testeBruce Dickinson: muito além do Iron Maiden

Por Marcelo Costa*

Bruce Dickinson: Vocalista, Esgrimista e Piloto de Avião (Fonte)

Você conhece Bruce Dickinson, certo? Bruce, o vocalista da fase de maior sucesso do Iron Maiden, uma das maiores bandas de metal de todos os tempos? Bem, o público do metal costuma ser fiel e detalhista. Certa vez, Ronnie James Dio, um dos maiores nomes do rock mundial, comentou numa entrevista: “O fã de metal é aquele que sabe tudo sobre a banda, até o nome do cachorro da namorada do roadie.” Se você se encaixa nessa categoria, seus conhecimentos sobre Bruce Dickinson e Iron Maiden serão colocados à prova com a autobiografia que acaba de chegar às livrarias porque, além de vocalista do Iron Maiden, Bruce também é escritor, roteirista, aviador, esgrimista, cervejeiro, empresário e, bem, muitas outras coisas.

Por outro lado, se você não é lá muito chegado em metal, a leitura pode se provar uma enorme surpresa. A rigor, a obra é sustentada por cinco pilares: Iron Maiden, esgrima, carreira solo, aviação e câncer. Yep, isso mesmo. Como toda boa biografia, Bruce esclarece situações ocorridas na infância que ajudaram a construir sua personalidade, fala da adolescência (quando optou por um internato para “fugir” dos pais e da família) e de como o rock o atraiu. Daí, é a sequência básica: montar uma banda, tocar, quebrar a cara, acabar com a banda, montar outra banda, tocar, quebrar a cara, acabar com a banda… até, no caso de Bruce, que era do Samson e foi roubado pelo o Iron Maiden, um momento contado com riqueza de detalhes e histórias. Conforme a narrativa segue, os discos novos do Iron Maiden precisam dividir espaço com uma de suas grandes paixões: a esgrima.

Quem diria, esgrima, aquele esporte de combate em que os competidores utilizam armas brancas (florete, sabre ou espada) para atacar e defender. Bruce ostenta diversas medalhas e troféus nesse desporto, que ele conheceu no colégio e que usou como “droga” durante dezenas de turnês pelo mundo com a banda: enquanto um ou outro integrante enchia a cara no bar e outros roqueiros estariam se drogando, Bruce estava… esgrimando. Isso em qualquer cidade! Bastava o Iron Maiden pousar para que Bruce saísse atrás da academia de esgrima mais próxima. O esporte não só manteve sua sanidade como também protegeu suas cordas vocais dos excessos da vida de rock star. Ou você acha que é possível detonar toda noite e continuar cantando e gritando por mais de 30 anos?

O gosto pela aviação começa cedo, influenciado pelo tio, e ressurge mais tarde, quando a idade bate e o corpo fica mais lento, favorecendo os outros competidores de esgrima. Bruce então se joga de corpo e alma nesse projeto, um dos que mais rende momentos emocionantes para o livro, afinal, pássaros se chocando contra o vidro à frente do piloto, suspeitas de fogo na turbina a milhares de metros de altura e pousar com um veículo de quatrocentas toneladas quase sem gasolina em meio a uma tempestade são histórias que prendem o leitor. E Bruce, que não é um escritor de primeira viagem — ele já escreveu os romances The Adventures of Lord Iffy Boatrace (1990) e The Missionary Position (1992), além do roteiro de Chemical Wedding (2008), um filme sobre Aleister Crowley—, domina a narrativa de maneira leve, como se estivesse ao seu lado num pub inglês contando tudo enquanto bebe pints de Fullers ESB, sua cerveja favorita.

Ok, talvez hoje a Fullers ocupe um lugar secundário na paixão cervejeira do vocalista do Iron Maiden, já que, como ele lembra no livro, “enquanto escrevo estas linhas, 18 milhões de pints de The Trooper, a cerveja do Iron Maiden, já foram bebidos mundo afora”. Aliás, quem viu o Iron Maiden ao vivo no Rock in Rio nunca se esquecerá da provocação do vocalista: “A cerveja servida aqui é tão ruim que tive que trazer a minha”, disse, aos risos. Como um bom empreendedor, Bruce conta o que buscava com a cerveja: “A ideia era uma cerveja para o homem comum, que bebesse a Trooper no dia a dia e sempre retornasse a ela, como uma velha amiga. Há várias cervejas exóticas no mercado, e a maioria tem vida curta. Os Robinson e eu queríamos criar algo clássico, e creio que conseguimos.”

