testeSimulacro

Três horas da tarde, as pedras coruscam na rua. Na seção de história natural, os dinossauros ressonam. Entre os livros infantis, uma menina sonha castelos e fadas. Na contabilidade, no fundo do corredor acarpetado de verde, até os números bocejam de tédio enquanto os romances escondem longas tardes numa praia remota e a brisa, presa entre a capa e a contracapa, não leva o perfume do mar até ela.

Ela olha o relógio, três horas da tarde. Dentro do shopping, o ar-condicionado engana o verão. As estações estão nas páginas dos livros, não nesse emaranhado de caminhos ladrilhados, de vitrines e objetos inúteis.

Dentro da livraria, no corredor dedicado aos autores franceses, ela estica sua mão e tira um livro da prateleira. Sursis. Uma velha edição de Sartre que havia muito não se achava. Nessa livraria moderna e informatizada, entre os lançamentos da semana e os mais vendidos, aquele exemplar distoa. Mas como foi parar ali? De que gaveta se furtou, de que prateleira caiu? De que sala, de que biblioteca, de que mãos? Ela folheia o livro. Também na história de Sartre faz calor e alguém espera seu destino. Assim como Mathieu está à beira de um horrível futuro, o que a aguardará?

Três e dez e ele não veio. Marcou numa livraria para esperá-lo com calma — em que outro lugar teria tão agradável companhia? Na seção de culinária, alguém procura uma receita de creme brullé; entre os norte-americanos, Philip Roth disseca Newark; não há uma seção para literatura polonesa, mas ela encontra Singer nas edições de bolso.

Três e dezoito, pensa em sua mãe. Talvez tivesse sido melhor combinar o encontro num bar. Seria mais fácil. Duas taças de vinho branco e meia dúzia de frases. Se ele queria ir embora, que fosse. Não haveria de ser ela a segurá-lo ali naquela cidade, naquele casamento.

Três horas e vinte e cinco, e no almoxarifado chegam caixas vindas de São Paulo. Um homem paga com seu cartão Visa os dois volumes de Dom Quixote.

Três horas e trinta e oito, para além das paredes, dos carpetes e dos livros de autoajuda, a metrópole faísca sobre o sol. Ali dentro, um senhor busca por Borges, seção literatura latino-americana. Ela volta pelos corredores. Onde estava mesmo? Ah, autores franceses. Seus dedos correm pelas lombadas coloridas. Por fim, encontra o velho Sursis, o exemplar surrado. No caixa, dizem-lhe: “Este livro não está catalogado, senhora, alguém deixou-o por aí, perdeu-o…”.

Ela recorda que ele costumava ser bastante pontual, mas muita coisa mudou desde então. Talvez devesse ter marcado num parque. Numa boutique. Num sinal de trânsito. Mas de qualquer modo, ele não viria. Olhou o livro órfão e sorriu: há sempre alguém perdendo alguma coisa em algum lugar deste mundo.

testeBordando a vida

Viajo por dez dias e, na volta, encontro tudo igual, talvez um pouquinho pior: tristes declarações da nossa presidente apoiando as barbáries do MST e mais um atentado absurdo em Jerusalém. Aqui em casa, tirando a morte de uma das plantas da minha varanda, tudo segue harmoniosamente igual.

As manchetes de jornal, já velhas, esperavam-me sobre a escrivaninha quando cheguei, e num ZH de domingo encontro uma matéria interessante sobre “as prendas femininas”. Dessas férias, eu trouxe uma sacola de lãs para tecer no inverno que se aproxima. Sempre trancei agulhas ¾ de pequena, minha mãe me ensinou a tricotar. Ela dava lãs para as três filhas, e nós mesmas fazíamos nosso guarda-roupa de inverno.

