testeCinco lições que aprendemos com O Touro Ferdinando

Se tem um personagem que define a #DeixaAsPessoa, é o touro Ferdinando. Meigo e tranquilão, ele é diferente de todos os outros touros com quem vive no pasto. Ferdinando nunca gostou de brincadeiras brutas e violentas. Amante da natureza e dos outros animais, ele leva uma vida sossegada, passando os dias embaixo de sua árvore preferida, cheirando flores em paz.

O touro Ferdinando foi escrito em 1936 pelo norte-americano Munro Leaf em parceria com seu amigo, o ilustrador Robert Lawson. O livro foi lançado nove meses antes da eclosão da Guerra Civil espanhola, por isso, adeptos do ditador Francisco Franco o classificaram como um livro pacifista, sendo proibido em muitos países que adotaram modelos fascistas de governo. Em 1938, a Walt Disney adaptou o romance para um curta-metragem de animação que lhe rendeu o Oscar na categoria.

Em 2017, este clássico mundial da literatura infantil ganhou nova edição pela Intrínseca e virou um longa-metragem produzido pela Fox, com direção do brasileiro Carlos Saldanha. O filme entrou em cartaz no Brasil semana passada e está conquistando o público, provando que esta fábula não envelheceu um dia sequer. Com mais de 80 anos de vida, a história de Ferdinando continua atual, passando uma mensagem universal de respeito pelas diferenças.

Listamos algumas outras belas lições que este simpático touro nos ensina!

1 – Está tudo bem se você for introvertido

Enquanto os outros bezerros gostam de pular por aí e dar cabeçadas, Ferdinando prefere ficar sozinho, longe do bando. Mesmo sendo dócil e se dando bem com os colegas, ele curte ficar no seu próprio canto. E tudo bem! Ele só queria ficar “de boas”, contemplando a natureza. Para quê correr e tagarelar se você pode cheirar flores e ser feliz assim, não é mesmo?

 

2 – Ficar sozinho não é a mesma coisa que solidão

No princípio, a mãe de Ferdinando demorou a entender a personalidade do filho e temia que ele se sentisse isolado e, portanto, triste. Mas com o tempo ela percebeu que ele era feliz com a própria companhia. Não é preciso estar sempre rodeado de gente para se sentir preenchido.

 

3 – Siga suas próprias convicções

Todos os touros queriam participar da tourada em Madri, mas essa nunca foi uma aspiração de Ferdinando. Ele gosta do campo e não tinha interesse em ir para a cidade. Multidão, gritaria e luta? Vixe, não mesmo! Quando é escolhido por engano para ir às touradas, imagine como os outros touros não tentaram convencê-lo de que era a melhor coisa do mundo? Mas nem por isso ele se envergonha de preferir ficar onde está.

 

4 – Às vezes nossas ações são mal interpretadas. Cuidado!

Uma reação exagerada de Ferdinando fez com que os toureiros locais achassem ele perfeito para as touradas, pois seria um verdadeiro desafio domar aquele animal raivoso e descontrolado. Mas aquela não é a personalidade dele. Criou-se uma verdadeira confusão baseada em uma ação isolada.

 

5 – Não precisamos ser o que esperam de nós

“Deram a ele o nome de Ferdinando, o Feroz”. Que expectativa errada! Esse título nunca se encaixaria com o Touro mais dócil e amável da natureza. Ferdinando nunca foi bravo e sempre odiou brigas. Ele gostava de todos os animais e seres vivos, como as árvores, as plantas e as flores – suas inseparáveis companhias. Ou seja: não importa como os outros querem que você se comporte. Faça apenas aquilo que te deixa feliz.

 

Leia um trecho do livro aqui!

testeJason Reynolds: a importância de dar voz aos jovens da periferia

Retratar a realidade: esse é o maior objetivo de Jason Reynolds, autor de Fantasma, finalista do National Book Award de literatura jovem em 2016. O escritor é a prova de que mesmo o contato tardio com a literatura não impede ninguém de ser escritor. Criado apenas pela mãe, Reynolds cresceu na periferia de Washington (D.C.), nos Estados Unidos, e só leu um livro inteiro aos 17 anos. Por isso, destinou sua obra ao público jovem, com histórias que giram em torno de adolescentes em situações desfavoráveis economicamente e socialmente. Seu desejo como escritor é alcançar aqueles que não acreditam na literatura, por acharem que não há livros por aí que possam dialogar com eles.

“Eu falo sobre miojo, Kool-Aid, tênis Nike Jordan e basquete, porque é isso que importa para os adolescentes das periferias”, comenta. Ele escreve sobre verdades universais: medo, família e amizade, perdas, amores e risadas compartilhadas.

Cheio de estilo e com um visual super atraente para os jovens, Jason Reynolds pode ser considerado um dos autores mais representativos da atualidade. Separamos 5 razões que lhe garantem esse status. Confira!

1) A música foi sua inspiração para começar a escrever

Quando criança, Jason Reynolds adorava ler, mas com o tempo, abandonou os livros. O autor sentia que a literatura indicada por seus professores na escola não conversava com ele, porque não falava sobre a realidade da sua vida cotidiana.  “Me mandaram ler um livro sobre um homem perseguindo uma baleia (Moby Dick), e eu fiquei, tipo… não sei se consigo me conectar com um cara perseguindo uma baleia já que eu nunca vi uma baleia”, diz Reynolds.

