testeComo as redes sociais estão canibalizando a internet

E onde o Instagram se situa nesse novo mundo virtual

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Mark Zuckerberg, o poderoso do Facebook, que quer comer todo o tráfego de dados on-line com sua rede social

Sim, Instagram, Twitter e, sobretudo (e majoritariamente), Facebook estão consumindo a internet tal qual a conhecemos. E isso é perigosíssimo.

Hoje, um quarto de todo o tráfego da rede mundial, a www, é dominado pelo Facebook. Se somadas apenas as dez principais redes sociais, entre elas o Instagram, quase 40% dos dados criados ou que rondam pela web surgem dessas mídias. Em 2014, pela primeira vez, esses sites superaram as páginas de buscas, como o google.com, como principal meio de tráfego pela internet. Os números apontam que cada vez mais a experiência virtual tem se resumido — ao menos para a maioria dos mais de 3 bilhões de indivíduos on-line (quase metade da população global) — a acessar o Facebook e o Google. Com isso, vê-se uma derrocada da importância de outros sites, como as homepages de portais de notícias e os blogs, que compõem a concorrência.

O físico inglês Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web (o www, ou, em resumo, a internet contemporânea), admitiu a ameaça que esse cenário pode representar ao desafiar a maior das redes sociais: “Não ouse fazer com que celulares só acessem o facebook.com.” A que ele se referia? Dotado de tamanho poder de controle do universo digital, o Facebook cogita hoje um plano nomeado como internet.org. Na cortina estabelecida pelo marketing, Mark Zuckerberg, o mandachuva da empresa, apresenta o projeto com a postura de bom-mocismo típica do ambiente do Vale do Silício — no qual todos os garotos candidatos a empreendedores, assim como os que já se consolidaram, imaginam que mudarão o mundo com cada app que lançam. Em seu discurso, o que a empresa quer com o projeto é oferecer acesso gratuito à rede para populações pobres. Na prática, o que se pretende é garantir o almoço grátis apenas para quem entra no Facebook. Ou seja, o público que se pretende atingir e alguns parceiros terão direito a entrar no Facebook. Para o resto, tem de pagar: pelo wi-fi ou pelo 3G/4G. Qual é o problema?

Imagine que é dada a oportunidade a uma família brasileira com renda mensal inferior a 800 reais de entrar no Facebook de graça… Só que para entrar em outros sites tem de pagar! O que pode ocorrer: as pessoas começam a entrar só no Facebook, a explorá-lo, sem ver o restante do mundo virtual, composto por 970 milhões de sites. É como se uma parte da população começasse a ver apenas um canal de TV. Melhor, a só poder ver esse canal, por não ter verba para bancar o restante da experiência. Esse poder do Facebook aumentou quando ele adquiriu, por 1 bilhão de dólares, o Instagram, em 2012. Por quê? Por, assim, estabelecer que gostaria de dominar o que as pessoas sabem do mundo — os posts — e também o que enxergam — as fotos e os vídeos do Instagram. Mais: com a compra, provou que tem força para adquirir qualquer candidato a concorrente que apareça no mercado e continuar a reinar absoluto entre as redes sociais por meio das quais nos comunicamos.

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Zuckerberg e a presidente Dilma Rousseff: tentativa de parceria para oferecer o Facebook (só ele) de graça para populações pobres

A ideia vai contra um conceito chamado “neutralidade da rede”, pelo qual, numa brevíssima simplificação, se estabelece que todos os endereços.com têm de competir de igual para igual: se a internet é rápida, os sites, de maneira equivalente, ficam velozes; se é lerda, ficam vagarosos; se está sem acesso, nada se vê. No Brasil, que tem uma legislação própria para garantir a “neutralidade” (o Marco Civil), o internet.org do Facebook seria ilegal. Por isso, até a tentativa de estabelecê-lo, em parceria com o governo federal, continua fadada ao fracasso. Ou assim se espera.

