testeSemana especial Liane Moriarty

O que falar sobre Liane Moriarty? Conhecida por seus best-sellers já publicados pela Intrínseca (Pequenas grandes mentiras, Até que a culpa nos separe e O segredo do meu marido), a autora ganha uma semana especial feita por nossos blogueiros parceiros, aproveitando o lançamento de O que Alice esqueceu.

No início do especial foram divulgadas as resenhas sobre o novo livro, que retrata a história de Alice, uma mulher de 29 anos que acredita ter a vida perfeita até que acorda no chão da academia e descobre que dez anos se passaram. Ela agora tem 39 anos, três filhos e um divórcio em andamento. Enquanto tenta descobrir como reverter sua amnésia, ela tem que lidar com a pessoa que se tornou: alguém de quem ela não gosta nem um pouco.

Scheila Flores, do blog Guardiã da Meia-Noite, disse que, mesmo não gostando de livros na terceira pessoa, adorou e se identificou muito: “Mesmo narrado em terceira pessoa (o que não é muito a minha praia), a autora consegue dar um ritmo ágil e delicioso à trama, onde vamos montando pouco a pouco um lindo mosaico sobre a vida de Alice, com capítulos/passagens sob o seu ponto de vista, mas também alternando entre outros personagens muito importantes para a reconstrução da vida dessa mulher que realmente poderia ser qualquer uma de nós.”

Já o blog Além do Livro ressalta que o verdadeiro valor da obra está nas entrelinhas: “Se na superfície O que Alice esqueceu nos faz pensar sobre o amor – seja ele entre homem e mulher, mãe e filho, amigos ou irmãos –, quando entramos em suas camadas mais profundas, a história nos leva além. Reforça o valor das lembranças, mas também revela a beleza do não saber. E nos apresenta novas perspectivas que nos mostram que quase sempre é possível perdoar e reconstruir.”

Laura Brand, do blog Nostalgia Cinza, conta que o livro também traz uma reflexão sobre nós mesmos: “Alice é uma mulher que se vê perdida em níveis bem mais profundos do que sua falta de memória aparenta. Ela percebe que se tornou alguém irreconhecível para si mesma e isso nos faz pensar sobre nossas próprias escolhas e nossas expectativas para o futuro.”

(Foto: @AsasdeTinta)

Em seguida, os outros livros de Liane foram revisitados. O blog A Menina que Comprava Livros fez um ranking com seus favoritos, elegendo como primeiro lugar O segredo do meu marido, lançado em 2014. Opinião compartilhada com a página Resenhas de Algodão, que contou um pouco da sua história com a autora e destacou o trecho: “Nenhum de nós conhece todos os possíveis cursos que nossas vidas poderiam ter tomado. E provavelmente é melhor assim. Alguns segredos devem ficar guardados para sempre.” Para o blog Por Essas Páginas, contudo, o favorito é Pequenas grandes mentiras, que deu origem à série Big Little Lies, da HBO. Eles descreveram o livro como “envolvente e surpreendente, escrito por uma autora que não tem medo de enfiar o dedo na ferida”.

(Foto: @stebookaholic)

Além disso, ao longo da semana os blogueiros também falaram sobre os principais temas trabalhados por Liane e as adaptações de suas obras para os meios audiovisuais. Todo o conteúdo do especial pode ser conferido aqui:

Resenha O que Alice esqueceu:

A Mãe Preta | A Menina que Comprava Livros | Abdução Literária | Além do Livro | Asas de Tinta | Borogodó | Colecionando Primaveras | Conjunto da Obra | Danuza e os Livros | Entrando Numa Fria | Eu Insisto | Guardiã da Meia-Noite | Hey Evellyn | SteBookaholic | Kids Indoors | Livro In Cena | Magia Literária | Mais Que Livros | Nostalgia Cinza | Parafraseando Livros | Por Essas Páginas | Resenhas de Algodão | Sobre um Livro | Talvez Geek | Vagando e Divagando | Viagem Literária | Viaje na Leitura

Outros livros da autora:

A Menina que Comprava Livros | Além do Livro | Conjunto da Obra | Danuza e os Livros | Entrando Numa Fria | Eu Insisto | Feed Your Head | Guardiã da Meia-Noite | Hey Evellyn | SteBookaholic | Mais Que Livros | Nostalgia Cinza | Parafraseando LivrosPipoca Nerd | Por Essas Páginas | Resenhas de Algodão | Talvez Geek | Vagando e Divagando | Vai Lendo |  Viaje na Leitura 