Um dia, o pequeno Jason comprou uma fita cassete de Queen Latifah. Era o álbum “Black Reign”, de 1993. Ele tinha 10 anos e ficou hipnotizado por aquelas rimas e pela habilidade de escrita da rapper. Foi aí que ele percebeu que rap também podia ser poesia. “O rap me fez um escritor. Foi onde me senti significante, necessário […] As músicas contavam a minha história”, disse Reynolds em entrevista ao Publishers Weekly.

2) Ele já foi poeta

A descoberta do rap o inspirou a tornar-se poeta. Jason começou a escrever todo dia. Anos depois, durante a faculdade, ele se matriculou em um curso sobre Shakespeare, onde mostrou seus poemas para um professor. Apesar das críticas negativas, ele persistiu.


3) Ele só se interessou por literatura aos 17 anos

Por volta dessa época, ele começou a trabalhar em uma livraria que enaltecia os autores afrodescendentes. Foi lá que Reynolds leu seu primeiro livro, Black boy, do autor Richard Wright. A partir daí, começou a devorar todos os livros do gênero, escritos por James Baldwin, Zora Neale Hurston e Toni Morrison.

4) Ele só escreve livros que gostaria de ter lido quando jovem

Um amigo de Jason foi assassinado aos 19 anos. Era esse o tipo de coisa que acontecida na vizinhança e, por isso, é sobre esses assuntos que nosso autor escreve – tretas de gangues, pais alcoólatras, violência doméstica, sexualidade e medo. As vozes dos protagonistas são aquelas que Reynolds escutava nos anos 1980 e 1990, vivendo em um bairro onde o tráfico de drogas e a violência aconteciam na calçada de casa. Por sorte, em seu lar havia uma família amorosa.

Foto de Jayson Reynolds criança. Reprodução.

5) Ele fala como se fosse seu amigo

Jason Reynolds tem 33 anos, mas seu texto dialoga com leitores muito mais novos, alcançando um público de até 10 a 14 anos. A fala cheia de gírias e códigos de linguagem, faz você se sentir um amigo próximo e transforma Jason naquele cara com quem sempre se pode contar. Por isso seus livros são tão premiados e agradáveis para o público jovem.

 

*Extra: 6) Potencial para ser crush

Além de ser um escritor talentosíssimo, Jason Reynolds é muito gato. Quer dizer, como resistir a esse sorriso? Potencial para crush: temos!

testeComo Cinquenta tons de cinza nos trouxe liberdade

Por Nina Lopes*

Cinquenta tons de cinza foi lançado em 2012. Em 2017, a adaptação cinematográfica do segundo livro da série acabou de chegar aos cinemas. Ou seja, cinco anos depois Grey continua com tudo. Porque, vamos combinar, ele é eterno, doa a quem doer. E para entender um pouco melhor sobre sua permanência nas listas de mais vendidos e a importância dessa obra é preciso voltar um pouco no tempo.

Vamos começar no Antigo Regime, que cobre um período entre os séculos XV até início do XVIII. Nessa época, os livros com conteúdo erótico não tinham permissão da Igreja e do Estado para serem publicados, portanto eram vendidos de forma clandestina. As poucas escritoras femininas preferiam o anonimato e o uso de pseudônimos para evitar o julgamento alheio e a perseguição que sofriam caso assumissem a autoria. Inclusive, elas eram consideradas incapazes de descrever cenas sensuais com a mesma precisão que os homens. Acreditavam que só eles entendiam do assunto e por isso eram os únicos aptos a escrever sobre o tema. Chocante, né?

Já no século XVIII, as mulheres tinham muito tempo livre em casa e gostavam de ler romances. Nesse momento, o gênero já sofria críticas por ser uma leitura de diversão. No século seguinte, o romantismo se expandiu com a chegada dos folhetins e passou a ser chamado de “literatura de massa”, atingindo as camadas populares. Mas nem tudo é fácil e a crítica não deixava barato, afinal de contas a elite intelectual não aceitava ter a mesma preferência literária que os emergentes.

A temática do sexo já fazia sucesso, mas esses livros eram chamados de “romances para homens”. Não era bem-visto que as mulheres lessem essas histórias, pois eram consideradas má influência. Mas elas não eram bobas e compravam escondidas ou liam o exemplar do marido enquanto ele não estava em casa. Contudo, era impensável assumir que gostavam desse gênero ou ler esses livros em público.

No século XX, a sexualidade foi incorporada pelo capitalismo para gerar lucro. E a mulher, nesse novo contexto, passou a ser vista como objeto sexual, sem voz ativa. Mas nem tudo estava perdido e no final do século conquistamos a libertação feminina, e a literatura erótica passou a ser majoritariamente produzida por mulheres. Porém, essa produção ficava confinada aos livros de bolso vendidos em bancas de jornal, nada de destaque nas vitrines das livrarias ou aposta nos catálogos das editoras. E foi só no século XXI que Cinquenta tons de cinza tirou a literatura erótica desse “esconderijo” e a colocou sob os holofotes.

