testeA coragem de existir num mundo que não me quer

Por Tales Avellar*

No dia em que a minha psicóloga me perguntou se eu tinha disforia de gênero, respondi com firmeza que não. Eu havia chegado ao consultório abalado, falando sem parar de um livro, mas achava que a leitura tinha mexido comigo por outras questões: transtornos mentais, infância solitária, dificuldade de me encaixar. Eu não era trans. Ponto final.

Apenas uma garota foi o primeiro livro com uma protagonista transgênero que já vi em uma livraria. Quando me sentei para folhear, me convenci de que havia me interessado apenas por simpatizar com causa a LGBT, já que, no ano anterior, eu tinha assumido sentir mais do que amizade por meninas. Cada parágrafo parecia arrancar um pedaço de mim, mas repeti que isso não significava nada. Afinal, a história de Amanda Hardy, uma adolescente que, depois de ser vítima de bullying, muda de cidade e tenta esconder sua antiga identidade, toca em aflições universais, e a escrita poderosíssima de Meredith Russo abala qualquer um que já sofreu rejeição por ser quem é.

Mas o que aconteceu quando voltei para casa naquela noite foi mais difícil de ignorar. Com os nervos à flor da pele, de repente me dei conta de uma série de sensações que costumava reprimir, como tendemos a fazer com o que não conseguimos explicar. Eu me vi em gestos simples como ajeitar toda hora o capuz, encolher o corpo contra o vento que marca a blusa, lidar com os olhares estranhos das pessoas e a ansiedade de ser visto como um menino.

Podia repetir o quanto quisesse que era apenas medo de assédio, um risco muito real, mas algo ainda não se encaixava. Não fazia muito tempo, depois de renovar todo o guarda-roupa, eu tinha começado a sentir que o meu corpo se tornava sólido, e achei que essa mudança seria o suficiente. Mas, mesmo perto de meninas que se vestiam feito eu, sentia uma pontada terrível no coração, uma suspeita apavorante de que algo ainda me separava delas. Havia finalmente conseguido um espaço para ser diferente – mas talvez fosse diferente até dentro dessa bolha. E isso eu não queria, não podia ser.

Foram meses até entrar no consultório e lutar por quase um minuto para murmurar as palavras:

– Lembra aquele livro? Acho que você estava certa. Eu sou trans.

Às vezes, simplesmente falar é um ato gigantesco. Eu me vi na Amanda por sentir a sombra de quem eu deveria ser pairando sobre mim a vida inteira, me sufocando, dando a impressão de que eu não era mais do que um fantasma. Eu me vi nela por acreditar por muito, muito tempo que precisava esconder partes essenciais minhas, me filtrar constantemente, ou ninguém conseguiria gostar de mim. Por isso, senti um impacto profundo quando a personagem conclui que é melhor ser autêntica e correr o risco de perder quem ama do que ter uma vida pela metade. Ninguém pode viver em função de ser aceito pelos outros.

Como a própria autora ressalta em uma nota ao final do livro, Apenas uma garota está longe de ser a história trans universal. Eu, pessoalmente, nunca pedi para o Papai Noel para ser menino, não me sinto nada “masculino” e nem mesmo exatamente homem, então não foi simples me encaixar ali. A diferença entre se sentir uma menina e um menino feminino é muito sutil, mas coloca vidas em jogo. Por isso é tão importante que essas histórias sejam contadas. Assim, as pessoas podem se identificar com alguém que até então parecia tão diferente delas. Ou, como eu, sentir o coraçãozinho dilacerado e, pela primeira vez, se reconhecer. Enfim enxergar uma possibilidade de vida, pois antes nunca nos deram nenhuma. E, com um pouco de sorte, perceber que ser você nunca vai ser errado.

Para quem ainda não conhece, Apenas uma garota é a história de Amanda Hardy, uma adolescente que, após uma cruel agressão, se muda de cidade e de colégio. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. Só que nesse novo lugar ninguém sabe que ela é trans. E, embora acredite que a mudança trará um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros.  Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação. A história foi parcialmente inspirada nas experiências da autora, Meredith Russo, que passou a viver de acordo com a sua identidade em 2013

Tales Avellar é autista, trans não binário e cheirador de livros em tempo integral. Aspirante a escritor e revisor, sente que está vivendo o auge de sua vida por ter um texto publicado no blog da Intrínseca.

testeProcura-se uma história que saiba que eu existo

Por Helena Mayrink*

Nomi e Amanita, personagens da série Sense8

Costumo falar que minha mãe me criou à base de filmes românticos. Desde criança, esperava um conto de fadas, um encontro de almas, uma declaração nível Um lugar chamado Notting Hill pra chamar de minha. Ah, e um príncipe encantado, claro, porque ele era essencial para o meu plano de final feliz.

