testeSeis livros para quem curte romances históricos

A humanidade já passou por duas guerras devastadoras, diversas revoluções, conflitos locais e uma disputa entre dois blocos socioeconômicos. Todos esses acontecimentos em escala global são passados de geração em geração e relatados em incontáveis livros, filmes e séries. Mas, tão impactantes quanto estas histórias, são as narrativas das pessoas comuns que as viveram.

Pensem no Titanic. Um dos maiores navios já construídos naufraga e resulta na morte de milhares de inocentes. Mas foi o romance fictício entre Jack e Rose que chamou atenção para esse terrível incidente e emocionou milhões de corações. O mesmo pode ser dito dos clássicos A lista de Schindler e O resgate do soldado Ryan. Tais experiências podem até ser menos conhecidas, mas são igualmente grandiosas em seus detalhes e nuances, justamente por transportar o leitor para determinada época e local.

Listamos alguns livros que têm como cenário esses períodos históricos para criar tramas inesquecíveis. Confira!

Mulheres sem nome

Cenário: Segunda Guerra Mundial
Local: Alemanha, Estados Unidos e Polônia

Recém-lançado, o romance de estreia de Martha Hall Kelly dá voz a três protagonistas femininas em diferentes lugares do mundo enquanto eclodia a Segunda Guerra. A socialite Caroline Ferraday está em Nova York quando Hitler invade a Polônia, em 1939, enquanto a jovem Kasia Kuzmerick se envolve cada vez mais com o movimento de resistência polonês. Levada ao campo de concentração feminino de Ravensbrück, Kasia conhece a médica alemã Herta Oberheuser, responsável por exercer uma medicina terrivelmente controversa nas prisioneiras.

Uma história que atravessa continentes enquanto Caroline e Kasia persistem no sonho de tornar o mundo um lugar melhor, Mulheres sem nome é um livro que aborda a visão das mulheres de uma guerra cujo protagonismo historicamente é masculino. Conheça mais!

 

Um cavalheiro em Moscou

Cenário: Pós-Revolução Russa
Local: Moscou/União Soviética

O autor Amor Towles se inspirou na Rússia dos anos 1920 (na época, União Soviética) para criar a história de Aleksandr Ilitch Rostov, nobre acusado de escrever uma poesia contra os ideais da Revolução Russa. Conhecido como “O Conde”, ele é condenado à prisão domiciliar no sótão do hotel Metropol, lugar de luxo e sofisticação frequentado por artistas, bons-vivants e pela antiga aristocracia de Moscou.

Com sua perspectiva única de prisioneiro de duas realidades distintas, o Conde apresenta ao leitor sua sabedoria e sensibilidade ao abandonar certos hábitos e se abrir para as incertezas de novos tempos que, mesmo com a capacidade de transformar a vida como era conhecida, nunca conseguirão acabar com a nobreza de um verdadeiro cavalheiro.

 

A garota que você deixou para trás

Cenário: Primeira Guerra Mundial
Local: França e Inglaterra

Duas mulheres separadas por um século e unidas pela arte. Na França, durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor Édouard Lefèvre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se às lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por ele. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca tudo, inclusive sua vida, na esperança de rever Édouard, agora prisioneiro de guerra.

Na Londres dos anos 2000, a jovem viúva Liv Halston mora sozinha numa moderna casa, onde destaca-se um retrato de uma bela jovem – presente do seu marido pouco antes de sua morte prematura. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar à vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura e sua tumultuada trajetória. Misturando ficção com realidade, romances de diferentes épocas e a busca por finais felizes, A garota que você deixou para trás é um dos primeiros sucessos de Jojo Moyes. Conheça mais!

 

Toda luz que não podemos ver

Cenário: Segunda Guerra Mundial
Local: França e Alemanha

Vencedor do Pulitzer, o autor Anthony Doerr constrói em Toda luz que não podemos ver um tocante romance sobre o que há além do mundo visível em meio aos horrores da guerra.

Aos seis anos de idade, a jovem Marie-Laure fica cega. Ela vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável. Para ajudá-la, ele constrói uma maquete em miniatura do bairro para que Marie seja capaz de memorizar os caminhos. Quando os nazistas ocupam Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo um dos mais valiosos tesouros do museu.

Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram no lixo. Com a prática, ele acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, em uma missão especial. Cada vez mais consciente das terríveis consequências de seu trabalho, o rapaz é enviado para Saint-Malo. Lá, seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial. Conheça aqui!

 

A menina que roubava livros

Cenário: O nazismo na Segunda Guerra
Local: Alemanha

Esse livro que dispensa apresentações conta a história da pequena Liesel em meio a uma Alemanha assolada pelo nazismo durante a Segunda Guerra. A jovem é adotada por um casal que vive em um bairro alemão pobre: a mãe, dona de casa e o pai, um pintor de paredes bonachão. Para contornar o medo e a solidão, ela aprender a ler e escrever com o pai e canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.

Enquanto eles tentam sobreviver a um cenário nacional conturbado, Liesel assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança, faz amizade com um menino obrigado a integrar a Juventude Hitlerista e ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar o seu lado da História. Conheça aqui!

 

Breve história de sete assassinatos

Cenário: A Jamaica de 1970 a 1990
Local: Jamaica

Em 3 de dezembro de 1976, às vésperas das eleições na Jamaica e dois dias antes de Bob Marley realizar o show Smile Jamaica para aliviar as tensões políticas em Kingston, sete homens não identificados invadiram a casa do cantor com metralhadoras em punho. O ataque feriu Marley, a esposa e o empresário, entre várias outras pessoas. Poucas informações oficiais foram divulgadas sobre os atiradores. No entanto, muitos boatos circularam a respeito do destino deles.

Breve história de sete assassinatos é uma obra de ficção que explora esse período instável na história da Jamaica e vai muito além. Marlon James cria com magistralidade personagens que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990. Um romance épico, brilhante e arrebatador, vencedor do Man Booker Prize de 2015. Conheça aqui!

testeJason Reynolds: a importância de dar voz aos jovens da periferia

Retratar a realidade: esse é o maior objetivo de Jason Reynolds, autor de Fantasma, finalista do National Book Award de literatura jovem em 2016. O escritor é a prova de que mesmo o contato tardio com a literatura não impede ninguém de ser escritor. Criado apenas pela mãe, Reynolds cresceu na periferia de Washington (D.C.), nos Estados Unidos, e só leu um livro inteiro aos 17 anos. Por isso, destinou sua obra ao público jovem, com histórias que giram em torno de adolescentes em situações desfavoráveis economicamente e socialmente. Seu desejo como escritor é alcançar aqueles que não acreditam na literatura, por acharem que não há livros por aí que possam dialogar com eles.

“Eu falo sobre miojo, Kool-Aid, tênis Nike Jordan e basquete, porque é isso que importa para os adolescentes das periferias”, comenta. Ele escreve sobre verdades universais: medo, família e amizade, perdas, amores e risadas compartilhadas.

Cheio de estilo e com um visual super atraente para os jovens, Jason Reynolds pode ser considerado um dos autores mais representativos da atualidade. Separamos 5 razões que lhe garantem esse status. Confira!

1) A música foi sua inspiração para começar a escrever

Quando criança, Jason Reynolds adorava ler, mas com o tempo, abandonou os livros. O autor sentia que a literatura indicada por seus professores na escola não conversava com ele, porque não falava sobre a realidade da sua vida cotidiana.  “Me mandaram ler um livro sobre um homem perseguindo uma baleia (Moby Dick), e eu fiquei, tipo… não sei se consigo me conectar com um cara perseguindo uma baleia já que eu nunca vi uma baleia”, diz Reynolds.

Um dia, o pequeno Jason comprou uma fita cassete de Queen Latifah. Era o álbum “Black Reign”, de 1993. Ele tinha 10 anos e ficou hipnotizado por aquelas rimas e pela habilidade de escrita da rapper. Foi aí que ele percebeu que rap também podia ser poesia. “O rap me fez um escritor. Foi onde me senti significante, necessário […] As músicas contavam a minha história”, disse Reynolds em entrevista ao Publishers Weekly.

2) Ele já foi poeta

A descoberta do rap o inspirou a tornar-se poeta. Jason começou a escrever todo dia. Anos depois, durante a faculdade, ele se matriculou em um curso sobre Shakespeare, onde mostrou seus poemas para um professor. Apesar das críticas negativas, ele persistiu.