Portanto, fica claro que o obsceno na literatura sempre foi condenado e repreendido. Além disso, a visão do homem era predominante. A produção feminina começou tarde e enfrentou desafios, e quem quebra paradigmas é sempre criticado. A crítica mantém sua postura, afinal não quer perder a autoridade intelectual. Mas já está na hora de entender que o público leitor é heterogêneo.

Foi com a coragem de autoras como E L James que conseguimos transgredir uma repressão que durou muito tempo, nos permitindo alcançar a liberdade que temos hoje. Cinquenta tons de cinza retrata o momento em que vivemos ao contar uma história romântica moderna, com as mulheres assumindo a autoria, as fantasias e lendo textos eróticos em público.

Acima de tudo, E L James decidiu contar uma história de amor. O problema é que o prazer e o amor são simples, e por isso mesmo desprezados. Mas não só no campo literário, como em outros aspectos da vida, o ato de espalhar o amor precisa ser mais valorizado. Então, que chorem as inimigas, que chorem os críticos, eu tenho muito orgulho de fazer parte da geração que dá voz às mulheres, que coloca uma escritora falando tão abertamente sobre amor e sexo no topo das listas de mais vendidos do mundo todo. Segue o show, Grey!

 

*Nina Lopes é editora assistente no setor de ficção da Editora Intrínseca e é dessas que se apaixonam pelos personagens dos livros que lê.

testeAs mentiras sinceras da literatura

Por Julia Wähmann*

andrew-matusikAndrew Matusik (Inspiração Rene Magritte)

Já faz uns dez anos que li A hora da estrela, da Clarice Lispector. Coincidiu de Carolina, uma grande amiga, ler ao mesmo tempo que eu, e frequentemente nossas conversas giravam em torno de Macabéa, protagonista do livro. Falávamos dela como se fosse real — e de certa forma ela era, afinal estava presente em nossas vidas de muitas maneiras. Mais ou menos na mesma época, conheci uma livraria famosa de Paris que exibia num dos painéis da fachada a seguinte frase, em tradução livre: “O fato é que Tolstói e Dostoiévski são mais reais para mim que meus vizinhos.” Eu poderia dar mais uma porção de exemplos de como a literatura invade cotidianos: a prima que se pergunta o que Atticus Finch (personagem de Harper Lee em O sol é para todos) diria; os amigos que afirmavam morar em Macondo (cidade imaginária de Gabriel García Márquez, em Cem anos de solidão) numa extinta rede social. Se a vida imita a arte, o contrário não é menos incomum, sobretudo no campo literário.

untitledÉ destas confusões entre realidade e invenção que trata Delphine de Vigan em seu novo livro, Baseado em fatos reais, romance premiado e publicado quatro anos após Rien ne s’oppose à la nuit, relato ficcionalizado de sua relação com a mãe bipolar. O ponto de partida desta nova história é, justamente, a “ressaca” após o estrondoso sucesso e a repercussão da obra anterior, em que expôs familiares e relações que, a princípio, deveriam ficar restritas a um âmbito privado. A narradora/personagem de Baseado em fatos reais, também chamada Delphine, passa por uma grave depressão causada pela incapacidade de escrever quando se vê diante de um novo projeto. Fascinada por reality shows em que pessoas reais e comuns ganham contornos fictícios devido a manobras de edição, ela vê neste universo um possível enredo para um novo trabalho. É quando L., que será tratada apenas pela inicial ao longo da narrativa, cruza seu caminho.

L. é uma ghost-writer, ou seja, quem efetivamente escreve textos e livros que são assinados por outra pessoa, normalmente alguém digno de ter sua biografia publicada, como grandes artistas ou políticos. L. é, portanto, a pessoa que mais conhece a vida, a intimidade e os detalhes da celebridade em questão; a pessoa que tem acesso, às vezes irrestrito, aos hábitos de seu objeto; a pessoa que se coloca no lugar do outro para dar voz às suas memórias, e também aos feitos e superações.

L. se aproxima de Delphine e logo se mostra confiável, disponível e sensível ao período turbulento que a escritora enfrenta. Também se revela uma grande crítica das ideias de Delphine para o novo livro, quebrando seus argumentos acerca do valor da ficção que planeja escrever. Para L., os leitores não estão mais interessados em tramas e personagens imaginados e construídos com base em pesquisa: eles querem a “Verdade”, com letra maiúscula. A discussão em torno dessa “Verdade” é o primeiro de alguns embates entre a personagem Delphine e L. Enquanto a escritora afirma que a verdade (com minúscula) não existe, L. defende que apenas ela importa para o leitor, e usa como evidência a crescente produção de obras — no cinema, no teatro, na literatura — que trazem em destaque a informação de serem inspiradas em fatos reais. Enquanto Delphine deseja escrever uma história que soe crível, L. levanta a bandeira da morte da ficção.

