testeIntrínseca no salão carioca do livro

Entre os dias 17 e 20 de maio, na Biblioteca Parque Estadual, acontece a segunda edição do LER – o salão carioca do livro.

Serão realizadas diversos encontros com autores e oficinas, em um evento totalmente gratuito e aberto ao público. As vagas são limitadas e precisam ser reservadas no site do evento.

Confira a programação dos autores da Intrínseca no LER:

 

17 de maio (quinta-feira)

Matheus Leitão, autor de Em nome dos pais, participa da mesa “Memórias reprimidas”, com Guiomar de Garamond, no Café do Livro, às 14h30. Depois, às 16h, o autor terá uma mesa individual.

Daniela Arbex apresenta o livro Todo dia a mesma noite no Café do Livro, às 15h. Depois, às 16h30, participa da mesa “Notícia e história”, com Roberto Kaz. 

Isabela Freitas, autora da série Não se apega, não, participa da mesa “Internet e literatura”, com Anderson França, João Pedro Doederlein e Marcelo Ferroni, no Espaço Cesgranrio, às 17h15.

 

20 de maio (domingo)

Clóvis Bulcão, autor de Os Guinle, participa da mesa “História & literatura: uma convergência possível?”, com Mary Del Priori e Ronaldo Vainfas, no Espaço Cesgranrio, às 12h45.

Míriam Leitão participa da mesa “Brasil: o que se fez e o que podemos fazer”, com Jorge Caldeira, no Café do Livro, às 17h30.

teste10 dicas de presente para o Dia dos Pais

Existe presente melhor que livro? Para ajudar os filhos indecisos, preparamos uma lista com dicas de obras para diversos estilos de pais. Tem opção para todos os gostos!

Para pais que gostam de história e de política:

Em nome dos pais — A obra de Matheus Leitão conta a história dos pais do autor, os jornalistas Marcelo Netto e Míriam Leitão, que foram presos e torturados durante a Ditadura. Resultado de incansáveis investigações, que começaram pela busca do delator e seguiram com a localização dos agentes que teriam participado das sessões de tortura de seus pais, o livro reconstitui com rigor eventos do início dos anos 1970 e, ao mesmo tempo, apresenta a emocionante peregrinação do autor pelo Brasil atrás de respostas.

 

O árabe do futuro — Se seu pai se interessa por outras culturas, política e gosta de artes visuais, nossa dica é a premiada série autobiográfica em quadrinhos de Riad Sattouf.

 Filho de mãe francesa e pai sírio, Riad foi morar na Líbia ainda bem pequeno, e, depois, na Síria. Os primeiros três livros da série englobam os anos entre 1978 e 1987, período em que os dois países árabes passavam por regimes ditatoriais.

Para pais que gostam de fantasia:

Deuses americanos — A obra-prima de Neil Gaiman foi adaptada para a televisão em março e a série já é considerada uma das grandes revelações do ano!

O livro acompanha Shadow Moon, que passou quase três anos na cadeia ansiando por voltar para casa. Dias antes do fim da pena, ele fica sem rumo na vida ao descobrir que a esposa faleceu em um acidente.

Após o velório, ele conhece o sr. Wednesday — um homem com olhar enigmático e que está sempre com um sorriso insolente no rosto  —, que  lhe oferece um emprego. É na nova função que Shadow começa a desvendar a real identidade do chefe e a se dar conta de que os Estados Unidos, ao receberem pessoas de todos os cantos do mundo, também se tornaram a morada de deuses dos mais variados panteões.

 

Para pais que curtem economia:

A grande saída — Para os pais que gostam de entender a sociedade atual, nossa sugestão é o livro de Angus Deaton, vencedor do Prêmio Nobel de Economia e um dos maiores especialistas em estudos sobre bem-estar, desigualdade e desenvolvimento econômico.  

A obra analisa por que as desigualdades ainda são tão presentes no mundo e debate como é possível mudar esse cenário.

 

O projeto desfazer — Para os que se interessam por teorias e ideias revolucionárias, sugerimos o novo livro de Michael Lewis sobre a história da colaboração e amizade de Daniel Kahneman e Amos Tversky, dois psicólogos israelenses.

A dupla criou uma das mais importantes teorias psicológicas que mudou completamente áreas como medicina, direito, economia, entre outras.