Fornecer apenas um ponto de vista (ou poucos pontos) aos que acessam a internet pode dar poder demasiado a uma empresa (ou a um pequeno conjunto delas). Explico. Se a internet começa a se resumir ao Facebook e a outras redes sociais e sites de buscas, essas companhias podem impor suas visões de mundo. Como? Atualmente, o Facebook conta com um algoritmo que organiza a timeline para que nela apareça o que a companhia julga como relevante para usuários. Esse algoritmo já foi manipulado, em várias situações, para realizar testes, muitas vezes sem o consentimento das cobaias. Num deles, o Facebook fez com que notícias mais alegres aparecessem para uns, enquanto as mais depressivas apareciam para outros. O que se queria provar? Que, ao ver posts “para cima”, pessoas ficam felizes; ao ver posts “para baixo”, caminham para a tristeza. Isso foi feito sem pedir licença. Ou seja, manipularam as emoções das pessoas sem que elas fossem avisadas. E se for feito o mesmo para influenciar alguém a votar em certo candidato à presidência, e não em outro? Ou a simpatizar com uma ideologia, e não com outra? Está aí o perigo.

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Para o físico DeGrasse Tyson, a internet dos anos 90 era um amontado de livros jogados no chão, sem ordem. Hoje, a rede é ordeira, mas dominada por poucos.

Numa conversa recente com o popular físico Neil deGrasse Tyson (que virou um famoso meme na rede; o da imagem acima), ele me disse: “A internet dos anos 1990 era como uma biblioteca com todo o conhecimento do mundo, onde os livros estavam jogados no chão e eram difíceis de serem encontrados.” Como é a de agora? Temos o Google e o Facebook para organizar esse caos. As vantagens são óbvias e celebradas. Então, destaco a maior desvantagem: o mundo virtual pode começar a se resumir ao que a primeira página de buscas do Google (raramente se passa para a segunda) e a timeline do Facebook mostram. Em efeito contínuo, diminui-se a diversidade de opiniões, de vontades, de ambições e da vida on-line. Em consequência, também do nosso mundo off-line.

David Baker, que foi redator-chefe da Wired UK — revista e site que é uma das principais referências mundiais na cobertura do universo tecnológico —, uma vez resumiu assim esse cenário, num almoço que tive com ele: “Isso pode transformar o planeta em um enorme Vale do Silício, uma Califórnia para todos.” Em outras palavras, às favas com a diversidade cultural! Europeus, asiáticos, brasileiros, que em pouco se assemelham à identidade do típico habitante do Vale — vinte e quatro horas por dia dedicado à profissão, em busca de criar startups bilionárias, avesso ao conceito de Estado —, começariam a se comportar e a falar como o povo da indústria digital. O mundo pertenceria ao Facebook, ao Instagram, ao Google… E paramos mais ou menos por aí. É o que queremos?

Nota: este tema, entre tantos outros, despertou interesse no público de uma palestra que dei ontem, dia 15, no auditório da sede da Editora Abril, em São Paulo, sobre o livro O clique de 1 bilhão de dólares. A conversa completa pode ser assistida aqui.

link-externoLeia também a coluna anterior de Filipe Vilicic: Três anos de cerco ao Instagram

Conheça O clique de 1 bilhão de dólares, livro de Filipe Vilicic

testeTrês anos de cerco ao Instagram

 

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Uma série de coincidências despertou meu interesse pela história do Instagram, a rede social agora mundialmente famosa. Sim, Michel Krieger, um de seus fundadores, é brasileiro. O fato, por si só, já chamaria a atenção de qualquer jornalista conterrâneo. Mas houve outros acasos.

A startup de Michel começou a testar o Burbn, o confuso app que antecedeu o Instagram, no mesmo ano em que iniciei minha carreira no mundo digital: 2010. Desde pequeno me interesso por ciência e tecnologia e sou aficionado por revistas como Superinteressante e National Geographic. Comecei a sonhar ser jornalista com uns 10 anos de idade, inspirado por personagens como Homem-Aranha, Superman e Spider Jerusalem. Via-me na redação de uma National ou de uma Wired. Assim, enquanto Michel Krieger virava Mike nos Estados Unidos, formava-se em Stanford e corria atrás do sonho de fundar uma startup, do outro lado do continente americano eu perseguia o desejo de testemunhar, como jornalista, descobertas científicas impressionantes, inovações e, em especial, a ascensão do mundo digital.

Em 6 de outubro de 2010, Mike e seu sócio americano, Kevin Systrom, lançavam o Instagram. No mesmo dia, eu completei 25 anos. Na época, batalhava para me firmar na editoria Ciência e Tecnologia da revista de maior circulação do país. Lutávamos por nossas aspirações, embora do meu lado as ambições fossem bem mais modestas — ao menos não envolviam cifras milionárias.