De um tempo para cá, a maioria dos autores que escreveram obras que guardam alguma semelhança com suas biografias foram confrontados com a pergunta: seu livro é autobiográfico? O termo “autoficção”, hoje quase um gênero por si só, foi cunhado no fim da década de 1970. Ambas as definições provocam rixas e debates acalorados entre estudiosos e pesquisadores, então a expressão “escritas de si” acena como possível conciliadora, abrangendo as duas classificações. Dentre leitores, jornalistas, entrevistadores e mediadores de conversas, muitos enveredam pela investigação que procura confirmar a veracidade de fatos contados no âmbito da ficção e que coincidem com o que sabemos da vida de seus autores – seja um nome, uma data ou uma cidade. É fácil enxergar possíveis espelhos em livros, e muitos autores tiram proveito dessas interseções, fornecendo pistas escorregadias e atuando como verdadeiros performers de si, o que atiça ainda mais a curiosidade do público. No século XVIII, ao contrário, escritores buscavam uma prosa que representasse o senso comum, um retrato da época, então a individualidade, quando entrava em cena, questionava esse cenário mais amplo de uma “verdade” social.

de-vigan-delphine-2011-nbc-delphine-jouandeauA escritora Delphine De Vigan (Foto: Delphine-Jouandeau)

Delphine De Vigan destrincha todos esses aspectos em Baseado em fatos reais ao longo das conversas da personagem Delphine com L., que começam em tom cordial e logo ganham tintas mais sombrias, um tom que a amizade de ambas também começa a aparentar. L. torna-se cada vez mais obstinada em convencer Delphine a voltar-se para si mesma. A tensão aumenta proporcionalmente à obsessão de L. A certa altura, comecei a me perguntar o que Atticus Finch – aquele personagem lá do começo deste texto – faria diante de uma figura tão engenhosa.

Como leitora, pouco me importa o grau de realidade que eu possa conferir a uma história que me é contada de maneira convincente, com a qual eu estabeleça uma relação de confiança, empatia. Se L. é real ou não, isso não muda o fato de que, enquanto tomava conhecimento de suas características e ações, ela me apavorava em escala galopante, e pude vê-la com todo o espanto que me causava. Mesmo que me provassem por A + B que a história de Delphine é fruto de sua imaginação — ou o contrário —, o caminho já estaria percorrido, e o maior prazer de ler um livro está no virar das páginas, na ânsia pelo próximo capítulo, nas reações que temos diante de cada detalhe que se torna quase palpável. Assim como toda vida pode ser floreada e ligeiramente modificada, seja pela natural seleção do que se escolhe contar ou pelo exagero de certos aspectos dela, toda ficção pode estar impregnada de elementos do real, todo personagem pode ter trejeitos de pessoas que “existem”.

“Tudo que não invento é falso”, diz um verso de Manoel de Barros. Um outro lado dessa imagem está em uma das falas de Delphine no livro, uma citação do escritor francês Jules Renard: “Quando uma verdade tem mais de cinco linhas, é um romance.” Em alguma esfera, tudo é falso; em outra, é tudo verdadeiro. Quando a verdade tem as 256 páginas do romance de Delphine de Vigan, é bom se preparar para passar tardes ao telefone com sua melhor amiga em conversas sobre L.

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press), e em 2016, Cravos (Record). Ela coordena o serviço de curadoria Garimpo Clube do Livro.

testeUma nova vida, depois do túnel

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Otávio acordou naquele dia com o claro entendimento a respeito de algo que todo o resto do mundo já sabia. Nenhum astro de cinema interpretaria a história de sua vida, sua vida não daria um livro, ele jamais ouviria um estádio aplaudindo seu talento para a dança, a música ou os esportes. Queria tempo, mas oitenta anos não parecia ser bastante, cento e vinte também parecia pouco para entrar para a história. Almejava desesperadamente ser lembrado.

Tempo é relativo. Quanto é suficiente para dançar todas as danças que queremos, ouvir todas as músicas que ninguém sequer cantou, comemorar novos anos sem sentido? Parecia impotente, pequeno, como se as grandes expectativas que sempre tivera em torno de si mesmo fossem só ilusão. Carregava um orgulho que desarmava qualquer um que quisesse lhe dizer o contrário. E agora lutava para mantê-lo.

Toda a empáfia e confiança eram, na realidade, fachada para o medo. Ali, no escuro do seu quarto, o sol de meio-dia do Rio de Janeiro espalhando câncer de pele lá fora, percebeu que o tempo se esvaía e um assunto esquecido, dado por terminado, não lhe saía da cabeça. Jurara que, toda vez que pensasse no pai, imediatamente afastaria a imagem de Roberto da cabeça. Comeria um brigadeiro, escreveria um poema, assistiria a um desenho animado. Funcionou por cinco anos.

Mas hoje, não. Tinha coisas a resolver; tempo era um bem precioso e ele dispunha de muito para si. Não fora difícil descobrir o endereço novo de Roberto, sabia que era na Barra. Odiaria atravessar aquele túnel, ainda mais naquele calor. Com a informação do bairro, foi fácil enganar a secretária do advogado que lidava com o divórcio para obter a informação de que precisava. Fazendo-se passar pelo pai, exigiu que a moça recitasse o endereço completo, com CEP, alegando que os documentos estavam indo parar na casa de sua ex-mulher, em Laranjeiras.

Nesses cinco anos, a mãe de Otávio evitava falar de Roberto. Não fazia isso como as mulheres de Isabel Allende; não havia feito uma promessa tácita de jamais dizer o nome dele novamente. As tragédias que Selma enfrentava não se transformavam em um estilo de vida, uma convicção. Ao descer do ônibus, já na Barra, Otávio não teve dificuldade em encontrar a nova casa do pai. O edifício onde ele morava era alto, de fartas janelas, eram apartamentos espaçosos para famílias numerosas.

