testeSobre o amor

Recentemente, fui curadora da TAG — uma espécie de Clube do Livro mais moderno e orgânico, que vale conhecer — e indiquei como título do mês o livro Stoner, do autor americano John Williams.

Como todo bom livro, Stoner ainda segue retumbando em mim. Volta e meia penso nele, e foi assim que preparei meu papo com a turma da TAG, em que os leitores debatem a leitura do mês. Entre dezenas de belos momentos, talvez ancorada na minha própria vida e nas suas questões, escolhi ler um trecho em voz alta que, acho eu, é de uma sabedoria absoluta. Fala do amor, essa chama, esse refúgio, esse sonho com que todos sonhamos e que, pela dificuldade de ser levado adiante, acaba por ser uma das grandes questões humanas.

Disse o narrador: “Na sua mocidade, Stoner imaginara o amor como um estado absoluto do ser ao qual uma pessoa, se tivesse sorte, podia aceder um dia; na idade adulta, decidira que era o paraíso de uma falsa religião, que uma pessoa devia encarar como uma divertida incredulidade, um suave desprezo familiar e uma nostalgia embaraçada. Agora, na meia-idade, começava a perceber que não era nem um estado de graça nem uma ilusão; via-o como um ato humano de transformação, uma condição que era inventada e alterada de momento para momento, de dia para dia, por meio da vontade, da inteligência e do coração.”

Não existe amor sem vontade, sem dedicação e sem o esforço contínuo da vontade, da inteligência e do coração. Quando um desses três pilares esmorece, sofre o amor — sofremos todos nós, sujeitos conjugadores desse amor.

Copiei esse trecho da prosa de John Williams e colei no meu armário para que eu possa lê-lo todos os dias e nunca mais esquecê-lo. Stoner não é um livro sobre o amor. Talvez seja um pouco sobre a solidão, o contraponto do amor conjugado — embora alguns amores possam ser bastante solitários também. Stoner, como muitos bons romances, é um livro sobre tudo. Mas esse trecho é um mantra ancorado na maturidade — o amor é um ato humano de transformação. Se isso não for bonito, sinceramente, não entendo nada de beleza.

 

PS: Eu estava em casa numa noite dessas e uma amiga querida lá de Pelotas, que aqui no Sul preferimos chamar afetuosamente de Satolep, me manda por WhatsApp um trecho de Stoner que a fez se lembrar de mim. Bem, vocês já sabem qual é… Afinal, toda amizade é mesmo um tipo de amor muito especial.

testeDos sonhos

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Quem frequenta vestiários sabe da camaradagem que por vezes se instala entre seus frequentadores. É até engraçado, mas algumas mulheres com quem convivo eu só vejo seminuas — talvez seja essa quase nudez que nos permita uma intimidade que não teríamos numa praça ou mesa de bar.

Dia destes, após a natação, vi uma mãe vestindo, com grande confusão, seu filho pequeno. Eu, que sou mãe de meninos, senti uma nostalgia do tempo em que também precisava segurar meus guris para enfiar-lhes a fralda. Ri daquela ginástica maternal — um dos tantos jogos que nós, mães, temos de fazer para tocar adiante os dias das nossas crianças —, assim como uma senhora de idade já bem avançada. Ambas, de calcinha e sutiã, comentamos dos nossos meninos pequenos e das suas estrepolias. A senhora disse: “Meu filho já tem 50 anos e mora longe daqui. Mas, sempre que sonho com ele, é um menino de fraldas. Nos meus sonhos ele nunca cresceu.”

Achei aquilo muito lindo. Meus próprios sonhos têm seus predicados e personagens favoritos. Quando meu padrinho, Ricardo, morreu — durante muitos anos ele foi como um irmão mais velho para mim —, por muitos meses, toda noite eu sonhava com ele. Sua morte súbita foi um choque. Foi nos sonhos que nos despedimos. Depois, embalada pelos nossos oníricos encontros, acabei escrevendo um romance (Os Getka, ed. Record) e transformei-o em personagem principal. Assim como nos sonhos a gente revive nossos amores, na literatura, de forma um pouco mais consciente, revivo pessoas e afetos.

