testeAs oito melhores cenas de despedida do cinema

Há pouco mais de um ano venho escrevendo uma coluna semanal aqui no blog da Intrínseca. Foram 45 textos com reflexões sobre vida, música, cinema e literatura. Adoro fazer isso; é um canal a mais para manter contato com os leitores e falar sobre coisas nas quais acredito. Mas precisarei dar um tempo, pois estou na fase final de escrita do novo romance e, além de o tempo ser curto, a necessidade de foco tem sido cada vez maior. Espero voltar em breve. Aproveito para adiantar que o novo livro está ficando intenso, com boas reviravoltas e surpresas. Uma trama até certo ponto diferente das que já escrevi e com elementos que eu nunca havia utilizado. Estou empolgado.

Ao longo do último ano, algumas colunas de listas que publiquei me deram grande prazer, pois permitiram revisitar o tema do Surpreendente!. Falar de cinema é sempre uma alegria. Então, inspirado pelo clima desta breve despedida da coluna, trago hoje minha lista das oito melhores cenas de despedida do cinema.

1) A morte de Marley, em Marley e eu

 

2) A despedida entre ET e Elliot, em ET – o extraterrestre, em que o primeiro diz “Vem” e o segundo diz “Fica”

 

3) O menino gritando para o pai boxeador, em O campeão. Lembro-me de ter saído completamente arrasado do cinema

 

4) Uma despedida sem palavras em As pontes de Madison

 

5) Aquele “Freedom!” matador, em Coração valente

 

6) Rose deixando Jack, para que o amor entre os dois fosse eterno como o navio no fundo do mar, em Titanic

 

7) “Você precisa vencer”, na despedida entre Rue e Katniss, em Jogos vorazes

 

8) O singelo adeus de Guido a Giosuè, com um leve piscar de olhos e uma doce palhaçada, em A vida é bela

testeO amor segundo Buenos Aires, segundo Maurício

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O desejo de ler O amor segundo Buenos Aires, de Fernando Scheller, foi despertado em mim justamente por a história se passar na capital argentina — uma parte pela paixão por seus detalhes, arquitetura, música, dança, livrarias e cafés, e outra pela curiosidade de sentir a textura impressa pelo autor para descrevê-la. Explico a segunda parte: meu novo livro tem um pouco da ação na mesma cidade. Coincidência feliz, pois cheguei até a sentir o “cheiro do lugar”, tal a riqueza da escrita do Fernando, naquele jeito fluido de contar histórias que todo mundo gosta.

Fui brindado por uma trama realmente cativante e que não me fez desgrudar até finalizá-la. São short cuts de uma série de personagens que vivenciam histórias de amor — amor de amante, de amigo, de família, pela música, pela dança, pela comida; amor correspondido, perdido, encontrado e reencontrado — em última instância, por viver e por Buenos Aires. Todas essas histórias tangenciam a vida de Hugo, o personagem principal de um enredo que tem tantos protagonistas bons que todos poderiam tranquilamente ser principais.

Terminei com um sorriso singelo, uma vontade absurda de comprar uma passagem a Buenos Aires. Assim fiz. Irei em breve revê-la, já que preciso pesquisar um pouco mais sobre o que estou escrevendo. Aproveitarei para passar em alguns locais descritos por Fernando. Quem sabe assistir a uma ópera no Colón, conhecer o Lumio Café y Delicias, a Confeitaria Ideal, a Livraria Caligari e tantos locais instigantes. Precisarei voltar mais vezes, certamente.

Destaque para a cena final, digna de filme. Tenho sempre a nítida impressão de que um livro é bom quando merece virar filme. E O amor segundo Buenos Aires daria um filmão.

Um livro para quem conhece Buenos Aires, para quem não conhece, mas tem vontade, para quem sonha viver uma boa história de amor nas esquinas de uma cidade super-romântica. Ou até para quem, como eu, esteja escrevendo um livro que tenha a cidade como cenário. Parafraseando Eduardo, um dos personagens: o livro é uma declaração de amor no meio da rua. É o que todo mundo, bem lá no fundo, sempre espera.

testeO menino e o catador de latinhas

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(Fonte: Vik Muniz)

Assisti outro dia a um vídeo que me tocou pela singeleza e me fez refletir por um bom tempo. Um menininho de quatro ou cinco anos, bem vestido e, provavelmente, de classe média, oferecia ajuda a um velho catador de lixo que amassava, com os pés, uma série de latinhas de cerveja e as jogava num saco. A mãe do garoto, inicialmente, pareceu incomodar-se com aquilo. Mas, de uma forma que aparentou ser educativa, desistiu de interferir.

Duas pessoas completamente diferentes, realidades distantes, dividindo o mesmo espaço. Classe social, cor da pele, idade — tudo distinto. Onde o velho enxergava trabalho, a criança sentia brincadeira. E, por alguns instantes, os dois devem ter se divertido naquele trabalho-brincadeira a quatro pés e quatro mãos.

