testeOs melhores jovens escritores americanos da década

A cada dez anos, a revista Granta seleciona os autores mais promissores dos Estados Unidos e do Reino Unido com menos de 40 anos. Dentre os 21 escritores da lista divulgada esta semana, três são publicados pela Intrínseca.

 

Aos 28 anos, Emma Cline foi aclamada pela crítica por sua estreia literária. De acordo com a vencedora do Pulitzer Jennifer Egan, As garotas “reverbera com uma prosa surpreendente, brilhante e repleta de vitalidade”. O livro já foi publicado em mais de 35 países e será lançado no Brasil em maio.

A narrativa de Cline foi inspirada no impacto causado pelos assassinatos cometidos pelo culto de Charles Manson nos Estados Unidos na década de 1960 e narra o processo de crescimento pessoal de um grupo de jovens. As garotas é um retrato atemporal das turbulências, das vulnerabilidades e da força das mulheres em sua passagem à maturidade — e de como, com apenas um passo errado, tudo pode acabar terrivelmente mal.

Nascida na Califórnia, Emma Cline tem trabalhos de ficção publicados em importantes veículos como Tin House, Granta e The Paris Review. Em 2014, foi agraciada com o Paris Review Plimpton Prize.

 

Aos 38 anos, Lauren Groff já recebeu diversos prêmios literários e é autora de Destinos e fúrias, romance finalista do National Book Award e que figurou na lista de melhores livros de 2015 do ex-presidente americano Barack Obama.

Publicado no Brasil em 2016, Destinos e fúrias narra, a partir de duas perspectivas, as verdades e as mentiras de um casamento e como os segredos podem ser a chave para o sucesso de uma relação. Na obra, Lotto e Mathilde se conhecem ainda jovens, nos últimos meses da faculdade. Perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso, antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho torna-se mais sólido: ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. Mas a vida dos dois, invejada por muitos como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida, não é exatamente o que parece.

Nascida em Nova York, Lauren Groff é autora de outros três best-sellers e foi finalista do Orange Prize para Novos Escritores e do L.A. Times Book Prize. Seus contos foram publicados em revistas como The New Yorker, Harper’s Bazaar, Tin House e The Atlantic, assim como em diversas antologias.

 

Anthony Marra tem 32 anos e é autor de Uma constelação de fenômenos vitais. Publicado pela Intrínseca em 2014, o livro narra a vida de um grupo de pessoas que passa por situações extremas.

Interessado em contar uma história de superação, amizade e amor que se passasse em um local devastado pela violência — a Chechênia no período entreguerras —, Marra criou um romance em que nenhum personagem é desprezado e conexões complexas interligam os passados de companheiros extremamente improváveis.

Nascido em Washington, Marra recebeu o Pushcart Prize, o Narrative Prize (ambos em 2010) e o Whiting Award (2012). Em 2014 recebeu o prêmio John Leonard oferecido pelo National Book Critics Circle, além de ter sido finalista em 2013 do National Book Award e do Flaherty-Dunnan First Novel Prize.

Confira a lista completa da Granta.

teste17 livros para um verão incrível

Confira nossa seleção de livros para um verão literário:

1. Aconteceu naquele verão,organizado por Stephanie Perkins — O livro reúne doze contos apaixonantes e surpreendentes de doze escritores amados pelos jovens, como Cassandra Clare e Veronica Roth. Com as mais diversas referências que agradam desde o leitor mais romântico aos fãs do seriado Black Mirror, o livro é ideal para quem adora histórias de amor de todos os tipos. [Leia+]

2. A química, de Stephenie Meyer — Uma ex-agente especial fugindo dos antigos empregadores precisa aceitar um novo trabalho para limpar seu nome e salvar a própria vida. A química, o primeiro lançamento inteiramente inédito de Stephenie Meyer em seis anos, é um thriller diferente de tudo o que ela já publicou. [Leia +][Leia um trecho]

3. Cinquenta tons mais escuros, de E L James — Com capa inspirada no filme, a edição especial do segundo livro da trilogia tem conteúdo extra: fotos e comentários da autora sobre os bastidores da aguardada sequência cinematográfica e ainda um trecho antecipado de Cinquenta tons mais escuros pelos olhos de Christian, próximo romance de E L James. [Leia +]

