testeAs vantagens de “ficar para titia”

Por Julia Wähmann*

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(fonte)

Quase toda família, tradicional ou não, tem em seu elenco a “tia solteirona”. Ela é aquela que não se casou, não teve filhos, e que provavelmente passou a vida escutando dos avós, tios e primos a pergunta mais temida por todas as mulheres que chegam sozinhas — ou ao menos sem a lacuna “casada” preenchida em formulários que pedem informações sobre estado civil — a celebrações de Páscoa, Natal ou a qualquer almoço de domingo: “Mas como você ainda está sozinha?” Estão implícitas certa pena, desconfiança e a constatação de que, em algum nível, determinados status de relacionamento são uma sentença de fracasso. Se você é ou está prestes a se tornar a solteirona da família, ou se de alguma maneira já se percebe como depositária dessa herança, então precisa conhecer Kate Bolick.

Jornalista e editora americana, Bolick despertou em mim empatia imediata, assim como Bridget Jones o fez, mais de uma década atrás. Se a britânica e atrapalhada Bridget — lutando contra os quilos a mais e desafinando em frente à TV em um pijama ridículo num sofá soterrado por lenços de papel e vodca — é a personagem fictícia que deu a mão a várias mulheres solteiras, Bolick é uma figura real que repete o gesto através de Solteirona: O direito de escolher a própria vida, seu primeiro livro.

capasolteironagrandeEla começa por esclarecer as origens do termo solteirona, ou spinster, em inglês: na Europa do século XV, o termo era usado para descrever as tecelãs não casadas. O ofício era um dos poucos destinados às mulheres que impunha respeito, e a partir do século XVII outras mulheres que não exerciam a profissão também passaram a ser chamadas, honrosamente, de spinsters. É na América Colonial que a designação muda de tom e que a palavra solteirona começa a soar pejorativa e ofensiva. Atualmente, boa parte dos dicionários americanos reconhece o caráter depreciativo do termo. Ao resgatar a etimologia da palavra, Kate Bolick já estabelece que não há por que se envergonhar de pertencer a esse grupo.

O caminho literário de Kate foi marcado por cinco escritoras, sendo a mais velha nascida em 1860 e a mais nova em 1917, que ela considera suas “despertadoras”. Neith Boyce, Maeve Brennan, Charlotte Perkins Gilman, Edna St Vincent Millay e Edith Wharton deixaram obras em prosa e verso, inspiraram movimentos feministas e tiveram vidas que jamais poderiam ser definidas ou regidas por um casamento, ainda que algumas delas tenham sido casadas. As “despertadoras” são pontos de partida para que Kate desenvolva uma pesquisa mais ampla sobre o casamento no decorrer dos séculos XIX e XX e sobre como a instituição trata os gêneros masculino e feminino com uma diferença que acaba por atuar como uma sentença cruel para o segundo.

A partir da década de 1950, as mulheres solteiras começam a ser mais duramente estigmatizadas e passam a constituir uma dentre diversas outras minorias. Kate observa algumas possíveis categorias para elas. Amo o fato de que a Estátua da Liberdade é citada como exemplo do modelo de solteirona “abnegada” (assim como adoro a observação de Kate a respeito do poliéster inflamável de que são feitas as fantasias de princesas para crianças, e o livro está repleto desses trechos de humor sutil e afiado).

Entre as “excêntricas adoráveis”, rol em que provavelmente também transita a “louca dos gatos”, está Mary Poppins. A Mulher Maravilha e Joana d’Arc são reconhecidamente as “poderosas”. Independentemente do rótulo, a solteirona é com frequência vista como uma anomalia, afinal desde cedo as mulheres aprendem que ter um marido é tão natural quanto possuir dentes. Parecia antinatural, portanto, que Kate evitasse o casamento, mesmo quando estava seriamente envolvida com candidatos ideais e portadores de excelentes credenciais.