3) Ele só se interessou por literatura aos 17 anos

Por volta dessa época, ele começou a trabalhar em uma livraria que enaltecia os autores afrodescendentes. Foi lá que Reynolds leu seu primeiro livro, Black boy, do autor Richard Wright. A partir daí, começou a devorar todos os livros do gênero, escritos por James Baldwin, Zora Neale Hurston e Toni Morrison.

4) Ele só escreve livros que gostaria de ter lido quando jovem

Um amigo de Jason foi assassinado aos 19 anos. Era esse o tipo de coisa que acontecida na vizinhança e, por isso, é sobre esses assuntos que nosso autor escreve – tretas de gangues, pais alcoólatras, violência doméstica, sexualidade e medo. As vozes dos protagonistas são aquelas que Reynolds escutava nos anos 1980 e 1990, vivendo em um bairro onde o tráfico de drogas e a violência aconteciam na calçada de casa. Por sorte, em seu lar havia uma família amorosa.

Foto de Jayson Reynolds criança. Reprodução.

5) Ele fala como se fosse seu amigo

Jason Reynolds tem 33 anos, mas seu texto dialoga com leitores muito mais novos, alcançando um público de até 10 a 14 anos. A fala cheia de gírias e códigos de linguagem, faz você se sentir um amigo próximo e transforma Jason naquele cara com quem sempre se pode contar. Por isso seus livros são tão premiados e agradáveis para o público jovem.

 

*Extra: 6) Potencial para ser crush

Além de ser um escritor talentosíssimo, Jason Reynolds é muito gato. Quer dizer, como resistir a esse sorriso? Potencial para crush: temos!

testeViolência, política e música na Jamaica de Marlon James

Marco Antonio Barbosa*

Esta é a história dos foras da lei de West Kingston. Um faroeste precisa de um mocinho para usar o chapéu branco e um bandido para usar o preto, mas, na verdade, a realidade da periferia está mais próxima do que Paul McCartney disse sobre o Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Tudo é sombrio. Cada guerreiro é um caubói sem casa, e cada rua tem um tiroteio escrito com sangue em alguma canção.

A vida humana parece valer pouco em Kingston, capital da Jamaica. Até pouco tempo, o país detinha a mais alta taxa de assassinatos per capita do mundo. Na década de 1970, a vida valia ainda menos. Nessa época, as disputas entre gangues iniciadas pouco depois da independência da Jamaica, em 1962, viram uma escalada de violência sem precedentes — uma guerra que incluía disputas políticas, interferência da CIA e a expansão de uma lucrativa rede de tráfico de drogas. Tudo isso em um momento que o país ganhava inesperada relevância global com a ascensão do reggae, movimento liderado por Bob Marley e The Wailers.

É com essa Kingston dos anos 1970 que Marlon James abre Breve história de sete assassinatos, obra que explora as últimas quatro décadas de história da Jamaica em mais de 700 páginas. O romance não poupa o leitor (e muito menos os personagens) ao descrever a miséria e a violência reinantes na periferia da capital e as ligações perniciosas entre a “cidade baixa” (onde ficam as favelas) e a “cidade alta” (onde vivem os ricos e poderosos). Dezenas de personagens dão voz à narrativa, em uma alternância de pontos de vista que revela uma complexa rede de motivações e sentimentos conflitantes. A coragem do escopo, a contundência da trama e a ambiciosa polifonia valeram a Marlon James o Man Booker Prize de 2015, o mais prestigiado prêmio literário do Reino Unido. O autor, nascido em Kingston em 1970, foi o primeiro jamaicano a receber a honraria. (Há anos, James não vive mais na Jamaica; a violência o fez emigrar.)

Marlon James por Jeffrey Skemp

 

A menção a Bob Marley no início deste texto não foi gratuita. O rei do reggae — ou melhor, o Cantor, nome que James usa para se referir a Marley no livro — é um dos personagens mais importantes do capítulo inicial. O autor destaca em toda a obra a importância da música popular como válvula de escape para a pobreza; não por acaso, as partes que compõem o livro são batizadas com títulos de clássicos do reggae. Além de ser o jamaicano mais famoso do mundo nos anos 1970, Marley detinha grande influência entre políticos e criminosos em Kingston.