Não demorou muito para Roberto sair acompanhado de duas crianças, meninos de uns dez, onze anos. Foi tão fácil que Otávio riu. Não eram filhos biológicos dele, isso dava para ver, o pai não mantivera uma segunda família em segredo. Eram loiros, possivelmente filhos do primeiro casamento de sua nova esposa. Depois do túnel, Roberto fora transferido a uma nova dimensão. Calçadas largas, prédio com piscina, garotos saudáveis sempre pedindo um sorvete.

Os meninos circulavam de bicicleta, com a ordem de jamais irem além do posto de praia, onde podiam ser avistados por Roberto. Obedeciam, e ele gostava disso, apreciava ser ouvido. Pareciam ser a antítese de Otávio, que sempre vinha com uma pergunta, uma questão, uma urgência. Mas o pai não bateu em retirada ao ver o filho de vinte e poucos anos chegando. Não se moveu.

Otávio sentou-se na ponta oposta do banco de praia. Entre ele e Roberto, duas pessoas poderiam se sentar, um tanto apertadas, se assim quisessem. Roberto olhou o filho, estava ainda mais parecido com ele próprio. Tinha uma fragilidade ali que ele não conseguia explicar, como uma estrutura forte com rachaduras. Olhos pequeninos, negros. Talvez um dia ele também terá de usar remédio para calvície, pensou. Via-se como num espelho distorcido, um reflexo esquisito.

O filho entendeu que o pai seguira adiante na vida e percebeu que, embora tenha negado a existência de Roberto por tanto tempo, agora precisava dele por perto. Queria ouvir os conselhos que ignorara ou, pelo menos, ter a coragem de dizer alguma coisa. Sentia ciúme dos garotos saudáveis, obedientes e estudiosos que pedalavam felizes de um lado para o outro. Guardava um sentimento de posse que jamais associara ao pai.

Estava em desvantagem. Otávio, que sempre tinha algo a dizer, uma piada na ponta da língua, via-se em silêncio. Sobre aquele retrato perfeito da família carioca, possuía apenas uma vantagem. Apenas uma. Algo imutável, inquestionável, único, verdadeiro e também belo: os dois sentavam-se exatamente na mesma posição, com as mesmas mãos peludas, a mesma cabeça redonda.

E nada diziam. Roberto estava um tanto surpreso de Otávio ter desenvolvido a capacidade de apreciar o silêncio, de calar-se quando não se precisa falar nada. Por uns segundos, gostou da companhia para ouvir o barulho do mar e do trânsito. Antes de levantar-se, o filho finalmente chegou um pouco mais perto e teve a coragem de dar o primeiro passo.

— Eu sou seu filho.

Então levantou-se e foi até o ponto de ônibus, que não ficava muito distante. Olhou para ele, de longe. E entrou no primeiro coletivo que passou.

Roberto quis levantar-se, dizer algo. Mas nada fez.

 

>> Leia um trecho de O amor segundo Buenos Aires

testeTudo em Família

Em entrevista ao blog, Tatiana de Rosnay, autora do best-seller A chave de Sarah e do lançamento A outra história, discute o perigo dos segredos familiares, bloqueio criativo na era digital e defende uma literatura livre de rótulos.

Por João Lourenço*

tatiana_blogTatiana de Rosnay (Foto: Charlotte Jolly de Rosnay)

Durma mais, leia o jornal, caminhe na natureza, marque um jantar com os amigos, converse com pessoas criativas, assista a uma palestra do TED Talks — e tente novamente. Essas são algumas dicas que aparecem no Google para quem procura meios para combater o bloqueio criativo. Mas, no caso do jovem Nicolas Duhamel, mudar de cenário foi a melhor saída para lutar contra o mal que atormenta escritores.

Em busca de inspiração, ele se refugia, acompanhado da namorada, em um resort de luxo na costa da Toscana, mas nem o ambiente exclusivo e paradisíaco é capaz de interromper a procrastinação do autor. Após o sucesso internacional de seu livro de estreia, O envelope — que se transformou em filme com direito a indicação ao Oscar, Nicolas passa horas monitorando o tráfego de suas redes sociais.

Para vencer o bloqueio criativo e encontrar inspiração para o próximo romance, o jovem escritor precisa enfrentar um passado assombroso e lidar com um futuro assustador. Além de alto e bonito, Nicolas é o protagonista de A outra história, novo romance de Tatiana de Rosnay. “Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro. Ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Mas debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático que está prestes a enfrentar novos desafios”, conta a autora.

Às vezes a ficção imita a vida real. Quando se trata das conveniências da fama, Tatiana de Rosnay também enfrentou situação parecida com a de Nicolas. Em 2007, ela chegou à lista de best-sellers internacionais com a publicação de A chave de Sarah, romance que revisita a participação e o papel da França na Segunda Guerra Mundial. O livro vendeu mais de 5 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 30 idiomas; ganhou adaptação cinematográfica, em 2010, tendo como estrela a atriz Kristin Scott Thomas. Em seguida, Tatiana entrou para a lista dos 10 autores mais importantes de ficção na Europa, ao lado de nomes como Dan Brown, Stephenie Meyer e Stieg Larsson. “Devo admitir que a experiência de Nicolas com a fama e suas desvantagens é muito parecida com a minha. A diferença é que não sou tão vaidosa como ele, claro. Meu conselho para os escritores: mantenham uma distância saudável da fama!”