Era lei lá em casa, e aprendi muito naquelas noites entre meadas e fios. Engraçado que bordar, tricotar e costurar tenham sido afazeres crucificados até pouco tempo atrás. É verdade que, durante muitos anos, o feminismo e o capitalismo não admitiam que mulher produzisse para consumo próprio. Bordar, só se fosse na fábrica, para não deixar morrer de fome os cinco filhos analfabetos.

Não tenho nada contra mulheres que não gostam de tricotar ou cozinhar ¾ cada um faz o que quer com o tempo livre, inclusive nada, o que sempre é uma boa alternativa. Mas não compreendo a vergonha que alguns veem no exercício dessas “habilidades tipicamente femininas”.

O trabalho manual guarda em si um alento, um abandono, um recanto no qual os pensamentos fluem, dão voltas junto com a linha e transcendem. Sempre pensei muito enquanto bordava. Aliás, foi atrás de uma máquina de costuras que enveredei pelo caminho inexorável das histórias, pois eu tinha uma confecção quando comecei a escrever meu primeiro livro.

É bem verdade que bordar sempre clareou minhas ideias. E não só as minhas — tenho várias amigas (arquitetas, fotógrafas, publicitárias, advogadas) que nas horas vagas também empunham suas agulhas assim como faziam suas avós donas de casa, assim como fazia Penélope esperando o retorno do seu Ulisses. Se durante algum tempo nos envergonhamos disto, do talento das mãos para a criação, isso ficou no passado.

Seria tão ridículo quanto se envergonhar do nosso próprio ventre fecundo.“Eu gosto da metafísica, só pra depois. Pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz. Falar as falas certas: a de Lurdes casou, a das Dores se forma, a vaca vez, aconteceu. As santas missões vêm aí, vigiai e orai que a vida é breve”, pois o feminino se encontra em muitas coisas, assim como na voz de Adélia Prado.

testeCriando os filhos para o mundo

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Na imagem, meu avô no passaporte que o trouxe até o Brasil, há exatos oitenta anos.

A Brigada Militar de Porto Alegre postou um tuíte pedindo que a população circule pelas ruas “carregando somente o necessário”, porque, claro, não há segurança para ninguém. Você pode ser assaltado a qualquer hora do dia na esquina de casa, com arma na cabeça, e lá se vai sua bolsa, seu celular, seu carro, seu casaco, sua esperança, sua paz de espírito e, dependendo do desfecho, sua vida.

Como todo mundo, deixei de fazer muitas coisas que outrora fazia com tranquilidade: evito andar de carro à noite, sair a pé depois que escurece, carregar cartões bancários à toa, estacionar na rua… Deixei de ir a eventos em lugares distantes quando não tenho companhia.

Triste lembrar que houve um tempo, quando morei fora, em que eu sonhava com Porto Alegre. Agora, vejam só: roubaram Porto Alegre de nós. Roubaram-na dos nossos filhos, que tiveram de aprender a entrar e sair correndo do carro, a não falar com estranhos e a não dar informações pela rua por causa dos sequestros-relâmpagos que grassam por aqui.

A verdade é que roubaram o Brasil dos brasileiros. Mas o mais triste é saber que roubaram o país dos nossos filhos. Um país que era para ser deles, com um futuro bonito. Um país onde um cidadão de bem pagaria seus impostos em dia — impostos altos, vá lá — para ter um suporte estatal à altura do seu investimento cotidiano.

Lembro, com uma pontada de tristeza, que meu avô polonês atravessou meio mundo na terceira classe de um navio — com uma das mãos à frente e a outra atrás —, levando consigo nada mais do que sonhos, em busca de uma vida boa aqui nesta terra. Hoje, quero que meus filhos façam o caminho inverso ao do velho Jan W.

“Aqui, não”, eu lhes digo (com um nó no peito). Pode parecer egoísta, mas prefiro ser egoísta com o país a ser com meus meninos. Quero-os acreditando que pode dar certo, que existem leis e que elas regulam a sociedade em todas as instâncias. Quero-os andando pela rua com tranquilidade, não como andamos por aqui, onde a própria polícia — que nem salários em dia recebe — avisa que devemos levar “somente o necessário”.