James explora essas conexões no primeiro capítulo, que culmina com o atentado à vida do astro, ocorrido em 3 de dezembro de 1976. Como muitos dos principais acontecimentos do romance, trata-se de uma história nebulosa que une criminalidade e política, apresentada sob várias perspectivas. Bob Marley preparava-se para um grande show ao ar livre, o festival Smile Jamaica, e o evento tinha o intuito de apaziguar a violência na periferia e unir o povo. Dois dias antes da apresentação, homens armados invadiram a casa do cantor (ou Cantor) e o balearam, atingindo também sua esposa Rita e seu empresário Don Taylor. Ninguém morreu, ninguém foi preso, e até hoje, ao menos oficialmente, a identidade dos atiradores ainda é desconhecida.

O que se sabe é que o Smile Jamaica foi usado pelo então primeiro-ministro jamaicano, Michael Manley (do Partido Nacional Popular) como arma política — o que certamente desagradou seu principal adversário, o Partido Trabalhista da Jamaica. Tanto o PNP quanto o PTJ tinham braços armados, recrutados entre os gângsteres da periferia. Os Estados Unidos também estavam de olho no cenário, fornecendo armas aos “militantes” do PTJ (que se opunha às políticas esquerdistas de Manley). Bob Marley desejava que o show não tivesse conotações partidárias, mas não só fracassou nesse intuito como quase morreu. É em meio a esse furacão caribenho que Marlon James traça Breve história de sete assassinatos.

A narrativa de Breve história de sete assassinatos se inicia em West Kingston, a área mais barra-pesada de uma das capitais mais perigosas do mundo. Marlon James toma algumas liberdades criativas, mas dá a noção exata da pobreza e da violência que dominam a região.

 
 
 

…E SUAS PERSONAGENS

Além de Bob “Cantor” Marley, Marlon James se apropria livremente de outras pessoas para criar alguns personagens:

 

A experiência de ler a obra de Marlon James dialoga com outros universos conhecidos, como o mundo cão de Cidade de Deus, de Paulo Lins. Além disso, a riqueza da linguagem, que incorpora as gírias e expressões próprias do gueto jamaicano, evoca a liberdade semântica de autores como Roddy Doyle (outro vencedor do Man Booker Prize) e Irvine Welsh (com sua recriação dos dialetos proletários da Escócia). Breve história de sete assassinatos é uma leitura única, em que a confluência de vozes, as motivações e a contundência descritiva amplificam a humanidade dos personagens.

>> Confira a participação de Marlon James na Flip

>> Ouça a playlist inspirada em Breve história de sete assassinatos

 

Marco Antonio Barbosa é jornalista desde 1996. Passou pelas redações de Jornal do Brasil, Extra, Veja Rio e Globo.com, escrevendo sobre cultura, mídia e comportamento. Hoje publica textos inéditos em https://medium.com/telhado-de-vidro.

testeConfira a programação da Intrínseca na Flip e pós-Flip

Ilustração : Fernanda Pio
Fotografia : Alexandra Jaguaribe
 

Com mais escritoras mulheres do que homens e 30% de autores negros entre os convidados, a edição de 2017 promete ser a de maior diversidade da Festa Literária de Paraty em 15 anos. O homenageado da vez será o escritor Lima Barreto. A Flip acontece entre os dias 26 e 30 de julho, em Paraty, e traz entre os destaques dois autores que são publicados pela Intrínseca.

 

Marlon James na Flip:

Primeiro escritor jamaicano a vencer o Man Booker Prize, principal prêmio da literatura britânica e um dos mais reconhecidos da literatura internacional, Marlon James é autor do monumental Breve história de sete assassinatos. A partir da tentativa de assassinato a Bob Marley, ocorrida às vésperas das eleições jamaicanas em 1976, a obra explora o instável período histórico do país e apresenta uma sucessão de personagens — assassinos, traficantes, jornalistas e até mesmo fantasmas — que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990.