Os temas de Liane:

Conjunto da Obra | Entrando Numa Fria | Guardiã da Meia-Noite | SteBookaholic | Mais Que Livros | Nostalgia Cinza | Por Essas Páginas | Viaje na Leitura 

Adaptações para TV e cinema:

Danuza e os Livros | Feed Your Head | Livro Lab | Mais Que Livros | Portal Ju Lund | Vagando e Divagando 

Depois de conhecer melhor o estilo inconfundível da autora, a conclusão é clara: seja pelo mistério, pelas reviravoltas ou pelos personagens que são gente como a gente, O que Alice esqueceu, Pequenas grandes mentiras, Até que a culpa nos separe e O segredo do meu marido são livros que você não vai querer parar de ler. 

 

Leia um trecho de O que Alice esqueceu

testeDuas perguntas por dia

Se você acompanha a Intrínseca nas nossas redes sociais, já deve ter visto alguma foto de Uma pergunta por dia para mães – como esta:

 

Essa e todas as outras imagens foram feitas com a participação de uma das mamães de primeira viagem da editora e seus gêmeos lindos, que renderam o dobro de respostas no livro! Para contar um pouco sobre a experiência com a maternidade e sobre Uma pergunta por dia para mães, chamamos nossa coordenadora de marketing, Carol Nunes, para um bate-papo. Confira:

 

Por que você começou a preencher o livro? 

Como meus filhos ainda são bebês e estão se desenvolvendo super-rápido, achei que seria uma oportunidade incrível de guardar um registro do dia a dia deles durante este período, que é o de maior mudança na vida de alguém. Quero que em 30 anos eles possam saber como foi o início da vida deles.

 

Quando você começou? Já tinha o primeiro livro e passou para o Uma pergunta por dia para mães ou está preenchendo os dois?

Comecei a partir do dia 1º de janeiro, já que as lembranças ainda estavam bem vívidas e eu queria guardar toda aquela fase do comecinho. Tenho o primeiro, mas ele ficou um pouco sem sentido porque o grande tema da minha vida agora são os meninos e eu estava me repetindo loucamente ao escrever nos dois, hahaha!

 

Começou a responder depois do nascimento deles ou já durante a gravidez?

Depois do nascimento dos gêmeos. Inclusive, quando recebi o e-mail informando que íamos publicá-lo, deixei de lado minha licença-maternidade só para responder a nosso editor de aquisições dizendo o quanto tinha ficado feliz com aquela notícia. O livro saiu quando eu já estava de volta, e peguei um dos primeiros exemplares. <3

 

Como você preenche o livro? Diariamente ou respondendo a várias perguntas de uma vez?

Eu tento preencher todo dia, mas ser mãe de gêmeos dá muito trabalho! Hahaha!

Tô gostando tanto que tiro, quase sempre, 15 minutos no fim do dia para escrever naquelas páginas fofas. Esta pausa diária acabou se tornando meu ritual favorito.

 

Já teve alguma surpresa revendo as respostas de dias passados?

Já, sim! É demais acompanhar o desenvolvimento deles através do livro. E o mais incrível é rever os mínimos detalhes que a rotina me faz esquecer.

 

Tem alguma pergunta que você já esteja ansiosa para ver as respostas dos próximos 4 anos?

Pode ser duas? =) O que eu mais quero é cair no mundo com os meninos. Aguardando muito as respostas do dia 4 de setembro: “O lugar mais legal onde estive com meu filho/minha filha este ano foi…” e também a do dia 30 de outubro: “Qual foi o último lugar aonde você foi com seu filho/sua filha?”

 

Tem alguma pergunta cuja resposta gostaria que não mudasse nesses cinco anos?