A narrativa dos acasos que levam Bruce à carreira solo, e os guitarristas Janick Gers e Adrian Smith ao Iron Maiden (em períodos diferentes), também é outro ponto alto livro, que culmina no câncer na garganta e na língua descoberto em 2015. Assim como tudo no livro, Dickinson narra sua luta contra o câncer nos mínimos detalhes (em trechos que poderiam até integrar uma campanha contra o cigarro: “Você fuma? — perguntou ele (o médico). — Não. Por quê? Faz muita diferença? — São 20% a mais de chances de cura e 20% a menos de probabilidade de retorno”). Depois de 31 sessões de radiação, com o corpo em frangalhos, Bruce Dickinson vê Mick Jagger passando do lado de fora da janela de sua casa, em King’s Road. “Estou quase tão magro quanto você, pensei, sorrindo”, conta.

Um dos caras mais gente boa do metal, Bruce Dickinson consegue fisgar o leitor tanto com histórias escabrosas (tipo urinar na sopa dos professores do colégio — e ser pego depois) quanto por momentos emocionantes (como uma visita a uma creche em Sarajevo no meio da guerra ou outra a Auschwitz: “Chorei muito depois da visita. Senti raiva e fiquei em silêncio”, conta). Sua autobiografia vai além da história de uma celebridade relembrando momentos de sua vida. É um passatempo divertidíssimo (“No espírito do rock’n’roll, que outra justificativa seria necessária?”, pergunta Bruce) que consegue contar a vida de Bruce e também soa como um apêndice importante à obra da Donzela de Ferro.

 

* Marcelo Costa é editor do site Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Notícias Populares e dos portais Zip.NetUOLTerra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

testeA justiça selvagem de Hugh Glass

Por Marcelo Costa*

THE REVENANT

THE REVENANT © 2016 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

The Revenant, título original de O regresso, romance de Michael Punke que a Intrínseca publica agora no Brasil, diz respeito, segundo o dicionário Michaelis, “a uma pessoa que retorna após longa ausência” ou ainda “àquele que volta do túmulo, um espírito, um fantasma, uma aparição”. Na primeira edição do livro, lançada nos Estados Unidos em 2002, um subtítulo colocava um pouco mais de lenha na fogueira: “A Novel of Revenge”, um romance sobre vingança. Juntando os cacos espalhados até agora já é possível imaginar a trama que conduz a narrativa de O regresso, mas é importante observar que os fatos (verídicos) relatados no romance aconteceram nada menos que dois séculos atrás (193 anos para ser mais exato). Ainda que o sentimento que a palavra “vingança” evoca tenha permanecido imutável durante todos esses anos, o mundo mudou drasticamente — e o ambiente é um personagem coadjuvante de extremo valor nessa história.

Com isso em mente, o cineasta Alejandro González Iñárritu e o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki — responsável pelas imagens dos filmes Árvore da Vida (2011), Gravidade (2013) e Birdman (2014), entre outros — capricharam na estética do “personagem coadjuvante”, e se a adaptação cinematográfica (que colocou o livro novamente nas prateleiras) faturou três estatuetas no Globo de Ouro (melhor filme, diretor e ator), é fácil imaginar untitledque a fotografia também tenha destino certo na premiação da Academia. Aliás, O Regresso pode entrar para a história do cinema como o filme que dará a Leonardo DiCaprio seu primeiro Oscar (foi seu terceiro Globo de Ouro de melhor ator — os anteriores haviam sido por O Aviador, em 2005, e O Lobo de Wall Street, em 2014). Mas, ainda que isso aconteça, é importante frisar: esse é mais um caso clássico de livro muito melhor do que o filme. Ou quase isso.
Quase porque, na verdade, livro e filme vêm da mesma fonte, mas são obras distintas, com qualidades particulares. Se o filme tem a força da imagem (Lubezki choca a paisagem à contraluz de Árvore da Vida com os longos planos sequência de Birdman, num resultado arrebatador) e das grandes atuações, o livro é impactante por remeter a um diário romanceado dos pensamentos do personagem Hugh Glass, o homem de currículo invejável que sempre sonhou viver em alto-mar até ser sequestrado por um pirata lendário e ter seu futuro com uma bela mulher nublado. É este homem de coração partido que vagueia nas páginas do livro, perdido em um Novo Mundo, que cria pouco a pouco o mapa que conhecemos hoje, mas que, em 1820 (quando a história real se passa), era apenas um rabisco fruto da memória de vários caçadores.