Ao revelar a própria trajetória profissional em paralelo a suas histórias afetivas, Kate recorre às “despertadoras”, cujas biografias pouco atenderam às expectativas convencionais de épocas distintas, e mostra como os padrões culturais e sociais de comportamento aprisionaram e ainda aprisionam mulheres que não compartilham dos sonhos da maioria. A certa altura do livro, ela afirma que “quase toda escritora que conheço teve de decidir em algum ponto se aceitaria um trabalho para escrever sobre sua vida afetiva, um dilema que quase nunca é apresentado aos homens”. As imposições de um pensamento arraigado em valores machistas e patriarcais atuam com a mesma violência com que os espartilhos machucavam os corpos das mulheres, levando-as a acreditar que o problema está nelas mesmas, e não nas pressões externas.

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Felizmente, ao optar por retraçar o próprio caminho, Kate o faz com o objetivo de desmistificar as lendas, dosando memórias e experiências pessoais com uma pesquisa de grande relevância para se pensar o lugar da mulher hoje. Gosto muito da passagem em que ela mostra como uma maior autonomia pode ser enriquecedora, e como o estilo de vida de uma solteira pode ser bem mais complexo e interessante do que parece: “Ser solteira é como ser artista, não porque criar uma vida de solteira funcional seja uma arte, mas porque requer a mesma atenção detalhada às necessidades singulares da pessoa, além de vontade e foco para supri-las. Assim como a artista ajusta sua vida em torno da criatividade, sacrificando confortos convencionais e até aceitação social, sono e alimentação de acordo com seus próprios ritmos (…), uma pessoa solteira precisa pensar muito para decifrar o que a deixa mais feliz e satisfeita. Estudos mostram que uma mulher que vive sozinha tem mais probabilidade de ter uma vida social ativa e de manter laços familiares do que suas colegas casadas, não apenas porque ela tem mais tempo à disposição, mas porque são exatamente esses laços que a sustentam.” Não se trata de defender uma existência autocentrada ou reclusa, ao contrário. Trata-se de buscar um autoconhecimento a fim de estabelecer relações (de qualquer natureza) mais sólidas.

Além disso, o livro é uma bela homenagem  às “despertadoras” (de quem quero ler absolutamente tudo), e pode ser interpretado como uma tradução precisa da ideia de sororidade, termo bastante presente em artigos e estudos que tratam de feminismo. Como leitora, me senti convidada a conhecer as obras dessas autoras quase como se fizesse parte de um clube de leitura, de um coro de vozes.

Já faz anos que, em um jantar com casais de amigos em que eu era a única solteira — e por diversas razões venho reafirmando essa escolha —, um dos rapazes fez a piada corriqueira, até por saber do meu gosto por animais de estimação, dizendo que no futuro eles iriam me visitar numa casa espaçosa habitada por muitos gatos. Respondi dizendo que os felinos me dão alergia, e que ficava feliz de ele achar que seria bem-sucedida o suficiente para ter um imóvel que pudesse abrigar uma porção de cachorros. Hoje rimos da história. Meu exemplar de Solteirona, marcado com post-its e dobras, ganhou um lugar especial na estante, colado ao Diário de Bridget Jones, minha solteirona ficcional preferida que, tenho certeza, teria muito o que conversar com Kate.

>> Leia um trecho de Solteirona: O direito de escolher a própria vida

 

Julia Wähmann é escritora. Em 2015 publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press). Em 2016 publica Cravos (Record, no prelo).

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Eu sou o Peregrino, de Terry HayesUma mulher é brutalmente assassinada em um hotel decadente de Manhattan, seus traços dissolvidos em ácido. Um pai é decapitado em praça pública sob o sol escaldante da Arábia Saudita. Na Síria, um especialista em biotecnologia tem os olhos arrancados ainda vivo. Restos humanos ardem em brasas na cordilheira Hindu Kush, no Afeganistão. Uma conspiração perfeita, arquitetada para cometer um crime terrível contra a humanidade, e apenas uma pessoa é capaz de descobrir o ponto exato em que todas essas histórias se cruzam.