Sim, é a pergunta do dia 25 de fevereiro: “Como você se sente como mãe?” E a resposta é simples e curtinha: a cada dia mais feliz. =)

 

 

 

testeComo não abrir mão de ser você mesma

Por Fabiane Pereira*

Glennon Doyle Melton por Amy Paulson

A vida de Glennon Doyle Melton nunca mais foi a mesma depois que ela participou de uma dessas correntes que, vira e mexe, aparecem no Facebook. Na lista de 25 “segredos”, ela escreveu logo no número 1 algo que nunca tinha dito a ninguém, nem mesmo ao marido e pai de seus filhos:

Sou uma bulímica e alcoólatra em recuperação, mas ainda me pego sentindo falta de comer compulsivamente e do álcool da mesma forma perturbada com que uma mulher pode sentir falta de alguém que a espanca quase até a morte repetidamente.

A lista chocante acabou sendo sua salvação. Ao se expor nas redes sociais, Glennon começou a receber mensagens de mulheres que também sofriam em segredo. Depois do post, ela criou um blog para compartilhar sua jornada de dor, amor e autodescoberta e passou a ganhar a simpatia, o afeto e a solidariedade de milhares de pessoas espalhadas pelo planeta.

Glennon é uma mulher como sua mãe, ou vizinha, ou amiga, ou como a irmã de um amigo. Talvez seja você mesma. É uma mulher que passou por “poucas e boas” — como diria minha avó —, mas que não se deu por vencida. Ao narrar sua história, sem filtros, no livro Somos guerreiras, ela pode ajudar muitas de nós a repensar nossos papéis na sociedade como mãe, esposa e mulher.

As regras secretas, incontestáveis, sobre como ser uma mulher são: Seja Magra. Seja Bonita. Seja Discreta. Seja Invulnerável. Seja Popular Seguindo a Liderança dos Homens Respeitados. Sexo, álcool e distúrbios alimentares são apenas formas de uma mulher honrar as regras ocultas e chegar a algum lugar. Da infância à idade adulta. Da invisibilidade à relevância. Há um estilo de vida que se espera de uma mulher bem-sucedida, e a bulimia, a bebida e o sexo são apenas ferramentas necessárias para o desenvolvimento desse estilo de vida.

Apesar do apoio incondicional da irmã e dos pais, escrever salvou Glennon. Foi assim, primeiro sozinha e depois em contato com outras mulheres, que ela entendeu que a autoestima que procurou por toda a vida não dependia de nenhum aditivo nem de ninguém, mas somente dela. “Quando termino e olho para o texto, a sensação é a de olhar para um espelho mais cristalino do que qualquer espelho de verdade em que já tenha me olhado”, conta Glennon nas páginas de Somos guerreiras.

É com essa escrita honesta que ela narra as passagens desafiadoras de sua vida: a luta precoce para vencer a bulimia, a baixa autoestima, as traições pelas quais passou, os relacionamentos abusivos em que esteve; divide as dificuldades da maternidade, as crises no casamento e seus vícios — tudo com uma linguagem coloquial e, acredite se quiser, bem-humorada. “Sou cria da Disney, então aprendi logo cedo que o casamento é a linha de chegada de uma mulher”, diz Glennon para logo depois narrar a disputa que travou com seu corpo, mente e espírito para permanecer casada.

Aliás, permanecer casada foi uma de suas maiores vitórias. Não por acreditar que estar casada traz alguma vantagem, mas por crer que criar uma família estruturada é um trabalho diário, árduo e em parceria. Craig Melton, seu marido, não foi uma muleta mas a mola propulsora e paciente que ajudou Glennon nesse processo de cura.

Para conhecer mais sobre Glennon, não perca a participação dela na ótima série documental apresentada pela comediante Chelsea Handler, disponível na Netflix. Ali, ela se mostra, mais uma vez, de corpo e alma. Assim como eu, tenho certeza de que você também vai querer compartilhar seus posts com a hashtag #MEREPRESENTA.  Uma última dica: após ler este artigo (e o livro), ouça “Hero”, na voz de Mariah Carey, bem alto porque, como diz Glennon, “a música é sempre um lugar seguro para a prática de ser humana”.

 

>> Leia um trecho de Somos guerreiras

 

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em Jornalismo Cultural pela ESPM e em Formação do Escritor pela PUC-Rio. É mestranda em Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM.

testeCinco livros sobre maternidade

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Uma das características mais importantes da literatura é ampliar as perspectivas e desconstruir alguns mitos. A maternidade, por exemplo, é um assunto que gera bastante discussão. Os rituais maternos, o estereótipo da mãe ideal, o comportamento que a mulher deve ter, o que se deve fazer com os filhos, como lidar com os seus desejos e a culpa são algumas questões da vida real que também são abordadas em obras de ficção.