A trama de O regresso começa no primeiro dia de setembro de 1823, uma segunda-feira sombria, embora, naquela época e no meio do Velho Oeste norte-americano, dias da semana não servissem para muita coisa. Mas, mesmo assim, é esse o dia em que Hugh Glass é abandonado por dois “companheiros” que, não bastasse a traição, ainda levam o que ele tinha de mais precioso: a espingarda e a faca. Nas condições em que se encontrava, um corpo absolutamente detonado, na fina fronteira entre a vida e a morte, após ter sido atacado por um imenso urso-cinzento (que, milagrosamente, ele conseguiu matar — ainda que tenha quase morrido junto), Glass não precisaria mais do armamento, justificaria Fitzgerald, um dos dois homens “escalados” para enterrar o companheiro, dando a ele uma despedida digna.

Colocadas as cartas na mesa, O regresso narra o processo de recuperação solitária do caçador Hugh Glass, que integrava a Companhia de Peles Montanhas Rochosas, após o ataque quase fatal do urso, e seu desejo de vingança, que o faz lutar por sobrevivência, enfrentando índios e o tempo cruel para concluir seus planos. A história verídica atravessou séculos e ganhou ares míticos. O romancista Michael Punke pesquisou a fundo a trajetória do caçador e alerta que o eixo central da trama é exato: o ataque do urso, o pobre homem deixado para trás pelos amigos em péssimas condições e o inevitável desejo de vingança. E o que há de ficção no romance é exatamente o que faz do livro uma obra mais interessante do que o filme: ao acompanhar a saga de recuperação de Hugh Glass, o leitor está confinado em seus pensamentos, e tudo que surge impressiona.

Mais interessante ainda é a recriação de época, algo que o filme compartilha, mas que o livro também exibe com força, pois se trata de hábitos há muito tempo deixados de lado por uma sociedade cada vez mais distante da natureza e dos enfrentamentos tão comuns daquele período. Outro ponto positivo da leitura: Michael Punke aprofunda vários personagens, numa reconstrução histórica que coloca em cena, por exemplo, o pirata corsário francês Jean Lafitte, que aterrorizou o Golfo do México no mesmo período em que Hugh Glass viveu e deixou a península de Galveston em chamas ao partir (a propósito, Nic Pizzolatto, o homem responsável pela série True Detective, escreveu um ótimo romance que se passa em Galveston, também publicado pela Intrínseca).

Você pode não acreditar em espíritos, fantasmas ou aparições, mas é bom ficar de olhos abertos, pois, como frisou o filósofo Francis Bacon em On Revenge, um dos capítulos de seu livro Ensaios, de 1625: “a vingança é uma espécie de justiça selvagem”, incutindo no ser humano uma inteligência crítica que às vezes faz falta. Segundo Bacon, a vingança é uma perversão da lei (o que, por sinal, tem a ver com o final do livro de Punke enquanto diverge de Iñárritu, que acrescenta elementos extras para tornar o ato mais factível). E ainda que Hugh Glass tenha atuado como pirata, sua busca por vingança é mais fruto dos desencontros da vida do que de maldade. Há diferença, mas a perversão da lei é a mesma… ainda hoje.

THE REVENANT

THE REVENANT © 2016 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

Livro e filme, apesar de tratarem do mesmo tema, vingança, têm conclusões diferentes. Punke tentou ser o mais fiel possível à história real, enquanto Iñárritu apresentou uma história com início, meio e fim — não é à toa que o filme começa exibindo uma batalha anterior à narrativa do livro —, mas ambos criaram o personagem que acreditaram ser o mais plausível. O leitor, por sua vez, tem em mãos um diário de época incrível, retrato de um período histórico pouco explorado e muitas vezes esquecido. O resultado final é uma obra cujo texto pode ser complementado pelas imagens de Iñárritu e que transporta o leitor/espectador para um tempo distante, quando as regras da sociedade eram bem diferentes. Sombrio, agonizante e violento, O regresso utiliza um mundo que não existe mais para falar de um sentimento atemporal.

link-externoLeia também: O Regresso lidera as indicações ao Oscar 2016

 

Marcelo Costa é editor do site Scream & Yellum dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Notícias Populares, e dos portais Zip.NetUOLTerra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

testeSobre Douglas Petersen, David Nicholls, Beatles e… nós

Por Marcelo Costa*

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John Lennon e Yoko Ono por Annie Leibovitz para icônica capa da revista “Rolling Stone”.