4. O martelo de Thorde Rick Riordan — No segundo livro da série Magnus Chase e os deuses de Asgard, o filho do deus Frey descobrirá que casamentos arranjados ainda não saíram de moda: para recuperar o martelo de Thor, que está nas mãos dos inimigos, Loki, o deus da trapaça, propõe uma aliança entre semideuses e gigantes. [Leia +] [Leia um trecho]

 5. Não se enrola, não, de Isabela Freitas — “Enrolar-se: pensar de um jeito e fazer exatamente o contrário.” Após Não se apega, não e a sequência, Não se iluda, não, Isabela Freitas mostra em seu terceiro livro os primeiros passos de seus personagens na vida adulta, com toda a independência e as responsabilidades que ela proporciona. [Leia +][Leia um trecho]

 6. O som do amor, de Jojo Moyes — um romance sobre obsessão, manipulação, segredos e paixões, O som do amor é um dos primeiros livros da autora do best-seller Como eu era antes de você. Por meio de personagens carismáticos e capazes de tudo para realizar seus objetivos, Moyes mantém seu estilo inconfundível em uma brilhante história sobre recomeços. [Leia +][Leia um trecho]

7. Gentil como a gente, de Fernanda Gentil — Com leveza e humor, Fernanda Gentil conta uma história de amores vivida por uma família singular e ao mesmo tempo igual à de todo mundo. Mocinha (ou Fernanda?) briga e, com a frequência de eclipses lunares, pede desculpas. Quando quer, sabe ser fofa. E mostra-se craque em entender as diferenças entre o feminino e o masculino, mata no peito, sai de impedimento, bota para escanteio e bate um bolão. Porque o que Fernanda mais quer é fazer e ser feliz. Sem firulas. Gentil. Como a gente. [Leia +]

8. Garoto21, de Matthew Quick  Finley utiliza o basquete para aliviar suas preocupações, enquanto Russ não quer mais se aproximar de uma bola. Depois de sofrer um grande trauma, ele fica em estado de negação e passa a se considerar um alienígena de passagem pela Terra. Com a missão de ajudar Russ a se recuperar, Finley tenta convencer o garoto a voltar a jogar, mesmo que isso signifique perder o próprio lugar na equipe. Uma emocionante história sobre esperança, amizade e redenção, com a prosa sensível e inteligente de Matthew Quick. [Leia +]

9. A filha perdida, de Elena Ferrante — Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de Leda, uma professora universitária de meia-idade que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide passar férias no litoral sul da Itália. [Leia +] [Leia um trecho]

10. Fãs do impossível, de Kate Scelsa — Mira, Sebby e Jeremy são três amigos em meio aos complexos conflitos da adolescência. Mesmo sentindo-se despedaçados, sem motivos para serem amados e tentando não sucumbir à solidão, eles lutam pela vida, cada um à sua maneira. Mira está começando em uma escola nova, depois de passar um tempo no hospital. Sebby é um garoto brincalhão que leva a vida com boas doses de mentira e bom humor, até que seu lado mais destrutivo vem à tona. Jeremy está retornando à antiga escola, depois de um tempo afastado por causa de um incidente traumático que arruinou seu ano letivo.

 11. História da sua vida e outros contos, de Ted Chiang — Ícone da ficção científica contemporânea é publicado pela primeira vez no Brasil em coletânea que inclui o conto que inspirou o filme A Chegada. Com apenas quinze trabalhos publicados, entre contos e novelas curtas, a pequena produção de Chiang contrasta com a expressiva quantidade de premiações: os oito textos reunidos em História da sua vida e outros contos ganharam no total nove importantes prêmios, dentre eles Nebula, Hugo, Locus, Sturgeon, Sidewise e Seiun. [Leia +][Leia um trecho]

12. Pax, de Sara Pennypacker — Peter e sua raposa, Pax, são inseparáveis desde que ele a resgatou, órfã, ainda filhote. Um dia, o inimaginável acontece: o pai do menino vai servir na guerra e o obriga a devolver Pax à natureza. Ao chegar à distante casa do avô, onde vai morar por um tempo, Peter reconhece que não está onde deveria: seu verdadeiro lugar é ao lado de Pax. Movido por amor, lealdade e culpa, ele parte em uma jornada solitária de quase quinhentos quilômetros para reencontrar sua raposa, apesar da guerra que se aproxima. Enquanto isso, mesmo sem desistir de esperar por seu menino, Pax embarca em suas próprias aventuras e descobertas. [Leia +]