Após assistir ao vídeo, lembrei-me de duas histórias pessoais. A primeira aconteceu há algum tempo. Minha banda havia feito tantos shows durante o ano que decidimos, no Natal, doar parte dos cachês a um orfanato. Fomos entregar as doações e levamos nossos filhos, para que conhecessem a dura realidade daquelas crianças. Na hora de irmos embora, minha filha mais velha, com cinco anos à época, começou a chorar e a me dizer que não iria, porque ali havia um monte de crianças e tudo o que ela queria era morar num lugar assim. A segunda aconteceu semana passada. Minha outra filha, a menor, fica o dia inteiro fazendo estrelinhas e piruetas. Praticamente vê o mundo de ponta-cabeça. Passava das 23h, o cansaço me nocauteando, e ela lá, pulando de um lado para outro. Dei uma bronca, mandando que parasse. O resultado foi uma sessão de choro por parte da pequena, até que pegasse no sono.

Tudo isso me fez pensar sobre a perda de inocência e pureza, conforme vamos crescendo e tomando consciência das coisas do mundo. Entramos na vida sem qualquer preconceito, não enxergamos outras pessoas como diferentes. Não são altas, gordas, magras, brancas, negras, ricas ou pobres. São pessoas, apenas isso. Não julgamos pela aparência, tampouco pela condição social. Os melhores são aqueles que não gritam, não batem, sentam no chão para brincar, fazem cócegas e caretas, pegam uma vareta e desenham na terra, jogam para cima na piscina, dividem um sorvete, leem uma história ou cantam uma canção.

A maturidade chega para matar a pureza. Claro, é necessário crescer e amadurecer; faz parte da ordem natural das coisas. Mas seria bom demais se restasse um bom pedaço daquela inocência. Porque, agarrados à maturidade, costumam vir o preconceito, a desconfiança, a inveja, o egoísmo e a intolerância. Muitas vezes, até falta de compaixão e indiferença com gente como o catador de latinhas.

O mundo onde eu gostaria de viver era um daqueles cheio de piruetas e latinhas para pisar. Quanto mais estrelinhas, mil vezes melhor. Ver as coisas de ponta-cabeça e entendê-las apenas como mais uma forma de enxergar a vida, e não insanidade aos olhos dos outros. Todos os apaixonados pela literatura sabem exatamente onde estão mundos assim. O desafio é tirá-los do papel e trazê-los para a vida real.

testeRecomeçar

Recomeçar é uma arte, tipo aqueles quadros que não entendemos direito, mas que não conseguimos parar de contemplar. A cada olhar, um novo traço, como se o pintor o tivesse colocado em tempo real, diante de nossos próprios olhos, tornando aquela uma nova história a ser admirada.

Recomeçamos todos os dias e nunca somos os mesmos do dia anterior, pois estamos mais vividos, rodados e calejados. Recomeço não existe sem, e rima com, tropeço. “Tropeçar de novo e contar comigo: vai valer a pena ter amanhecido”, cantaria Ivan Lins. Recomeçar é se dar a chance de tropeçar quantas vezes forem necessárias. “Existe um milagre em cada recomeço”, disse Herman Hesse. Roubo do mestre a ideia: existe um milagre em cada tropeço.

Recomeçamos projetos que eram para ontem ou anteontem. Ideias que chegaram espetaculares e inovadoras, mas que pararam na falta de um recurso natural chamado vontade. Recomeçamos, todos os anos, os planos para uma vida inteira. Esquecemo-nos de que a vida inteira do ano passado era maior do que a vida inteira que hoje nos resta. E o plano perde em relevância.

Recomeçamos a malhação, a dieta, o sonho, a reforma da casa, o estudo, a ajuda aos necessitados, a conversa que ficou no ar, a visita aos pais, o controle dos gastos, o telefonema não atendido, a viagem ao redor do mundo, o trabalho dos sonhos.

Recomeçamos histórias de amor, o maior de todos os desafios. Amar é recomeçar, reaprender e renovar. É tropeçar.

Recomeçar é uma arte. Ser um artista do recomeço, aquele pintor que coloca o traço diante da plateia: isso é viver.

testeOde à alegria

Esplanada murada - Maurício Gomyde

Esplanada murada – Foto por Maurício Gomyde

Não adianta fugir, não adianta fingir que não é comigo, menos ainda tentar tapar o sol com a peneira. Estamos na semana mais importante do Brasil desde o fim do período militar, e é impossível ficar indiferente a tudo o que está acontecendo. Para um escritor em temporada de escrita de livro, é mortal. Semana passada, falei aqui sobre como as redes sociais roubam nossa atenção. Pois a conjuntura política e social tem sido o capo da operação Ladrões de Tempo deflagrada. Para cada parágrafo escrito, dez sites de política acessados. Não sei quanto tempo vai durar, e espero que tudo seja resolvido logo, de um jeito ou de outro, da melhor maneira possível e sem convulsão social, para que voltemos a pensar em todas as outras coisas importantes que fazem parte da vida.

