dos artistas. Com o auxílio poderoso de uma Guinness, afoguei a timidez, fui até ele e me apresentei. Apertamos as mãos, falamos algumas coisas irrelevantes sobre o festival e ele perguntou sobre a blusa que eu estava usando. Quando disse que era de uma banda de hardcore do Rio (Ack), Moby sorriu e falou que gostava muito do Hüsker Dü (eu também!). Antes de me despedir, completei o mico tirando uma foto com ele. No final do século passado, selfies eram chamadas de fotos. Simples assim.

Proposta_Porcelain pMas tive a impressão de que só ficamos realmente próximos 16 anos depois, quando atravessei, suavemente, as 400 e tantas páginas de Porcelain. A partir do doce balanço de “Love Hangover”, de Diana Ross, música-chave de suas agridoces memórias, acompanhei Moby numa turbulenta e ainda assim divertida jornada no tempo, de volta à Nova York dos anos 1990, nos primórdios da dance music nos Estados Unidos, quando o êxtase das raves (“Uma grande festa de drogas”, diz alguém no livro) e dos chamados club kids estava prestes a ser confrontado pela repressão do prefeito Rudy Giuliani (que comandou a cidade entre 1994 e 2001), com sua política de tolerância zero.

Através do seu relato — sereno, irônico, sarcástico, autodepreciativo  e extremamente honesto —, senti a dureza e o cheiro de espírito juvenil, misturado com mofo, de seus tempos morando numa fábrica abandonada em Connecticut. Vibrei com suas primeiras performances como DJ, mas também sofri quando esbarrou na agulha e estragou um improviso do rapper Darryl McDaniels, do Run DMC, numa noite no Mars, clube onde era residente.  Curti seu fortuito encontro com Madonna, numa noite de pista vazia, e tive a mesma melancolia quando viu um dos únicos presentes, o próprio O. J. Simpson (antes do crime), virar as costas e ir embora. Por empatia, quase enjoei com suas constantes bebedeiras e flertes com alteradores de consciência.

Presenciei outros encontros — como aquele com o DJ brasileiro Carlos Soul Slinger, pioneiro do som jungle em NY —, testemunhei suas primeiras gravações e seu primeiro contrato com uma gravadora. Acompanhei sua inquietação após o sucesso de “Go”, as tretas com Aphex Twin durante uma turnê e as primeiras viagens à Europa. Fiquei por dentro de sua crise de identidade na época de Animal Rights e também achei surreal o recado deixado por Axl Rose na sua secretária eletrônica, dizendo que tinha amado o disco e que costumava ouvir “Alone”, enquanto dirigia pelas ruas de Los Angeles de madrugada.

Quando virei a última página de Porcelain, concluído justamente após o sucesso de Play, em 1999, tive vontade de agradecer a companhia do meu amigo imaginário, vegetariano convicto, cristão autônomo, ambientalista dedicado, defensor dos direitos dos animais e improvável astro do rock. E fui lá reler aquele nosso primeiro papo, publicado no jornal O Globo (por fax, comentei isso?). No fim da entrevista, sorri com a sintética previsão que Moby, hoje com 50 anos, morando, sossegado, em Los Angeles, fazia sobre o próprio futuro:

— Usar uma peruca.

>> Leia um trecho de Porcelain

>> Ouça a playlist de Porcelain feita por Moby

Carlos Albuquerque é um dos mais renomados jornalistas de música e cultura do país. Trabalhou por mais de 25 anos no jornal O Globo, onde coordenou a cultuada seção “Rio Fanzine”, ao lado de Tom Leão, e editou a coluna “Transcultura” (com Bruno Natal, Alice Sant’Anna, Fabiano Moreira e Carol Luck). Revelou nomes como Ed Motta, O Rappa e Skank. Participou da cobertura de festivais como Tribal Gathering (Inglaterra), Hollywood Rock, Lollapalooza, Rock in Rio (a partir da segunda edição), Sónar Barcelona e eventos como a Red Bull Music Academy, em Tóquio. Entrevistou centenas de artistas, entre eles Paul McCartney, Mick Jagger, Eric Clapton e Kate Bush, além de personalidades, como o ex-vice presidente americano Al Gore. É autor do livro O eterno verão do reggae (Editora 34) e coautor de Rio Fanzine – 18 anos de cultura alternativa (Editora Record).

testeLançamentos de maio

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Confira sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

 

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Destinos e Fúrias, de Lauren Groff — Aos 22 anos, Lotto e Mathilde são jovens, perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso. Eles se conhecem nos últimos meses da faculdade e antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho tornou-se mais sólido. Ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. A vida dos dois é invejada como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida.