13. Alucinadamente feliz: Um livro engraçado sobre coisas horríveis, de Jenny Lawson  Longe de ser uma pessoa comum, Jenny Lawson se considera uma colecionadora de transtornos mentais. Por essa perspectiva, sua vida pode parecer um fardo insustentável. Mas não é. Após receber a notícia da morte prematura de mais um amigo, Jenny decide não se deixar levar pela depressão e resolve que criará para si o maior número possível de experiências hilárias e ridículas a fim de encontrar o caminho de volta à sanidade. [Leia +]

14. A agenda antiplanos, de Keri Smith — Com espaços sem data e distribuídos aleatoriamente para você fazer um resumo do mês que desejar, o novo projeto da autora de Destrua este diário funciona como um diário criativo, que vai ajudar o leitor a estruturar os pensamentos de uma forma nada limitada nem previsível. [Leia +]

15. O livro dos Baltimore, de Joël Dicker — O novo romance do autor de A verdade sobre o caso Harry Quebert revisita seu personagem mais emblemático: Marcus Goldman. Marcus teve uma juventude inesquecível em Baltimore, cidade em que passou seus melhores momentos ao lado da família até que um acontecimento mudou a vida de todos. Oito anos depois desse fatídico dia, Marcus ainda tenta montar o quebra-cabeça e desvendar o passado. [Leia +]

16. Como combater a fúria de um dragão, de Cressida Cowell — O emocionante desfecho da série Como treinar o seu dragão coloca frente a frente humanos e dragões. Quem vai vencer a Batalha Final? Repleto de ilustrações, ação, humor e mensagens inspiradoras, o combate agora caminha para o seu fim. [Leia +]

17. Destinos e Fúrias, de Lauren Groff — Aos 22 anos, Lotto e Mathilde são jovens, perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso. Eles se conhecem nos últimos meses da faculdade e antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho tornou-se mais sólido. Ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. A vida dos dois é invejada como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida. Porém, nem tudo é o que parece, e em um casamento essa máxima se faz ainda mais verdadeira. Se em “Destinos” somos seduzidos pela imagem do casal perfeito, em “Fúrias” a tempestuosa raiva de Mathilde se revela fervendo sob a superfície. Em uma reviravolta complexa e emocional, o que começou como uma ode a uma união extraordinária se torna muito mais. [Leia +]

 

testeDez livros que Rory, de Gilmore Girls, leria

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Nove anos depois do último episódio, a série Gilmore Girls estará de volta neste mês na Netflix. O anúncio gerou uma grande comoção dos fãs, que já estão contando os dias para matar as saudades de Lorelai e Rory.  A atração narra a vida de mãe e filha que moram em uma pequena cidade americana e vivem conflitos existenciais, sociais e amorosos.

Na história, a personagem Rory é uma leitora voraz e sonha em ser jornalista. Ao longo das temporadas, ela leu mais de 300 obras! Por isso criamos uma lista — com títulos publicados nos últimos anos — que ela poderia gostar de ter na estante:

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A filha perdidaNão temos dúvida de que Rory faria parte do grupo de leitores que se emocionam com as histórias de Elena Ferrante.

Em A filha perdida, livro inédito no Brasil, Leda é uma professora universitária de quarenta e poucos anos que decide tirar férias no sul da Itália após as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai. Com elementos simples e uma trama bem construída, a obra acompanha os sentimentos conflitantes dessa personagem que reflete a maternidade, os desejos e as vontades das mulheres.

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A garota com tribal nas costasQuem conhece bem a Rory sabe que ela com certeza seria fã de Amy Schumer. As duas têm um humor ácido e dão voz às questões universais da vida das mulheres.  Nesse livro, a atriz, comediante e roteirista expõe suas histórias sobre adolescência, família, sexo e relacionamentos de uma forma corajosa e divertida.

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Uma chance de lutarRory sempre sonhou em ser jornalista e teve a chance de cobrir a corrida presidencial americana de 2008. Esse livro seria importante para ajudar a conhecer mais Elizabeth Warren, um dos nomes mais relevantes da política dos Estados Unidos.