“Tudo o que você precisa é de amor”, cantavam os Beatles em 1967. Apesar de ser uma frase aparentemente simples e direta, “All You Need Is Love” esconde em suas entrelinhas um emaranhado de desejos, traumas, vícios e tentativas que, no fim, soa como um trote providenciado por alguma entidade divina. Ao menos é isso que os personagens de David Nicholls parecem dissimular nas páginas de Um dia e do recém-lançado no Brasil Nós, romances com vigas profundas estruturadas neste sentimento fora de moda chamado amor.

Sim, porque é amor o que Dexter sente por Emma, e o que Emma sente por Dexter. Eles não sabem, e nem nós quando começamos a transitar pelas páginas de Um dia, ainda que — após séculos de romances literários e décadas de filmes hollywoodianos e canções pop melosas — os sinais estejam todos ali, brilhando como neon numa rua escura. Talvez porque saber não seja o fator mais importante da equação, e daí deslizamos por um túnel sem fim de acasos e acusações, culpas e desculpas, que dizem mais sobre inaptidão do que necessariamente sobre amor.

CAPA_Nos_WEBE é amor também o que o cientista Douglas Petersen, protagonista de Nós, sente por sua esposa, a espirituosa Connie, e por seu filho Albie, ainda que ele considere AMOR (assim mesmo, em letras maiúsculas e, de certa forma, intimidadoras) algo que não seja exatamente aquilo de que as pessoas realmente precisam. Há aqui um interessante aprofundamento na questão de genes, ainda que o cientista (uma bela escolha de David Nicholls) não toque deliberadamente no assunto nem use o termo de forma direta para explicar/justificar suas motivações.
Na verdade, Douglas Petersen até tenta despistar. A certa altura de Nós, ele se volta para o leitor e explica: “Acredito que esse tipo de história é chamado de romance de formação.” Esse é o seu ponto de vista sobre os últimos acontecimentos com seu filho Albie, mas… Bem, estamos nós, leitores, “conversando” com Douglas e acompanhando sua história, quando percebemos que ela, no final das contas, é o romance de formação sobre um homem de 54 anos que parece mais influenciado pelo pai, com o qual não tem um relacionamento aberto, do que possa imaginar.

Está tudo ali, brilhando como neon: a-m-o-r. Ou, sendo um pouco mais preciso, é como ensinaram Douglas (e a nós… ok, ok, caro leitor, sem generalizar: a maioria de nós — mas pense no assunto) o que é amor. É o que ele tem. É o que ele tentou desesperadamente passar para o filho, e tudo ameaça desmoronar numa noite, quando, às 4h da manhã, Connie se senta na beirada da cama e diz a seguinte frase: “Acho que nosso casamento já deu o que tinha que dar, Douglas. Acho que quero me separar de você.”

Ele tem 54. Ela, 52. O filho, que está prestes a deixar a casa da família para ir para a faculdade, 17. Os três (na verdade apenas os pais, já que, se deixassem o filho escolher, ele iria para Ibiza sozinho e fim de papo) tinham planejado um Grand Tour familiar pela Europa, um rito de passagem para a vida adulta (que irá incluir sexo, drogas, negociantes de armas, músicos de rua, La Gioconda, Goya e Picasso, não necessariamente nessa ordem) com paradas previstas em Paris, Amsterdã, Munique, Florença, Verona, Roma e Veneza, e não vão desistir da viagem.

Junto com a família em trens movimentados lá vamos nós observando Douglas Petersen assistir àquele decantado filmezinho que muitos dizem passar na cabeça das pessoas quando elas estão próximas da morte. O que está morrendo, neste caso, é seu relacionamento com a esposa, e ele então começa a relembrar e reconstruir sua história (e a si mesmo), resumindo delicadamente sua vida em AC/DC: Antes de Connie e Depois de Connie. Fervorosamente assume: “O fato era que eu amava a minha mulher de tal forma que achava impossível expressar, de modo que raramente o expressava.” Pausa.

