testeNavegue a lágrima, uma história sobre a felicidade

naveguealagrima_facebook

A ex-editora Heloísa se muda para um balneário no Uruguai disposta a recomeçar depois de uma grande rasteira do destino. Compra uma casa, que pertencera a uma família que conheceu de passagem nos seus tempos editoriais, e tenta se recompor em meio às difíceis cicatrizes do passado.

De repente, Heloísa, uma mulher pragmática, passa a ter estranhas visões. Em alguns entardeceres, sem mais sinais do que uma luminosidade diferente da habitual, sem mais pistas do que um estranhamento que lhe toma a alma, ela encontra os ex-habitantes da casa vivendo situações cotidianas — cenas de anos atrás desenrolam-se diante dos seus olhos incrédulos, e a vida da família Berman se desdobra como num filme.

link-externoLeia um trecho de Navegue a lágrima

Heloísa acha que anda bebendo demais; mas, mesmo longe dos martínis e bellínis, Laura, Leon e os dois filhos do casal insistem em aparecer às horas mais inesperadas. Heloísa os vê em momentos mais íntimos, nas cenas mais corriqueiras, sem ordem cronológica ou avisos. A vida dos Berman parece seguir acontecendo dentro daquela bela casa, outrora tão amada por todos eles, como se o tempo se misturasse inteiro, como se os Berman, mesmo levados para longe pelos ventos da vida, ainda permanecessem ali, uma parte importante de cada um deles, a parte de suas vidas em que foram realmente felizes.

Então Heloísa se vê como testemunha de um amor, de uma existência a dois cercada por livros e por poemas. Ela acompanha duas infâncias, algumas desilusões, e se descobre plateia dos desgastes que o tempo impõe até à mais profunda das paixões. Tudo passa, e a vida dos Berman também passou — com seus picos ensolarados e os profundos penhascos de tristeza, com suas rosas e livros, seus cálices de vinho e seus meninos perdendo os primeiros dentinhos de leite.

Tudo passa, mas ela descobre ali, naquela casa de veraneio, em meio às visões que nunca contará para ninguém, que a felicidade permanece para sempre. A felicidade permanece como uma estrela, cuja luz segue brilhando mesmo depois de seu fim.

testeMeu papai nem tão Noel

natal

Já disse muitas vezes que o meu avô polonês foi o primeiro personagem que conheci. Pois o meu pai foi o segundo. Um sujeito engraçado, que gosta de curtir a vida,  feito para tempos onde não existia o politicamente correto e seu exaustivo manual de comportamento. Eu poderia dedicar várias crônicas ao pai e suas histórias, porém temo que ele viria a público, todo composto, negá-las uma a uma.

Vou contar então uma única história do meu velho. Muitos anos atrás, às vésperas de um Natal (festa que ele adora), saímos para comprar uma árvore. Naquele tempo, vendiam-se pinheiros de verdade nas esquinas de Porto Alegre. Ainda não se falava em aquecimento global porém prescindíamos do uso de sacolas plásticas. No banco traseiro do carro, minhas duas irmãs e eu vibrávamos, e o pai guiava cantando músicas natalinas — ele sempre foi muito bomem criar um clima. Chegamos, enfim, na esquina onde estavam à venda os mais bonitos pinheiros. O pai estacionou e deixou-nos no carro (além das sacolas plásticas, vivíamos também sem assaltos). Retornou alguns minutos mais tarde seguido por um prestimoso vendedor que carregava um enorme pinheiro, e a quem cumprimentou com rara seriedade, agradecendo o “presente”. Depois de alguns salamaleques, o tal voltou para sua pequena floresta decepada. E nós seguimos para casa sem entender aquela conversinha estranha.