O grande problema era que uma, duas, três, dez vezes, a mini-eu se viu seguindo um mantra: “Ele só não é o garoto certo, está tudo bem.” Quanto mais eu crescia, porém, mais percebia que meu sentimento ao pensar em príncipes encantados não era o de borboletas no estômago, mas uma já constante gastrite nervosa. Não era bem a coisa mais apaixonante de todas, desconfio.

Por anos, silenciei um grito que ecoava na garganta e que eu não tinha coragem de jogar para o universo. Aos 16, resolvi encarar uma possibilidade avassaladora: e se eu estivesse procurando no lugar errado? Toda a ampla filmografia de comédias românticas que mamãe me apresentou não me prepararam para isso, mas e se na verdade eu estivesse evitando aceitar que gostava mesmo de… princesas? Meu mundinho ditava uma base bem específica, a mocinha com o mocinho, e uma realidade além dessa parecia impensável. Até eu perceber que não era. O que eu via no cinema — ou melhor, o que eu não via — trazia à tona a verdadeira complicação: a falta de representatividade.

Quando soube que a Intrínseca publicaria Apenas uma garota, a primeira coisa que pensei foi “finalmente”. Afinal, Amanda Hardy não é só uma menina que se sentia diferente, mas nossa primeira protagonista trans. Depois de sofrer bullying apenas por tentar ser sincera consigo mesma, ela ganha uma chance de recomeçar — a hora de abraçar sua identidade e ser amada como sempre desejou. Essa era uma sinopse que me animava porque eu sabia que precisávamos dela, e, por meses, tudo em que eu conseguia pensar quando olhava os próximos lançamentos era Amanda. Então chegou junho. Junho, o mês em que o Brasil vai conhecer o romance escrito por Meredith Russo — entre tantas coisas, ativista, autora e mulher trans. Junho, o mês do orgulho LGBT.

Ainda que de uma forma bem diferente, reconheci muitos dos sentimentos da Amanda. A inadequação, a dificuldade de contar para os outros, o medo das reações, a insistência para ser respeitada como se é. Como a Amanda, me afoguei nas expectativas das outras pessoas até entender que quem eu sou é mais importante do que quem gostariam que eu fosse. E aí está parte da magia da literatura: jovens tendo a oportunidade de se reconhecer numa história, seja lá como eles são. Eu nunca saberia dizer como é ser trans, mas o que aquela obra falava para mim, muito mais do que questões de gênero, era de identidade e aceitação, sobre as relações que construímos e as dificuldades do mundo em que vivemos.

Eu lembro da primeira vez que falei “eu te amo” para uma menina. Lembro do nosso primeiro beijo e de vários outros beijos que vieram depois. Eu também lembro até hoje da primeira vez que assisti a um filme com um casal de mulheres — eu as vi, eu me vi. Se tem uma coisa que une a comunidade LGBT é a luta para sermos enxergados. E é isso que Apenas uma garota faz. Essas são as histórias que nós precisávamos que existissem, porque não há nada de errado com a nossa existência. E eu me orgulho dela todos os dias.

>> Leia um trecho de Apenas uma garota

 

Helena Mayrink é estagiária de comunicação da Intrínseca e uma quase-jornalista de formação. Ela é viciada em séries e literatura jovem, com um fraco ainda maior por histórias com personagens LGBT. Seu sonho era viver em um romance musical, mas às vezes acha que trabalhar com livros é quase isso.

testeUma história de aceitação e as primeiras experiências de uma adolescente trans

Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos.

Até que ela conhece um incrível grupo de garotas no novo colégio e Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela nasceu menino.

Em seu romance de estreia, Meredith Russo retrata o processo de transição de uma adolescente transexual, parcialmente inspirada nas próprias experiências. “Eu queria escrever uma personagem trans por ser uma mulher trans e porque sempre tive consciência de que todas as histórias sobre pessoas como eu eram contadas por e para  pessoas cis [pessoas cujo gênero é o mesmo que o designado em seu nascimento]. Não consigo nem colocar em palavras o quanto a falta de representatividade pode ser prejudicial para jovens, que estão tentando se encaixar no mundo. E é exatamente nesse ponto que eu gostaria que meu livro ajudasse”, explica autora.

