testeAs revelações de um sobrevivente

Por Luana Freitas*

O milagre no Hudson (Fonte)

Eu amo trabalhar com livros de não ficção, adoro aprender a partir das experiências dos outros e poder mergulhar em um bom relato. E com Sully não foi diferente: mergulhei em uma história impactante e incrível e foi uma delícia trabalhar no texto. No entanto, esse livro teve um presente a mais — algo único, embora nada animador para nós, que viajamos de avião: é extremamente raro um piloto sobreviver a um acidente e poder contar tudo o que aconteceu. Em geral, o que resta é apenas a caixa-preta e as deduções dos peritos e investigadores a partir do que restou (ou não) da aeronave.

Nesse sentido, Sully é uma dádiva e uma revelação. Além do relato de um feito extraordinário — o pouso de um Airbus com 155 pessoas a bordo no congelante rio Hudson em plena Manhattan depois que os dois motores da aeronave colapsam devido ao choque com um bando de pássaros —, o livro traz todos os detalhes, todo o raciocínio, todo o medo e a astúcia que permearam o evento e só poderiam ser contados por quem de fato viveu a experiência. Sobre isso, o que posso dizer é que o livro muitas vezes me tirou o fôlego, me deu um nó no estômago. É impossível ficar indiferente ao capítulo que narra os minutos exatos do acidente, o momento aterrorizante em que os pássaros entram nos motores e piloto e copiloto se dão conta de que não há como voltar para o aeroporto mais próximo, e só lhes resta planar. Não há tempo para fraquejar, não há tempo sequer para rezar — eles decidem tudo em segundos.

Mas o livro não fala só sobre o acidente em si. Ao analisar a própria trajetória — e consequentemente a carreira —, o comandante Sully traz inquietantes revelações sobre o setor aéreo como um todo, sobretudo a maneira como a concorrência desenfreada entre as companhias aéreas e a pressão pelo barateamento das passagens comprometeram os padrões e as rotinas de segurança em aeroportos de todo o mundo. O retrato que ele faz dos bastidores do dia a dia de pilotos, comissários de bordo e controladores de voo não é nada bonito — para além da rotina dura de treinamentos, procedimentos e atualizações, há as condições de trabalho cada vez mais sacrificantes. Creio que a passagem que melhor prova isso é quando autor conta que muitos pilotos (e seus passageiros e tripulações) morrem por tentar salvar a aeronave até o último segundo, com medo do impacto do prejuízo de milhões pela perda da aeronave em suas carreiras. É perturbador ler o relato de Sully sobre como teve de tomar a decisão deliberada de priorizar a vida de todos em detrimento do avião.

Outra questão crucial para o comandante e sobre a qual só poderíamos saber graças ao livro é o drama que enfrentou logo após o acidente. Hoje todos sabemos que ele de fato foi um herói, que o pouso forçado no rio, além de uma manobra incrível, era a única saída possível para salvar a vida de todos a bordo. Mas a verdade é que Sully foi massacrado pela imprensa, questionado por muitos jornalistas, que o pintaram como negligente e frio. Além disso, logo após o resgate, ele passou por vários interrogatórios conduzidos pelas autoridades do setor aéreo que ponderavam se ele não teria na verdade colocado a vida de todos em risco, se de fato os dois motores haviam falhado, se realmente não tinha como voltar ao aeroporto e assim não colocar em perigo os passageiros, os cidadãos e os prédios de Manhattan.

Todas essas perguntas o atormentaram por um longo tempo, e até hoje é assustador pensar que toda a sua carreira, toda a sua vida foram julgadas por uma decisão tomada em menos de cinco minutos. Uma passagem emblemática do livro mostra como Sully teve receio ao ser chamado para ouvir a gravação dos diálogos na cabine da aeronave durante o fatídico voo. Mesmo sabendo que tinha tomado a decisão certa e salvado a vida de todos, havia muito em jogo, ninguém sabia o que poderia ser interpretado das palavras ditas na cabine.

Uma das primeiras ordens que Sully recebeu ao sair do avião que afundava, dada pela companhia aérea para a qual trabalhava, foi a de que não falasse com ninguém além das autoridades e que tomasse muito cuidado com o que diria. Felizmente para nós ele logo se libertou dessas amarras e decidiu contar tudo o que aconteceu naquele dia e todo o lado sombrio por trás da figura de herói americano.

 

*Luana Freitas é editora assistente de ficção e não ficção estrangeiras. Estuda tradução e até hoje se espanta com o universo de descobertas que faz ao trabalhar com livros.

testeA liberdade de comer sem sofrer

Com tantas informações e regras, comer simplesmente virou um inferno, com tudo controlado e altamente racionalizado. Mas onde foi parar a alegria de comer? A felicidade em compartilhar uma refeição com quem amamos? Neste texto, nossa editora assistente Luana Freitas conta como Cozinhar, de Michael Pollan, a libertou desse emaranhado sufocante.

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(fonte)

Lá fui eu para uma consulta com uma nutricionista. A terceira de toda a minha vida. Em mais uma das incontáveis tentativas de ser saudável e, sim, de emagrecer… horrores. Eu fiquei ali, respondendo às perguntas de sempre, ouvindo as recomendações que conhecia de cor.