A mãe recebeu-nos alegremente e pousou seus olhos sobre o enorme pinheiro que vicejava no meio da sala. O pai sorria do seu butim, e a mãe quis saber: “Quanto pagaste por ele?”. A resposta paterna nos desconcertou: “Nada, nadinha”, disse ele, sorrindo meio sem jeito. “Eu disse que era fiscal do Ibama, e ele me deu a árvore correndo. Vai ver não tinha licença. Fiquei com vergonha de desmentir a brincadeira.” A mãe zangou-se: frequentemente, tinha ela de educar as três meninas e o marido pela mesma régua. Vimos o pai capitular perante os justos argumentos maternos, levando o nosso colossal pinheiro de volta para o carro. Meia hora depois, chegou com um pinheiro bem mais mixuruca, que poderia ser filho do anterior. Naquele ano, tivemos que nos contentar com aquela singela árvore. E o pai? Ah, o pai seguiu em frente, ora ouvindo os conselhos da nossa mãe, ora trilhando a vida do seu curioso (e divertido) jeito. Aquele pinheirinho há muito secou: virou lenha, adubo e depois – aqui – recordação. O pai segue fagueiro, enfileirando Natais e boas histórias. Uma parte dele é um senhor mui elegante, a outra ainda é um garotinho indócil que viveu sua segunda infância junto conosco. Curtindo a sua terceira meninice ao lado dos netos, ele agora se contenta em enfeitar a nossa árvore de plástico.

testeDa primeira leitura e das grandes alegrias

34_post

A vida não tem rascunho. Mas, nessa estrada sem volta, a maternidade tem me oferecido a chance de reviver alguns bons e inesquecíveis momentos, senão exatamente como foram, muito parecidos e candentes de emoções delicadíssimas. Aconteceu (de novo) na semana passada. Meu filho caçula, às voltas com um gibi, por incentivo meu, olhou as palavras com um pouquinho mais de atenção e – voilá! – descobriu que já sabia ler!

Há exatos seis anos, quando meu menino mais velho estava com a mesma idade do caçula, ele também descobriu – como uma mágica que, na verdade, é apenas a ponta de um longo processo de aprendizado e compreensão – que sabia ler. Foi num restaurante, com um cardápio. Lembro-me da emoção e da alegria; naquele tempo, eu estava grávida do caçula, carregando em mim a semente, não apenas da criatura, mas destes momentos todos que, desdobrando-se, formam a corrente da vida, de uma nova vida enfeitando a nossa.

Sou uma ávida leitora, e ainda recordo da minha própria euforia no dia em que, na casa azul da praia da minha infância, saí lendo sozinha como um pássaro que, de repente, se descobre voando pelo céu. Com meus meninos, pude reviver esse momento ─ na leitura primeva do mais velho, João, lá estava eu, menina, em algum canto, aplaudindo, vibrando junto aquela conquista e aquela independência ─ porque aprender a ler é como reaprender a falar; um outro e incrível mundo de comunicação e de conhecimento se abre pra gente. E, depois, ainda esta semana, meu Tobias também saiu voando pela estrada das palavras ─ com que orgulho comemoramos aqui este gigante e miraculoso feito! Com que alegria eu, menina ainda uma vez mais, senti a alegria dele como se fosse a minha! O quarto do meu filho é cheio de livros ─ vibramos juntos ali, naquela já não mais ordinária sexta-feira chuvosa, e foi uma festa: Narizinho, Pedrinho, Flicts, Peter Pan, o Pequeno Príncipe, Mônica, Cebolinha, Alice, Garabuja, a Árvore generosa e o seu menino, Senhor Fedor, Vovó Vigarista, Mickey, o Pequeno Nicolau, o Urso com música na barriga, o Menino Maluquinho e tantos outros, incontáveis outros que renasciam ali, mais uma vez, nas leituras de um menino. A vida não tem rascunho, mas tem muitas histórias pra contar!

 

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testeA vida e a ficção

Coluna 31 - A vida e a ficção

É tão fácil a gente se deprimir. Receita certa: abrir o jornal. Guerra religiosa no Iraque. Ebola. Gaza. Incêndios na serra carioca. A Cantareira virando pó. Ler as notícias, atualmente, só em doses homeopáticas. Eu mesma demoro várias horas para digerir os eventos, os números trágicos e os maus auspícios que envolvem o vírus ebola. Já não leio as notícias no Twitter antes de dormir, porque é receita certa para ter insônia. E até o Facebook (que frequento na categoria voyeur) virou uma rinha de galos em que todos se polarizaram sobejando violência e grosserias, e amigos brigam com amigos, e amigos xingam amigos por causa da eleição. Como não confio em nenhum dos dois candidatos que ora se espinafram por aí, me abstive de qualquer opinião a respeito.

