testeJBS: a ousadia e os limites do “por que não”

Bernardo Almeida*

Why Not traz bastidores inéditos da atuação dentro e fora da lei dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, para o estabelecimento da maior processadora de proteína animal do planeta. O título do livro (que em português significa Por que não?) é o mesmo nome do iate de Joesley e resume bem a trajetória da dupla no mundo dos negócios e da política.   

Livro de estreia da jornalista Raquel Landim, repórter especial da Folha de S. Paulo, a obra é resultado de dois anos de intensa investigação. A autora mostra como o frigorífico JBS virou um colosso internacional construído à base de propinas, tino empresarial, e anabolizantes estatais — até o momento em que Joesley e Wesley foram, digamos, flagrados no antidoping das autoridades brasileiras.

A decisão de tornar a JBS a maior doadora eleitoral nas eleições de 2014 — mais de R$ 500 milhões foram distribuídos entre 1.829 candidatos — e de buscar, muitas vezes mediante acordos escusos, fortunas junto aos cofres públicos (BNDES, Caixa Econômica, fundos de pensão) foram dois dos grandes “por que não” dos Batista.

A simbiose da empresa com o Estado brasileiro aparece com riqueza de detalhes em Why Not, servindo como valioso retrato da política de “campeões nacionais” adotada nos governos do PT e do capitalismo de compadrio no Brasil (vale muito ler o que a própria Raquel fala sobre isso na entrevista que acompanha este texto).

A pergunta do título do livro, entretanto, não se aplica exclusivamente a mutretas milionárias. São também numerosos os relatos de jogadas de risco de Joesley e Wesley como empresários, indo desde a abertura de uma mesa de operações financeiras até a diversificação dos negócios, passando por expansões e aquisições dentro e fora do Brasil. Uma história que começa na década de 1950, quando o pai da dupla, José Batista Sobrinho (sim, JBS vem destas iniciais), abriu um simples açougue em Anápolis (GO).

O “por que não” mais ousado, no entanto, foi o acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Nos porões de Brasília, Joesley gravou — e quase derrubou — o presidente Michel Temer. Seu áudio inscreveu a frase “tem que manter isso aí” no dicionário político-popular brasileiro. Em troca dessas e outras aventuras, o grande prêmio em vista era se safar da cadeia.

Mas nem todas as apostas deram certo. Os irmãos Batista tiveram algumas passagens pela prisão, e a manutenção do acordo de delação ainda passará pelo crivo do Supremo Tribunal Federal (STF).

Why Not, o iate, foi parar em águas menos revoltas. Como contou a própria Raquel Landim em reportagem para a Folha ainda naquele maio de 2017, Joesley despachou-o para Miami dois dias antes de seguir para Nova York em seu jato particular. À época, a JBS declarou que a embarcação seria colocada à venda.

 

Raquel Landim (Foto: Paulo Vitale)

Leia a seguir a entrevista com Raquel Landim, autora de Why Not.

 

Em coluna recente publicada na revista Época sobre Why Not, o jornalista Helio Gurovitz trata o grupo J&F como “o símbolo maior” do capitalismo de compadrio no Brasil. Você concorda com essa afirmação?

A J&F é um dos maiores exemplos do capitalismo de compadrio no Brasil, mas infelizmente não é o único. A rede de relações entre a Odebrecht e outras construtoras com o poder público ao longo do tempo também é bastante impressionante. E isso para falar apenas dos casos desvendados pelas investigações da Polícia Federal. Certamente existem outros por aí.

 

Why Not traz detalhes sobre a relação entre políticos, empresários e os cofres públicos. O que o livro revela de mais importante sobre a forma como se faz negócios no Brasil — ou ao menos sobre como se fazia negócios até pouco tempo atrás?   

Um dos fatos mais impressionantes de se aprofundar nesse tipo de apuração é perceber que o governo brasileiro virou um enorme balcão de negócios. De um lado, os empresários, que, dado o peso do Estado em seus negócios, estão sempre em busca de reduções de impostos e crédito barato nos bancos públicos. Do outro, os políticos, responsáveis por aprovar leis e, até recentemente, por indicar diretores para estatais, pedindo propina para caixa 2 de campanha e para benefício próprio.

 

O livro também traz bastidores inéditos da história dos irmãos Batista, principalmente sobre as tratativas deles com o Ministério Público para o acordo de delação premiada. Das histórias que apurou, qual delas mais marcou você durante a investigação para o livro?