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Além de abordar importantes questões relacionadas à fama, à procrastinação e ao processo criativo na era digital, A outra história também é um livro sobre como lidamos com os segredos de família e seus mistérios. A trama é impulsionada por memórias e flashbacks de Nicolas. Certas reviravoltas, em um primeiro instante, parecem óbvias, mas Tatiana apresenta uma maneira inteligente de manter o leitor interessado no curso da história, mesmo quando o protagonista não é uma pessoa fácil de simpatizar. “Segredos de família são incrivelmente românticos e inspiradores. No entanto, sei do sofrimento e da dor que segredos de longa data podem causar quando são finalmente revelados. A outra história é um livro bastante pessoal, resultado de minhas experiências como escritora.”

Tatiana de Rosnay, que também colabora com jornais e revistas como Elle e Vanity Fair, conversou por e-mail com a Intrínseca.

 

Intrínseca: Certa vez, um escritor me disse que escrevia para a página em branco, que o importante é não pensar em um leitor específico enquanto escreve. E você, para quem escreve?

Tatiana de Rosnay: Comecei a escrever quando tinha 10 anos, pois gostava muito de ler. Eu era um típico rato de biblioteca. Acredito que escrevo porque sinto necessidade de compartilhar uma grande variedade de emoções. Mas não penso em um leitor em particular enquanto escrevo; isso é algo que limita o fluxo narrativo.

 

I: A autora Joyce Carol Oates disse em entrevista à Paris Review que existem algumas desvantagens para mulheres na ficção. Ela disse, por exemplo, que pelo simples fato de ser mulher ela não é levada a sério por alguns críticos do sexo oposto. Porém, Oates fez essa declaração na década de 1970. Para você, a afirmação dela permanece verdadeira?

TR: A declaração de Joyce Carol Oates, autora que admiro, infelizmente ainda é válida. Mulheres e homens são considerados de formas diferentes. Por quê? Nosso trabalho ainda não é levado tão a sério. Algumas vezes, nosso trabalho é rotulado como “ficção feminina”. Particularmente, além do fato de soar pejorativo, eu não entendo o que querem dizer com esse termo. Será que isso significa que para algumas pessoas as mulheres não escrevem com a mesma potência e habilidade que os homens? Não concordo com esse ponto de vista. Não acredito que o trabalho de um escritor deve ser julgado com base em gênero, sexualidade, raça, religião e opiniões políticas.

 

I: A outra história acompanha a trajetória de Nicolas Duhamel, um escritor autocentrado que ganha fama após a publicação de um livro de sucesso. Você também alcançou sucesso internacional com a publicação do romance A chave de Sarah, que, assim como o livro de Nicolas, teve uma adaptação cinematográfica. Como você encarou esse período de fama internacional?

TR: Sou o tipo de escritora que gosta de mudar de estilo a cada novo romance. A outra história é um livro muito diferente dos meus romances anteriores, explorei novos caminhos, novas aventuras. Eu diria que se trata de um livro moderno, porque explora como os escritores escrevem hoje em dia, onde eles vão atrás de inspiração e como essas ideias são utilizadas para criar romances. O livro também é sobre como lidamos com segredos de família e seus mistérios. E, finalmente, é um livro sobre identidade, como podemos forjar a nossa identidade quando estamos on-line.

Não escrevo sobre mim diretamente, mas gosto de começar com algo pessoal e, em seguida, transformo isso na história de outra pessoa, que é exatamente o que aconteceu nesse livro.

 

I: Nicolas sofre de bloqueio criativo, o que costuma ser uma experiência comum para o escritor após um enorme sucesso comercial. A obsessão de Nicolas com redes sociais e dispositivos eletrônicos não o ajudou a superar o bloqueio. Como as novas tecnologias impactam o processo criativo?

TR: Meu herói é um jovem moderno que passa mais tempo na frente de telas do que interagindo com pessoas na vida real. Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro; ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático.

Estou interessada em entender como as redes sociais transformam a vida de um escritor, como podemos ficar presos nessas plataformas, como Facebook e Twitter podem reduzir nossas inspirações. Gastar muito tempo on-line é algo perigoso para muitos escritores. Eu, por exemplo, não posso escrever em um computador que esteja ligado à internet. Preciso desligar meu telefone e me retrair em uma bolha de silêncio. Vivemos em um mundo onde estamos constantemente ligados a nossos celulares e nossas telas e, às vezes, nós nem sequer conversamos uns com os outros.

image1Tatiana de Rosnay e a atriz Julia Roberts, que participará da adaptação de Extraordinário para os cinemas  (Foto: Alexi Lubomirski )

I: Você tem uma presença forte nas redes sociais. Qual a importância dessas plataformas digitais para você?

TR: Sim, sou uma grande fã das redes sociais e meus leitores sabem disso! Mas, ao contrário do Nicolas, que desperdiça muito tempo na internet, aprendi a ter cautela. A minha rede social favorita é o Instagram. Às vezes, imagens falam muito mais do que palavras!

 

I: Você pode compartilhar um pouco do seu processo criativo? 