Moro em Brasília e, diariamente, vou para o trabalho pela Esplanada dos Ministérios. Puseram um muro ali, ao longo do enorme gramado. Dividiram-na, literal e ideologicamente, em “lado esquerdo” e “lado direito”. Os pró do lado esquerdo e os contra do lado direito. Ou vice-versa, dependendo do foco que dermos ao tema. Jamais imaginei que veria isso. Para mim, esse muro é uma vergonha, uma tristeza inenarrável. Como chegamos a esse ponto? Não adianta culparmos um ou outro. A culpa é nossa, é de todo mundo. A autocrítica deve ser feita o quanto antes. Olhando para aquele muro, eu me pergunto: “Tem como voltar atrás?” Infelizmente, vai ser difícil. Já houve a ruptura. Mas, ainda que haja para sempre uma cicatriz, o machucado há de ser curado. Temos o mesmo sangue, não nos esqueçamos.

Não estarei em Brasília no domingo, e sim em Belo Horizonte. Quis o destino que minha tarde de autógrafos na Bienal de Minas fosse exatamente durante a votação. Entenderei como uma dica para minha vida: há outras coisas que podem deixá-lo imensamente feliz. Ficar no meio dos leitores, respirar livros, trocar ideias sobre romances, dar risada, reencontrar amigos escritores. Somos muitos, todos empurrando para a frente a roda da vida. Porque é disto que se trata, em última instância: viver.

Somos brasileiros! Não combinamos com muros. Já temos que matar um leão por dia e, agora, derrubar um muro por dia? Tenho fé em que vamos superar as imensas dificuldades, não importa como nem com quem. Só o que desejo, hoje, é que daqui a um ano eu esteja lançando meu novo livro num contexto de paz, esperança e harmonia. E que tudo o que esteja acontecendo agora seja apenas parte de um profundo processo de transformação, principalmente interior.

Meu novo livro trata disto: felicidade genuína. Talvez todo esse período seja uma lição e me forneça elementos maravilhosos para incorporar à minha história. Escritores somos assim: tentamos captar as coisas no ar, e, quanto mais “ao vivo e agora”, melhor. No que depender de mim, esse livro será uma ode à alegria, assim como minha vida.

testeAutores confirmados na Bienal do Livro de Minas

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Os leitores mineiros já podem comemorar! Isabela Freitas, Maurício Gomyde e Míriam Leitão são os autores da Intrínseca confirmados na programação da Bienal do Livro de Minas 2016. O principal evento literário do estado acontece entre os dias 15 e 24 de abril, na Expominas BH.

Isabela Freitas, autora dos best-sellers Não se apega, não e Não se iluda, não, participa de um bate-papo seguido de sessão de autógrafos no espaço Conexão Jovem, às 17h no dia 16 de abril. Serão 450 senhas para o bate-papo e 300 para os autógrafos. Já Maurício Gomyde, autor de Surpreendente!, estará no estande da Livraria Leitura para uma tarde de autógrafos com os leitores às 15h em 17 de abril.

A jornalista Míriam Leitão, veterana do evento, participa da mesa “Que país é este?” com Luiz Ruffato às 18h, no dia 24 de abril. As senhas serão distribuídas uma hora antes da sessão no balcão em frente ao Café Literário.

testeConectados anônimos

Ando apavorado com ladrões que invadiram minha vida. Quadrilha organizada, bem armada, treinada nas artes mais sórdidas da ilusão. Dotada de um arsenal ardiloso, de fazer inveja a qualquer gangue que já ousou cruzar meu caminho. Age nas sombras e rouba de forma sub-reptícia meus mais caros valores. Desde o instante em que abro os olhos, pela manhã, ela começa a agir, oprime e me deprime na cama por muito tempo. Medo, é o que tenho sentido.

Malditos ladrões de tempo!

Bandidos qualificados, nos becos escuros, como “redes sociais”. Patifes que têm se apropriado de conversas saudáveis durante cafés da manhã. Vigaristas que têm ocultado o prazer de dirigir olhando a paisagem. Meliantes que vêm bloqueando os outrora impagáveis momentos em família. Traficantes de ideias prontas e rasas, que oferecem seus produtos a incautos e não poupam nem sequer criancinhas inocentes e indefesas. O que será dessa geração de viciados, meu Deus?

A tática de oferecer o produto em doses cavalares, sem que tenhamos tempo para digerir a droga, ou vontade de trocá-la por algo não nocivo, é avassaladora. Um dia quase impensável sem usá-la, e então todo o carregamento já estará ali, novamente à mão, para que não precisemos passar por outras indesejáveis crises de abstinência. A prova de minha dependência: se esqueço o celular em casa, é delirium tremens na certa. Desculpas para voltar não faltam.