Warren é filha de um zelador e uma telefonista, venceu as dificuldades da família e o lugar-comum da época de que o principal objetivo de toda mulher era conseguir um bom casamento. Ela tornou-se professora em Harvard, atuou como consultora do Congresso americano e assistente do presidente Barack Obama.

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Destinos e fúriasNa série, Rory teve a oportunidade de trabalhar com a equipe de Barack Obama. Com certeza, essa experiência aguçaria a curiosidade dela sobre o que está na lista de leitura do presidente americano. Além disso, a obra de Lauren Groff foi eleita a melhor de 2015 por Obama. Tem alguma chance de esse livro passar despercebido pela jovem?

Destinos e fúrias mostra os dois lados de um casamento. O livro é dividido em duas partes: em Destinos, temos a visão da história sob ótica de Lotto e em Fúrias, o olhar de Mathilde.

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Nimona — Esse livro tem muitas razões para conquistar Rory: a personagem principal é feminista, a autora já ganhou indicações e prêmios dentro e fora do mundo dos quadrinhos. Nimona é  uma graphic novel sobre uma jovem anti-heroína que tem o poder de mudar de forma quando quer.

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Garota exemplarComo leitora voraz, seria impossível ignorar a narrativa viciante de Gillian Flynn. Garota exemplar é o tipo de livro que poderia ser devorado em poucos dias por Rory, já que é um thriller perturbador sobre um casamento em crise.

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Simon vs. a agenda Homo SapiensO romance de Becky Albertalli faria Rory suspirar e recordar dos primeiros amores! O livro conta a história de Simon, um adolescente de dezesseis anos que é gay, mas ninguém sabe. Ele só não contava que Martin, o bobão da escola, iria chantageá-lo ao descobrir sua troca de e-mails com Blue, pseudônimo de um garoto misterioso que a cada dia faz o coração de Simon bater mais forte.

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Vale-tudo da notícia: O escândalo de grampos, suborno e tráfico de influência que abalou um dos maiores conglomerados de mídia do mundo — Como estudar jornalismo sempre foi um grande sonho, Rory deveria incluir a obra em sua lista de leitura! No livro, o repórter Nick Davies investiga o escândalo e revela os bastidores do tabloide britânico News of the World.

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Max Perkins, um editor de gêniosO livro sobre Max Perkins estaria na estante de Rory por contar a história de um dos nomes que revolucionou a literatura norte-americana e que apostou em talentos como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe, ídolos literários da jovem.

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Toda luz que não podemos verO livro de Anthony Doerr foi vencedor do prêmio Pulitzer de ficção de 2015. Só esse título já seria suficiente para conquistar a personagem de Gilmore Girls. O elogiado romance histórico é ambientado na Alemanha e na França antes e durante a Segunda Guerra Mundial. A obra entrelaça as histórias de uma garota cega francesa, um garoto órfão alemão e um oficial nazista em busca de uma joia extremamente valiosa.

testeUma história em dois atos

Por Julia Wähmann*

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Eu sabia basicamente duas coisas a respeito de Destinos e fúrias, livro da americana Lauren Groff, quando recebi meu exemplar: que o assunto era casamento e que Barack Obama o havia eleito entre seus preferidos de 2015. A declaração do presidente dos Estados Unidos, por si só, dispensaria quaisquer outras apresentações ou artigos sobre a obra em questão. Não me atreveria a discordar de Obama. No entanto, terminei a leitura desconfiada de que reduzir o livro ao espectro do casamento seria cair na armadilha de condená-lo a um rótulo que, ainda que rico, soa estreito.

A diferença entre comédia e tragédia não passa de um truque, e depende exclusivamente do leitor: esta é a lição que Lotto aprende numa aula de literatura, no mesmo dia em que é introduzido à obra de William Shakespeare. É preciso um gigante para despertar outro, e é a partir desse encontro que Lancelot Satterwhite — apelidado Lotto por sua tia Sallie logo após seu nascimento — começa a dar seus primeiros passos no mundo do teatro.

untitledJovem, rico e dono de um magnetismo proporcional aos seus quase dois metros de altura, Lotto torna-se ator ao mesmo tempo que sua fama de conquistador se espalha. A rotatividade de mulheres em sua cama — ou nas dependências da universidade — tem fim quando, numa festa, Lotto se apaixona por Mathilde, uma garota calada, sem amigos, de beleza dúbia e porte de manequim. Em poucas semanas os dois se casam às escondidas, Lotto é deserdado pela mãe, a viúva Antoinette que administra a fortuna da família na Flórida, e se muda com Mathilde para um apartamento subterrâneo em Manhattan, Nova York, cenário de festas que fariam Jay Gatsby se revirar no túmulo.