Romance de estreia do renomado roteirista britânico Terry Hayes (Mad Max 2 e Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão), Eu sou o Peregrino é uma narrativa ágil, com ritmo alucinante, cujos personagens são construídos de forma primorosa em toda a sua complexidade psicológica. Uma jornada épica e imprevisível contra um inimigo implacável. [Leia +]

 

O amor segundo Buenos Aires, de Fernando Scheller — Com largas avenidas, cafés em estilo europeu e bairros charmosamente decadentes, Buenos Aires é o lugar perfeito para histórias de amor inesquecíveis. A capital argentina é cenário e, ao mesmo tempo, personagem do primeiro romance de Fernando Scheller, repórter do jornal O Estado de S. Paulo que já passou pelas redações de Gazeta do Povo, TV Globo e Deutsche Welle, na Alemanha.

É por amor que Hugo deixa o Brasil rumo à capital argentina. Embora o relacionamento com Leonor não sobreviva, seu fascínio pela cidade resiste à dor da separação e à descoberta de que sofre de uma grave doença. Hugo cria laços com o arquiteto Eduardo e com a comissária de bordo Carolina, que evidenciam o poder regenerador das amizades verdadeiras. Ele se reaproxima de seu pai, Pedro, que troca a rotina de um casamento desgastado por uma vida em que é possível encontrar profundos afetos. [Leia +]

Em O amor segundo Buenos Aires, Scheller oferece a cada personagem a chance de narrar suas escolhas e percepções sobre diferentes formas de amor, como entre pai e filho, um homem e uma mulher, dois homens e também entre amigos.

Leia as colunas de Fernando Scheller no blog

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Alucinadamente feliz: Um livro engraçado sobre coisas horríveis, de Jenny Lawson Longe de ser uma pessoa comum, Jenny Lawson se considera uma colecionadora de transtornos mentais: depressão altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada, distúrbio de automutilação brando, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania (que é a compulsão de arrancar os cabelos). Por essa perspectiva, sua vida pode parecer um fardo insustentável. Mas não é.

Após receber a notícia da morte prematura de mais um amigo, Jenny decide não se deixar levar pela depressão e resolve revidar com intensidade, lutando para ser alucinadamente feliz. Mesmo ciente de que às vezes pode acabar uma semana inteira sem energia para se levantar da cama, ela resolve que criará para si o maior número possível de experiências hilárias e ridículas a fim de encontrar o caminho de volta à sanidade. [Leia +]

 

É isso que eu faço: Uma vida de amor e guerra, de Lynsey Addario — Após os atentados de 11 de Setembro, a fotojornalista Lynsey Addario foi chamada para cobrir a invasão americana ao Afeganistão. Nesse momento, ela fez uma escolha que se repetiria muitas vezes depois: abrir mão do conforto e da previsibilidade a fim de correr o mundo confrontando com sua câmera as mais duras verdades.

As imagens captadas pelas lentes de Lynsey parecem buscar sempre um propósito maior. No livro, ela retrata os afegãos antes e depois do regime talibã, os cidadãos vitimados pela guerra e os insurgentes no Iraque, expõe a cultura de violência contra a mulher no Congo e narra a ocasião do próprio sequestro, orquestrado pelas forças pró-Kadafi durante a guerra civil na Líbia.

Apesar da presumível bravura, Lynsey não é de todo destemida. Do medo, ela tira o olhar de empatia essencial à profissão. Quando entrevista vítimas de estupro, fotografa um soldado alvejado em combate ou documenta a trágica vida das crianças famintas na Somália, é essa empatia que nos transporta para os lugares onde ela esteve, e então começamos a entender como o ímpeto de retratar a verdade triunfa sobre o terror. [Leia +]

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A agenda antiplanos, de Keri Smith — Com espaços sem data e distribuídos aleatoriamente para você fazer um resumo do mês que desejar, o novo projeto da autora de Destrua este diário funciona como um diário criativo, que vai ajudar o leitor a estruturar os pensamentos de uma forma nada limitada nem previsível.