Para sair dessa, entretanto, não cabe recorrer a ninguém, senão a mim mesmo. Por isso, fiz uma adaptação do programa dos doze passos para todas as pessoas que, como eu, são conectados anônimos:

  1. Admito que sou impotente perante o WhatsApp.
  2. Acredito que um poder superior a mim vai me livrar do Facebook.
  3. Não vou entregar minha vontade aos cuidados do Messenger.
  4. Farei minucioso e destemido inventário dos livros na minha estante e vou ler todos que comprei e não li.
  5. Admitirei a natureza das minhas falhas e não mais navegarei por sites de notícia quando for hora de escrever uma história.
  6. Voltarei a entender que um filme no cinema é mais prazeroso do que no Netflix.
  7. Humildemente, postarei no Instagram fotos imperfeitas e sem tratamento.
  8. Farei uma relação de todas as pessoas que bloqueei nas redes e as encontrarei pessoalmente para um chope.
  9. Não perderei mais preciosos minutos bolando a frase de efeito demolidora em 140 caracteres no Twitter.
  10. Voltarei a escutar grandes músicas, deitado numa rede, sem precisar assistir ao clipe no YouTube ou procurar a letra no Vagalume.
  11. Por meio da meditação, não vou registrar cada passo meu no Snapchat.
  12. Após experimentar um despertar espiritual, graças a esses passos, procurarei transmitir essa mensagem aos conectados anônimos e praticar esses princípios em todas as minhas atividades.

Só por hoje.

testeOn the road books — para pegar a estrada sem sair de casa

Já fui estradeiro e viajei com minha banda para tudo quanto foi canto do país. Parávamos onde dava, comíamos o que tinha, dormíamos em repúblicas estudantis, em pulgueiros e, eventualmente, até dentro de nossos carros em postos de gasolina. Distâncias intermináveis, cachês duvidosos e equipamentos de som sofríveis sucumbiam ao prazer infinito de estar com os amigos em cima do palco.

O tempo, no entanto, é mestre em dilapidar sonhos do tipo sem lenço, sem documento. Aquela coisa “nem por você nem por ninguém eu me desfaço dos meus planos”, infelizmente, um dia cai por terra, quando a vida lhe cobra um pouco mais de responsabilidade. E, sem que nos demos conta, começamos a achar bom ficar “em casa, guardado por Deus, contando o vil metal”.

On the road - por Junior Aragão (1)

On the road – por Junior Aragão

A literatura me resgatou do limbo e me colocou de novo no jogo. Por longos e prazerosos anos venho pegando a estrada para participar de eventos literários. Distâncias intermináveis, cachês inexistentes e, eventualmente, pouco público também têm sucumbido ao prazer infinito de conversar olho a olho com meus leitores. Por sorte, as estradas têm sido bem mais aéreas do que terrestres. Ainda assim, não evito encarar quinze ou dezesseis horas de ônibus quando o tempo permite e a necessidade financeira exige. Desde a invenção da lanterna no celular, quinze horas num ônibus passaram a significar potenciais quinze horas de escrita, temperadas pela magia que só a estrada tem. Algumas de minhas frases preferidas foram concebidas nas madrugadas, rodando em BRs por aí. Frases que acabaram fazendo parte dos dois road books que escrevi.

Para celebrar as aventuras que certamente ainda virão, segue minha lista de road books que vão lhe deixar cheio de vontade de jogar tudo para o alto, entrar num veículo qualquer e sair sem rumo:

1- On the road, de Jack Kerouac — Sexo, drogas, bebidas e jazz. A viagem de Sal Paradise e Dean Moriarty pelos Estados Unidos é um dos meus livros favoritos. A escrita é como um caminhão rodando pela estrada, no estilo fluxo de consciência. Algo como “o que vim pensando fui escrevendo”. O manuscrito original, sem parágrafos, é de tirar o fôlego.

2- De moto pela América do Sul, diário de viagem de Che Guevara — Nem toda a viagem de Ernesto e Alberto Granado entre a Argentina e a Venezuela foi feita de moto, a chamada La Poderosa. De carona, obtendo a maioria da comida e da hospedagem de graça, o livro é um ótimo relato da transformação dos ideais de um homem.

3- Livre: a jornada de uma mulher em busca do recomeço, de Cheryl Strayed — Li esse livro depois de assistir ao ótimo filme. É o relato da autora sobre uma viagem a pé, de mais de 1.700 km, por uma trilha na costa pacífica dos Estados Unidos. O fato de ser uma história real, ou muito próxima da realidade, torna a leitura mais fascinante. O clássico tema da descoberta do sentido das coisas. Como diz a autora: “Este livro é sobre como suportar o que não podemos suportar.”

4- A máquina de contar histórias, de Maurício Gomyde — Escrevi esse livro como um mea culpa para o tanto que a literatura consome do precioso tempo ao lado das minhas filhas. Um escritor descobre, após a morte da esposa, que as duas filhas o consideram um completo estranho. É uma viagem de reconquista e, principalmente, descoberta de que a coisa mais importante da vida muitas vezes pode estar bem ao nosso lado.

5- Na natureza selvagem, de Jon Krakauer — Livro e filme belíssimos. É a história de Christopher McCandless, ou Alex Supertramp, um jovem que se forma numa prestigiosa faculdade, esfrega o diploma na cara da família, doa seu dinheiro para uma instituição de caridade e parte em direção ao nada para viver uma vida livre. Citações e a alma de grandes escritores como Tolstói, Jack London e Thoreau estão presentes o tempo todo. O fim é trágico, mas não menos belo e poderoso.