Acontece que necessito de muitas coisas. Necessito sair de casa com a alma leve. Necessito saber que meus filhos, andando pela rua, não vão cruzar com um maluco armado, capaz de fazer qualquer coisa por um par de tênis. Porém, não temos mais lugares seguros: arrastões em supermercados, em restaurantes, até em igrejas. Relatos horríveis.

Onde estão nossos governantes? O que têm feito de efetivo? Aqui no estado, ou aparecem para dar explicações de salários parcelados, ou postam fotos supérfluas de eventos supérfluos enquanto a cidade é devastada por uma onda de violência sem limites. Lá em cima, no Planalto, a turma está mais ocupada com a distribuição de cargos fundamentais da República, nessa queda de braço desavergonhosa pelo poder.

Já perdi Porto Alegre, meus filhos já a perderam (sem nem sabê-lo, coitadinhos, que houve um tempo em que a gente brincava na calçada até a hora do jantar). Do futuro do Brasil, só o tempo dirá. Do futuro dos meus filhos, digo que trabalharei para que seja longe daqui. E digo com tristeza, podem acreditar.

testeAs possibilidades do impossível

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Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura (fonte)

“Porque nossa história será sempre, felizmente, uma história inacabada. Por isso, temos que continuar sonhando, lendo e escrevendo, que é a maneira mais eficaz de aliviar nossa condição mortal, derrotar a corrosão do tempo e converter o impossível em possibilidade.”

Assim termina o discurso de Mario Vargas Llosa ao receber o Prêmio Nobel. Tal e qual o último parágrafo, toda a fala é preciosa e guarda passagens belíssimas. Mas esse trecho serve, para mim, como oração: hei de lê-lo todas as noites.

Como uma oração, pensarei nele a cada manhã, quando o peso dos problemas, de tocaia para além da minha cama, ameaçar o pouco de inspiração que o sonho me deixou. Pensarei nele quando estiver triste, sozinha, no vácuo entre o passado e o futuro, porque nossa história está sempre inacabada, e tudo que anda pelo meio pode experimentar uma reviravolta.

Vou lê-lo todas as tardes antes de, despindo-me de horários, compromissos e chatices da vida comezinha, entrar no mundo da minha ficção; vou lê-lo como um mantra, um caminho, uma certeza. Porque escrever é, antes de tudo, o maior alívio para a finitude, a maior proeza contra a morte, a maior argúcia com a qual se pode combater a realidade mesquinha.

Tantas vezes escrevi aquilo que eu gostaria que acontecesse… Em várias ocasiões (vocês podem achar que não, mas é verdade), coisas que escrevi me aconteceram inesperadamente. Também contei uma história tentando roubar da realidade seu provável desfecho, mas a vida encontrou maneiras de contornar a ficção, e o que eu nunca quis acabou me acontecendo. A ficção me trouxe coisas que a vida levou embora, de modo que, na minha existência, o real sempre há de confundir-se com o sonhado, e cada romance que terminei é um pouco um diário criptografado da minha própria existência — não porque o que vivi esteja lá, mas porque meus pensamentos, desejos e ansiedades misturaram-se às frases que escrevi ao longo dos muitos anos que me ocupo de ficcionar.

O que o tempo corroeu está vivo e altaneiro em alguma página por aí, e o que ainda não foi escrito trará consigo os signos de um futuro de possibilidades ainda nem sonhadas. Graças à literatura, todos aqueles que escrevem e leem podem enganar a vida real, engrandecê-la, transmutá-la e dela vingar-se sempre, absolutamente sempre que quiserem, amém.