 

Para pais empreendedores e moderninhos:

Sprint: O método usado no Google para testar e aplicar novas ideias em apenas cinco diasSe seu pai tem um projeto na cabeça, mas não sabe como tirá-lo do papel, temos o presente ideal para ajudá-lo. 

Sprint é uma metodologia de trabalho fácil de entender e aplicar, indicada para quem quer desenvolver ideias, novos produtos ou negócios.

 

 

As upstarts: Como a Uber, o Airbnb e as killer companies do novo Vale do Silício estão mudando o mundo Para os pais que gostam de tecnologia e costumam acompanhar as novidades desse mercado,  nossa sugestão é o novo livro de Brad Stone.

A obra traz a história da Uber e do Airbnb, duas empresas gigantes que se tornaram um fenômeno e mudaram o mundo em que vivemos em menos de dez anos. Com detalhes dos bastidores, perfil dos fundadores e uma análise profunda sobre o impacto dessas companhias, As upstarts é considerado um dos melhores livros do ano pela Amazon.

 

Para pais que gostam de thrillers e música:

Piano vermelho — Se seu pai gosta de histórias assustadoras e diferentes, ele precisa conhecer o novo livro de Josh Malerman, autor de Caixa de pássaros.

Os Danes, uma banda de rock que fez muito sucesso em Detroit, são convidados por um misterioso funcionário do governo dos Estados Unidos para embarcar em uma viagem a um deserto na África. O objetivo? Descobrir a origem de um som com enorme poder de destruição!

Ninguém entende muito bem o que está acontecendo e os integrantes da banda estão dispostos a desvendar esse mistério. Só que eles não imaginam que estão prestes a entrar em uma jornada sinistra.

 

Para pais que gostam de livros sobre alimentação:

Cozinhar — A obra de Michael Pollan é perfeita para os pais que se interessam por alimentação, culinária, história e práticas antigas e modernas de cozinha.

O livro fala sobre a experiência fascinante de transformar os alimentos. A partir dos quatro elementos da natureza — fogo, água, ar e terra —, Michael Pollan mostra o calor ancestral do churrasco, o caldo aromático dos assados de panela, a leveza dos pães integrais e a magia da fermentação de um chucrute.

A obra foi adaptada para a Netflix no ano passado.

 

Para pais que gostam de obras literárias e de histórias no estilo Cidade de Deus:

Breve história de sete assassinatos — A partir da tentativa de assassinato a Bob Marley, ocorrida às vésperas das eleições jamaicanas em 1976, a obra explora o instável período histórico do país, quando disputas entre gangues viram uma escalada sem precedentes. O autor, Marlon James, apresenta uma sucessão de personagens — assassinos, traficantes, jornalistas e até mesmo fantasmas — que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990.

Vencedor do Man Booker Prize, Marlon James foi um dos grandes destaques da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) neste ano.

testeQuem eram esses jovens capazes de arriscar suas vidas

Meu pai caminhava apreensivo e tenso pelas ruas de Vitória, no Espírito Santo, numa noite de 1969. Ele estava indo se encontrar com uma pessoa que impactaria sua vida: o líder regional de um partido clandestino durante o regime militar.

Era seu primeiro “ponto” — como eram chamados os encontros secretos dos esquerdistas contrários à ditadura — de dezenas que se tornariam cada vez mais frequentes. À medida que Marcelo Netto crescia como líder estudantil, mais ele faria caminhadas perigosas.

Escolhi começar meu livro Em nome dos pais assim porque costumava pensar nessas andanças solitárias. Em 1969, ninguém tinha dúvida: a extrema direita estava no poder e a linha dura dentro dela havia vencido. Era o tempo do Ato Institucional Número 5 (AI-5), que durou dez anos.

Milhares de jovens fizeram caminhadas solitárias e arriscadas num tempo em que os militares torturaram, assassinaram e ocultaram cadáveres de opositores. Que tipo de jovens eram eles?

Entrevistei vários, e cada um tem sua maneira de ver aquele momento da história brasileira, mas todos concordam sobre os absurdos do período mais opressivo do regime, após a instauração do AI-5, que entrou em vigor em dezembro de 1968 e só deixou de vigorar em janeiro de 1979.

Na produção do livro, e também no lançamento na capital capixaba, encontrei vários desses jovens da década de 1970. Em determinado momento da noite de autógrafos, minha mãe, Míriam Leitão, me chamou para uma foto com muitos deles. Instintivamente, agachei-me, em sinal de respeito.