6- A garota de papel, de Guillaume Musso — O livro não é muito conhecido e não me lembro como chegou às minhas mãos. Achei a história muito boa e li de uma vez só. Sou suspeito, pois gosto de livros sobre escritores. O clichê da crise criativa abre espaço para uma abordagem fantasiosa e deliciosa, de uma personagem que pula das páginas para a vida real e implora que o escritor termine uma trilogia antes que ela desapareça. Tudo isso acontece na estrada, numa viagem pela costa da Califórnia e do México. É hilário e apaixonante

7- Mosquitolândia, de David Arnold — A viagem da pequena e determinada Mim Malone é cativante. As inúmeras referências pop, de Star Wars a Elvis Presley, enriquecem essa história de descoberta que traz temas fortes, como morte, suicídio e divórcio. Destaque para os personagens Walt e Beck.

8- Surpreendente!, de Maurício Gomyde — Quatro amigos saem pela estrada para fazer um filme antes de um deles ficar completamente cego. Obviamente, sou suspeito para falar sobre o tanto que me envolvi com tudo, sobretudo por conhecer a fundo os cenários onde a história acontece. Costurado pelos clichês do cinema, é meu road book

testeMas esse livro é sobre o quê, mesmo?

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Toda vez que escrevo um livro, a pergunta que mais me ocorre ao longo do processo, muitas vezes até quase o fim, é: “Mas esse livro é sobre o quê, mesmo?” Pode parecer absurdo, e talvez seja, considerando que o simples fato de estar envolvido pela história já deveria pressupor uma resposta “na lata”, como costuma dizer minha filha mais velha. Mas é provável que o leitor se faça a mesma pergunta, e acho importante eu ter plena ciência do que se trata aquilo. Dizem, inclusive, que, se o escritor conseguir responder em apenas uma palavra, tudo estará a bom caminho de ser perfeito.

Surpreendente! é sobre…?”. Minha resposta, na lata: amizade. Poderia ser cinema, mas descobri, ao longo do tempo, que cinema era apenas o pano de fundo. Se fosse somente sobre isso, seria mais eficiente tentar um tratado cheio de dados a respeito de algum aspecto da sétima arte — e adianto aqui minha incompetência para tal.

Em Surpreendente!, eu estava em crise com minhas amizades por culpa de uma ferramenta dos infernos criada supostamente para aproximar as pessoas, mas que tem sido pródiga em afastá-las: as redes sociais. Tentei, então, contar uma história de amizade que fosse além das redes. A amizade da estrada, do projeto conjunto, do sonho sonhado a oito mãos; do curtir com uma risada, não com um clique; do compartilhar a emoção com uma palavra, não com outro clique. Por fim, do comentário olho no olho, não escondido por detrás de uma tela de computador.

A resposta à questão sobre do que trata a nova história, entretanto, não terá a força de uma única palavra, mas de duas: felicidade e tristeza. Como diria Vinicius de Moraes, em seu belo “Samba da Benção”: “É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe. A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não.”

Nos dias atuais, ando tendo debates profundos — comigo mesmo e entre cada nascer do sol — sobre esta dicotomia felicidade-tristeza. Elas podem ser medidas? Quanto de razão é capaz de influir na certeza de eu dizer que sou feliz ou triste? O que pode me trazer momentos genuínos de felicidade? E de tristeza? São perguntas difíceis.

Acho que ontem vivi momentos felizes e hoje acordei de alma leve: recebi a notícia de um amigo que saiu do hospital depois de dias de luta; fui ao show do Iron Maiden, duas horas cravadas de energia e congregação entre milhares de pessoas que estavam ali só para celebrar a emoção de assistir ao vivo a alguém fazendo aquilo que fez parte de suas vidas; e, ao entrar em casa de madrugada, encontrei minha filha pequena dormindo de boca aberta, vestida com uma de minhas camisas.

Se, em meio a tantos bombardeios de tristeza que têm atingido os territórios que frequento, eu tiver a sorte de ser agraciado com pílulas de felicidade assim, não precisarei me fazer mais tantas vezes aquela pergunta do título. Se Deus quiser, tampouco os leitores.

testeA eleição no recife

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Havia muito a eleição no recife não era tão disputada. O tubarão-branco tentava o quinto mandato consecutivo, ainda que a reeleição não fosse aceita pela Constituição vigente no fundo do mar. O problema é que nenhum outro peixe jamais tivera coragem de levantar a inconstitucionalidade do ato, muito menos desafiar o tubarão nas urnas, notadamente por conta de seus 3 mil dentes e da forma truculenta com que costumava conduzir os pleitos, devorando qualquer um que ousasse pensar em registrar candidatura. Mas os tempos eram outros, e o tubarão, envelhecido e só com metade da arcada dentária, convencido pelos analistas políticos de que a abertura democrática era necessária, já não metia tanto medo. A eleição seria decidida mesmo era no voto.