A primeira das duas partes do livro de Groff é centrada na figura de Lotto, que de ator com poucos trabalhos passa a dramaturgo, impulsionado pela mulher, que assume os bastidores da cena. Lotto alcança o sucesso e o prestígio que todos sempre esperaram dele, e ainda que seu ofício não o permita mais interpretar grandes personagens, é ele quem está constantemente sob os holofotes. Seu êxito se expande de forma ascendente, assim como o apetite sexual por sua mulher, a quem se mantém fiel.

O casamento de Lotto e Mathilde é mais erótico que a maioria das ficções comerciais assumidamente safadas. Ambos parecem encarnar com perfeição os papéis a que o casamento tradicionalmente designa aos gêneros também tradicionalmente reconhecidos. Mathilde está sempre pronta para o sexo, para cuidar da casa, para permanecer nas coxias do teatro, aquele limbo escuro entre o palco e as engrenagens e os camarins das casas de espetáculos, tudo para que Lotto continue se sentindo “exuberante”.

Há buracos, entretanto. Algo no desenrolar dos fatos deixa lacunas na história do casal, e cresce no leitor uma desconfiança a respeito dos protagonistas. Como se a fábula bem-sucedida ocultasse certas peças, como se não fosse possível tamanha docilidade e conformidade de Mathilde, como se a sensibilidade de Lotto fosse imune à vida de sua própria companheira.

A história de Lotto e Mathilde é tão envolvente que por vezes esqueci que era fruto da mente e das maquinações de uma ficcionista. Há uns anos Ian McEwan declarou, numa conversa com Jennifer Egan e Arthur Dapieve, na Flip, que manipular o leitor era “o maior prazer” de sua vida. O escritor inglês não quis dizer, contudo, que o fazia gratuitamente. Na segunda parte de seu livro, Lauren Groff reafirma essa máxima, ao mudar o eixo da narrativa e revelar a trajetória do casal pela perspectiva de Mathilde. A autora então confronta as convicções do leitor a respeito da vida conjugal de ambos.

Aos poucos entendemos que é Mathilde quem viabiliza o sucesso estrondoso do marido, se valendo de práticas muitas vezes pouco louváveis; é Mathilde quem, em tempos de vacas magras, encontra os meios financeiros para ter o mínimo em casa. As armas de Mathilde são as mesmas das quais se utilizam escritores de ficção. Ela domina todas as engrenagens escondidas pelos cenários e cortinas dos teatros, sabe a hora exata de entrar e sair de cena, e arquiteta seus movimentos com precisão, sem deixar rastros. Conhece seus pares profundamente, e os guia como se desse vida a marionetes.

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Se o que aparece em primeiro plano são Lotto, sua luz e a instituição do casamento como uma espécie de intimidação para a mulher, o que se descortina com a versão de Mathilde é uma subversão de regras que ela molda na penumbra. Se na primeira parte do livro Mathilde passa a impressão de fraca, na segunda é Lotto quem parece bobo. Se de um lado o herói é o homem, de outro a heroína é a mulher. Porém, mais do que resignificar todo o primeiro capítulo ou apenas esclarecer o que parecia incompleto, a segunda parte do livro vem para que possamos ver como são feitas as escolhas dos personagens e da autora, e como todos eles — ainda que sejam um só, em última instância – estão empenhados no exercício de manipulação do qual diversos autores são adeptos.

Lotto pode ter enxergado Mathilde como a criatura mais perfeita, pura e boa que já conheceu, sem se dar conta dos segredos sombrios da mulher e sem perceber como seu sucesso foi forjado por ela. Ou ele pode ter escolhido ver e registrar a leveza. Pode, ainda, ter se aproveitado das estruturas culturais e sociais que autorizam o homem a colher os louros sem reconhecer o mérito de suas esposas. O livro pode ser lido como uma narrativa sobre as ambiguidades, as injustiças e as rachaduras do casamento numa cultura machista e, sem dúvida, cumpre esse papel com contundência. Mas também pode falar de estratégias e jogos narrativos que surpreendem e desviam o rumo das histórias. Comédia ou tragédia, uma coisa é certa: quem ri por último é Lauren Groff.