 

testeDas brancas madrugadas

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Dia destes fui buscar, numa pequena cidade do interior, uma amiga que chegava num ônibus ao alvorecer. Saí da cama às cinco da manhã, mergulhando naquele mundo mágico das coisas desacordadas — um mundo silencioso, estático e gelatinoso, como que preso num feitiço, tal qual o reino onde a princesa, vítima de uma malévola bruxaria que uma feiticeira lhe lançou ainda no nascimento, é posta a dormir depois de tocar com o dedo uma roca proibida. A essa hora da madrugada as casas cerradas guardam o sono dos seus donos; o tempo anda de chinelas e pisa leve, na ponta dos pés, como uma daquelas tias velhas dos poemas de Mario Quintana.

Acordar no meio da noite — para mim, que sempre desperto com o sol alto — não para sossegar o filho preso num sonho ruim, amamentar o bebê no berço ou trocar sua fralda e sentir a delícia do seu corpinho cálido, mas para sair à rua, é uma experiência estranha. A rua não é a mesma durante a noite. A cidade não é a mesma nem ampara nas suas calçadas os mesmos habitantes diurnos. Tudo é da lua e das estrelas. Até o mar é outro à noite. Misterioso e amarelado, é uma colcha espessa que geme como um grande animal que subitamente perde o sono.

Assim me fui, naquela madrugada, dirigindo o carro pelas ruas desertas. O trajeto foi feito em cinco minutos — no meio da noite, a cidade entrega-se sem receios. Na rodoviária, os únicos laivos da vida: as caras insones dos dois guardas; o rosto triste, acabrunhado, da moça no balcão da companhia me dizendo que o ônibus chegaria em dez minutos; e uns poucos e ruidosos adolescentes desfeitos de alguma festa que passavam pela calçada cantando alto por poucos instantes — logo suas vozes morreram, apagaram-se como uma fogueira na qual se joga um balde de água. Até para eles o silêncio imponderável da cidade adormecida causou estranheza. O grupo seguiu outra vez quieto pela rua deserta, enquanto eu buscava um banco onde me acomodar.

Os dez minutos transformaram-se em quarenta, uma eternidade de silêncios e bruma. A madrugada arrastou-se preguiçosamente na sua esteira de segredos. De repente, como um aviso ou uma mágica, uma criança chorou no prédio em frente, e o choro, agudo e sincrônico, abriu caminho para a vida: lá para os lados do horizonte, uma nesga de vermelho se incendiou, trazendo consigo a primeira luz da manhã, e numa esquina dobrou o ônibus que eu esperava. Enfim, o dia finalmente começou. Em seu quarto na rua em frente, a criança parou misteriosamente de chorar.

 

Na legenda — falando em madrugadas e seus mistérios: Alessandro Baricco, autor de Três vezes ao amanhecer, livro delicado e inesquecível que passeia pela bruma dos amanheceres. Emocionante.

testeDe tanto odiar

Coluna Leticia

Fonte: New Yorker

As pessoas odeiam demais. Eu sei, estamos vivendo tempos difíceis. A Petrobras está indo para o beleléu, nossas contas mensais estão indo para o céu…

Ler as notícias, hoje em dia, dá ódio na gente. Fomos rebaixados, sequestrados, vulgarizados, esquecidos, enganados, intimados a pagar a conta, financiados por ditadores e roubados por políticos. Mas, por favor, precisamos nos controlar.

Precisamos fazer alguma coisa produtiva com esse ódio todo pingando na nossa vida cotidiana feito infiltração, nem que seja um passaporte para uma viagem sem volta. Quem sabe lá na quietude das ilhas Maurício o ódio fosse diminuindo, diminuindo… Sei lá. Não sei se há corrupção nas ilhas Maurício, desvios bilionários, água potável, transporte público decente, atendimento médico e bons salários. Só sei que não quero morar nas ilhas Maurício. Por outro lado, eu moraria feliz no Uruguai, a terra do meu amigo Mauricio Rosencof — uma pessoa em cujo coração só existe luz e poesia, embora o destino e a história política tenham lhe subtraído doze anos de existência da forma mais cruel que se possa imaginar.