Mais do que nunca, o remédio é a ficção. Aqui em casa, ao jantar, não falamos da Dilma nem do Aécio. Entre o “me passe a salada”, ou o “mais arroz, por favor”, falamos de Leonardo Padura, Evelyn Waugh e Marguerite Yourcenar. É tão bom – e até digestivo! A literatura é ainda o mais maravilhoso dos esconderijos – e o tanto que se vê desta vida atrás de um bom livro (e o tanto que não se vê, ufa!).

Comecei a ler um volume enorme, com esperanças de que ele me segurasse até depois das eleições. Os Luminares, de Eleanor Catton, livro que venceu o The Man Booker Prize 2013, é um robusto tijolo de 886 páginas, cujo peso – estimo que ele pese mais que o dobro da filhotinha de shiitzu que minha madrinha ganhou recentemente – me obriga a lê-lo apenas em casa.

Porém, como sou mais variável que os números das pesquisas eleitorais, e como os queridos Marco e Henrique – meus leitores amigos – resolveram me mimar, mandando-me pelo correio dois títulos incríveis, A filha do Coveiro (Joyce C. Oates) e Amiga de Juventude (Alice Munro), já me enfiei até o nariz na incrível trama da Sra. Oates, e Os Luminares corre o iminente risco de não chegar ao segundo turno por aqui.

Quanto às notícias do jornal, Cuba está dando um baita exemplo ajudando os africanos assolados pelo ebola. Teresa Romero, a enfermeira infectada em Madri, curou-se em tempo recorde. E a população paulista já está consumindo o “segundo volume morto” da Cantareira, o que quer dizer que, depois dessa reserva, só tem lodo mesmo. Se a vida fosse como a ficção, García Márquez resolveria o problema rapidinho, fazendo chover em São Paulo por quatro anos, onze meses e dois dias, como fez em Macondo com tanta galhardia.

testeO rei de Ítaca e eu

coluna 27_O rei de Ítaca

Fazer com as próprias mãos é um grande exercício plenamente esquecido nesta vida onde tudo se compra pronto. Pintar um móvel, preparar um bolo, tecer uma peça em tricô, pregar, lixar, plantar um jardim, construir um barco, bordar um lenço – fazer com as mãos é uma maneira de fazer poesia no cotidiano das nossas vidas. Uma vez, ouvi uma pessoa que eu conhecia muito pouco comentar a respeito de uma velha colcha de crochê: “Nunca vou me desfazer desta colcha, nunca mesmo. Pois a minha mãe a tramou para mim alguns meses antes de falecer repentinamente, e quando penso nas longas horas que ela se debruçou sobre esse trabalho, quando penso em todos os pensamentos de minha mãe que estarão para sempre entrelaçados a esse pedaço de cobertor… Bem, dormir com essa colcha é o mais próximo que posso me sentir dela.”

Gosto mesmo de fazer as coisas, de costurar, tricotar e plantar no meu jardim lá na praia – mesmo que o jardinheiro faça mais rápido e melhor do que eu, tudo o que plantei se tornou especial. Outros podem fazer com perfeição maior, ou mais apuro, mas ninguém fará com tanto amor. Por isso, cerco meus filhos de coisas preparadas por mim, pequenos regalos que passam desapercebidos no corre-corre desta vida; mas lá estão, tênues limites entre as durezas que o mundo pode nos impor e a suavidade que o meu amor deseja para a vida daqueles que eu amo. Por isso, sempre que uma criança querida nasce, bordo um presente, bordo-o colocando ali todos os bons ensejos da minha alma, fixando no tecido, com agulha e linha, um punhado honesto de bons pensamentos.

E, como sempre, quando alguma coisa que me significa, lá vem Sophia de Mello Breyner com as suas palavras, dizendo o que eu jamais direi tão bem: “A civilização em que estamos é tão errada que nela o pensamento se desligou da mão. Ulisses, rei de Ítaca, carpinteirou seu barco. E gabava-se também de saber conduzir num campo a direito o sulco do arado.”