TR: Escrevo ficção desde os 10 anos, então posso dizer que escrita é parte da minha vida. Trabalho toda manhã e, às vezes, também escrevo no fim da tarde. Edito a mim mesma sem piedade. Geralmente, tudo surge com um esboço, mas na hora de realmente sentar para escrever um livro outras ideias aparecem e, então, me permito certa liberdade para fugir um pouco do esboço inicial. Descrevi todo esse processo em A outra história, o tema principal do livro é sobre essa exploração do processo de escrita e como isso se diferencia de escritor para escritor. Não sofro de bloqueio criativo na hora de escrever. Concordo com o que o Stephen King diz: “O momento mais assustador é sempre pouco antes de você começar [a escrever]. Depois disso, as coisas só podem melhorar.”

>> Leia um trecho de A outra história

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeComo um caramujo

Por Vanessa Corrêa* 

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Resolver um quebra-cabeça sem conseguir enxergar as peças parece uma tarefa impossível? Não para Marie-Laure LeBlanc, que perdeu completamente a visão aos seis anos e se acostumou a ser desafiada pelos intrincados mecanismos que seu pai construía em peças de madeira.

No mundo de Marie-Laure as distâncias são calculadas em passos e os caminhos são memorizados por meio de esquinas, bueiros, ralos nas calçadas e cruzamentos de ruas. É assim que a menina aprende a voltar para casa após passar mais um dia entre os corredores do Museu Nacional de História Natural de Paris, onde seu pai trabalha. E é assim também que ela vencerá a distância entre a Rue Vauborel até a padaria de Saint-Malo, quando o caos da Segunda Guerra tornar necessária sua ajuda para a resistência francesa.

As ruas e os edifícios de Paris que não podem ser vistos pelos olhos de Marie-Laure são reconhecidos por seus dedos em uma detalhada maquete de madeira construída por seu pai. É também por meio das pontas dos dedos que a menina absorve as histórias de Júlio Verne nos livros que ganha de presente. Tendo como únicos amigos o pai e os funcionários do museu, ela encontra no capitão Nemo e no professor Aronnax, do livro 20 mil léguas submarinas, novos companheiros, que despertam sua paixão pelos mistérios das criaturas marinhas.

É no mar que Marie-Laure acaba encontrando consolo após ter sua vida virada de cabeça para baixo pela guerra. Fugindo da ocupação nazista em Paris, ela acaba se refugiando com o pai na pequena cidade de Saint-Malo, no norte da França, e em poucos meses perde todas as referências de sua antiga existência, até restarem somente lembranças e tristezas.

Ajudada pela corajosa governanta Madame Manec, a garota encontra forças no contato com a areia, com conchas, moluscos, algas e as águas geladas do oceano Atlântico. Marie-Laure sonha em ser um caramujo. Mas a menina não quer viver encolhida e escondida de todos. O que ela quer, e o que inveja no caramujo com sua concha, é um refúgio, onde possa estar protegida dos horrores que já enfrentou e dos que ainda estão por vir.

>> Leia um trecho de Toda luz que não podemos ver

 

Vanessa Corrêa é jornalista, já trabalhou na Folha de S.Paulo e no portal UOL e é apaixonada por livros, cinema e fotografia.

testeAs possibilidades do impossível

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Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura (fonte)

“Porque nossa história será sempre, felizmente, uma história inacabada. Por isso, temos que continuar sonhando, lendo e escrevendo, que é a maneira mais eficaz de aliviar nossa condição mortal, derrotar a corrosão do tempo e converter o impossível em possibilidade.”

Assim termina o discurso de Mario Vargas Llosa ao receber o Prêmio Nobel. Tal e qual o último parágrafo, toda a fala é preciosa e guarda passagens belíssimas. Mas esse trecho serve, para mim, como oração: hei de lê-lo todas as noites.

Como uma oração, pensarei nele a cada manhã, quando o peso dos problemas, de tocaia para além da minha cama, ameaçar o pouco de inspiração que o sonho me deixou. Pensarei nele quando estiver triste, sozinha, no vácuo entre o passado e o futuro, porque nossa história está sempre inacabada, e tudo que anda pelo meio pode experimentar uma reviravolta.

Vou lê-lo todas as tardes antes de, despindo-me de horários, compromissos e chatices da vida comezinha, entrar no mundo da minha ficção; vou lê-lo como um mantra, um caminho, uma certeza. Porque escrever é, antes de tudo, o maior alívio para a finitude, a maior proeza contra a morte, a maior argúcia com a qual se pode combater a realidade mesquinha.

Tantas vezes escrevi aquilo que eu gostaria que acontecesse… Em várias ocasiões (vocês podem achar que não, mas é verdade), coisas que escrevi me aconteceram inesperadamente. Também contei uma história tentando roubar da realidade seu provável desfecho, mas a vida encontrou maneiras de contornar a ficção, e o que eu nunca quis acabou me acontecendo. A ficção me trouxe coisas que a vida levou embora, de modo que, na minha existência, o real sempre há de confundir-se com o sonhado, e cada romance que terminei é um pouco um diário criptografado da minha própria existência — não porque o que vivi esteja lá, mas porque meus pensamentos, desejos e ansiedades misturaram-se às frases que escrevi ao longo dos muitos anos que me ocupo de ficcionar.