Hoje eles têm mais de sessenta anos e vivem vidas das mais distintas: atuam como médicos no interior do país, engenheiros em grandes empresas de construção e jornalistas de destaque, como minha mãe, que trabalha na imprensa nacional há mais de quarenta anos.

O médico Guilherme Lara Leite, por exemplo, me emocionou bastante durante uma entrevista para o livro. Quando o encontrei na sua sala de paredes brancas e com ampla varanda, o ex-militante se lembrou de uma história importante e que o marcou. Um dia, seu neto, ainda muito jovem, o perguntou sobre o motivo de sua prisão durante a ditadura. “Você já foi preso? O senhor é bandido?”, perguntou ao avô. Nesse instante da entrevista, Guilherme começou a chorar, a fala travou e ele soltou a seguinte frase:

— Fico até emocionado. Falei para ele que tinha sido preso e que não era nenhum bandido, que tinha lutado pela liberdade do Brasil e o que eu tinha feito era isto: escrever “Abaixo a ditadura”, trazer alguns filmes e shows para Vitória.

Quando descobri que meus pais haviam sido presos e torturados, ainda um pré-adolescente, a notícia me atordoou. Também fiz a pergunta a mim mesmo: será que eles fizeram algo de errado?

Em nome dos pais parte de uma história familiar e faz um retrato de parte de uma geração que viveu o dilema entre se calar diante das arbitrariedades da ditadura, o cerceamento de direitos civis, ou resistir. O grupo de Vitória decidiu gritar em meio ao deserto.

Nenhum deles pegou em armas para lutar contra o regime militar. Eram muito novos. Faziam reuniões, greves, panfletagens, pichações, atendimentos médicos em favelas e peças de teatro “engajadas”, com leitura de versos clássicos de Castro Alves.

Por isso, foram presos por meses, torturados por dias e, alguns, punidos novamente, como meu pai, expulso de todas as universidades por três anos, além de perder para sempre os quatro anos de estudos de medicina que cursara. Tudo debaixo do guarda-chuva da Lei de Segurança Nacional, sob a justificativa de que eram subversivos.

Às vezes, tento imaginar o que eles pensavam nessas caminhadas solitárias ao encontro do risco. Será que tinham noção do perigo que os rondava? Eles dizem que sabiam, mas eram muito jovens.

Na música daquela época há vários sinais, em linguagem cifrada, de um tempo áspero, como na canção de Tom Jobim cantada por Elis Regina: “É pau, é pedra, é o fim do caminho. É o resto de toco, é um pouco sozinho”. As águas de março fecharam o verão por 21 anos e eles perceberam que eram “um pouco sozinhos”.

testeGarimpando o passado remoto

 

Num livro, tudo pode parecer rápido, uma página pode contar uma longa espera, mas viver cada minuto de Em nome dos pais foi uma aventura difícil de descrever. Imagine o que foi, por exemplo, a busca pelo delator dos meus pais, que os entregou às mazelas da tortura na ditadura? Eu tinha apenas um nome, precisava saber se estava vivo e onde morava, porque ele sumira havia mais de quarenta anos.

Depois de localizado, o que não foi nem um pouco fácil, aconteceu a viagem até o sítio de sua família, no interior do Espírito Santo. E eu queria que o leitor fosse comigo. Não bastava investigar, mas contar como investiguei. Queria que o leitor tivesse noção de como pode ser demorado mergulhar no passado.

Houve esse momento, depois de muito esforço, em que tudo começou a dar certo. Seguiu-se a viagem até o sítio, que foi realizada durante o dia. Só que, quanto mais eu me aproximava do endereço, mais o sol desaparecia no horizonte. Depois de uma curva numa estrada de terra, vimos um incêndio na mata e o ambiente ganhou cores dramáticas e ares de um livro do J.R.R Tolkien ou de O senhor dos anéis

Já era noite quando, enfim, bati na porta do delator que fora chefe do grupo de estudantes, delatara todos e sumira. O que fazer? Como começar essa conversa perdida no tempo com perguntas nada fáceis, mais de quatro décadas depois? O leitor poderá conferir o resultado no livro.

Em outros momentos a procura era por um papel. Tive de ler e reler cinco volumes e um apenso, o processo que meus pais e seus companheiros responderam na Justiça Militar, até ver o nome que procurava: o do capitão que comandara o departamento de repressão do Exército em Vitória. O nome foi um grande achado, mas havia homônimos, e uma nova barreira se impôs à minha frente.