As pesquisas traziam números disputados cabeça a cabeça, método que automaticamente excluía os bacalhaus da amostra, mas ainda assim dentro da margem de erro. Na semana da eleição, o quadro era de empate técnico entre as três candidaturas majoritárias: 1) a do partido governista, conservador, apoiada no lado abissal direito do recife, encabeçada pelo próprio tubarão-branco e cujo vice era o tubarão-cabeça-chata, em escolha estratégica para angariar votos de peixes do nordeste do recife; 2) a do partido comunista, enraizada na extrema esquerda radical do paredão, liderada pela sardinha e tendo como vice outra sardinha, o que em geral confundia os eleitores sobre quem realmente era o cabeça da chapa; e 3) a do partido socialdemocrata, que se reunia em cima do muro de corais e era comandada pela ostra, tendo como vice o golfinho. Essa chapa estranha tinha potencial de angariar votos de peixes e não peixes, ao atirar a rede para tudo quanto era lado.

Registre-se aqui que a quarta candidatura, a do partido verde-musgo, minoritário, havia morrido no nascedouro por equívoco brutal de estratégia política, que veio a se confirmar tarde demais, após a impressão de milhares de santinhos sem noção, com o slogan “Queremos Robalo”, e a perda de apoio quase instantânea por parte dos correligionários, que nadaram para outras candidaturas.

As campanhas estavam nas ruas, ou melhor, nas correntes. Os comícios foram organizados em datas diferentes, para que todos pudessem comparecer, considerando que o que a turma mais queria era acompanhar os shows que cada legenda havia contratado. O partido comunista, mais modesto em seus recursos, apresentou um grupo de pagode formada por manjubinhas, que entrou após o discurso de quinze segundos da sardinha, sempre pressionada de todos os lados a falar pouco. Logo no início do show o quebra-pau foi instalado, por conta de uma falha no repertório, que trazia o clássico “Assassinaram o camarão”, sambão que revoltou os camarões, que avançaram sobre o palanque e retiraram o apoio ao candidato por incitação ao crime. O partido socialdemocrata ficou na dúvida sobre quem contratar e, para não desagradar a ninguém, convidou uma banda de rock pesado e outra de bossa nova. Tal estratégia se mostrou pouco inteligente, porque a turma formada pelos adoradores do metal, composta por tubarões-lixo, moreias e ouriços, não se conformou em ter de assistir a um lambari cantando “O barquinho” e o recebeu sob uma chuva de conchas. Em tempo, diante da confusão, a ostra preferiu não se abrir para o público, declinando do discurso. Já o partido conservador, utilizando-se de recursos da máquina pública, optou por algo também conservador e contratou um coral. A adesão foi baixa nesse comício, mas a presença intimidante do tubarão-branco e seus asseclas tubarões-martelo foi motivo suficiente para que todos aplaudissem efusivamente seu discurso interminável de quatro horas.

O certame foi conturbado, com os três candidatos sofrendo extorsão por parte das traíras, que, organizadas num cardume silencioso e muito eficiente, montaram dossiês e só fecharam a guelra após negociatas que resultaram em promessas de cargos no segundo escalão do futuro governo — seja quem fosse eleito. Desde a “afundação” do recife, as traíras sempre estiveram no poder, atuando de forma baixa por debaixo dos oceanos. Nenhum dos candidatos afirmou aceitar os dossiês após acordo de fazerem uma campanha em águas limpas, apenas no mar das ideias, e recusando-se terminantemente a descer o pleito a níveis abissais.

Missões estrangeiras foram convidadas como observadoras, para garantir a lisura e dar credibilidade ao processo. Chegaram, a uma semana da eleição, peixes de água doce vindos via pororoca: tambaquis, piramutabas, pirarucus, pacus, um boto-cor-de-rosa — representante das minorias piscianas sexualmente reprimidas —, um peixe-boi — representante dos pecuaristas — e mais um monte de cardumes organizados, interessados apenas em fazer turismo em outras águas.

A bandeira de campanha da sardinha comunista era transformar o recife numa simbiose, com todo mundo trabalhando em prol do coletivo. Sua base de apoio era o Movimento dos Sem Movimento (MSM), composto por esponjas e anêmonas, que ameaçavam invadir todos os “latifundos” improdutivos do mar se não recebessem generosos pedaços de recife nos quais pudessem se instalar. Tal bravata não metia medo em ninguém, justamente por sua própria natureza imóvel e pelo fato de todo mundo saber que aquilo era pura retórica.

Já o programa da ostra era privatizar qualquer coisa que aparecesse na frente, vender e fazer caixa. A candidatura estava inflada de recursos de caixa dois oriundos de empresas de petróleo interessadas na privatização dos serviços de exploração, e a intimidade da ostra com uma gigante petrolífera estava na cara. Mas ela negava peremptoriamente.

Por fim, o tubarão-branco acenava com ampliações das instituições, o que abriria novas vagas na mamata do serviço público. Porém, todos sabiam, à guelra pequena, que só quem tinha escama quente e peixada forte conseguia. Todos os setenta tubarões-brancos da família estavam alocados em posições estratégicas, sem o mínimo constrangimento. O Ministério da Pesca, por exemplo, estava a cargo da mãe do tubarão-branco. Um escândalo, considerando que jamais um tubarão-branco fora pescado e isso denotava que a velha, apesar de enorme, era peixe-pequeno no assunto.