Working late into the night to make Instagram even better. All we require: little heaters. It’s freezing in here!

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

O brasileiro Michel e seu sócio, Kevin Systrom, no começo do Instagram

Passei a viajar com constância para o Vale do Silício, na Califórnia, a fim de visitar empresas como Google, Twitter e Facebook. À época, boa parcela de minhas fontes na região mencionava Michel como o brasileiro que se destacava no universo das redes sociais. Já me sentia atraído por sua trajetória, mas aguardei um pouco, uma vez que os comentários davam conta de que talvez o Instagram fosse apenas “modinha passageira”. Aos poucos, porém, constatei que a startup se tornava cada vez mais sólida. Em um ano de existência, eram 12 milhões de usuários. Esse sucesso meteórico culminaria na Páscoa de 2012, momento em que mais uma coincidência me aproximaria dessa saga.

Durante três meses me dediquei a uma reportagem sobre jovens brasileiros que despontavam na indústria digital. Assim, fui incumbido de conversar com o fundador do Instagram. Discreto quanto à vida pessoal, Mike me deu alguns dribles antes de, finalmente, me conceder uma entrevista graças à intervenção de um amigo comum. Tivemos quatro longas conversas. Para minha matéria, eu precisava de poucas informações, apenas algumas linhas sobre a aventura que o havia levado de São Paulo a São Francisco. A história, porém, era tão inusitada que me senti compelido a saber mais. Em um período de sete dias, Mike lançara o Instagram para o Android (o sistema operacional do Google, concorrente de iPhones e iPads), negara ofertas tentadoras de aquisição vindas do Twitter e do Facebook, captara mais 50 milhões de dólares em investimentos. E ainda se preparava para a visita da irmã, vinda de Nova York, com quem passaria a Semana Santa — feriado que Mike esperava fosse que “tranquilo”, conforme me confidenciou. Mas não foi bem assim. Minha suada reportagem foi publicada um dia antes de me avisarem, em pleno domingo de Páscoa, que o Instagram havia sido vendido, repentinamente, por 1 bilhão de dólares ao Facebook. Talvez tenha sido a maior coincidência de todas. A impressionante negociação entre Kevin Systrom, CEO da empresa, e Mark Zuckerberg, mandachuva do Facebook, dobrou o valor do Instagram. Poucos dias antes, Mike acreditava – e parecia sincero – que a startup talvez nem valesse “os 500 milhões de dólares que tanto falam por aí”. Verdade, não vali 500 milhões de dólares. Valia o dobro. Na semana seguinte, procurei Mike. Ele alegou estar preso a um contrato de confidencialidade e frustrou minha abordagem. Não desanimei. Em São Paulo, em visitas à escola que ele frequentou, ou em São Francisco, onde ele morava, eu fazia perguntas sobre Mike a todos que tinham ou haviam tido contato com ele. Não sabia ainda o destino de minha apuração, mas não me preocupava com isso.

Uma foto publicada por Kevin Systrom (@kevin) em

Primeira foto publicada no Instagram

Em 2013, outra coincidência: a Intrínseca me sugeriu escrever um livro sobre a criação do Instagram. Para meu espanto, os editores se interessavam pela mesma história que despertava havia tempos minha atenção. Procurei por Mike. Ele tinha uma entrevista agendada comigo sobre as novas ferramentas que lançaria no app e eu aproveitei o papo para lhe apresentar o projeto. Mike foi conciso: “Sim, vamos falar mais, mande e-mails explicando.” Enviei várias mensagens, e nada. Sem esmorecer, prossegui com a apuração.

Fosse por medo de se expor (Mike mencionara a pessoas próximas que tinha receio de que sua família, no Brasil, fosse alvo de sequestro), pelo contrato de confidencialidade firmado com o Facebook (declarações erradas à imprensa poderiam lhe tirar ações da empresa), ou por razões que desconheço, o fundador do Instagram não respondia às minhas investidas. Ainda que ele tenha impedido algumas fontes de me conceder entrevistas, percebi que não se opunha formalmente ao trabalho. Fui em frente, sempre esperando que respondesse a, pelo menos, um dos meus e-mails, ainda que a resposta fosse negativa.