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testePorque amanhã é sábado

coluna 26_Porque amanhã é sábado

Escrever meus textos para a web tem se mostrado uma tarefa tão íntima e interessante! Tudo isso nasceu do final de uma relação de muitos anos ─ quando deixei de escrever para o Zero Hora, segui com meus textos por aqui…

Faz tempo que descobri no Facebook um espaço de troca com os meus leitores – e escrever romances, acreditem, é uma tarefa solitária. São muitos meses, às vezes, anos, trabalhando num livro. Depois que ele ganha o seu ponto final, outros meses são necessários lá nas entranhas da editora e, por fim, a criatura chega às livrarias. Mais um longo tempo até que os leitores leiam, lá no silêncio das suas casas, as páginas que escrevi no silêncio da minha própria casa. Gostaria, muitas vezes, de ter sido a mosquinha voando ao redor do leitor enquanto ele vencia esta ou aquela passagem e sentir seu espanto, ou o seu desencanto; mas, claro, eu nunca avancei pelas distâncias interplanetárias que me separam dos meus leitores e das suas secretas impressões.

Com o Facebook, todo dia alguém me escreve e divide comigo as suas impressões. Como em qualquer categoria da vida, existe o leitor chato, o indelicado, que avança além dos limites. Mas a deliciosa maioria vêm apenas engrandecer o meu dia com um elogio, uma palavra, um incentivo: alguns leitores, outrora sem rosto, viraram até meus amigos. Com meus textos semanais, tem acontecido coisa semelhante. Eu sou a minha própria editora, e portanto escolho o quero falar. Decerto dou pistas de como anda a minha vida, dos pequenos (e grandes) problemas do cotidiano. Quem não os tem? Basta a gente abrir os olhos, e algum problema pula na nossa jugular – estar vivo é torear os problemas e saborear as alegrias. Ontem, uma amiga leu um texto meu e, farejando certo dissabor, me procurou lá da Europa com um beijo e um afago. Vão-se as tristezas, os amigos ficam. E os leitores também. Isso é que vale, e que venham as sexta-feiras todas, com os seus sopros de sábado e as suas luzes de domingo. Eu escrevo sempre às sextas, como diria Vinícius, porque amanhã é sábado.

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

 

testeNabokov, meus amigos e eu

619-05514732

Eu me gabo de ter amigos. Tem muitas coisas que não tenho – uma casa na Riviera Francesa, um Manolo Blahnik, um cachorro, um plano de saúde que cubra as minhas consultas dentárias, um e-reader, mas amigos tenho vários. E dos bons. Amigos que me acompanham há muito anos e amigos recentes (alguns). Alguém disse que a gente não faz um amigo, reconhece-o. Acho pura verdade. Teve gente que tentei incluir nas minhas amizades, mas não deu. Havia gentileza, educação, até mesmo refinamento, bom humor e inteligência, mas a coisa não fluía. Era igual a carro engasgado – melhor andar a pé do que encrencar no alto de uma ladeira.

Não concordo com muitas das coisas que meus amigos fazem ou dizem − o que comem, o que vestem, como educam os seus filhos, como amam ou desamam.  Amigo não é o reflexo da gente, é mais encaixe, compreensão, afinidade e carinho. Amigo é ponte, é paciência, é perseverança. Amigo é honestidade. Confio nos meus amigos assim como confio que sairei de um poema da Sophia de Mello Breyner Andresen melhor do que quando pus meus olhos nele. Confio nos meus amigos assim como confio em Nabokov.

Dias desses, queria esquecer da vida por algumas horas. Saí por aí andando a esmo, listando as possibilidades. Beber até cair na sarjeta não é muito a minha praia, e eram onze horas da manhã. Corri pra livraria e comprei um Nabokov. Tipo assim: Nabokov cura o enjoo da vida. Me aboletei num canto e mergulhei no universo fantástico, lírico e vigoroso de Nabokov. Foi um remédio e tanto. Por algumas horas, meus desgostos cederam espaço para antigas tardes em Vyra, temporais de verão e jogos de tênis e risos e passeios por florestas russas cheias de musgo e de sombras. Quando fechei o livro (com muitas páginas pela frente, graças a Deus), eu estava muito melhor – e sem nenhuma perspectiva de ressaca. É claro que a companhia de um bom amigo provavelmente teria tido efeito semelhante – amigo é aquele que nos ajuda a rir dos nossos próprios problemas. Mas eu estava sem amigos por perto – aliás, meu sofrimento vinha mesmo de um amigo. Assim como existem livros ruins, também existem maus amigos. A vantagem do livro é que, lá pela página dez, ele não nos enrola mais; já as criaturas humanas são um pouco mais melífluas. Foi o senhor Nabokov quem escreveu em seu Fala, Memória que “as primeiras e as últimas coisas tendem a ter um tom adolescente”. Foi isso que senti naquele dia, carregando o meu engano e a minha mágoa pela rua – tudo às vezes parece “tão adolescente”. Até eu estava adolescente naquele dia, pensando em encher a cara num boteco às onze e meia da matina.