A delação premiada dos irmãos Batista e a promessa de perdão judicial por parte da Procuradoria-Geral da República (PGR) geraram muita polêmica. A validade ou não da delação será devidamente analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em breve, que é o fórum adequado para isso. Por conta disso, essa parte da história demandou uma apuração minuciosa. Mas o que mais me marcou foram os relatos das ações controladas em que funcionários dos Batista entregavam malas de dinheiro para emissários dos políticos. A naturalidade com que o crime ocorria — uma das pessoas chegou para buscar o dinheiro com a filha pequena — é realmente de assustar.

 

Muito do que está em Why Not é bastante recente, o que torna até compreensível a opção das fontes pelo anonimato. Mesmo assim, você conseguiu fazer mais de 100 entrevistas. Como foi o trabalho para convencer as fontes a darem declarações? Que tipo de dificuldade você enfrentou na apuração?

Trabalhei como repórter à moda antiga porque as pessoas tinham muito receio de falar. Em todas as vezes que tentei usar o gravador, a entrevista fracassava. Por isso, tive que confiar nas anotações, na minha memória e garantir o anonimato para que as pessoas se sentissem à vontade para contar a verdade. Fui muito transparente na abordagem das fontes e consegui que conversassem comigo porque se tratava de um trabalho jornalístico sério e imparcial.

 

Com base na sua apuração para o livro e no que você vê hoje como repórter, já é possível avaliar se a Operação Lava Jato e o caso da JBS mudaram a forma como o Estado brasileiro e empresas privadas se relacionam? Se sim, como?

Sem dúvida, o caso da JBS é um marco. É muito importante que essas histórias de corrupção finalmente estejam vindo à tona graças ao trabalho de procuradores, policiais e jornalistas. Acredito que muitos empresários hoje devem ter medo de oferecer propina a políticos e funcionários públicos por receio de serem presos. Mas a profissão me fez cética: não acredito que é o fim da corrupção, nem que todos os políticos corruptos estão presos.

 

Que futuro você enxerga para as relações entre o Estado e empresas no Brasil? Podemos ver uma nova tentativa de criar “campeões nacionais” nos moldes da JBS?  

Num futuro próximo, não consigo imaginar a política de campeões nacionais sendo retomada. Foi um trauma para o país. Todavia duvido que essa cultura deixe de existir de uma hora para outra. Se não formos vigilantes, outros políticos podem retomar a ideia em alguns anos.

 

*Bernardo Almeida é jornalista.

 

testeA PF deve focar só em corrupção?

 Antônio Cláudio Mariz de Oliveira

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (fonte)

O jornal Folha de S.Paulo dedica sua manchete de hoje a uma entrevista com o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, que chegou a ser cotado para assumir o ministério da Justiça num possível governo de Michel Temer, mas que já foi “descartado” por suas declarações a respeito da Lava Jato.

Numa de suas respostas, Oliveira é taxativo. Diz que “a Polícia Federal precisa ter outros focos paralelos à corrupção”, que “o crime organizado está tomando conta do país”, e assim por diante.

Há quem veja nesse posicionamento uma perigosa mensagem subliminar de esvaziamento da Operação Lava Jato. Pessoalmente, espero que não. Mas, na posição de quem estuda crimes contra a arte há cinco anos, vejo na entrevista uma brecha para os brasileiros finalmente cobrarem mais atenção, por exemplo, à investigação do roubo do Museu da Chácara do Céu, ocorrido no Rio de Janeiro em fevereiro de 2006.

Há dez anos — dez! — o inquérito está aberto, sofrendo sucessivas ampliações de prazo. Há quem pense que esse é um assunto menor, menos importante, algo que não mereceria destaque no horizonte de um eventual novo ministro. Lembro, no entanto, que roubo de arte movimenta 6 bilhões de dólares por ano em todo o mundo e que só perde em dimensão para o tráfico de drogas e armas.

Não me move o debate sobre se haverá ou não um novo governo, ou se Oliveira ocuparia ou não o cargo de ministro da Justiça. O que me move é lutar para que a investigação do maior roubo de arte do país — um dos dez maiores do mundo, segundo o FBI — avance. Cobre você também.

Para saber mais sobre essa história, leia um trecho de A arte do descaso.