A casa azul da minha infância em Cidreira até hoje é meu palco predileto. Meus sonhos têm o hábito de desenrolar-se entre aquelas paredes há muito perdidas. Era por lá que meu padrinho passava todas as noites. Lá, meus meninos — que nunca entraram naquele chalé — engatinharam e falaram. Cada alegria e cada dor desta vida, durante minhas noites, migraram para lá. Já morei em vários lugares, e minhas férias há mais de trinta anos têm muitos destinos. Mas a casa azul segue firme e confiante, rainha dos meus sonhos até hoje.

Ultimamente, virou palco de outras histórias. Passei a sonhar com os primeiros anos do meu casamento. Mas, em vez de São Paulo, aquela vida de outrora se desenrola no chalé azul da Avenida Mostardeiro que meu avô Jan construiu. Um a um, noite após noite, meus amores e minhas saudades têm migrado para lá.

 

testeDuvido, logo existo

Há uma hora na vida em que parte das nossas certezas se transformam em dúvidas. Nesse momento, quase tudo aquilo em que acreditávamos parece ter sua importância relativizada — outras vontades, outros sonhos, meros esporos invisíveis de futuros diversos parecem crescer dentro de nós, passeando pela corrente sanguínea, pelos sonhos e pesadelos, pelos mais distraídos pensamentos.

Há uma hora, para todo mundo, em que a própria vida cotidiana parece ter ficado pequena, como uma roupa da estação passada que é descartada do armário de uma criança por não servir mais. É uma hora difícil, como são difíceis os partos, com o tanto de sangue e mistério que guardam, com seus perigos, as superstições, o medo e o futuro cheio de novidades. É uma hora difícil — é preciso mexer-se do lugar, mudar a perspectiva, aventurar-se. É preciso fazer a bainha da nossa própria ansiedade, separar-se das velhas certezas e assumir a dúvida como guia.

Algumas boas certezas são fundamentais nesta vida; são como o alicerce sobre o qual erguemos nossa existência. Mas a dúvida tem que estar em algum lugar, latente sempre, atenta ao presente e ao futuro, duvidando, como um desses cães de guarda que passam a madrugada latindo no portão. Há um ditado que diz: “A chave da sabedoria é a dúvida.” Segundo meu médico pessoal, é duvidando que a gente vai adiante.

Muitos artistas fizeram da dúvida o ponto de partida da sua arte. Como Van Gogh, Robert Mapplethorpe, Bispo do Rosário e uma lista eclética de nomes de todos os tempos e lugares. Muitos autores escreveram belíssimos romances sobre a caminhada pessoal que a dúvida inaugura, como Somerset Maugham, em O fio da navalha, e o japonês Kenzaburo Oe — cuja dúvida e superação pessoal se materializaram na figura de um filho excepcional —, com seu inesquecível Jovens de um novo tempo, despertai — duas das grandes leituras da minha vida.

testeHistória numa noite de verão

Para fazer meu Tobias dormir, leio-lhe um livro que conta uma história que conheci de perto, sobre uma menina, sua avó e as miraculosas coisas que viveram juntas. É um livrinho curto, de texto delicado, que termino segurando o choro — difícil menino dormir com mamãe chorando no fim da história, né?

Enfim, à propósito do livro, fiquei pensando na minha própria avó. Lá se vão mais de vinte anos desde que ela faleceu. Mas parece que veio aqui hoje, nessa imprevisível noite de verão, dar um “oizinho” para a neta. Deveria eu, talvez, escrever sobre um livro ou um filme. Acontece que o mundo anda cheio de opiniões e gosto mais é de sugerir pessoas, isso, sim.