Confira a lista com cinco livros que apresentam diferentes aspectos da maternidade:

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A filha perdida, de Elena Ferrante — Leda é uma professora universitária de 40 e poucos anos que decide tirar férias no sul da Itália após as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai. Com elementos simples e uma trama bem construída, a obra acompanha os sentimentos conflitantes dessa personagem que reflete sobre o papel de ser mãe, os desejos e as vontades das mulheres.

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Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver — De forma perturbadora, a autora levanta a polêmica sobre a maternidade romantizada e constrói uma personagem muito forte e humana. Na obra, uma mãe escreve cartas ao pai do seu filho Kevin, na tentativa de compreender o motivo do assassinato em massa cometido pelo adolescente na escola. Ela rememora cada minúcia da vida conjugal e faz um antielogio à maternidade ao explicitar os instintos sombrios, diariamente menosprezados, por trás dos sagrados laços de família.

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Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty — A obra conta a história de três mulheres que aparentemente têm uma vida perfeita em uma pequena cidade da Austrália. Madeline é forte e passional, Celeste é dona de uma beleza estonteante e Jane é uma mãe solteira recém-chegada na cidade. Os filhos das três mulheres estudam na mesma escola, onde acontece uma misteriosa tragédia que as envolve. Violência doméstica, estupro, bullying e a pressão que as mães sofrem são alguns dos temas abordados na história.

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Primatas da Park Avenue, de Wednesday Martin — O livro causou uma grande polêmica quando foi publicado nos Estados Unidos.  Wednesday analisa a região do Upper East Side, área mais rica de Nova York, e aponta o comportamento das moradoras que sofrem com depressão, vícios e ansiedade por serem as principais responsáveis pela criação dos filhos e terem que se adequar aos padrões rígidos de beleza e status social. Com um relato forte e repleto de curiosidades, a autora traz à tona questões que assolam o universo feminino, como a insegurança e o medo de não ser uma boa mãe.

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Um mais um, de Jojo Moyes — Nessa obra publicada em 2015, a autora de Como eu era antes de você traz uma personagem que representa as mães solteiras, que cuidam dos filhos sozinhas e fazem qualquer coisa para ajudá-los.

Jess se casou muito nova depois de engravidar.  Quando o marido sai de casa para tratar a depressão na casa da mãe, ela precisa acumular dois trabalhos para sustentar a família composta por Tanzie, a filha que é um prodígio da matemática, Nicky, o enteado emo, e um gigantesco cachorro babão. Para garantir a educação e o futuro de Tanzie, Jess vai ter de recorrer a um geek milionário e fazer uma road trip cheia de surpresas.

testeA tribo escondida por trás dos luxuosos prédios de Nova York

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Wednesday Martin tinha um desejo comum a muitos pais: criar o filho num ambiente seguro e propiciar uma boa educação para ele. Mas a busca por uma escola de qualidade em Nova York não foi uma tarefa fácil e levou a escritora para o Upper East Side, a região mais rica da cidade.

A mudança para o cobiçado endereço de Manhattan trouxe muitas surpresas para Wednesday. Mãe de primeira viagem e nova na área, ela teve que se adaptar a uma vizinhança de famílias poderosas com hábitos e rotinas muito diferentes daqueles aos quais estava acostumada. Muito mais do que encontrar um apartamento e uma boa escola, a ida para o bairro nobre significou a descoberta de um mundo totalmente desconhecido para a autora.

O Upper East Side era tudo aquilo que se via em filmes e séries de TV, mas com um agravante: o luxo por trás dos prédios escondia uma tribo de mães megarricas, obsessivas com a aparência e motivadas por ambições altíssimas. Ao conhecer esse ambiente em que ter uma cobertura e uma babá à disposição era algo banal, Wednesday se viu isolada e perdida.

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Fazer amizades e conversar com os novos vizinhos parecia ser uma missão quase impossível. Apesar de estar em uma área onde tudo é sofisticado e distante da realidade de muita gente, a escritora percebeu que esse grupo de mulheres tinha muita coisa em comum com ela: o glamour ostentado em bolsas de grife e salto alto não as livrava da pressão de serem boas mães. A maternidade se mostrava ainda mais cruel em Nova York.