Na Flip, o autor divide a mesa “O grande romance americano” com Paul Beatty, autor originalmente publicado pela mesma editora independente de James e que também recebeu o Man Booker Prize. Na conversa marcada para sábado, 29, às 21h30, eles discutem a renovação da tradição americana do romance a partir de seus pontos de vista particulares, o de um americano negro e o de um jamaicano negro que migrou para os Estados Unidos, onde ambos lecionam escrita criativa. 

Após a Festa Literária, Marlon James participa de bate-papo e sessão de autógrafos na terça-feira, 1º de agosto, às 19h, na Saraiva do Pátio Paulista, em São Paulo. O autor conversa com o tradutor de seu romance, André Czarnobai, com mediação do jornalista Álvaro Pereira Jr. Confirme sua presença.

 

William Finnegan na Flip:

Repórter da revista The New Yorker, o premiado correspondente de guerra William Finnegan chega ao Brasil junto com a publicação de sua autobiografia vencedora do Prêmio Pulitzer. Em Dias bárbaros, o escritor americano narra, a partir de sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura que impregnou jovens e adultos na década de 1960, sua vivência das ondas mais famosas do mundo e tudo o que aprendeu com elas — do pesar de ter usado LSD para desbravar a baía de Honolua, em Maui, à satisfação intensa de atravessar os recifes da Polinésia de mapa em punho para descobrir uma das maiores ondas que existem.

O jornalista, que cobriu conflitos na África enquanto, nas horas vagas, praticava obsessivamente o surfe, participa da mesa “Por que escrevo” ao lado da sul-africana Deborah Levy. No debate, que acontece na sexta-feira, 28, às 21h30, eles discutem as diferentes motivações de um escritor e a entrega ao ofício. 

Após a Flip, Finnegan participa de sessão de autógrafos e de bate-papo com Rafael Mellin e Arnaldo Bloch na segunda-feira, 31 de julho, a partir das 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Confirme sua presença

Clarice Freire na Flip:

A autora de Pó de Lua, participa de bate-papo com Rafael Coutinho, no Centro Cultural Sesc Paraty na quinta-feira, 27, a partir das 14h.

testeLançamentos de julho

Piano vermelho, de Josh Malerman: Ex-ícones da cena musical de Detroit, os Danes estão mergulhados no ostracismo. Sem emplacar nenhum novo hit, eles trabalham trancados em estúdio produzindo outras bandas, enchendo a cara e se dedicando com reverência à criação — ou, no caso, à ausência dela. Uma rotina interrompida pela visita de um funcionário misterioso do governo dos Estados Unidos, com um convite mais misterioso ainda: uma viagem a um deserto na África para investigar a origem de um som desconhecido que carrega em suas ondas um enorme poder de destruição.

Breve história de sete assassinatos, de Marlon James: Livro vencedor do Man Booker Prize de 2015, cujo autor é destaque da Festa Literária de Paraty, em julho. Em 3 de dezembro de 1976, às vésperas das eleições na Jamaica e dois dias antes de Bob Marley realizar o show Smile Jamaica para aliviar as tensões políticas em Kingston, sete homens não identificados invadiram a casa do cantor com metralhadoras em punho. O violento ataque feriu Marley, a esposa e o empresário, entre várias outras pessoas. Poucas informações oficiais foram divulgadas sobre os atiradores. Uma obra brilhante e arrebatadora que explora um período de grande instabilidade na história da Jamaica.

Em busca de abrigo, de Jojo Moyes: Tocante romance de estreia de Jojo Moyes, Em busca de abrigo é uma trama sobre três gerações de mulheres em uma família que não se conhece de verdade, tão cheia de surpresas quanto a vida real. Uma prévia do talento de Jojo Moyes para escrever sobre relacionamentos, família e, sobretudo, amor.

As upstarts, de Brad Stone: O livro conta a história dos dois grandes expoentes da chamada economia do compartilhamento: a Uber e o Airbnb. Por meio de sua análise bem embasada e entrevistas com os fundadores das duas empresas, vemos como o enorme ímpeto e autoconfiança de um empreendedor pode mudar o mundo e gerar fortunas, mas também turvar seu discernimento e ameaçar tudo o que foi conquistado.