O que o tempo corroeu está vivo e altaneiro em alguma página por aí, e o que ainda não foi escrito trará consigo os signos de um futuro de possibilidades ainda nem sonhadas. Graças à literatura, todos aqueles que escrevem e leem podem enganar a vida real, engrandecê-la, transmutá-la e dela vingar-se sempre, absolutamente sempre que quiserem, amém.

 

testeMas esse livro é sobre o quê, mesmo?

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Toda vez que escrevo um livro, a pergunta que mais me ocorre ao longo do processo, muitas vezes até quase o fim, é: “Mas esse livro é sobre o quê, mesmo?” Pode parecer absurdo, e talvez seja, considerando que o simples fato de estar envolvido pela história já deveria pressupor uma resposta “na lata”, como costuma dizer minha filha mais velha. Mas é provável que o leitor se faça a mesma pergunta, e acho importante eu ter plena ciência do que se trata aquilo. Dizem, inclusive, que, se o escritor conseguir responder em apenas uma palavra, tudo estará a bom caminho de ser perfeito.

Surpreendente! é sobre…?”. Minha resposta, na lata: amizade. Poderia ser cinema, mas descobri, ao longo do tempo, que cinema era apenas o pano de fundo. Se fosse somente sobre isso, seria mais eficiente tentar um tratado cheio de dados a respeito de algum aspecto da sétima arte — e adianto aqui minha incompetência para tal.

Em Surpreendente!, eu estava em crise com minhas amizades por culpa de uma ferramenta dos infernos criada supostamente para aproximar as pessoas, mas que tem sido pródiga em afastá-las: as redes sociais. Tentei, então, contar uma história de amizade que fosse além das redes. A amizade da estrada, do projeto conjunto, do sonho sonhado a oito mãos; do curtir com uma risada, não com um clique; do compartilhar a emoção com uma palavra, não com outro clique. Por fim, do comentário olho no olho, não escondido por detrás de uma tela de computador.

A resposta à questão sobre do que trata a nova história, entretanto, não terá a força de uma única palavra, mas de duas: felicidade e tristeza. Como diria Vinicius de Moraes, em seu belo “Samba da Benção”: “É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe. A tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não.”

Nos dias atuais, ando tendo debates profundos — comigo mesmo e entre cada nascer do sol — sobre esta dicotomia felicidade-tristeza. Elas podem ser medidas? Quanto de razão é capaz de influir na certeza de eu dizer que sou feliz ou triste? O que pode me trazer momentos genuínos de felicidade? E de tristeza? São perguntas difíceis.

Acho que ontem vivi momentos felizes e hoje acordei de alma leve: recebi a notícia de um amigo que saiu do hospital depois de dias de luta; fui ao show do Iron Maiden, duas horas cravadas de energia e congregação entre milhares de pessoas que estavam ali só para celebrar a emoção de assistir ao vivo a alguém fazendo aquilo que fez parte de suas vidas; e, ao entrar em casa de madrugada, encontrei minha filha pequena dormindo de boca aberta, vestida com uma de minhas camisas.

Se, em meio a tantos bombardeios de tristeza que têm atingido os territórios que frequento, eu tiver a sorte de ser agraciado com pílulas de felicidade assim, não precisarei me fazer mais tantas vezes aquela pergunta do título. Se Deus quiser, tampouco os leitores.

testeO rabo das palavras

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(Fonte: http://bit.ly/1l83yia)

O ano de 2015 está quase acabando, graças a Deus — atrevo-me a dizer. É claro que nem tudo foi ruim. Pequenas alegrias iluminaram meus dias, e é delas que quero me recordar mais adiante, quando fizer a curva e olhar para trás. Houve uma coisa muito legal este ano, que quero levar comigo pela vida: descobri, inusitadamente, que gosto de dar aulas. Nunca pensei em ser “professora”. Nunca mesmo. Meu processo criativo é tão desordenado, tão visceral, que jamais imaginei poder ajudar alguém a enveredar por esse mundo impalpável das palavras e das histórias. Porém, quando criei coragem, lá estava eu em frente a quinze alunos — eu e meus singelos apontamentos, eu e minhas dúvidas, eu e minha paixão pela ficção. E tem sido tão bom compartilhar, multiplicar, iluminar… Tem sido tão bom dividir essa aventura que é escrever um livro!

Sempre admirei os músicos porque, no palco, eles têm a possibilidade de dividir o trabalho. A literatura, com seus mistérios e segredos, é um exercício solitário. O escritor escreve sozinho e o leitor lê sozinho — essa ponte invisível que se forma entre ambos permanece como um campo energético, mas é fluida, secreta, silenciosa. No seu último show em Porto Alegre, Jorge Drexler (sempre iluminado) disse que queria criar ali, no teatro, um ponto cego onde a tristeza não entrasse. “La pena no llega hasta aquí”, cantou ele em “La luna de Rasquí”. É isto que sinto na sala de aula cercada pelos meus “alunos”: nas poucas horas em que permanecemos juntos, a tristeza dá um jeito de desaparecer, e alguma outra coisa, leve, vigorosa, fácil e feliz, se imiscui entre nós. Essa coisa, creio eu, é a ficção, são as histórias — porque sem as histórias a gente não vive.

É como escreveu Guimarães Rosa no seu Grande Sertão: Veredas: “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é o viver mesmo… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

Viver é perigoso, mas escrever uma boa história é ir até o rabo da palavra.