Sabedora disso, a recordação da minha avó veio me fazer companhia. Teve muitos netos, ela. E bisnetos também — a última conta familiar já alcançava algumas dezenas. Estava sempre em visita, flanando pelas ruas da cidade com seus vestidinhos abotoados, a carteira de mão, seus sorrisos e suas receitas de remédios caseiros. Era humilde e elegante como poucas; bastava que um parente interiorano adoecesse para que ela o trouxesse à sua casa na capital, peregrinando com ele de hospital em hospital. Embora morássemos perto, eu a via menos do que deveria. Foi uma avó como um vinho: para ser compreendida com o tempo. Quando fiquei mocinha, sempre me presenteava com lencinhos brancos de cambraia. Talvez soubesse, pela experiência da vida, que se chora muito pelos anos afora. Por isso dava lencinhos e nada dizia deles… Engraçado é que nunca a vi chorar, mesmo tendo dado adeus a um filho, ao marido e a um neto — era inacabável, a sua doçura. Vivia para atender ao avô, até que uma tarde, já iam ambos bem passados de anos, ele pediu: “Me busca um copo d’água.” “Vá buscar você”, retrucou ela sem altear a voz. Assim, emancipou-se sem alardes, e daquele dia em diante não atrasava visitas nem perdia a hora da manicure por causa dos gostos do marido.

Chamava-se Maria, um nome simples, como toda ela. Morreu por engano ao internar-se para fazer uns exames de rotina; não reclamou do azar supremo durante seus últimos dias. Era uma mulher como um sopro de brisa. Entrou pela minha janela faz pouco, enquanto eu cerrava os vidros para a noite estrelada de verão. “Tantos lencinhos eu te dei”, pareceu ter-me dito. Na vida se chora muito, mas também se ri. Depois sumiu entre as constelações; decerto tinha tantas outras visitas a fazer.

testeO veraneio

Férias: lá vou eu. A partir de hoje, vou deixar as sextas-feiras um pouquinho mais silentes. Volto em fevereiro com meus textos. Um abraço a todos.

Férias: lá vou eu. A partir de hoje, vou deixar as sextas-feiras um pouquinho mais silentes. Volto em fevereiro com meus textos. Um abraço a todos. (fonte)

O conceito que se tinha de férias e que se encontra no Aurélio sob a definição de “certo número de dias consecutivos destinados ao descanso” mudou bastante, visto que a mania de fazer mil coisas ao mesmo tempo contaminou o período que originalmente era dedicado ao ócio, ao prazer e à contemplação. As férias modernas ganharam conotações quase olímpicas. Viaja-se com um roteiro programado, intenso, encaixadinho. Fazer o Nordeste, passear pelo litoral catarinense, fluminense e paulista. Nem os sagrados dias de descanso de um vivente escaparam dessa absurda mania de organização e bom aproveitamento do tempo que a gente vive hoje em dia.

As férias de verão, por exemplo, deveriam não ser mais do que propriedade do acaso. Acha-se um endereço, de preferência numa praia bonita e relativamente calma, leva-se boa provisão de livros e de filtros solares — e seja o que Deus quiser. De resto, somente a permanência liberta, isso no caso de a meteorologia contribuir, pois estamos evidentemente falando de uma praia com sol. Ficar muitos dias num único lugar, até o tédio das reticências… Isso, sim, é luxo. Desfazer as malas apenas uma vez, estender a rede na varanda e gastar tardes ali.

Quando eu era menina, veraneávamos. Essa era a única regra fixa nos dois meses de vacaciones: estar na praia. Sem planos, sem passeios mirabolantes, sem calendários. As semanas escorriam molemente, alternando dias de sol e chuva, e era uma delícia estar assim, apenas flanando entre as horas, na rotina da praia e da sesta. “Tirar uma torinha”, como dizia meu pai. Duas horas por tarde, de pijamas. Depois, praia outra vez e pão quentinho, de quarto de quilo, de meio quilo, e a gente vinha comendo a pontinha no caminho, porque quem comia a ponta do pão ficava mais bonito. Telefone nem havia. Num caso de urgência, ia-se à central telefônica, tirava-se uma ficha, esperava-se a fila. Era coisa imperdível: todas as crianças enfiadas na cabine minúscula e suarenta para dar no pai o beijo das quartas-feiras. Às sextas, o pai chegava à praia trazendo o carro carregado de frutas, comidas e novidades. Eram exatamente assim nossas férias, multiplicadas por oito. Ninguém precisava de mais; seguíamos salvos para o ano seguinte, livres e leves.