Porém, nem tudo é o que parece, e em um casamento essa máxima se faz ainda mais verdadeira. Se em “Destinos” somos seduzidos pela imagem do casal perfeito, em “Fúrias” a tempestuosa raiva de Mathilde se revela fervendo sob a superfície. Em uma reviravolta complexa e emocional, o que começou como uma ode a uma união extraordinária se torna muito mais. [Leia +]

 

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Como eu era antes de você (capa filme), de Jojo Moyes — Depois de emocionar milhares de leitores no mundo todo, o irresistível romance de Jojo Moyes chega aos cinemas com roteiro adaptado pela própria autora e com Emilia Clarke (Game of Thrones) e Sam Claflin (Jogos Vorazes) nos papéis de Lou e Will.

Lou Clark, uma jovem cheia de vida e espontaneidade, perde o emprego e é obrigada a repensar toda sua vida. Will Traynor sabe que o acidente com a motocicleta tirou dele a vontade de viver. O que Will não sabe é que a chegada de Lou vai trazer de volta a cor à sua vida. E nenhum deles desconfia de que esse encontro irá mudar para sempre a história dos dois. [Leia +] >> Ouça a trilha sonora de Como eu era antes de você

 

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A última carta de amor, de Jojo Moyes Londres, 1960. Ao acordar em um hospital após um acidente de carro, Jennifer Stirling não consegue se lembrar de nada. De volta a sua casa com o marido, descobre uma série de cartas de amor escondidas, endereçadas a ela e assinadas apenas por “B”, e percebe que não só estava vivendo um romance fora do casamento como também parecia disposta a arriscar tudo para ficar com o amante.

Quatro décadas depois, a jornalista Ellie Haworth encontra uma dessas cartas durante uma pesquisa nos arquivos do jornal em que trabalha. Envolvida com um homem casado, Ellie fica obcecada em reunir os protagonistas desse amor proibido.

Com personagens realisticamente complexos e uma trama bem-elaborada, A última carta de amor, primeiro livro de Jojo Moyes publicado pela Intrínseca, entrelaça as histórias de paixão, adultério e perda das personagens Ellie e Jennifer. [Leia +] >> Nossa editora Rebeca Bolite conta os bastidores da publicação do livro

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O oráculo oculto, de Rick Riordan — Como você pune um deus imortal? Transformando-o em humano, claro! Depois de despertar a fúria de Zeus por causa da guerra com Gaia, Apolo é expulso do Olimpo e vai parar na Terra, mais precisamente em uma caçamba de lixo em um beco sujo de Nova York.

Fraco e desorientado, ele agora é Lester Papadopoulos, um adolescente mortal com cabelo encaracolado, espinhas e sem abdome tanquinho. Sem seus poderes, a divindade de quatro mil anos terá que descobrir como sobreviver no mundo moderno e o que fazer para cair novamente nas graças de Zeus. [Leia +]

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Porcelain, de Moby — Havia diversas razões para Moby jamais deslanchar como DJ e músico na cena club nova-iorquina. Aquela era a Nova York das boates Palladium, Mars, Limelight e Twilo, a cidade do hedonismo desenfreado regado a drogas, e lá estava Richard Melville Hall, descendente distante do autor de Moby Dick, um garoto branco, pobre e magrelo de Connecticut, cristão devoto, vegano e totalmente careta. Ele encontrou seu espaço e alcançou o sucesso, que logo se mostrou efêmero e cheio de complicações. No desfecho da década de 1990, frente a um fim iminente, acabou criando o álbum que viria a ser o início de uma nova fase espetacular: Play, que vendeu milhões de cópias no mundo todo. [Leia +] >> Moby apresenta sua autobiografia para os leitores

 

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Garoto21, de Matthew Quick Finley utiliza o basquete para aliviar suas preocupações, enquanto Russ não quer mais se aproximar de uma bola. Depois de sofrer um grande trauma, ele fica em estado de negação e passa a se considerar um alienígena de passagem pela Terra.

Com a missão de ajudar Russ a se recuperar, Finley tenta convencer o garoto a voltar a jogar, mesmo que isso signifique perder o próprio lugar na equipe. Uma emocionante história sobre esperança, amizade e redenção, com a prosa sensível e inteligente de Matthew Quick. [Leia +] >> Qual personagem de Matthew Quick você é? 

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Como mentir com estatística, de Darrel Huff — Publicado pela primeira vez em 1954, o livro de Darrell Huff foi saudado como pioneiro em conjugar linguagem simples e ilustrações para explicar de que maneira o mau uso da estatística pode maquiar dados e abalizar opiniões. Indispensável para quem se vê bombardeado diariamente, seja pela mídia ou pela timeline do Facebook, por infográficos e estatísticas que se pretendem verdades incontestáveis.