O árabe do futuro 3: Uma juventude no Oriente Médio (1985-1987), de Riad Sattouf: terceiro volume da premiada série O árabe do futuro, que narra a infância nada comum do quadrinista Riad Sattouf, passada entre a Líbia, a Bretanha e a Síria. No mais novo capítulo da história do adorável menino de cabeleira loura e cacheada e de sua família itinerante, vemos um Riad no alto de seus sete anos, tentando a seu modo se adequar aos costumes e às dinâmicas do vilarejo em que mora na Síria e se entrosar com seus primos e amigos da escola.

Amor & gelato, de Jenna Evans Welch: Um verão na Itália, uma antiga história de amor e um segredo de família. Depois da morte da mãe, Lina tem que realizar um último pedido: ir até a Itália para conhecer o seu pai. Do dia para a noite, ela se vê na encantadora paisagem da Toscana, passeando pelos famosos pontos turísticos que no passado marcaram a juventude da mãe. Guiada por um antigo diário, Lina agora vai construir a própria história, descobrir o amor e aprender a lidar com o luto.

Hotel Valhala: Guia dos mundos nórdicos, de Rick Riordan: Muitos já ouviram falar do corajoso exército de Odin e dos grandiosos guerreiros vikings que vivem em Valhala, treinando dia e noite para lutar no Ragnarök… Porém, poucos sabem que muitos desses guerreiros chegam ao Hotel Valhala sem a mínima ideia do que estão fazendo ali. Para resolver esse problema, o livro Hotel Valhala: Guia dos mundos nórdicos, um companion book da série Magnus Chase e os deuses de Asgard, oferece todo o conhecimento de que um novo hóspede precisa para sobreviver durante a hospedagem eterna na pós-vida viking.

Como as crianças aprendem, de Paul Tough: agora relançado com novo título, foi publicado no Brasil originalmente em 2014 como Uma questão de caráter. O livro permaneceu por mais de um ano na lista de mais vendidos do The New York Times e foi traduzido para 27 idiomas.

Como ajudar as crianças a aprenderem, de Paul Tough: Um guia prático que oferece a pais, responsáveis, professores e legisladores ferramentas para ampliar seu entendimento das necessidades de investimento e inovação quando se trata de educar crianças em circunstâncias adversas.

testeLiteratura, reggae e o tiro que quase matou Bob Marley

Por Thadeu C. Santos*

Breve história de sete assassinatos é o primeiro livro do escritor jamaicano Marlon James a ser publicado no Brasil. Na obra, James construiu uma narrativa tão impressionante e original que recebeu o Man Booker Prize, o principal prêmio da literatura britânica e um dos mais reconhecidos da literatura internacional. O feito é mesmo prodigioso: foi a primeira vez que um escritor jamaicano levou a premiação.

Oferecendo espaço para que os personagens se manifestem em primeira pessoa a cada capítulo, o autor retrata os antecedentes e as consequências de um importante acontecimento da história recente da Jamaica ao recriar um fato real: o atentado sofrido por Bob Marley, maior estrela do reggae, dois dias antes do show Smile Jamaica, realizado em 5 de dezembro de 1976 no National Heroes Park, em Kingston, junto com sua banda The Wailers.

Era ano eleitoral e a apresentação continha uma mensagem política: Marley, que àquela altura já era considerado uma figura mítica pelos jamaicanos, subiria ao palco numa das principais praças da capital para clamar pelo fim da matança que envolvia jovens militantes dos dois principais partidos políticos do país. Marley não deu ouvidos aos que diziam que ele poderia ser morto no palco e cantou para a multidão. Em determinado momento, mostrou a ferida deixada em seu peito pela bala de raspão e o curativo no braço esquerdo, expondo ao público onde fora perfurado.

No ano seguinte, Bob Marley & The Wailers gravariam Exodus, e a música nunca mais seria a mesma. O reggae se tornou a cada novo disco um gênero musical mais politizado, que refletia a visão de mundo dos rastafári e seguia a trilha iniciada pelo rocksteady de unir música, religiosidade e ativismo por justiça social. No entanto, nem todos os jamaicanos eram rastas e nem todos gostavam de reggae. Nos anos 1970 e 1980, em meio à resistência pacífica encampada por músicos ativistas, a realidade de Kingston seguia dura, imersa na pobreza e extremamente violenta. A política era um fator de instabilidade que contribuía para que gangues de traficantes de drogas tomassem conta das favelas de Kingston e… de áreas em Nova York onde gangues de jamaicanos disputavam entre si importantes pontos da cidade mais famosa do mundo.