Recuperados de qualquer percalço, fechávamos a casa de praia no último dia de fevereiro. Eram longos aqueles adeuses, a rua inteira se despedindo, rumando para suas casas na cidade. Mesmo morando todo mundo em Porto Alegre, às vezes em bairros vizinhos, jamais nos víamos nos meses de março a dezembro — éramos amigos de verão, e tal lógica nos parecia sagrada e irremediável.

testeMais um Natal

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Ouvi um amigo dizer que não gostava de datas festivas como o Natal porque elas eram iguais a muletas: as pessoas se penduram numa espécie de picadeiro luminoso e esquecem a realidade ao seu redor. Ou então suspendem suas mágoas no prego da fantasia, veem tudo cor-de-rosa e saem distribuindo presentes a torto e a direito para quem lhes cruzar o caminho. Já escrevi várias vezes aqui que gosto imensamente do Natal. Isso foi, mais do que tudo, um gosto que meu pai me passou — talvez no sangue, talvez nas noites da minha infância, que ele sabia povoar de mágica e encantamento. Filosofando sobre o Natal ao pé de um sinal de trânsito fechado numa avenida porto-alegrense, concluí que datas festivas não são bengalas, mas cabides. Roupa em cabide é outra coisa: a lei da gravidade exerce seu talento sobre as fibras e tudo fica mais bonito do que dobrado em quatro partes. Assim é com o Natal: penduramos a vida num cabide e ela fica mais bonita, perde as rugas e revela segredos que o fundo do armário teimava em esconder dos nossos olhos eternamente distraídos.

Natal, no entanto, também é uma infinidade de coisas. É cálice — dele bebemos e nos embriagamos, mesmo que no outro dia venha a ressaca. É janela e álbum de fotografia. É lágrima, quando em torno à mesa nos falta um sorriso. É riso, quando o filho desata a fita. É amor na hora do abraço. É mesa, envelope e berço. É rolha no chão, televisão desligada, cereja no bolo. Para uns, Natal é dor. Para meu pai, é festa. É luz colorida para o menino de sete anos que mira a árvore na sala de visitas. E esse menino, junto com seu irmão, para mim, é o Natal.

Como não poderia deixar de ser, estas linhas são para desejar uma Noite Feliz a todos. Que cada um esteja ao lado do seu Natal nesta madrugada de 24 de dezembro, porque no resto a gente sempre dá um jeito. Como escreveu Vinicius de Moraes: “Para isto somos feitos: para a esperança do milagre, para a participação da poesia…” E, se temos longos braços para os adeuses, que eles acenem nos muitos portos por onde nosso barco passar. Natais também são portos: no meio de um itinerário misterioso, nessa data a gente solta a âncora. Nem que seja para simplesmente olhar a paisagem da vida que vamos deixando para trás.

testeO que era vidro

 

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(Quadro por Jenny Muncaster)

Casamento com festa e presentes enche os armários da casa nova. Sempre gostei de dar taças e cálices para os noivos. Nem costumo olhar as listas nas lojas: taças, quero taças. Que um casamento se inicie com um armário cheio delas! Noivos que não pedem cálices e taças não estão casando para ser felizes. Tive prova disso num casamento para o qual fui convidada alguns anos atrás. Na lista, só havia panelas, pratos, eletrodomésticos e jogos americanos: muita vida real para qualquer começo. Então, dei um jogo de taças. Não adiantou muito. Alguns meses depois, o casal se separou, e elas devem ter ido parar num quarto e sala de solteiro. A vida precisa de brindes! Creio que, no fundo desses delicados bojos cristalinos, habita um eterno convite à alegria — o começo de uma vida nova merece comemoração, e toda vida que se perpetua também pede seu tim-tim, mesmo que simbólico.