A obrigação de estarem perfeitas e de serem sempre 100% dedicadas aos filhos gerava muito mais que ansiedade. Fofocas, intrigas, depressão e vícios eram alguns dos problemas que vinham acompanhados do peso de serem as principais responsáveis pela criação dos filhos.

untitledE foi a partir dessa dificuldade de se integrar e da curiosidade despertada por comportamentos tão inusitados que Wednesday resolveu escrever Primatas da Park Avenue, livro que traz suas percepções sobre a experiência nesse cenário. Com olhar crítico e usando os seus conhecimentos em antropologia, ela passou a observar os rituais de acasalamento, os ritos sagrados e o comportamento das mães na saída da escola.

Os cumprimentos não retribuídos, a superficialidade das relações, os carrões com motoristas e as bolsas caríssimas exibidas como trunfo pelas mulheres são algumas das questões abordadas no livro. A autora também revela as relações de poder nos casamentos, em que os maridos pagam bônus para as esposas que se comportam bem. Entretanto, a principal descoberta de Wednesday veio a partir da tragédia, quando se viu obrigada a aceitar a ajuda das mulheres que antes encarava como fúteis e agressivas. Foi só em meio à dor que lhe foram revelados os laços profundos de amizade que unem todas as mulheres.

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Leia um trecho do livro

Com uma narrativa curiosa e cheia de ironia, Wednesday traz à tona comportamentos e questões que assolam o universo feminino. A insegurança e o medo de não ser uma boa mãe, a amizade e os desejos de consumo mostram que, apesar das diferenças, a tribo do Upper East Side não é tão distante assim das outras mulheres.

testeDas amoras

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Esses condomínios modernos têm de tudo (espaço gourmet, fitness,  playground), mas se esquecem das amoreiras. Que tristeza! (Fonte)

Moro numa rua pequena em Porto Alegre. Antes das sete da manhã, a obra em frente à minha casa começa a dar sinal de vida, como um ogro gigantesco que acorda fazendo barulhos odiosos: plact, pluft, bum. Todos os dias, menos aos domingos, aguentamos uma sinfonia de placts, plufts, buns amplificada pelas buzinas (não aqui na rua, mas no entorno) do horário de pico ou por qualquer intercorrência que para o trânsito por alguns segundos — estranhamente, à vezes alguns segundos parecem ser cruciais para a vida de todos.

Sou mais uma entre milhões — até que não posso me queixar, pois minha profissão um pouco excêntrica me livra de estar na rua nos horários de rush. Mas ando por avenidas, me estresso, tenho horror aos placts, plufts, buns da vizinhança. Sinto falta de natureza. Mesmo. Somos animais um pouquinho mais espertos do que os outros, mas somos animais (ouvi isso um dia desses). Precisamos de um verdinho, de um pouco de sol, de um retalho de vida natural.

Fiz uma coisa bem prosaica que me levou de volta aos seis anos de idade e aliviou minha alma: no meu prédio, temos um pequeno pátio, simples, honesto e simpático — nada que mereça um nome em inglês, como nos condomínios modernos. Nele, há uma figueira centenária que amo — embora alguns reclamem da sujeira que ela faz (tsk, tsk) — e uma grande amoreira. A amoreira fica bem no fundo do quintal e está no auge da sua produção. Como ninguém dá muita bola — todos vivem correndo, presos no trânsito, olhando a agenda no celular —, as frutas têm caído no chão, uma espécie de buffet muito apreciado pelos passarinhos.

Ontem, meu filho e eu nos intrometemos por ali e colhemos um pote cheio de amoras. Por alguns minutos, fiquei pendurada nos galhos da árvore, tomando cuidado para não encostar na cerca elétrica e não transformar nosso pequeno idílio natural em tragédia, e colhi frutas do pé — amoras lindas, enormes, negras de tão maduras! Voltei à infância, quando colhia frutas no quintal da minha tia-avó. Foi tão bom… Saí dali mais leve, feliz e lambuzada, o que eu não ficava havia muito tempo. E depois, em meio aos buns, tuns e platcs, pois a obra em frente não para, almoçamos felizes e tivemos amoras de sobremesa. Com que orgulho meu filho e eu comemos aquelas frutinhas! Amanhã, quero descer lá, encher um novo pote e, talvez, preparar uma geleia.