Esse é o cenário de conflitos políticos e sociais que os personagens de Marlon James expõem em seus relatos, muitas vezes se valendo de hits da época. Alguns deles seguem na playlist abaixo, com algumas das gravações citadas no romance. São músicas que trazem na essência o que aqueles anos significaram. Além de Bob Marley, também marcam presença Delroy Wilson, Big Youth, Sista Nancy, Might Diamonds, entre outros, compondo um panorama de peso da fase seminal do reggae.

>> Breve história de sete assassinatos chega às livrarias a partir de 6 de julho e já está em pré-venda.
>> Marlon James participa da Festa Literária de Paraty 2017

 

Thadeu C. Santos, 30 anos, é editor freelance. Esteve em Kingston, capital da Jamaica, em 2013, durante uma viagem de 8 dias, ou seja, pouco tempo para entender tudo o que estava acontecendo por lá, mas o suficiente para desconfiar que algumas coisas eram muito similares à realidade do Rio de Janeiro, onde vive.

testeMarlon James e William Finnegan na Flip de maior diversidade

O escritor Marlon James (foto: Jeffrey Skemp)

Com mais escritoras mulheres do que homens e 30% de autores negros entre os convidados, a edição de 2017 promete ser a de maior diversidade da Festa Literária de Paraty em 15 anos.

“Esperamos que o aumento de autoras e autores negros no programa seja um ponto de virada e que a Flip possa influenciar não apenas outros eventos literários do país, mas o próprio mercado editorial, ajudando a torná-lo mais diverso”, afirma Joselia Aguiar, jornalista baiana que assumiu a curadoria do evento.

O homenageado deste ano será o escritor Lima Barreto. A Flip acontece entre os dias 26 e 30 de julho, em Paraty, e traz entre os destaques dois autores que serão publicados pela Intrínseca.

Primeiro escritor jamaicano a vencer o Man Booker Prize, principal prêmio da literatura britânica e um dos mais reconhecidos da literatura internacional, Marlon James é autor do monumental Breve história de sete assassinatos. A partir da tentativa de assassinato a Bob Marley, ocorrida às vésperas das eleições jamaicanas em 1976, a obra explora o instável período histórico do país e apresenta uma sucessão de personagens — assassinos, traficantes, jornalistas e até mesmo fantasmas — que andaram pelas ruas de Kingston nos anos 1970, dominaram o submundo das drogas de Nova York na década de 1980 e ressurgiram em uma Jamaica radicalmente transformada nos anos 1990.

Marlon James divide a mesa “O grande romance americano” com Paul Beatty, autor originalmente publicado pela mesma editora independente de James e que também recebeu o Man Booker Prize. Na conversa marcada para sábado, 29, às 21h30, eles discutem a renovação da tradição americana do romance a partir de seus pontos de vista particulares, o de um americano negro e o de um jamaicano negro que migrou para os Estados Unidos, onde ambos lecionam escrita criativa. Breve história de sete assassinatos chega às livrarias a partir de 6 de julho.

 

Repórter da revista New Yorker, o premiado correspondente de guerra William Finnegan chega ao Brasil junto com a publicação de sua autobiografia vencedora do Prêmio Pulitzer. Em Dias bárbaros, o escritor americano narra, a partir de sua trajetória no surfe, as histórias da época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos no Havaí, a loucura que impregnou jovens e adultos na década de 1960, sua vivência das ondas mais famosas do mundo e tudo o que aprendeu com elas — do pesar de ter usado LSD para desbravar a baía de Honolua, em Maui, à satisfação intensa de atravessar os recifes da Polinésia de mapa em punho para descobrir uma das maiores ondas que existem.

O jornalista, que cobriu conflitos na África enquanto, nas horas vagas, praticava obsessivamente o surfe, participa da mesa “Por que escrevo” ao lado da sul-africana Deborah Levy. No debate, que acontece na sexta-feira, 28, às 21h30, eles discutem as diferentes motivações de um escritor e a entrega ao ofício. Dias bárbaros será publicado em 30 de junho.

Confira a programação completa da Flip.