A dois dias do dia D, um debate com transmissão para todo o recife aconteceu dentro de um navio naufragado na Segunda Guerra. Os candidatos chegaram ao convés com seus séquitos de puxa-sacos e assessores: o tubarão-branco e suas rêmoras; a sardinha com mais quatro sardinhas de cada lado; e a ostra apoiada no casco de um cágado. As focas da imprensa entrevistavam cada um deles:

— Vou engolir as outras duas candidaturas — afirmou o tubarão-branco.

— Estou acostumada a sofrer pressão de todos os lados — filosofou a sardinha.

— Quero expor meu interior aos eleitores — proferiu a ostra, soltando uma pérola.

A mediação ficou a cargo da garoupa, que, após ter sua foto estampada na nota de 100, largou a humildade de lado e virou uma estrela-do-mar. Passou a exigir cachês exorbitantes para aparecer e dava o mar da graça apenas em eventos da alta sociedade ou daquela “margnitude”. As regras foram combinadas pelas assessorias dos três candidatos, com pedido expresso para que o tubarão-branco não atacasse a honra pessoal nem o próprio pessoal, sob pena de expulsão do plenário, além da concessão de uma hora de direito de resposta a quem sobrevivesse ao ataque. Cada candidato poderia fazer perguntas aos oponentes, e a livre intervenção por parte da plateia era estimulada. As galerias estavam cheias até a borda das mais diversas espécies de animais marinhos. Do lado de fora do navio, os barbados e os tubarões-bigode, capitaneados pela lula, organizaram uma manifestação contra a “ditadura da elite cinza”, em referência aos tubarões, e pregando o voto em branco. O problema foi a confusão gerada na cabeça dos poucos presentes, que não entenderam nada e acharam que o voto em branco significava votar no tubarão-branco, subvertendo toda a lógica do protesto.

O início do debate foi tranquilo, com a exposição dos programas de governo e as naturais trocas de amabilidades, característica desse tipo de confronto. Um marasmo! O que se viu foi um infindável abrir e fechar de guelras por parte da plateia. Os baixíssimos índices levantados pelos programas instantâneos de medição de audiência indicavam que, daquele jeito, o debate daria com os burros n’água, o que poderia desagradar a quem realmente interessava: os patrocinadores. No primeiro intervalo comercial, o peixe-piloto, editor-chefe da emissora organizadora do confronto, foi até a garoupa e ordenou que botasse fogo no debate. A garoupa era famosa, mas pouco inteligente:

— Como vou botar fogo dentro d’água? — perguntou, o que lhe valeu um olhar de peixe morto por parte do peixe-piloto, que não respondeu.

Na volta, a garoupa abriu para as perguntas da plateia. O ouriço pediu a palavra e trouxe à tona um tema espinhoso: a lavagem de dinheiro. Fez um inflamado e breve discurso sobre o tema, sem nenhum nexo naquele contexto, porque não se conhecia, ao menos no fundo do mar, dinheiro que não fosse lavado. Sua pergunta foi cancelada por falta de oportunidade e conveniência.

— É um cabeça-de-bagre mesmo — cochichou o tubarão para a ostra.

— Parece que tomou umas e ostras — devolveu a ostra, no trocadilho mais infame da história das eleições.

Palavra dada à sardinha, que atacou a ostra:

— Trago aqui denúncia gravíssima, feita pela revista Caros Anfíbios, que afirma ser o senhor o verdadeiro dono de um restaurante japonês que arranjou um laranja, o peixe-palhaço, para tocar o negócio. O que o senhor tem a dizer?

O recife tinha alguns restaurantes japoneses clandestinos, estabelecimento proibido pela legislação contrária ao canibalismo via sashimi. A denúncia automaticamente tornava inadmissível que salmões, atuns e cogumelos-do-mar votassem na ostra.

— Calúnia! O peixe-palhaço a que o senhor se refere é apenas um amigo meu, animador de festas infantis. Nego peremptoriamente, porque nunca gostei dos japoneses.

Foi uma afirmação necessária para se safar, mas que também colocava por terra o outrora apoio maciço dos peixes ornamentais à candidatura da ostra.

— Só sendo muito mole para votar nesse aí — comentou a água-viva.

— Está insinuando o quê? — atacou o molusco, virando-se para a água-viva, que se fez de morta.

A ostra contra-atacou a sardinha, gritando:

— E você e o namorado, que foram vistos jantando juntos? Como é que fica?

— Nossa, adorei isso — comentou o boto-cor-de-rosa, que, a propósito, era do signo de aquário.

— Namorado? Eu sou espada — retrucou a sardinha, indignada.

— Espada? Você é uma sardinha — vociferou novamente a ostra, atacando diretamente o candidato, com aplausos efusivos do peixe-espada, que gritou: “Sardinha é a mãe!”

— Exijo direito de resposta — gritou a sardinha, que sabia da péssima reputação do namorado, que vivia dizendo que “caiu na rede é peixe”.

— Bonito, hein, sardinha? — gritou um mexilhão que estava nas galerias.

— Me inclua fora dessa! Quero que a sardinha se afogue! — indignou-se o bonito, anticomunista declarado, sentado próximo ao mexilhão e já pronto a meter uma moqueca em sua cara. Os outros presentes tiveram que intervir para conter os ânimos exaltados.