Não dizer talvez tenha sido o maior equívoco de Emma, mas se ela tivesse dito, algo teria mudado? Talvez sua maneira independente de lidar com o amor encontrasse a maneira libertária de Dex e as duas saíssem de mãos dadas para jantar em algum restaurante da moda, mas… daria certo? Ou será que estamos todos, incluindo Dex e Emma, condenados a esperar o “momento certo”, aqueles segundos românticos imperdíveis que, caso não sejam aproveitados (por medo, acaso ou vício), se tornam imperdoáveis?

O caso de Douglas e Connie é diferente: eles se encontraram. A questão que David Nicholls parece insinuar é: o encontro basta? Não só: Douglas é, à sua maneira, extremamente dedicado a Connie, mas como explicar que, após mais de 20 anos juntos, ela acredite que “o casamento já deu o que tinha que dar”? Ele não entende. Muitos não entendem. As pistas, no entanto, estão em Nós (mesmos). Eis um livro cativante que consegue dar alguns passos à frente de Um dia no que diz respeito a observar as relações humanas no mundo moderno.

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o autor inglês David Nicholls

Por fim, quem enxerga Douglas como um Dexter mais velho (se houvesse relação aqui seria mais de pai e filho) está observando apenas um item comum que os conecta: a maneira particular de cada um deles de lidar com o amor (ou o que eles compreenderam ser amor), objeto responsável pela dor e delícia de suas histórias (e de todos nós). Neste caso, os próprios Beatles avançaram no tema quando — na última música de seu último disco — cantaram: “E no fim o amor que você recebe é igual ao amor que você faz.” Fique atento, Douglas. E você também, caro leitor.

Ouça a playlist de Nós

Playlist de Nós, de David Nicholls | por Marcelo Costa by Intrinseca on Mixcloud

Nota: Este Grand Tour sonoro é dividido em três partes (com as seguintes pistas):

1) confrontos musicais que, em Nós, dizem respeito ao gosto de apenas um dos personagens — ainda que a leitura (musical) se encaixe em um exercício de “diferenças” (algumas são músicas que ele ouviria; outras são para ela);

2) as covers inspiradas no repertório de Kat, a violoncelista;

3) as músicas que simbolizam cidades do Grand Tour: há uma música para Paris, outra para Barcelona e, ainda, uma para Amsterdã. E, sim, as conexões são intencionalmente clichês (as músicas nem tanto), porque, em certo momento, ao perceber o disco que está tocando ao adentrar um coffee shop holandês, o personagem pensa: “até mesmo eu teria rejeitado por ser um tanto óbvio.” Ainda assim foi mantida a escolha do budtender da Mellow Times Café.

01 – Carole King – “I Feel The Earth Move”
02 – Jackson 5 – “I’ll Be There”
03 – Abba – “S.O.S.”
04 – AC/DC – “Little Lover”
05 – Frank Zappa – “Motherly Love”
06 – Billy Joel – “You Look So Good To Me”
07 – Tom Waits – “Downtown Train”
08 – Barry Manilow – “Mandy”
09 – Wings – “Some People Never Know”
10 – Talking Heads – “Love -> Building on Fire”
11 – Mayra Andrade – “Les Mots d’Amour”
12 – Bob Marley – “Could You Be Loved”
13 – Everclear – “Brown Eyed Girl”
14 – Luna – “Sweet Child O’ Mine”
15 – Cat Power – “(I Can’t Get No) Satisfaction”
16 – Nina Persson & Nathan Larson – “Losing My Religion”
17 – Ed Prosek – “Homeward Bound”
18 – Patti Smith – “Smells Like Teen Spirit”
19 – Björk – “So Broken”
20 – Etta James – “Purple Rain”
21 – Ella Fitzgerald – “Night & Day”

P.S.: Das 21 canções/artistas, apenas uma não é citada nominalmente na história (das outras 20, ou o artista, ou a música aparecem em algum momento no romance) e está presente tanto para embalar corações partidos quanto para sonorizar o desespero do quintal dos surdos.

link-externoLeia um trecho de Nós

Sete conselhos: Diálogo ficcional entre Douglas Petersen e Dexter Mayhew
Ouça a playlist de Circo invisível, de Jennifer Egan 

 