Apenas uma garota chega às livrarias a partir de 16 de junho e, ao mesmo tempo que traz à tona questões difíceis como preconceito e bullying, também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação.

testeLançamentos de junho

Confira as sinopses dos lançamentos do mês: 

Até que a culpa nos separe, de Liane Moriarty — No novo livro da autora de Pequenas grandes mentiras, obra que inspirou a série Big Little Lies, a história começa com um convite inesperado para um churrasco de domingo em Sydney, na Austrália. Três famílias resolvem passar uma tarde tranquila em uma bela casa sem imaginar como suas vidas mudariam para sempre a partir daquele dia.

Sem conhecer direito os anfitriões, Clementine, uma mulher casada e com duas filhas, está com a amiga de infância, Erika, quando um episódio assustador acontece no evento. [Saiba mais]

 

 

Dias bárbaros, de William Finnegan Vencedor do Pulitzer de Biografia de 2016,  a obra é uma autobiografia de William Finnegan, jornalista da The New Yorker, que viajou o mundo em busca das melhores ondas. Amante de livros e de aventuras, Finnegan se tornou escritor e correspondente de guerra. No livro, ele conta a sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura dos jovens nos anos 1960, as viagens e outras experiências que viveu por causa do esporte. [Saiba mais]

Apenas uma garota, de Meredith Russo Tudo que Amanda mais quer é viver como uma garota comum. Prestes a entrar na vida adulta, ela mudou de cidade após passar pela cirurgia de mudança de sexo e agora está buscando a afirmação de sua identidade.  Embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ela ainda não se sente livre para criar laços afetivos — até conhecer Grant, um garoto diferente de todos os outros.

Em seu romance de estreia, a autora retrata a transição de uma adolescente transexual,  parcialmente inspirada nas próprias experiências. [Saiba mais]

 

Geekerela, de Ashley Poston — Quando Elle, nerd de carteirinha, descobre que sua série favorita vai ganhar uma refilmagem hollywoodiana, ela fica dividida. Antes de morrer, o pai lhe transmitiu a paixão por aquele verdadeiro clássico da ficção científica, e agora ela não quer que suas lembranças sejam arruinadas por astros pop e fãs que nunca ouviram falar da série. [Saiba mais]

O divertido romance traz a clássica história de Cinderela para os dias de hoje e aborda temas como internet, independência da mulher, indústria do cinema e cultura nerd.

As Mães, de Brit Bennett — Em uma comunidade negra e cristã dos Estados Unidos, Nadia, uma garota bonita, obstinada e ainda marcada pelo recente suicídio da mãe, será a primeira da família a cursar uma universidade, mas, antes de deixar sua cidade natal, ela se envolve com o filho do pastor da igreja. Os dois são jovens e não oficializam o relacionamento, mas o segredo que resulta desse romance terá consequências maiores do que eles imaginam.

Anos depois, eles ainda vivem à sombra das escolhas da juventude e da insistente dúvida: e se tivessem feito diferente? As possibilidades do caminho não tomado se tornam uma sombra implacável. [Saiba mais]

Robô selvagem, de Peter Brown — Roz é uma robô que, ao abrir os olhos pela primeira vez, se vê sozinha em uma ilha. Ela não tem a menor ideia de como foi parar ali, mas está programada para sobreviver. Tudo parece melhorar quando Roz consegue, aos poucos, se aproximar dos bichos e criar um elo com um filhote de ganso abandonado. Mas sua natureza é diferente, e o misterioso passado da robô, que a levou até ali, está prestes a retornar para assombrá-la. [Saiba mais]

Peter Brown é autor também de Minha professora é um monstro (Não sou, não) e Sr. Tigre solto na selva.

Eu sei onde você está, de Claire Kendal— Rafe está em todos os lugares, sempre atrás de Clarissa. Ele vai encontrá-lo na estação de trem, no portão do prédio onde mora, e as suas mensagens lotam a secretária eletrônica dela. Desde a noite que passaram juntos, Clarissa se vê numa armadilha da qual não consegue escapar. [Saiba mais]