testeAs mulheres do meu livro II

Jayne Mansfield e Jorginho Guinle (fonte)

Jayne Mansfield e Jorginho Guinle (fonte)

A atriz Jayne Mansfield, a grande rival de Marilyn Monroe na década de 1950, não deveria entrar nas minhas crônicas sobre as mulheres de Os Guinle, já que não é personagem da saga que escrevi sobre essa conhecida família carioca. Não a incluí no livro porque, embora tenha sido uma das amantes hollywoodianas de Jorginho Guinle, a relação de nosso playboy com ela era mais motivada pelo sexo, conforme ele relata em sua biografia. Loura, alta e de seios fartos, Jayne fez mais sucesso, na verdade, como playmate da Playboy do que como atriz.

Segundo Jorginho, a moça, ainda que bela, carecia de alguma sensibilidade. Ele conta que uma vez eles estavam num cabaré da Broadway quando, de repente, ela pediu: “Vamos dançar?” O cabaré era um sofisticado endereço especializado em jazz criado apenas para os apaixonados por boa música. Grandes nomes, como o saxofonista Coleman Hawkins e o baterista Gene Krupa, faziam de tudo para se apresentar ali. Jorginho dançou com ela e o casal foi até aplaudido, mas ele morreu de vergonha, pois considerava uma ofensa aos músicos dançar naquele ambiente.

Jayne, porém, tinha seus trunfos: era totalmente desinibida para o sexo e isso Jorginho adorava. Uma vez, em Nova York, ele foi buscá-la no aeroporto. Foi em um carro escolhido por ela, um Rolls-Royce antigo, bem mais alto que os demais. Mesmo com a presença do motorista, em determinada parte do trajeto ela anunciou: “Vou fazer sexo com você aqui!”. Nas palavras de Jorginho, ele ficou bem constrangido ao receber sexo oral daquele jeito, “vendo os carros passando ao lado, logo abaixo de nós”.

O caso com ela durou dois anos no total, um tempo longo para os padrões do playboy, e ele logo explica: “Não foram dois anos corridos, mas indo e voltando, e ela não tinha esse negócio de querer amarrar-se.” Além de desinibida, Jayne era realmente diferente, já que a maioria das mulheres que namorou só queria mesmo era arranjar casamento, inclusive as atrizes de Hollywood, conforme narra.

testeA joalheria mais amada do mundo e da cultura pop

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Em Um presente da Tiffany, as vidas de dois casais são transformadas quando seus presentes de Natal da famosa loja são trocados após um acidente no meio da Quinta Avenida, em Nova York. A empresa, conhecida por suas belíssimas joias, já apareceu diversas vezes em livros, músicas e filmes. Separamos alguns desses momentos. Confira:

 

1- A loja foi uma das muitas listadas por Marilyn Monroe na música “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” no filme Os Homens Preferem as Loiras, de 1953.

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2- No filme 007 – Os Diamantes São Eternos, James Bond conhece a contrabandista Tiffany Case, que explica que seu pai deu de presente mil dólares e uma joia da loja antes de abandoná-la com a mãe.

3- A música “Hotel California”, da banda Eagles, conta a história de uma jovem ambiciosa que tem a mente distorcida pelo glamour da loja.

4- No filme Sintonia de Amor, a personagem de Meg Ryan tem um desejado anel de noivado da loja.

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5- Como não poderia faltar, em Breakfast at Tiffany’s, no Brasil traduzido como Bonequinha de Luxo, a personagem de Audrey Hepburn é fascinada pela loja a ponto de tomar café da manhã olhando para uma das vitrines.

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testeCorações e Mentes

Nêmesis, de Peter Evans, mostra uma época em que os homens mais poderosos do mundo eram personagens mais… humanos. 

Por Bruno Capelas*

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Vinte e quatro horas antes da morte do presidente John Kennedy, Jackie posa ao lado do marido numa tentativa de consertar os danos políticos causados pelo cruzeiro com Onassis. Foto: BETTMANN/CORBIS

Jackie era mulher de John, que tinha um caso com Lee, que era irmã de Jackie. John também amava Marilyn, que mantinha um affair com Bobby, que era irmão de John. Bobby, por sua vez, odiava Aristóteles, que tinha um caso com Lee e outro com Jackie — e quis transformar Marilyn na mulher de Rainier, o príncipe de Mônaco. John e Bobby foram assassinados, Lee ficou para titia, Jackie se casou com Aristóteles, Marilyn foi encontrada morta e Rainier III se casou com Grace Kelly, que nada tinha a ver com a história.

Parece confuso? Pois é nada menos que a vida real — como o jornalista Peter Evans conta em Nêmesis: Onassis, Jackie O e o triângulo amoroso que derrubou os Kennedy. Biógrafo do armador grego Aristóteles Onassis, um dos homens mais poderosos do mundo nos anos 1950 e 1960, Peter Evans volta a falar sobre ele nesse livro, publicado recentemente no Brasil pela Intrínseca.

Na primeira vez em que escreveu sobre Onassis, no livro de 1986 Ari: The Life and Times of Aristotle Socrates Onassis, Evans pintou um retrato de múltiplas cores do empreendedor que começou sua fortuna na Argentina e de lá tomou o mundo. Em Nêmesis, no entanto, o foco é outro: escancarar a trama por trás das relações entre Onassis, Bobby Kennedy e Jackie Kennedy Onassis, que, segundo a tese central do autor, teriam levado, em 1968, à morte do ex-senador americano a mando do grego.