Após quase três anos de pesquisas e entrevistas, com viagens ao Vale do Silício e visitas (oficiais ou não) às várias sedes do Instagram, comecei a ficar preocupado. Finalmente, obtive uma resposta, extraoficial. Um “não”. Pensei em desistir, mas voltei a me entusiasmar quando, dias depois, o empreendedor israelense Itay Adam aceitou conversar comigo sobre um conflito ocorrido entre ele e Mike, relatado em seu blog com o seguinte título: “Como Mike Krieger, fundador do Instagram, matou minha startup”.

Segundo Adam, Mike havia dado aval para o desenvolvimento de um app cuja existência só valia se coligada ao Instagram. O empreendedor conseguiu investimento, contratou equipe, abriu escritório. Quando tudo estava finalizado, porém, foi impedido de linkar o programa ao Instagram. Desesperado, escreveu diversas vezes a Mike cobrando explicações, sem resposta. “Tive de demitir funcionários, pais de família que passaram a enfrentar o desemprego, perdi dinheiro, sendo que o Mike poderia muito bem ter dado um retorno negativo logo de início”, lamenta Adam.

Decidi que não passaria pelo mesmo infortúnio. Ninguém mataria meu trabalho. Apurei mais, e melhor, fui fundo e escrevi O clique de 1 bilhão de dólares. Acredito que o fato de ser um texto “não autorizado” só o valoriza, pois isso permitiu que o resultado ficasse isento, com pontos de vista diversos.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

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Michelle Obama recebe Mike na Sala Azul da Casa Branca

 

testeComo ter um bilhão de amigos


Nesta quinta-feira, Mark Zuckerberg anunciou que o Facebook superou a marca de 1 bilhão de usuários. Acessada por uma em cada sete pessoas no planeta, a rede social registra diariamente 3,2 bilhões de “curtir” e de comentários. Com 54 milhões de membros, o Brasil é um dos cinco países com o maior número de conexões.

A trajetória do Facebook e a criação de um mito são reveladas sob pontos de vista antagônicos em duas leituras indispensáveis. De um dormitório estudantil a Palo Alto, a história contada por Eduardo Saverin foi a centelha para que Ben Mezrich apresentasse ao mundo os bastidores da origem da rede e a ambígua personalidade de Zuckerberg. Entre a genialidade e o mau-caratismo, o perfil de Zuckerberg retratado em Bilionários por acaso: a criação do Facebook  foi imortalizado pelo cinema no premiado A Rede Social.

Já em O efeito Facebook, de David Kirkpatrick, Mark Zuckerberg conta a sua própria versão, endossada pelos principais executivos da empresa. Ex-editor sênior de Internet e tecnologia da revista Fortune, o autor analisa o impacto do site na vida social de adolescentes e de adultos no mundo inteiro e mostra como o jovem de 19 anos recusou-se de forma categórica a comprometer suas ideias e proclamou que o Facebook dominaria a comunicação na Internet.

testeOs Bilionários da Rede Social

Procurado por um estudante de Harvard que queria revelar um golpe entre amigos, Ben Mezrich antevê um mito. De um dormitório estudantil a Palo Alto, a história contada por Eduardo Saverin foi a centelha para que Mezrich apresentasse ao mundo a ambígua personalidade de Mark Zuckerberg. Retratado entre a genialidade e o mau-caratismo em Bilionários por acaso: a criação do Facebook, que deu origem ao filme A Rede Social, o nerd e sua criação tornaram-se sedutores para um público cada vez maior. Na semana em que a empresa é avaliada em US$100 bilhões, Zuckerberg estampa as capas das principais revistas do país.

A rede que interliga 100 bilhões de amizades — número semelhante ao dos neurônios que compõem o cérebro humano — registra 845 milhões de usuários e é acessada por habitantes de todos os continentes. No Brasil, o Facebook triplicou de tamanho no último ano, desbancou o Orkut e já é usado por 75 em cada 100 pessoas que acessam a internet.

Com uma fortuna que poderá chegar a US$28,2 bilhões, Mark Zuckerberg tem 27 anos e representa o ícone máximo do sonho libertário de empreendedorismo jovem. Seu site existe há apenas oito anos e catalisa as esperanças dos interessados em fazer negócios na internet, estimulados, principalmente, pelo grau de detalhamento das informações que cada usuário insere sobre si em seu próprio perfil.

Confira a entrevista em que Ben Mezrich descreve a criação de alguns de seus personagens, incluindo Zuckerberg, e dá mais detalhes sobre seu novo livro, Sexo na Lua:

(Com informações da Revista Veja)

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