>> Leia um trecho de Destinos e fúrias

 

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press). Em 2016 publica Cravos (Record, no prelo).

testeO furacão chamado Destinos e Fúrias

Por João Lourenço*

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A animação do verão ficou para trás, a luz da cidade desaparece rápido. As camadas de roupa aumentam e o humor diminui. Festas em rooftops e banhos de sol no Central Park são substituídos por festivais literários e grandes lançamentos na Broadway, nos cinemas e nas livrarias. Esse é o típico outono em Nova York: estação em que as pessoas procuram conforto e energia em atividades culturais. O calor da cidade renasce em peças, filmes e, claro, livros! E sempre há um favorito entre a enxurrada de lançamentos na cidade. Quando você percebe, todo mundo está segurando a mesma obra no metrô, em cafés e nos restaurantes. Amizades são formadas. Ano passado, algo curioso aconteceu: o favorito do outono se transformou no favorito do ano — um furacão chamado Destinos e Fúrias que atingiu todos os 50 estados americanos.

Do Instagram de celebridades como Miranda July e Sarah Jessica Parker às listas de melhores do ano dos grandes veículos, o romance estava em todos os lugares. A Amazon tornou oficial tamanha comoção e o nomeou o melhor livro publicado em 2015. Até a Casa Branca se manifestou: “Destinos e Fúrias é o melhor livro que li este ano”, sentenciou o presidente Barack Obama. Em seguida, a autora, Lauren Groff, tuitou: “Acabei de morrer, voltei à vida, reli o que ele disse e morri novamente. É isso: posso me aposentar.” Calma, Lauren, este é apenas seu terceiro livro.

untitledVamos lá: por que um livro sobre casamento mexeu com tanta gente? Não tenho resposta para essa pergunta, mas Lauren Groff começou a escrever Destinos e Fúrias tentando justamente responder aos próprios questionamentos sobre o assunto. “Quando se trata de casamento, sou ambivalente. É a melhor e a pior coisa do mundo. É um lugar seguro, mas também uma camisa de força”, explicou em entrevista para o site Gawker.
Em Destinos e Fúrias, os dois personagens principais são Lotto e Mathilde. Eles se conhecem em uma festa já no fim da faculdade. Mathilde é uma estudante solitária e de beleza um tanto excêntrica. Lotto é ator com um futuro promissor, carismático e rico. No impulso, eles se casam em duas semanas. Os primeiros anos são difíceis, mas a união se solidifica com o apoio de amigos e familiares.

Anos mais tarde, após sucessivos fracassos, Lotto se torna um dramaturgo famoso enquanto Mathilde passa a se dedicar exclusivamente ao sucesso do marido. Apesar do relacionamento causar inveja em muita gente, nem tudo é o que parece. Aqui, a autora nos lembra da máxima “no fim do dia, nunca sabemos com quem estamos dormindo” e analisa o casamento em um microscópio. “Desde o começo, eu sabia que escreveria algo que tivesse o clássico: ele disse vs ela disse. Cheguei a pensar que poderiam ser dois livros separados, mas isso não teria funcionado, no fim das contas”, disse para o Gawker. 

Os dois livros acabaram reunidos em um romance estruturado em partes distintas. A primeira, “Destinos”, narra os eventos sob a perspectiva de Lotto, e a segunda, “Fúrias”, de Mathilde. É assim porque Lotto é o mais dramático, aquele que o destino (a sorte de nascer com dinheiro e privilégios) favoreceu. E é dividido dessa forma porque Mathilde opera nos bastidores e nas sombras, guardando a maior parte dos segredos — os piores.

É preciso ler a versão de Lotto sobre Mathilde para compreender a versão de Mathilde sobre Lotto, mas não se trata de duas versões sobre a mesma história. Destinos e Fúrias compila as narrativas de dois personagens diferentes que têm apenas um detalhe em comum: são casados. “As duas partes do livro têm tons diferentes. Vejo Lotto como a Flórida, lugar em que nasceu: selvagem, verde luxuriante, ouro, luz do sol. Já Mathilde eu vejo como um azul muito frio”, afirma a autora.