Você aí de dedo em riste, falando alto, xingando o cara do carro em frente, vociferando contra o verde ou o vermelho, em vez de odiar, pesquise a vida do meu amigo Mauricio Rosencof — não vou contar aqui, não. Leia os livros dele — no congestionamento, no ônibus lotado e quente, na sala de espera do médico, mas leia. A gente aprende mais com o Mauricio Rosencof do que lendo as manchetes políticas e econômicas deste nosso país — e odeia menos.

De tanto odiar, estamos ficando vulgares, tristes, cinzentos, melancólicos e com pressão alta. Estamos nos transformando em pessoas intolerantes: dedos em riste, mãos nas buzinas, carros nas vagas para deficientes. Estamos odiando o cidadão ao lado, o vizinho de cima, a moça grávida, o colega de trabalho, o senhor na faixa de pedestres. Odiar tanto assim faz mal à saúde e não nos aproxima nem um pouco de um futuro melhor.

testeDa desconfiança e do preconceito

grade

A vida cotidiana no Brasil tem nos obrigado ao eterno exercício da desconfiança — e não estou falando das polêmicas facebookianas e palacinas. Estamos tolhidos na nossa liberdade de ir e vir; vivemos trancafiados em casas com cerca elétrica e prédios com sistema antipânico; nossos carros segurados andam pelas ruas com o vidro fechado. Porém, mais do que tudo isso, estamos trancados em nós mesmos. É preciso desconfiar do outro constantemente, ser discreto e não falar com estranhos.

Dia desses, no entanto, presenciei uma cena triste — e digo triste além da tristeza disso tudo que expus acima. Foi num bom restaurante da cidade, num sábado ensolarado deste verão que resiste em partir. Sentada numa mesa à janela, eu olhava a calçada onde outras mesinhas se multiplicavam: gente colorida, alegre, confraternizando num dia bonito, comendo e bebendo sob os guarda-sóis. Havia duas moças conversando, e uma delas deixara sua bolsa sobre a mesa. Era uma bolsa grande, marrom. Elas riam, falavam. Nisso veio pela calçada um menino de uns oito anos vendendo balas, usando roupas puídas e labutando antes da hora, destino da maioria das crianças brasileiras. Ele ofereceu as balas de mesa em mesa; não sei se chegou a vender alguma. Quando parou em frente à mesa em questão, uma das moças recolheu ostensivamente sua bolsa, enfiando-a num nicho da cadeira. Fez isso tranquila e naturalmente, bem na frente do menino, sem ter ao menos a dignidade de dizer “não, obrigada, não quero balas”. Depois de alguns segundos de puro silêncio, o menino saiu, não sem perceber que, com seu afastamento, a bolsa marrom voltara ao seu lugar sobre a mesa.

Ok, meninos pobres vendendo coisas no meio de um almoço causam constrangimento. A gente sente pena, culpa e raiva do governo. Mas, então, que cada um guarde sua bolsa bem a salvo dos seus preconceitos e medos. Não é justo impingir a uma criança a pecha de provável ladrão, pois foi isso que eu e o menino vimos.

Fui assaltada uma única vez na vida, num sinal de trânsito paulistano. O ladrão, que veio caminhando pelo canteiro da avenida, era um cara bonito e bem-vestido, tanto que destoava dos pedestres que circulavam por ali. Se houve preconceito meu? Pode até ser; o cara não tinha a menor pinta de ladrão. Mas pelo menos fui eu a vítima desse preconceito. Agora, cá entre nós, vamos deixar as crianças fora disso.

testeAmar não é acertar

O mundo anda com uma mania de perfeição que venho achando muito rasa. Penso nisso toda hora. Não estou falando de política — Deus me livre trazer este assunto à baila por aqui. Estou falando de relacionamentos. Mães e filhos, namorados, cônjuges, amigos, relações familiares em geral.