Marcelo Costa é editor do site Scream & Yellum dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Notícias Populares, e dos portais Zip.NetUOL, Terra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

testeSonhamos com Hollywood quando a vida, na verdade, é Galveston

Por Marcelo Costa*

blog_galveston

Em 1980, Nic Pizzolatto tinha apenas 5 anos e vivia com os pais em Lake Charles, cidade na Louisiana a cerca de três horas de Nova Orleans. A infância difícil com a família em uma região notadamente pobre deixou marcas profundas, algumas delas facilmente visíveis na obra de maior sucesso do hoje escritor, produtor e roteirista: a série de  TV True Detective, que estreou em 2014 e acaba de retornar com novo elenco para a sua segunda temporada. Os cenários decadentes e melancólicos que os detetives Rust (Matthew McConaughey) e Marty (Woody Harrelson) percorreram no primeiro ano da série também ambientam a boa trama de Galveston, romance de estreia de Nic Pizzolatto, lançado em 2010 nos Estados Unidos e publicado agora no Brasil.

Galveston é uma cidade real de pouco mais de 50 mil habitantes localizada na região da Costa do Golfo, no estado do Texas, próxima da fronteira com a Louisiana — a cerca de três horas da Lake Charles da infância de Pizzolatto e, também, de alguns crimes estranhos que acontecem na primeira temporada de True Detective. A trama do livro, porém, começa em Nova Orleans na segunda metade dos anos 1980. É lá que vive Roy Cody, um caubóis texano de 1,90m que “trabalha” como cobrador (uma forma poética de se referir a um matador de aluguel) e alterna seus dias entre cervejas (Coors, Lone Star, Miller High Life e Budweiser), uísques (Johnny Walker… ele odeia Jim Bean, mas bebe se for preciso) e lembranças de um coração partido.

Galveston - CAPA E LOMBADA.inddSim, Nic Pizzolatto defende em Galveston que mesmo no peito (repleto de fumaça cancerígena de cigarro) de um matador de aluguel bate um coração. No caso do nosso amigo Roy Cody, a última garota se chamava Carmen e acabou de trocá-lo por seu patrão, Stanislaw Pitko, o polaco que chefia a máfia em Nova Orleans. Imagine a situação: você é um matador de aluguel texano [para auxiliá-lo: “Sou do leste do Texas, do Triângulo Dourado, e esses caras (da turma de Stan) sempre pensaram em mim como lixo, o que é bom, porque também têm medo de mim”, conta Roy], vive um romance com uma garçonete gostosa e ela o troca pelo chefão da máfia local. Se você pressentiu confusão, está correto. E muita.

Roy e outro capanga (que por um “simples acaso” também viveu um romance com Carmen) são enviados para pressionar um homem, e o que seria um servicinho rotineiro (“Sem armas”, recomendou o chefão Stan) termina numa carnificina. Roy consegue se safar, mas, uma pessoa viu seu rosto, e ele decide levá-la consigo para tentar descobrir algo sobre aquela emboscada. O nome da garota é Raquel Arceneaux, mas ela prefere ser chamada de Rocky. É uma jovem prostituta que estava na hora errada, no lugar errado. Roy tem como lema que cada pessoa é responsável pelos próprios pecados, não dá para ficar tentando resolver os dramas dos outros, mas as duas almas errantes seguem juntas noite adentro.

Em uma velha caminhonete, com o som do cantor texano Billy Joe Shaever sobrepondo-se ao silêncio, Roy e Rocky fogem de Nova Orleans em direção ao Texas, não sem antes dar uma parada em um bar de uma pequena cidade: “Lake Charles era um dos lugares da Costa do Golfo onde era mais fácil arrumar uma briga. E qualquer lugar ao sul dali era um campo de terror caipira”, explica Roy, com a sabedoria de quem conhece muito bem a região. De Lake Charles, o road book passa por Orange, cidade em que Rocky precisa fazer uns acertos financeiros e familiares, e segue até Galveston, balneário cuja lembrança de bons dias permanece no âmago de Roy, que viveu ali um romance intenso que, algum tempo depois, fracassou.

Fracasso aparenta ser o tema preferido de Nic Pizzolatto. Seus personagens (no livro e na série) são pessoas comuns que parecem sentir algum tipo de prazer inconsciente com o erro. Se viver é acumular tristezas, Roy e Rocky estão carregando peso extra, porque a pobreza, a tragédia e a infelicidade seguem com eles como genes passados de pais para filhos. Ambos carregam todos os dramas de uma longa herança familiar de perdedores, e a mágica da vida é tentar dar algum sentido ao caos em que eles foram jogados sem opção de escolha. Reféns invisíveis de uma América que finge não vê-los, Roy e Rocky sofrem ainda mais porque foram ensinados — pelos descaminhos da vida — que não se pode confiar em ninguém, nem em si próprio.