Com o passar do tempo, no entanto, as taças vão desaparecendo. Um belo dia, a gente abre o armário de louças e se dá conta de que aquelas taças que a vovó nos deu já não existem mais. Fazer um inventário dessas perdas é uma aventura interessante. Um brinde de Natal e, pum!, uma taça vai-se embora. Aquela noite romântica e um arroubo na semiescuridão da sala: mais um gol. Uma antiga festa de aniversário e sua melhor amiga erra a linha divisória entre o fim da mesa e o começo do caminho que leva ao chão. Assim vão sumindo os cálices e as taças da nossa vida. Mas ficam os momentos. Há algum tempo, estava começando a arrumar a mesa para uma festinha quando vi que meu armário estava bastante desfalcado. Não foi difícil nem triste lembrar como meus cálices foram partindo, um por um. Foi bom. E gostei dos conjuntos desfeitos, da mesa com as taças diferentes, onde tantas vezes confraternizamos com família e amigos queridos, brindando filhos, empregos novos, aniversários, superações e reencontros.

Hoje, arrumo a mesa com um mix de taças dos vários conjuntos que já passaram por aqui. Em cada jantar, há um apanhado dos bons momentos vividos, um recorte da vida codificado pela multiplicidade de cálices e taças. Que venham mais brindes! Porque só com alegria é que se consegue ir em frente. Quebrar os cristais é sempre sinal de boa sorte. Prefiro minhas taças quebradas a escondidas dentro de um armário fechado. Assim é a vida, não é mesmo?

testeO rabo das palavras

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(Fonte: http://bit.ly/1l83yia)

O ano de 2015 está quase acabando, graças a Deus — atrevo-me a dizer. É claro que nem tudo foi ruim. Pequenas alegrias iluminaram meus dias, e é delas que quero me recordar mais adiante, quando fizer a curva e olhar para trás. Houve uma coisa muito legal este ano, que quero levar comigo pela vida: descobri, inusitadamente, que gosto de dar aulas. Nunca pensei em ser “professora”. Nunca mesmo. Meu processo criativo é tão desordenado, tão visceral, que jamais imaginei poder ajudar alguém a enveredar por esse mundo impalpável das palavras e das histórias. Porém, quando criei coragem, lá estava eu em frente a quinze alunos — eu e meus singelos apontamentos, eu e minhas dúvidas, eu e minha paixão pela ficção. E tem sido tão bom compartilhar, multiplicar, iluminar… Tem sido tão bom dividir essa aventura que é escrever um livro!

Sempre admirei os músicos porque, no palco, eles têm a possibilidade de dividir o trabalho. A literatura, com seus mistérios e segredos, é um exercício solitário. O escritor escreve sozinho e o leitor lê sozinho — essa ponte invisível que se forma entre ambos permanece como um campo energético, mas é fluida, secreta, silenciosa. No seu último show em Porto Alegre, Jorge Drexler (sempre iluminado) disse que queria criar ali, no teatro, um ponto cego onde a tristeza não entrasse. “La pena no llega hasta aquí”, cantou ele em “La luna de Rasquí”. É isto que sinto na sala de aula cercada pelos meus “alunos”: nas poucas horas em que permanecemos juntos, a tristeza dá um jeito de desaparecer, e alguma outra coisa, leve, vigorosa, fácil e feliz, se imiscui entre nós. Essa coisa, creio eu, é a ficção, são as histórias — porque sem as histórias a gente não vive.