— Aí tem truta — gritou o leão-marinho.

— Truta, o cacete! Vou dar uma piaba na sua orelha — respondeu a truta, após ser incluída nas denúncias e esquecendo que leão-marinho não tem orelha.

— E o que tenho a ver com isso? — quis saber a piaba.

— Estou cansado de viver nessa lama — esbravejou o caranguejo, desiludido, falando com propriedade.

— Falou bonito — aplaudiu o bonito.

— Quero ver ele se safar dessa. Tremendo pepino – comentou a arraia, que era o peixe mais chato do oceano e nunca concordava com nada.

— Hein? — perguntou o pepino-do-mar, que não estava prestando atenção.

— Isso aqui está uma surubada — gritou o beta azul, o peixe mais invocado do recife, sem medo nenhum de que a turma do surubim fizesse pincel dele.

— Silêncio nas galerias! — exclamou a garoupa, perdendo a compostura e tentando subir o nível, atitude reprovada com outro olhar de peixe-morto do peixe-piloto, ciente de que aquele sururu era ótimo para o crescimento do ibope. Mas a garoupa botou fogo, conforme as orientações:

— Direito de resposta dado à sardinha. O que o senhor me diz sobre aquela história do namorado?

— Não tenho nada a dizer sobre isso. Mas tenho aqui fotos que mostram a ostra tirando uma casquinha do siri.

Nesse momento, o siri saiu de lado, para não se comprometer com as fotos tiradas pelas traíras.

Uma imagem vale mais do que mil palavras, e se podia afirmar que a candidatura da ostra naufragaria.

— Hahaha. É como sempre digo: pimenta no pacu dos outros é refresco — era o tubarão-branco, em frase de efeito que provocou silêncio constrangedor nas galerias, ao menos por parte dos pacus, que ainda tiveram de aguentar risinhos maledicentes dos baiacus, dos pirarucus e dos tambacus, que não foram citados por mero detalhe de escolha de prefixo.

O tubarão continuou, baixando o nível de vez:

— Ostra, você não tem envergadura moral para comandar o recife. Sabemos que o candidato é casado com outra ostra e, além dessa agora do siri, tem sido visto constantemente com uma lampreia. Como o senhor explica isso?

A ostra, sabendo que pior do que ser taxado de infiel é ser taxado de sem noção, já que a lampreia era uma verdadeira mocreia, contra-atacou na mesma moeda, mudando o foco das atenções para o tubarão-branco:

— O sujo falando do mal lavado.

— Não sei o que o candidato está insinuando. Sou muito bem casado com uma orca. Mesmo ela sendo uma baleia, não fico por aí nadando de braçada com raparigas.

— Então, como o candidato explica estas fotos? O senhor se reconhece aqui? — era a ostra, chutando o balde e mostrando para as câmeras fotos comprometedoras, obtidas pelas traíras, do tubarão-branco de barbatanas dadas com uma piranha e uma piraputanga. A imagem já valia mais do que um milhão de palavras.

— Ooooohhhhhhhh!!!! — espantaram-se os presentes.

O ibope estava nas alturas.

— Sou branco-gelo! Essa foto é de um tubarão branco-neve — gritou, com a mandíbula proeminente e mostrando quase todos os 1500 dentes que restavam, na desculpa considerada a mais esfarrapada da história do recife, entrando para os anais do folclore político desde então. Tamanha cara de pau foi um choque até para a enguia.

— Já sabendo da possibilidade dessa desculpa fraca, consultei previamente um especialista, o pinguim, e tenho aqui um relatório que prova que branco-gelo e branco-neve é tudo a mesma coisa. Era o senhor, sim. Como explica? — indagou a ostra, encurralando o tubarão, que sabia que teria de dar explicações à baleia assassina quando chegasse em casa.

— Acaba com ele, Ostra! – gritou e aplaudiu o vermelho, comunista desde alevino.

Foi nesse momento limite que o tubarão, sentindo-se acuado, afogado num mar de lama capaz de destruir o pouco que ainda restava de sua péssima reputação, de saco cheio de bancar o bonzinho, já sem qualquer paciência para mais palavrório e presepada, e sentindo, enfim, que a coisa tinha ido por água abaixo, partiu para a truculência: saiu devorando tudo o que tinha à frente, porque aquele negócio de democracia já tinha enchido o saco.

Devorou a sardinha e a garoupa. Comeu o namorado. Descascou a tartaruga. Destroçou a ostra. Aniquilou os siris, os caranguejos e o ouriço. Assassinou o camarão. Enlatou oito sardinhas. Cagou no cágado. Deu um cascudo no pintado. Estrunchou o molusco e palitou os 300 molares com a lagosta. Não poupou nem o filhote. Avançou sobre as galerias e trucidou os pacus, os baiacus, os pirarucus, os tambacus e todos os outros peixes, fossem eles terminados neste ou naquele sufixo. Venceu por aclamação das rêmoras, as únicas poupadas da chacina.

E voltou para seu gabinete, autoconcedendo-se mandato vitalício.

Nos braços do polvo.