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Os afetos, de Rodrigo Hasbún — Com elementos biográficos, históricos e ficcionais e narrado por diferentes personagens, Os afetos compreende um período de cinquenta anos da vida dos integrantes da família Ertl. Na polifonia da qual participam não apenas pai, mãe, filhas, mas também amantes e maridos, Rodrigo Hasbún reconta, à margem do idealismo, a convulsão política que abalou a América Latina na década de 1960, explorando as dificuldades que surgem ao se tentar conciliar as consequências das próprias decisões, tanto políticas quanto sentimentais. [Leia +]

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Ted Talks — O guia oficial do TED para falar em público, de Chris AndersonPalestras perfeitas, inspiradoras e de grande alcance. Um orador que sobe no palco e acerta no alvo. Assim são as Conferências TED, e este é o guia definitivo do TED para que você também possa fazer palestras inesquecíveis.

Desde que assumiu o comando do TED em 2001, Chris Anderson tem mostrado o poder que as palestras curtas, francas e cuidadosamente elaboradas do programa têm de compartilhar conhecimento, despertar empatia, gerar empolgação e promover sonhos. Feita da maneira certa, uma apresentação é capaz de eletrizar um auditório e transformar a visão de mundo da plateia — seu impacto pode ser mais poderoso que o de qualquer informação escrita. [Leia +]

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Frank Einstein e o turbocérebro, de Jon Scieszka — No terceiro livro da série Frank Einstein, Frank (um gênio mirim, cientista e inventor), Klink (uma inteligência artificial automontada) e Klank (uma inteligência artificial praticamente automontada) constroem um artefato inédito: um mecanismo capaz de turbocarregar as ondas cerebrais, potencializando a velocidade, a força e até mesmo a memória de qualquer pessoa. Tudo isso porque uma grande amiga, Janegoodall, precisa de uma forcinha para entrar no time de beisebol da cidade. [Leia +]

testePorcelain, por Moby

De um dos músicos mais icônicos e fascinantes de nosso tempo, Porcelain é o relato terno, divertido e angustiante de uma trajetória que vai da pobreza e alienação ao improvável sucesso mundial

Havia diversas razões para Moby jamais deslanchar como DJ e músico na cena club nova-iorquina. Aquela era a Nova York das boates Palladium, Mars, Limelight e Twilo, a cidade do hedonismo desenfreado regado a drogas, das noites fervilhantes, e lá estava Richard Melville Hall, descendente distante do escritor de Moby Dick, um garoto branco, pobre e magrelo de Connecticut, cristão devoto, vegano e totalmente careta. Mas ele encontrou seu espaço e atingiu o sucesso, que logo se mostrou efêmero e cheio de complicações. No limiar da década de 1990, frente a um fim iminente, acabou criando o álbum que viria a ser o início de uma nova fase espetacular: o megassucesso Play, que vendeu milhões de cópias no mundo todo.

Com uma voz que ressoa honestidade e uma paixão inabalável por sua música, o que Moby conta é tanto uma crônica sobre uma cidade e uma época, quanto uma exploração profundamente íntima da busca pelo sucesso. Mais que uma autobiografia, Porcelain, é o retrato de um jovem imerso em uma cena cultural extremamente instigante, narrada com o ritmo e a fluidez de um romance da melhor qualidade.

Confira a apresentação feita pelo próprio Moby para o livro que chega a partir 24 de maio às livrarias:

 

alguns anos atrás, em uma festa no brooklyn, eu estava contando uma história sobre a nova york de 1989.

as ampolas de crack vazias nas plataformas do metrô, as raves até altas horas nos porões vazios e armazéns abandonados, as profissionais do sexo paradas em meio a sangue e vísceras no meatpacking district e os estúdios alugados a 500 dólares por mês…

contei mais, sobre quando comecei a fazer discos, que reciclava latas e garrafas para ganhar o dinheiro da comida, sobre a fábrica abandonada sem banheiro nem água encanada onde eu morava, e que logo antes do lançamento do álbum play eu achava que minha carreira de músico tinha acabado.

eu me senti um pouco como o vovô simpson, contando sobre os disfuncionais dias de glória de uma nova york anterior à abundância desconcertante na qual a cidade caiu.

depois de algumas histórias, alguém disse: “você deveria escrever um livro.”

e então eu escrevi.

porcelain é sobre minha vida entre 1989 e 1999, mas também é sobre nova york se transformando de uma cidade detonada e suja em uma cidade bizarra e estratosfericamente cara.

porcelain é também sobre a cena underground de hip hop e house music do fim dos anos 1980 e sobre o nascimento dos club kids e da cena rave.

começo o livro como um cristão abstêmio em um espaço minúsculo numa fábrica abandonada e termino em um lugar bem diferente.

tentei ser o mais honesto possível. em porcelain, não sou um narrador descolado nem um anti-herói rebelde, sou apenas um ser humano perdido e desorientado tentando entender os mundos estranhos nos quais me encontro.

repito: tentei ser o mais honesto possível
espero que você goste.

obrigado,
moby