A mudança na sonoridade e na estrutura de Destinos e Fúrias foi inspirada nas peças de Shakespeare. “Li muitas peças de Shakespeare. O que me fascina no seu trabalho é que ele é cômico e trágico ao mesmo tempo. Bastante poético e, às vezes, pega pesado”, contou à rádio NPR. As vozes do romance são distintas: a de Lotto é lírica e sonhadora, lembra a voz de um melhor amigo que conta histórias em volta de uma fogueira; a de Mathilde é áspera, direta e cruel.

Destinos e Fúrias é um livro que requer atenção e dedicação do leitor, apresenta uma estrutura complexa, linguagem afiada e tons variáveis. Porém, neste caso, a escritora criou um labirinto que seduz ao invés de assustar: sua narrativa é atraente a ponto de convencer o leitor a ser levado por todos os caminhos propostos.

Fui fisgado logo nas primeiras páginas. Quando começo um livro, penso no que a escritora Joan Didion disse: “Alguns romances devem ser devorados em apenas uma sentada.” Para minha surpresa, passei por essa experiência com o furacão que é o romance de Lauren. Li Destinos e Fúrias em uma sentada — com exceção de algumas paradas para devorar tudo que encontrasse na geladeira. A narrativa deixa um vazio no estômago, uma fome insaciável, faz você ficar ansioso e te leva a questionar das mais básicas às mais complexas questões sobre o significado não apenas de um casamento, mas de qualquer relacionamento.

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeLançamentos de maio

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Confira sinopses e trechos dos livros que publicaremos neste mês:

 

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Destinos e Fúrias, de Lauren Groff — Aos 22 anos, Lotto e Mathilde são jovens, perdidamente apaixonados e destinados ao sucesso. Eles se conhecem nos últimos meses da faculdade e antes da formatura já estão casados. Seguem-se anos difíceis, mas românticos. Uma década depois, o caminho tornou-se mais sólido. Ele é um dramaturgo famoso e ela se dedica integralmente ao sucesso do marido. A vida dos dois é invejada como a verdadeira definição de parceria bem-sucedida.

Porém, nem tudo é o que parece, e em um casamento essa máxima se faz ainda mais verdadeira. Se em “Destinos” somos seduzidos pela imagem do casal perfeito, em “Fúrias” a tempestuosa raiva de Mathilde se revela fervendo sob a superfície. Em uma reviravolta complexa e emocional, o que começou como uma ode a uma união extraordinária se torna muito mais. [Leia +]

 

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Como eu era antes de você (capa filme), de Jojo Moyes — Depois de emocionar milhares de leitores no mundo todo, o irresistível romance de Jojo Moyes chega aos cinemas com roteiro adaptado pela própria autora e com Emilia Clarke (Game of Thrones) e Sam Claflin (Jogos Vorazes) nos papéis de Lou e Will.

Lou Clark, uma jovem cheia de vida e espontaneidade, perde o emprego e é obrigada a repensar toda sua vida. Will Traynor sabe que o acidente com a motocicleta tirou dele a vontade de viver. O que Will não sabe é que a chegada de Lou vai trazer de volta a cor à sua vida. E nenhum deles desconfia de que esse encontro irá mudar para sempre a história dos dois. [Leia +] >> Ouça a trilha sonora de Como eu era antes de você

 

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A última carta de amor, de Jojo Moyes Londres, 1960. Ao acordar em um hospital após um acidente de carro, Jennifer Stirling não consegue se lembrar de nada. De volta a sua casa com o marido, descobre uma série de cartas de amor escondidas, endereçadas a ela e assinadas apenas por “B”, e percebe que não só estava vivendo um romance fora do casamento como também parecia disposta a arriscar tudo para ficar com o amante.

Quatro décadas depois, a jornalista Ellie Haworth encontra uma dessas cartas durante uma pesquisa nos arquivos do jornal em que trabalha. Envolvida com um homem casado, Ellie fica obcecada em reunir os protagonistas desse amor proibido.

Com personagens realisticamente complexos e uma trama bem-elaborada, A última carta de amor, primeiro livro de Jojo Moyes publicado pela Intrínseca, entrelaça as histórias de paixão, adultério e perda das personagens Ellie e Jennifer. [Leia +] >> Nossa editora Rebeca Bolite conta os bastidores da publicação do livro

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O oráculo oculto, de Rick Riordan — Como você pune um deus imortal? Transformando-o em humano, claro! Depois de despertar a fúria de Zeus por causa da guerra com Gaia, Apolo é expulso do Olimpo e vai parar na Terra, mais precisamente em uma caçamba de lixo em um beco sujo de Nova York.