A agenda antiplanos parte do princípio de que a busca pela organização e pelo perfeccionismo, tão exaltada na cultura moderna, é na verdade um grande empecilho ao processo criativo. O estilo, a forma e a proposta pouco convencional do livro entretêm e levam à reflexão. Capturando momentos e estados de espírito, ele convida o leitor a controlar menos e experimentar mais, a deixar de levar tudo tão a sério e, simplesmente, viver. E o principal: a se divertir! [Leia +]

 

Baía da Esperança, de Jojo Moyes No quinto romance da autora de Como eu era antes de você, a melancólica e reservada Liza McCullen é a responsável por um barco de observação de baleias e golfinhos em Silver Bay, na Austrália, onde também administra com a tia o Hotel Baía da Esperança, que já viu dias melhores.

Hospedado no hotel de Liza, Mike Dormer está lá a negócios: depende dele o pontapé inicial do projeto de um resort de luxo. Enquanto sua noiva, em Londres, finaliza os planos do casamento, Mike tem de conseguir a licença para a construção do empreendimento, algo que terá profundo impacto na fauna de Silver Bay e consequências drásticas para a vida dos moradores.

Quando o mundo de Mike e Liza colidem de forma irremediável, eles precisam encarar os próprios medos para salvar o que amam. Com personagens cativantes em um cenário encantador, Baía da Esperança é um romance comovente e irresistível, repleto do humor e da generosidade que marcam as obras de Jojo Moyes.

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O mistério do mapa (volume 1 da série Poptropica), de Kory Merritt e Jack Chabert — Quando decidiram embarcar em um passeio de balão, Oliver, Mya e Jorge nunca poderiam imaginar que acabariam caindo em uma ilha desconhecida habitada por animais exóticos e uma horda de vikings raivosos. Bem-vindo a Poptropica: um arquipélago completamente fora dos mapas, cuja existência é mantida em segredo do restante do mundo.

Neste primeiro volume da história, inspirada no jogo infantil educativo on-line, os três amigos encontram um mapa mágico e se aventuram em uma perigosa jornada para tentar encontrar o caminho de volta para casa. Porém, os habitantes da ilha — incluindo o assustador líder dos vikings, Erik, o Vermelho — estão nos calcanhares deles, e Octavian, o capitão do balão, responsável por estarem presos naquela ilha, quer seu mapa de volta. Será que Oliver, Mya e Jorge vão conseguir fugir das garras dos sanguinários vikings e encontrar um jeito de escapar da ilha e de Octavian? [Leia +]

 

Solteirona: O direito de escolher a própria vida, de Kate Bolick — “Com quem se casar e quando: essas duas questões definem a existência de toda mulher”, provoca a autora logo no início de Solteirona. Em uma análise inteligente e bem-vinda dos prazeres e possibilidades de ficar solteira, a jornalista e crítica cultural Kate Bolick parte da própria experiência para ponderar o porquê de mais de cem milhões de americanas hoje preferirem ficar solteiras.

No livro, Bolick também apresenta um elenco de personalidades femininas do último século que, pela genialidade e determinação, são inspirações para sua escolha: a colunista Neith Boyce, a ensaísta Maeve Brennan, a visionária social Charlotte Perkins Gilman, a poeta Edna St. Vincent Millay e a escritora Edith Wharton. Ao destacar a trajetória nada convencional dessas mulheres, Bolick faz lembrar quão atemporal é o dilema a respeito de se casar e ter filhos e levanta uma pauta ainda mais crucial nessa discussão: o direito da mulher de escolher a própria vida. [Leia +]

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