É como escreveu Guimarães Rosa no seu Grande Sertão: Veredas: “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é o viver mesmo… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

Viver é perigoso, mas escrever uma boa história é ir até o rabo da palavra.

testePequeno interlúdio botânico

Acontece que na nossa casa de praia temos um jardinzinho. Não é grande nem tem alamedas — como a definição da palavra que consta do dicionário —, mas seu tamanho é suficiente para que eu me sinta feliz ao ver ali rosas (fingindo talvez ser uma dama de antigamente, tal qual a sra. Ramsay) e, às vezes, quando estou triste, arrastar uma espreguiçadeira até a sombra de uma árvore e ficar pensando na vida. Enfim, nada que espante os olhos, mas o bastante — esse meu jardinzinho — para acalmar o coração.

Acontece que temos um jardineiro que vai lá para tratar a grama, aplicar remédios nas flores, matar as lagartas e nos contar pequenas histórias dos outros grandes jardins de que ele cuida com muito êxito e grande trabalheira. Nosso jardineiro é uma pessoa com absoluto senso prático. Talvez, como diria Vinicius de Moraes, um médico de rosas — foi pelas mãos dele que as rosas brotaram ao pé da janela. Ele sabe muito: basta olhar o céu para nos dizer se fica sol ou se vem a chuva Quase nunca erra, por isso é possível fazer planos se baseando somente em seus juízos.

Às vezes, acontece de viver suas angústias, o nosso jardineiro. Este ano, disse-me que a primavera está tão fria e chuvosa que suas flores e plantas não nasceram ou se atrasaram à espera do verão. Está sendo um grande estresse para ele. Seus patrões imaginam o jardim repleto de lírios, rosas, buganvílias, margaridas, jasmins e lavandas. Mas as flores ainda dormem, desatentas aos cuidados com que ele as cumula, tentando reparar os desatinos imprevisíveis do clima.

Fiquei pensando bastante nisso. Hoje em dia, todo mundo anda tão tenso, sempre tão angustiado com horários, cotações, delações e diagnósticos… Segue aqui nosso jardineiro também com seus problemas — angustia-se com a cor e a saúde das rosas, com os botões que não querem abrir ou com o gramado que precisa de reparos. A competência leva o homem às raias da perfeição. A vida é assim para todos: uma lição que aprendi esses dias, vendo-o correr de uma casa a outra — eu que pensava que cuidar de flores sossegasse a alma. Tentando compensar as plantas pela falta que lhes faz a primavera, o jardineiro trabalhou o dobro. E segue cumulando as rosas de atenção, como um pai amoroso que quer poupar os filhos das inevitáveis agruras desta vida.

testeDos amores

A amizade, um dos amores mais sábios. (via)

A amizade, um dos amores mais sábios. (fonte)

Amar alguém não é entender uma pessoa. A compreensão está bem mais perto da amizade — que é um tipo de amor, claro, mas que não guarda a ânsia do amor.

Existem, porém, amores profundos, atávicos — filhos, amantes, certas pessoas da família a quem queremos especialmente bem —, os quais, por mais fortes que sejam, passam muito longe da compreensão. A gente ama e fim. Temos que lidar com a enormidade abstrata desse afeto.

Passamos a vida cuidando dos nossos amores, daqueles verdadeiramente importantes para nós. Com o correr do tempo, na maioria dos casos, vemos que eles precisam de coisas muitas vezes inalcançáveis, e que estas coisas — sonhos, projetos, ambições — podem não nos dizer absolutamente nada. Porque o amor não nos torna iguais. Existem amores intrínsecos, que levamos pela vida afora, como um fardo, uma alegria, uma dor, uma saudade…

Quase nunca podemos compreender as pessoas mais próximas a nós, assim como o que temos para lhes oferecer nem sempre é o que elas realmente querem. A vida é difícil. As relações sentimentais são cheias de arestas, que espetam aqui e ali. Deveríamos, no entanto, esquecer essa necessidade de satisfazer ao outro, entendê-lo e esmiuçá-lo. Poderíamos então abrir mão de que o objeto amado seja igual a nós.

Seria muito mais bonito querer as pessoas que nos são importantes com um amor mais simples, mais sóbrio, que humildemente dispensasse a necessidade da compreensão.