Por falar em homônimos, um dos militares que teve atuação fundamental no inquérito policial militar tinha 182 deles — uma montanha de pessoas com o mesmo nome do Brasil. Por esse motivo, tive de descartar 181, num longo e desgastante processo de apuração.

Minha busca passou por tentar ouvir os militantes de movimentos contrários à ditadura que atuaram junto com meus pais, passando pelo líder que virou delator, mas também os militares que atuaram na produção do IPM, na repressão e até na tortura aos meus parentes. O livro revela o nome de uma dezena desses militares e um dos capítulos é justamente “Frente a frente com o torturador”.

Foi assim que se construiu Em Nome dos Pais. Estou acostumado a fazer jornalismo investigativo como repórter em Brasília. No livro, porém, eu buscava um passado remoto, o que me fez ter a sensação de procurar agulhas num palheiro.

testeVeja as fotos do bate-papo com Matheus Leitão, Míriam Leitão e Vladimir Netto em São Paulo

 

Confira as fotos do bate-papo e sessão de autógrafos com Mírian Leitão, autora de A verdade é teimosa e História do futuro, Matheus Leitão, autor de Em nome dos pais e Vladimir Netto, autor de “Lava Jato”. O evento aconteceu dia 22 de junho na Saraiva do Ibirapuera, em São Paulo. 

 

 

 

 

 

 

testeVozes dissonantes

FOTO: KAORU/CPDoc JB

A impressão de longe, tanto tempo passado, é a de que a geração dos meus pais era algo monolítico e que todos pensavam da mesma forma. Engano. Nos anos 1972 e 1973, o movimento de rua já havia terminado. Os sequestros e assaltos a banco também. O milagre econômico, a propaganda maciça e o apelo ao “patriotismo” alienavam a maioria dos jovens. O AI-5 calara a maioria das vozes. 

É nesse silêncio que um grupo pequeno no Espírito Santo decide manter um movimento improvável, incluindo meus pais: Marcelo Netto e Míriam Leitão. É nesse contexto que a história de Em nome dos pais se passa. Por isso, digo no livro que eles pareciam alienígenas. 

Gal Costa lançara seu Fa-Tal – Gal a todo vapor em novembro de 1971. O disco estourou, quebrando o silêncio imposto pelo regime. As músicas de Gal tinham versos fortes, e sua voz cristalina como água era um protesto lírico e triste: “No fundo do peito esse fruto, apodrecendo a cada dentada”, ou “Oh, sim, eu estou tão cansada, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você”, ou “Assum preto, seu cantar é tão triste quanto o meu”.

 

 
O ambiente era o terror do governo Emílio Garrastazu Médici, o pior do regime militar e no auge de sua força. 

Eu os descrevo solitários, andando nas ruas, escrevendo nas paredes alguns recados como “Abaixo a ditadura” ou fazendo reuniões secretas com um importante diretor da União Nacional dos Estudantes. Reunião é modo de dizer, porque apresento um encontro do meu pai com o então líder estudantil Ronald Rocha, com tudo o que um contato clandestino tem: andavam e conversavam por vários quarteirões de Copacabana olhando para os pés.

Havia poucas válvulas de escape, e a maioria nem entendia o que estava de fato acontecendo no país. Mesmo na universidade. Por isso cada ato era tão valioso. Como fazer uma greve universitária num momento assim? Meu pai, Marcelo, conseguiu liderar uma greve na medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. 

Certa vez, Míriam foi fazer sua primeira ação na rua com uma fita-cola. Tinham, ela e uma colega, que passar um algodão molhado atrás e pregar. E passaram. E colaram. Mas um agente da área de inteligência percebeu o movimento e foi se aproximando até que, pimba! Segurou o braço de minha mãe. Ela gritou pedindo socorro, fazendo-se de vítima. Virou uma confusão. O homem soltou e elas correram.

Na ditadura, quatro anos fizeram uma enorme diferença de clima e ambiente. Quem viveu 1968 viu passeatas, manifestações, o movimento de rua. De certa forma havia esperança. Em 1972 era outra história, e é essa que conto em nome dos meus pais e dos amigos deles de Vitória. Eles eram poucos.

>> Leia um trecho de Em nome dos pais