Parece que tudo precisa ser perfeito. Assim como sentir tristeza hoje em dia virou uma espécie de doença, errar também virou sinal de desamor.

É claro que acertar é bom. Todos queremos ser os melhores pais do mundo, os melhores companheiros, os melhores amigos, amantes e irmãos. Os mais engraçados, leves, sinceros, sexys e justos. Mas toda relação — baseada no amor ou na amizade — está sujeita a escorregões e tombos. Porque a constância, a presença cotidiana, os anos, as transformações e as turbulências pelas quais cada um de nós passa ao longo desta vida, tudo isso exige uma série constante de ajustes. E ajustar aperta, pinica, dói às vezes. Ajusta-se o que está errado, o que mudou de tamanho mas ainda serve, vale a pena.

Mães erram com seus filhos toda hora. Mesmo tentando fazer o melhor, erramos. Erramos cotidiana e constantemente, erramos cheias de amor. Casais são injustos uns com os outros todos os dias. Sadios são aqueles que conseguem, depois de um perrengue qualquer, respirar fundo e começar de novo, zerando as mágoas e as minúsculas injustiças cotidianas.

Hoje, as contas se acumulam nos relacionamentos. E aí, quando a fatura está no vermelho, é hora de tocar adiante. Troca-se o par, contas zeradas, e o jogo começa outra vez da casa 1 do tabuleiro. As relações familiares, nesse ponto, suportam mais os dissabores — ninguém pode trocar de mãe, pai e irmão a cada quatro anos. De um modo ou de outro, as famílias se aturam, já que não tem jeito mesmo. Mas quantas vezes a gente vai dormir se sentindo péssimo — afinal, no calor do afeto, erramos com alguém? Só erra quem tenta. E tentar é amar. Hoje em dia, todo erro é visto como defeito. Discordo disso. Enquanto tentamos, estamos presentes. Enquanto estamos presentes, é sinal de que existe o amor.

Afinal, amar não é acertar. Amar é tentar.

E, ao errar, tenta-se de novo.

Sempre.

testeO batom vermelho

Sempre fui uma excelente aluna mas, ao terminar o colégio, decepcionei-me pois não entrei na faculdade. Tinha feito apenas o vestibular da UFRGS. Quando o listão veio sem meu nome, prometi a mim mesma que, no ano seguinte, estaria entre os primeiros colocados. Assim, matriculei-me num cursinho e meti a cara nos livros.

Durante vários meses, estudei por mais de dez horas diárias. Quando enfio uma coisa na cabeça, sou meio maluca — naquele tempo, criei uma regra: copiava fórmulas e conceitos, colando-os por paredes, gavetas e recantos do meu quarto. A regra era nunca passar por um desses papéis sem lê-lo, de forma que, para vestir um agasalho ou pegar uma bolsa, eu antes tinha que enfrentar fórmulas de física, regras de português, três ou quatro equações matemáticas.

Bem, foi um tempo em que eu demorava bastante para me vestir. Porém, acordando cedo o suficiente para ler toda aquela papelada, eu me arrumava, lascava um batom vermelho nos lábios e ia para o cursinho. Como era muito atenta, fui convidada a integrar o grupo dos alunos que tinham aulas extras, aqueles considerados capazes de passar no vestibular com louvor. Eu estudava tanto que, tendo entrado no cursinho a fim de cursar arquitetura, já pensava em trocar para medicina, pois a turma dos crânios era quase toda de aspirantes a médicos. Enfim, o ano em que me matei de estudar foi também o ano do Plano Collor, uma época financeiramente desastrosa para nossa família. Recordo que, muitas vezes, saía mais cedo de casa e caminhava até o cursinho — era um jeito de fazer exercício e também de economizar a grana da passagem, que renderia um cinema no sábado.