As únicas novidades para aquela consulta eram as taxas alteradíssimas do exame de sangue e a raiva. Sim, raiva, muita raiva. Eu me culpava por ter me permitido engordar aqueles dezoito quilos (a meta da vez), pois não havia desculpa. Já li por conta própria e revisei vários livros de reeducação alimentar, dieta, nutrição e doenças ligadas à alimentação, já trabalhei em diversos livros de receitas saudáveis. Sabia claramente o que deveria fazer e cortar e quais eram as consequências dos meus maus hábitos. Então por que a frustação, a culpa, a sensação de impotência?

Por mais curioso que possa parecer, eu, que trabalho há tanto tempo com livros, não precisei encontrar a dieta, a clínica ou o médico certo para eliminar todos esses sentimentos ruins. Precisei apenas encontrar o livro certo. Na verdade, o escritor. Foi apenas por trabalho que descobri o Cozinhar, do jornalista Michael Pollan. Ainda bem, pois teoricamente eu poderia ter sido levada ao grande erro de achar que o livro tratava apenas sobre o ato de cozinhar e jamais abri-lo (nunca tive muita paciência para cozinhar, esperar os três minutos do macarrão instantâneo já me irritava profundamente).

cozinhar211x319Sendo obrigada a ler o livro, descobri o que me faltava: encantamento, diversão e, por que não, sedução. Pois é simplesmente impossível não se deixar levar pela empolgação de Pollan pela cozinha. As descrições dele para os métodos de preparo dos pratos que aparecem no livro são uma forma requintada de tortura. Quando a obra virou série da Netflix, a cena mais aguardada de todos os tempos foi a do preparo do bendito porco inteiro assado lentamente. Também fiquei ansiosa para ver uma personagem fazer um cozido. Sim, um cozido. A coisa mais simples de se fazer. Mas esse é o poder de Pollan: ao realçar toda a beleza e poesia do ato de cozinhar, de preparar a própria comida, ele nos leva a abrir nossos olhos para o que esteve sempre ali, para toda a gama de sabores e texturas da comida de verdade.

O ponto-chave para minha mudança foi adotar a estratégia do autor: em vez de pensar no negativo, investir numa agenda positiva, empolgante e social. Na sua prosa simples, direta e bem humorada, Pollan nos mostra aos poucos como o ato da alimentação envolve todos a nossa volta, interfere radicalmente na forma como nos relacionamos com os outros e conosco. Instigada pelo livro, encontrei conforto nas receitas da minha mãe: doce de abóbora e de laranja-da-terra, bertalha na sopa, vaca atolada, empadão de frango, batata-doce cozida. Passei a cozinhar mais, a conversar com meu marido sobre receitas que poderíamos experimentar. Também descobrimos vários alimentos. Na série, há várias cenas de Pollan na cozinha ou no quintal de casa, preparando pão, cerveja, cozido e um churrasco, o que representa bem a minha fantástica descoberta de que é bem mais legal fazer as refeições em família, todo mundo em casa, cozinhando e conversando.

A grande jogada está na tomada de consciência gerada pelo livro, a revelação de tudo de que abrimos mão quando delegamos a corporações o preparo do que consumimos. Ao permitirmos que grande parte da nossa alimentação seja baseada em produtos industrializados, nós entramos no modo comida pela comida, nós deixamos de reservar um tempo para nós mesmos e para compartilharmos momentos com nossos familiares, amigos e até com os produtores locais.

Depois que passei a lutar para ter mais comida de verdade no meu prato, muita gente veio me falar de restrição, sofrimento por não poder comer certas coisas. O engraçado é que para mim esse mergulho nos livros e no pensamento de Pollan significou liberdade, me trouxe uma calma inigualável. Não preciso mais contar calorias, decifrar informações de tabelas nutricionais ou classificar os alimentos em grupos como proteínas e carboidratos. Cozinhar abriu a minha mente para simplesmente comer e fazer desse ato algo magnífico.

Minha relação com a comida melhora conforme compreendo o meu papel na cadeia de produção de alimentos, a forma como a indústria alimentícia me vê, a maneira como a refeição impacta a minha relação com quem divide a mesa comigo e como a alimentação tem um poder agregador subestimado. Quando substituí as dietas pelo mantra “comer comida de verdade”, tudo se encaixou e fluiu naturalmente. Não há mais sofrimento, frustração ou culpa, e as relações melhoraram, já que tudo melhora quando a gente cuida do que come.

Para mim é complexo escrever sobre a importância de Pollan, pois os livros dele, sobretudo o Cozinhar, não são sobre emagrecer, comer melhor ou a indústria alimentícia em si. São mais sobre o nosso lugar no mundo, sobre que posição assumimos nele e o que queremos para nós mesmos. Em última instância, é um pedido para darmos uma parada na agitação da vida cotidiana e refletirmos sobre quem de fato somos; um pedido para que olhemos para o passado e tomemos consciência de como estamos permitindo que nossos laços se enfraqueçam, que nosso corpo seja destruído, que viremos apenas consumidores passivos, sem consciência nem voz. Mas, acima de tudo, os livros e a série de Pollan são a celebração do que nos diferencia dos animais, o que nos torna únicos: a criatividade e a curiosidade que nos movem a criar e transformar com o que encontramos na natureza. Não à toa, meu capítulo favorito do livro e da série é o do Ar. Você já parou para pensar quão belo e louco é conseguir criar um pão a partir de farinha, água e fermento?

>> Confira a entrevista com  Michael Pollan sobre Cozinhar
>> Leia um trecho do livro Cozinhar

 

Luana Freitas é editora assistente de ficção e não ficção estrangeiras, além de viciada em programas de culinária e ótima com receitas doces.