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Woody Harrelson e Matthew McConaughey em cena de “True Detective”

Pizzolatto consegue criar suspense e expectativa sem soar óbvio ao ponderar, com sabedoria, quais informações quem lê precisa receber naquele momento da trama. O resultado funciona a contento (a busca pela obviedade, inclusive, pode passar uma rasteira em alguns) e se expande quando aliado ao universo da série True Detective. Até porque soa tentador (para quem está lendo o livro pela primeira vez agora) imaginar Matthew McConaughey no papel do matador Roy, aproximação que o brilhante Killer Joe, filme de 2011, de William Friedkin, também permite e valoriza — aliás, Juno Temple também soa uma bela alternativa para Rocky.

A narrativa de Galveston é alternada entre passado e presente, fazendo com que o leitor se sinta preso à trama conforme a história se desenrola. No começo, ele acompanha Roy e Rocky na fuga pós-emboscada. Um pouco depois, o texano é visto em uma praia brincando com uma cachorra. Ele está bem mais velho, anda mancando e usa um tapa-olho que assusta as crianças do balneário. Também parou de beber (até participa de reuniões dos AA) e adquiriu gosto pela leitura, não porque ela o torna mais inteligente, mas porque ler um livro é, segundo ele, a melhor forma de passar o tempo sem pensar em besteira. E para um homem com o extenso currículo de confusões de Roy, não pensar em besteira é um grande avanço.

Mais interessante, porém, é como o escritor consegue retratar de forma astuta um tipo de pessoa que se apega cegamente (e tolamente) a um momento da vida e o transforma em amuleto, como se todos os dias seguintes a serem vividos fossem menores. Como uma droga, a sensação inicial é de euforia, afinal a pessoa viveu aquilo. Conforme o tempo passa, porém, a memória se desgasta, e o que era um momento agradável começa a soar como um fantasma que caçoa da realidade. O passado deixa de ser real para se transformar em algo que a pessoa acredita que viveu, e a confusão nubla os pensamentos, que acabam por fim desejando algo que nunca houve. Roy é uma dessas pessoas.

Porém, o que seria de nossas vidas se não restasse uma fagulha de esperança? Nic Pizzolatto simboliza esse sentimento de forma precisa, afinal viveu uma infância pobre e traumática, mas sobreviveu aos fantasmas (dele e da família), algo que parece gostar de compartilhar com seus personagens. Matador sem remorso, mas de coração partido, que deixa (com pesar) uma coleção completa de filmes de John Wayne para trás durante a fuga, Roy Cody consegue despertar empatia porque é vítima de si mesmo e de sua própria história, ainda que a redenção seja um sonho praticamente impossível de realizar. Afinal, redenção é por demais Hollywood, e não Texas e Louisiana.

link-externoLeia um trecho de Galveston

Playlist de Galveston, de Nic Pizzolatto, por Marcelo Costa by Intrinseca on Mixcloud

01 – Billy Joe Shaver – “Good Ol’ USA”
02 – Roy Orbison – “Uptown”
03 – Glen Campbell – “Lovesick Blues”
04 – Conway Twitty & Loretta Lynn – “Louisiana Woman, Mississippi Man”
05 – Hank Williams – “Lost Highway”
06 – Willie Nelson – “I Gotta Get Drunk”
07 – Johnny Cash – “I Walk the Line [Alternate Take]”
08 – Merle Haggard – “The Fugitive”
09 – Loretta Lynn – “Trouble In Paradise”
10 – Waylon Jennings – “Just To Satisfy You”
11 – Billy Joe Shaver – “When Fallen Angels Fly”
12 – Patsy Cline – “Poor Man’s Roses”
13 – Roy Orbison – “Love Hurts”

link-externoLeia também: A metáfora da esperança de Jennifer Egan ou “Tudo começou aqui”

Marcelo Costa é editor do site Scream & Yell, um dos principais veículos independentes de cultura pop do país. Já passou pelas redações do jornal Noticias Populares, e dos portais Zip.NetUOL, Terra e iG, além de ter colaborado com as revistas Billboard BrasilRolling Stone e GQ Brasil, entre outras. Participou da Academia do VMB MTV, do júri do Prêmio Multishow e do júri do Prêmio Bravo. Desde 2012 integra a APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).