De qualquer modo, o dia passou, levando embora as suas angústias. E depois a semana passou também, e eu ainda estou aqui. Quanto ao Nabokov, economizei as páginas o máximo que pude, mas acho que ele não dura até amanhã.

 “O uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado.”

Vinicius de Moraes

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testeAs palavras

coluna 24_As palavras

Hoje eu estou um deserto de palavras, e meus corredores vazios ecoam o nada, ventam, batendo as minhas portas e janelas. Sei que é preciso ter paciência, então eu me aquieto e espero. Sei que as coisas têm em si o seu tempo, e as palavras que vão voltam trazendo sempre alguma coisa nova. Nessa espera, eu me lembro de um certo episódio da minha infância. Era uma noite de tormenta na praia, um daqueles temporais que rugem a sua fúria em ventos e trovões.  Todos os adultos estavam ocupados com as janelas, as portas e as roupas que dormiam lá fora no varal ─ os adultos ocupados com as coisas de adultos. Eu e a minha irmã estávamos lá no quarto, quietas no escuro, morrendo de medo porque faltara luz ─ numa escuridão dupla, enfiadas sob o cobertor, com medo do vento, medo dos raios, medo, medo, medo. As horas entaladas no medo, arrastando-se pela madrugada a dentro, até que finalmente dormi.

Dormi e acordei muito cedo no outro dia.

Fazia um silêncio danado e a tempestade partira. Lá fora, depois da veneziana, o sol brilhava outra vez. Ainda me lembro da sensação de alívio… Então saí do quarto sem despertar minha irmã, abri a porta e corri pela varanda ainda molhada de chuva. Havia terra, galhos e folhas espalhadas, como se uma grande festa tivesse acontecido na noite anterior e os seus restos não tivessem sido recolhidos. O céu da manhã era então de um azul lavado. Brinquei ali, feliz da vida, totalmente esquecida do medo da madrugada. No meio das folhas amareladas e murchas que o vento tinha trazido de longe, encontrei ─ como um milagre absolutamente emocionante ─ um filhotinho de pardal que o temporal arrancara do ninho.

Da mesma forma, talvez as palavras trovejem por aí, esses cavalos alados  coriscando noutros mundos, divertindo-se, causando sustos e alegrias. Elas reaparecerão decerto amanhã na varanda do meu dia, molhadas, rotas, alquebradas, bêbadas, milagrosamente refeitas, trazendo um presente para mim.

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testePais e filhos

coluna 22_A maior tarefa do mundo é criar um filho

 

A mais complexa tarefa do mundo é criar um filho, e eu compreendo as pessoas que decidem viver sem gerar descendência. É uma opção coerente e, sem dúvida, sensata. Filho exige tempo, dinheiro e paciência ─ não necessariamente nesta ordem. De amor, então, nem se fala. Um filho precisa de amor assim como uma roseira precisa de sol. Mas, dada a natureza absolutamente doida dessa relação, salvo em raros casos, junto com a maternidade e a paternidade nasce também o amor (assim em negrito mesmo). Um amor sufocante, genuíno, arrebatador. Filho é esperança. Filho é carne viva. Filho é ar fresco. Filho é futuro.