NEMESIS2 - 2015-04-24.inddCom minúcia de detalhes, pesquisa nos arquivos americanos e muitas entrevistas com amigos e pessoas próximas ao trio principal de Nêmesis, Evans faz um longo retrospecto da rivalidade entre os dois a partir de 1952, quando Bobby Kennedy, na época ocupando um cargo menor no Departamento de Justiça dos Estados Unidos, prejudicou uma negociação de Onassis relacionada ao transporte do petróleo árabe durante uma crise político-econômica no canal de Suez (Egito).

No entanto, mais do que os bons momentos de explicação a respeito de contratos e do lobby feito nos bastidores políticos, o que o autor faz melhor em Nêmesis é contar que, no mundo do poder nas décadas de 1950 e 1960, as disputas não eram só na base dos cifrões, mas também do sexo. A principal dessas disputas é, de fato, a que o livro tenta (des)mitificar. Ao se envolver com Jackie Kennedy, Aristóteles Onassis matava dois coelhos com uma cajadada: além de satisfazer seu apetite sexual-amoroso, o grego também deu um golpe na autoestima da tradicional família do Partido Democrata, selando uma união que Bobby Kennedy disse que só ocorreria debaixo de seu cadáver.

link-externoLeia um trecho de Nêmesis: Onassis, Jackie O e o triângulo amoroso que derrubou os Kennedy

Evans descreve essa relação entre os dois clãs com inúmeros detalhes picantes — em especial, ao falar sobre como o bon vivant Onassis conquistava donzelas (nem tão) inocentes ao convidá-las para um passeio pelo Mediterrâneo em seu iate Christina. Era uma receita simples, mas eficaz: joias caras, um passeio nostálgico pela Grécia, onde o armador cresceu, bebida da melhor qualidade e cabines privativas, com serviçais discretos. O resultado era um clima de “odor salino de oceano e sexo”, como foi descrito por Richard Burton, um dos principais convivas de Onassis no Christina — na lista de frequentadores do iate estava até mesmo o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

Convidada para uma semana a bordo após perder um filho natimorto, a então primeira dama americana Jackie Kennedy foi apenas uma das últimas conquistas de Onassis no Christina, em uma lista que inclui a irmã de Jackie, Caroline Lee Bouvier, Athina Livanos (a primeira esposa de Onassis e mãe de seus dois filhos) e até mesmo a soprano Maria Callas. Ao lado de Aristóteles Onassis, Callas foi uma das maiores personalidades gregas de sua época, e o breve e explosivo affair dos dois é considerado por muitos críticos como o responsável pelo declínio dela, uma das maiores cantoras de ópera da história.

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Aristóteles Onassis e Maria Callas. Foto: GETTY IMAGES/HULTON ARCHIVE

Outro ponto alto do livro, ainda no tema sexo, é narrar o relacionamento intrincado de Jackie com o presidente John Kennedy, um casamento em que amor era a menos valorizada das moedas correntes — e no qual as infidelidades não eram apenas toleradas, mas às vezes até incentivadas. (É chocante a forma como Evans descreve ao longo do livro a predileção de JFK por orgias e por mulheres cheias de aventuras eróticas.) Além disso, se destaca a atenção que a obra dá para personagens coadjuvantes — como Stanislaw Radziwill, príncipe polonês que foi casado com a irmã de Jackie; Starvos Niarchos, o principal rival de Onassis no mundo dos negócios; ou até mesmo Marilyn Monroe.

É a respeito de Marilyn que surgem algumas das melhores (e mais curiosas) histórias do livro. Uma delas é a insinuação feita pelo autor de que a atriz de O Pecado Mora ao Lado tenha tido casos amorosos com os dois irmãos Kennedy. Além disso, Peter Evans contribui para a polêmica que diz que a atriz não teria se matado, mas sim sido assassinada a mando dos Kennedy, que temiam chantagens políticas. Outra boa passagem é a que conta que o plano inicial de Onassis — que comandava boa parte dos negócios da ilha de Mônaco — era oferecer Monroe como candidata a esposa de Rainier III, o líder local que acabaria se casando com Grace Kelly. Questionada certa vez se conseguiria conquistar o príncipe, Monroe respondeu apenas: “Dê-me dois dias a sós com ele, e é claro que ele vai querer se casar comigo.”

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Aristóteles Onassis. Foto: COSTAS HARITAKIS

Controverso, Nêmesis há anos aguarda uma adaptação para o cinema — o brasileiro Fernando Meirelles já foi por diversas vezes mencionado como diretor do possível longa-metragem, mas o projeto não avança em Hollywood. Vale lembrar que, ainda hoje, os Kennedy continuam a ser uma família poderosa dos Estados Unidos — Ted Kennedy, irmão de Bobby e JFK, foi senador até sua morte, em 2009, e o clã inclui até Arnold Schwarznegger, ator e ex-governador da Califórnia.

Seja como for, ao longo de 368 páginas, Nêmesis é ao mesmo tempo uma aula de história de política e um livro cheio de passagens deliciosas sobre os bastidores sórdidos do poder. Mas, mais do que isso, é o retrato de uma época em que os homens e as mulheres mais célebres do mundo eram personagens mais humanos — mostrando (ou não sabendo esconder) seus principais vícios, em trajetórias conflituosas para corações e mentes, violência e paixão.

link-externoLeia também: Os lugares escuros de Gillian Flynn ou “Não apague a luz” 

Bruno Capelas é repórter do IGN Brasil, a versão brasileira do maior site de games do mundo. Formado em jornalismo pela USP, já foi repórter do portal iG e do Link, a editoria de tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo. Além disso, edita o blog Pergunte ao Pop e colabora desde 2010 com o Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país.