Certa manhã, numa segunda-feira, venci as dezenas de quadras até a aula e, meio atrasada, sentei-me no meu lugar habitual lá no fundo. Por causa da pressa, esquecera-me de aplicar o batom vermelho. Então, o professor de matemática começou a sua aula — era um cara engraçado, falador e envolvente. Em determinado momento, viu-me lá no fundo e gritou:

— Ah, não! Sem o batom vermelho?! E numa segunda-feira? Vai nos dar azar a semana inteira! Pararei a aula até que a senhorita faça o favor de aplicar o nosso batom.

Foi uma risada geral.

Quase morri de vergonha, mas saquei o batom da bolsa, surgiu um espelhinho de uma colega e a aula seguiu seu curso. Alguns meses depois, a UFGRS publicou uma pequena lista de segunda chamada e meu nome estava lá. Eu ficara em centésimo primeiro lugar, e um aluno desistira. Entrei, portanto, para arquitetura. Foi uma passagem breve, e sempre me ficou a dúvida de como teriam sido as coisas se eu tivesse terminado o cursinho e prestado o tal vestibular para medicina. Mas aí, então, seria outro enredo para esta minha vida. Quanto ao batom vermelho, nunca mais usei.

testeVerdadeira história de pescador

Estive no médico dia desses. O doutor, mapeando meu passado, quis saber se eu ainda tinha os avós vivos e, se não os tinha mais, qual havia sido o motivo da mortes e em que idade haviam falecido. Fiquei ali alguns minutos rememorando as desditas familiares (meus quatro avôs já se foram), e por instantes me senti traçando as linhas gerais de um romance. Fui embora um pouco pesarosa de saudade.

Meu avô materno morreu aos 65 anos. Minha avó materna, não conheci — morreu antes do casamento dos meus pais e deixou aura de “santa”, como todas as pessoas que morriam cedo antigamente. Minha avó paterna era uma senhora que viu de tudo neste mundo até morrer, por engano, aos 87, quando baixou no hospital para fazer exames e uma enfermeira desatenta ministrou-lhe o remédio da paciente da cama ao lado. Nisso eu já era moça e me lembro bem do desconsolo ¾ a avó Maria certamente chegaria aos 100.

Meu avô paterno era catarinense e tinha um nome que sempre me evocou fantasias: Bertuíno. Apesar do nome que faz lembrar aqueles homens do deserto, nada tinha de brutal ou selvagem. Ao contrário, era calado, custando para cuspir uma palavra, mas olhava o mundo com olhos meio tristes. Gostava mesmo era de pescar, e foi pescando que teve a premonição de que iria morrer no inverno seguinte.

Bertuíno pescava de tarrafa, aquelas redes circulares que se lançam à mão. Todo verão, no fim de março, ele chamava um dos netos e dizia: “Meu filho, pegue esta tarrafa pra ti; o avô está velho e não passa deste inverno.” No verão seguinte, estava o avô outra vez, e sem tarrafa ¾ lá se ia meu pai a comprar-lhe outra para as pescarias. Foi assim durante muitos anos. O avô Bertuíno chamava um neto e passava adiante a rede porque estava velho, e, para ele, tempo de velho morrer era no inverno. Distribuiu fartamente suas tarrafas, pois tinha dezenas de netos dos seis filhos que fez na mulher — eram sete, mas um deles, em criança, afogou-se num açude.

Numa pescaria noturna, no fim de um verão, uma veia se lhe rebentou dentro do nariz e ele prosseguiu pescando, pescando, enquanto seu sangue se esvaía no escuro e tingia o mar. O avô, depois de muito sangue perdido, caiu na água sem sentir e foi levado ao pequeno hospital praiano, onde, já em estado de choque, recebeu precário atendimento. Não iria morrer ali, mas aquele foi o começo de sua morte. Para um velho pescador, tinha lá seu encanto, derramar o sangue no mar… Ele morreu alguns anos depois, num começo de outono. Depois de tantos verões, não teve decerto paciência de esperar a chegada de outro inverno.