E o futuro de um pai, se a vida andar pela estrada certa, é ser filho dos seus filhos. Mais cedo ou mais tarde, os papéis se invertem, primeiro de modo suave, quase imperceptivelmente ─ a companhia na consulta médica, um conselho, a visita diária no final da tarde para um cafezinho e um bate-papo. Depois, com os anos, as coisas mudam de maneira mais palpável e fundamental ─ muitos pais idosos vão viver com os seus filhos, ou são assistidos de perto, amorosa ou financeiramente, por eles. Os filhos crescidos começam a dar suporte aos seus pais na velhice, fechando um ciclo que pode ser difícil, mas tem a beleza intrínseca da eterna troca de papéis. Afinal, doa a quem doer, vida é transformação. Quem optou por não ter filhos, pode ter a sorte de ser adotado por um sobrinho, pelo filho de um grande amigo, por um pupilo dedicado ─ e, no fundo, é a mesma coisa, tudo aquilo que se dá, um dia volta para a gente.

E nem sei por que pensei nisso, quando eu pretendia mesmo era escrever sobre outra coisa ─ eu que estou exatamente no meio desse caminho, pois ainda sou mãe dos meus filhos pequenos, e filha dos meus pais maduros. Talvez seja somente saudade deles ─ do meu pai e da minha mãe ─ ali em Porto Alegre. E vontade de pedir um colinho, um beijo, um conselho, e ser apenas filha (a Ticia) nem que seja por uma tarde.  🙂

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.

testeDos casamentos

coluna 21_Dos casamentos_crédito Andress Ribeiro

 

Crédito: Andress Ribeiro

Curiosamente, tenho visto muitos casamentos. Vejo-os da janela da sala, que dá para um clube. A média é de um casamento a cada quinze dias, ufa! No último sábado, outro casamento chegou até mim ecoando pela noite nublada. Ouvi até mesmo o sermão do padre, sentada no sofá, terminando um livro da Alice Munro. E pensei: Alice Munro é que sabe desta vida! Mas eu, que pouco sei, sei ao menos quanta alegria e quanto sofrimento vêm num casamento ─ como não existe dia sem noite, assim é o amor nas suas rotações.

Fiquei ali no sofá pensando, o livro de Munro de lado por um instante ─ ela mesma, no conto que eu lia, era uma noiva jovem e assustada, prestes a embarcar num casamento que acabou naufragando. Sejamos sinceros, manter uma união é uma tarefa árdua. Muita gente boa desiste no meio do caminho. Manter um casamento, quando ele vale a pena, é um feito lindo. (E quando vale a pena? Quando estar junto em todos os altos e baixos for melhor do que estar sozinho.) É uma aventura transformadora, enlouquecedora e emocionante.  Às vezes, é preciso suportar uma ou outra noite de trevas, à espera do sol. Um período nublado pode se prolongar por um longo tempo, e isso exige perseverança ─ casamento é para os perseverantes.

Dito isso, e misturando Alice Munro com Fabricio Carpinejar, uma frase dele me veio à mente, enquanto os noivos se casavam lá no clube. O amor é esperar quando já desistimos. É preciso esperar ─ o casamento é uma eterna gestação do futuro. Tive vontade de correr à janela e me intrometer no sermão do padre: o que um celibatário, afinal de contas, sabe sobre o casamento? Não é uma tarefa para os deuses, só os homens obram essa aventura, só eles, na sua imperfeição, conseguem lidar com a imperfeição do outro.

Voltaria eu no tempo, até aquela noite de setembro, quando era eu a mulher de branco no altar? Por um instante pensei em rebobinar a minha vida inteira, pensei mesmo. Mas depois, muito decidida, emocionada pelos noivos lá embaixo, e por mim, por todos nós, loucos o suficiente para embarcar numa aventura dessas, eu concluí que sim. Casaria de novo com o mesmo homem, do mesmo jeito. Afinal de contas, o que são alguns pratos quebrados, alguns temporais? Só com amor é que esta vida vale a pena. Na contracapa do livro sobre o sofá, tenho certeza de que Alice Munro, a velha dama, sorriu pra mim.

LETICIA WIERZCHOWSKI é autora de Sal, primeiro romance nacional publicado pela Intrínseca, e assina uma coluna aqui no Blog.

Nascida em Porto Alegre, Leticia estreou na literatura aos 26 anos e publicou 11 romances e novelas e uma antologia de crônicas, além de cinco livros infantis e infantojuvenis. Um de seus romances mais conhecidos é A casa das sete mulheres, história que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo e exibida em 30 países.