Fraco e desorientado, ele agora é Lester Papadopoulos, um adolescente mortal com cabelo encaracolado, espinhas e sem abdome tanquinho. Sem seus poderes, a divindade de quatro mil anos terá que descobrir como sobreviver no mundo moderno e o que fazer para cair novamente nas graças de Zeus. [Leia +]

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Porcelain, de Moby — Havia diversas razões para Moby jamais deslanchar como DJ e músico na cena club nova-iorquina. Aquela era a Nova York das boates Palladium, Mars, Limelight e Twilo, a cidade do hedonismo desenfreado regado a drogas, e lá estava Richard Melville Hall, descendente distante do autor de Moby Dick, um garoto branco, pobre e magrelo de Connecticut, cristão devoto, vegano e totalmente careta. Ele encontrou seu espaço e alcançou o sucesso, que logo se mostrou efêmero e cheio de complicações. No desfecho da década de 1990, frente a um fim iminente, acabou criando o álbum que viria a ser o início de uma nova fase espetacular: Play, que vendeu milhões de cópias no mundo todo. [Leia +] >> Moby apresenta sua autobiografia para os leitores

 

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Garoto21, de Matthew Quick Finley utiliza o basquete para aliviar suas preocupações, enquanto Russ não quer mais se aproximar de uma bola. Depois de sofrer um grande trauma, ele fica em estado de negação e passa a se considerar um alienígena de passagem pela Terra.

Com a missão de ajudar Russ a se recuperar, Finley tenta convencer o garoto a voltar a jogar, mesmo que isso signifique perder o próprio lugar na equipe. Uma emocionante história sobre esperança, amizade e redenção, com a prosa sensível e inteligente de Matthew Quick. [Leia +] >> Qual personagem de Matthew Quick você é? 

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Como mentir com estatística, de Darrel Huff — Publicado pela primeira vez em 1954, o livro de Darrell Huff foi saudado como pioneiro em conjugar linguagem simples e ilustrações para explicar de que maneira o mau uso da estatística pode maquiar dados e abalizar opiniões. Indispensável para quem se vê bombardeado diariamente, seja pela mídia ou pela timeline do Facebook, por infográficos e estatísticas que se pretendem verdades incontestáveis.

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Os afetos, de Rodrigo Hasbún — Com elementos biográficos, históricos e ficcionais e narrado por diferentes personagens, Os afetos compreende um período de cinquenta anos da vida dos integrantes da família Ertl. Na polifonia da qual participam não apenas pai, mãe, filhas, mas também amantes e maridos, Rodrigo Hasbún reconta, à margem do idealismo, a convulsão política que abalou a América Latina na década de 1960, explorando as dificuldades que surgem ao se tentar conciliar as consequências das próprias decisões, tanto políticas quanto sentimentais. [Leia +]

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Ted Talks — O guia oficial do TED para falar em público, de Chris AndersonPalestras perfeitas, inspiradoras e de grande alcance. Um orador que sobe no palco e acerta no alvo. Assim são as Conferências TED, e este é o guia definitivo do TED para que você também possa fazer palestras inesquecíveis.

Desde que assumiu o comando do TED em 2001, Chris Anderson tem mostrado o poder que as palestras curtas, francas e cuidadosamente elaboradas do programa têm de compartilhar conhecimento, despertar empatia, gerar empolgação e promover sonhos. Feita da maneira certa, uma apresentação é capaz de eletrizar um auditório e transformar a visão de mundo da plateia — seu impacto pode ser mais poderoso que o de qualquer informação escrita. [Leia +]

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Frank Einstein e o turbocérebro, de Jon Scieszka — No terceiro livro da série Frank Einstein, Frank (um gênio mirim, cientista e inventor), Klink (uma inteligência artificial automontada) e Klank (uma inteligência artificial praticamente automontada) constroem um artefato inédito: um mecanismo capaz de turbocarregar as ondas cerebrais, potencializando a velocidade, a força e até mesmo a memória de qualquer pessoa. Tudo isso porque uma grande amiga, Janegoodall, precisa de uma forcinha para entrar no time de beisebol da cidade. [Leia +]