testeRelembrar para nunca esquecer

A boate Kiss, 3 anos após a tragédia (Foto por Marizilda Cruppe)

A noite de 27 de janeiro de 2013 estarreceu o Brasil. A cidade de Santa Maria ficou de luto com a inesperada e inconsolável perda de 242 pessoas no incêndio da boate Kiss. Pela primeira vez, os sobreviventes, familiares das vítimas, equipes de resgate e profissionais da área da saúde contam, em depoimentos extremamente honestos, o que de fato aconteceu durante as horas de desespero que, ainda hoje, parecem intermináveis.

Com base em mais de 100 horas de entrevistas cuidadosas com os envolvidos no acidente, a premiada jornalista Daniela Arbex, vencedora de dois prêmios Jabuti e autora de Holocausto brasileiro e Cova 312, reconstitui a tragédia da boate Kiss em Todo dia a mesma noite. Especialista em contar histórias desoladoras da realidade brasileira com a delicadeza e a seriedade que os temas pedem, Arbex denuncia como o crime continua impune até hoje, além de revelar uma segunda tragédia: o esquecimento que assola as famílias que buscam respostas e justiça, cinco anos depois.

Todo dia a mesma noite é um memorial que homenageia todas as vítimas, para que fatalidades como essa nunca mais se repitam.

O livro será lançado em 19 de janeiro.

testeGarimpando o passado remoto

 

Num livro, tudo pode parecer rápido, uma página pode contar uma longa espera, mas viver cada minuto de Em nome dos pais foi uma aventura difícil de descrever. Imagine o que foi, por exemplo, a busca pelo delator dos meus pais, que os entregou às mazelas da tortura na ditadura? Eu tinha apenas um nome, precisava saber se estava vivo e onde morava, porque ele sumira havia mais de quarenta anos.

Depois de localizado, o que não foi nem um pouco fácil, aconteceu a viagem até o sítio de sua família, no interior do Espírito Santo. E eu queria que o leitor fosse comigo. Não bastava investigar, mas contar como investiguei. Queria que o leitor tivesse noção de como pode ser demorado mergulhar no passado.

Houve esse momento, depois de muito esforço, em que tudo começou a dar certo. Seguiu-se a viagem até o sítio, que foi realizada durante o dia. Só que, quanto mais eu me aproximava do endereço, mais o sol desaparecia no horizonte. Depois de uma curva numa estrada de terra, vimos um incêndio na mata e o ambiente ganhou cores dramáticas e ares de um livro do J.R.R Tolkien ou de O senhor dos anéis

Já era noite quando, enfim, bati na porta do delator que fora chefe do grupo de estudantes, delatara todos e sumira. O que fazer? Como começar essa conversa perdida no tempo com perguntas nada fáceis, mais de quatro décadas depois? O leitor poderá conferir o resultado no livro.

Em outros momentos a procura era por um papel. Tive de ler e reler cinco volumes e um apenso, o processo que meus pais e seus companheiros responderam na Justiça Militar, até ver o nome que procurava: o do capitão que comandara o departamento de repressão do Exército em Vitória. O nome foi um grande achado, mas havia homônimos, e uma nova barreira se impôs à minha frente.

Por falar em homônimos, um dos militares que teve atuação fundamental no inquérito policial militar tinha 182 deles — uma montanha de pessoas com o mesmo nome do Brasil. Por esse motivo, tive de descartar 181, num longo e desgastante processo de apuração.

Minha busca passou por tentar ouvir os militantes de movimentos contrários à ditadura que atuaram junto com meus pais, passando pelo líder que virou delator, mas também os militares que atuaram na produção do IPM, na repressão e até na tortura aos meus parentes. O livro revela o nome de uma dezena desses militares e um dos capítulos é justamente “Frente a frente com o torturador”.

Foi assim que se construiu Em Nome dos Pais. Estou acostumado a fazer jornalismo investigativo como repórter em Brasília. No livro, porém, eu buscava um passado remoto, o que me fez ter a sensação de procurar agulhas num palheiro.

testeVale-tudo da notícia (vale tudo mesmo!)

Por Luana Freitas e Nina Lua*

Vale-tudo da notícia é um livro sobre jornalismo, mídia e corrupção na imprensa. Um tema deveras universal. Ainda mais quando envolve um megaescândalo! Escrito pelo jornalista investigativo Nick Davies, o livro revela em detalhes as táticas ilegais que alimentavam as manchetes do News of the World, um dos maiores jornais do mundo, que acabou fechando quando os crimes cometidos pela equipe vieram à tona.

O simples fato de jornalistas usarem táticas criminosas para conseguir notícias já é chocante. Mas, além disso, Vale-tudo da notícia traz histórias reais tão mirabolantes que parecem até ficção, mostrando que a corrupção na imprensa britânica ultrapassava todos os limites. Como amostra, nós selecionamos alguns dos fatos mais curiosos:

 

 

  • A equipe do News of the World não media esforços na sede por manchetes bombásticas: eles chegavam a invadir caixas de mensagens dos celulares de figuras públicas. Na realidade, depois de ler o livro, você descobre que esse truque sujo não era nem um pouco complicado… Mas era muito eficiente: os repórteres conseguiram acessar até as caixas de mensagens da família real britânica. Os jornalistas descobriram detalhes tão particulares do príncipe William que a realeza chegou a suspeitar dos membros do staff do palácio.

 

  • O queridinho ator Hugh Grant teve a vida esquadrinhada pelos tabloides ingleses, que publicaram escândalos de arrepiar os cabelos sobre a vida pessoal dele. Jornalistas do News of the World trabalhavam junto com detetives particulares para arrombar casas de famosos. Hugh Grant chegou a registrar na polícia que teve a casa roubada em circunstâncias que indicavam que o ladrão procurava informações, não bens. Então, o ator resolveu se vingar montando uma pequena armadilha: foi a um encontro com um ex-funcionário do News of the World e, secretamente, gravou o repórter dizendo que o alto escalão do jornal estava ciente de que a equipe fazia as escutas ilegais. Parece que o jogo virou, não é mesmo?    

  • Alguns jornalistas eram incentivados a dormir com prostitutas. Tudo para tentar arrancar delas informações sobre clientes famosos.

 

  • O site do News of the World chegou ao cúmulo de divulgar trechos de um vídeo gravado escondido de Max Mosley, então presidente da empresa que comanda a Fórmula 1, em meio a jogos sexuais sadomasoquistas com cinco prostitutas.

 

  • Um bom escândalo não seria digno desse nome se não tivesse uma morte por disputa de poder. O esquema de espionagem de personalidades incluía várias firmas de detetives particulares. O volume de dinheiro era tão alto que a competição entre esses investigadores envolvia muita violência e culminou em pelo menos um assassinato.

 

  • E toda boa história de crime na vida real acaba… na prisão, é claro! Depois que a família real desconfiou de que andava sendo espionada, foi deflagrada uma investigação que resultou na condenação de várias pessoas envolvidas nos crimes. Entre elas, detetives particulares, repórteres e até mesmo o chefe de reportagem do News of the World.
  • Você pode estar se perguntando: mas como um esquema desse tamanho conseguiu se estabelecer e vigorar por um bom tempo? A resposta é que a corrupção também impregnava vários setores da polícia britânica. Após a árdua luta de Nick Davies, que trabalhava para o The Guardian, para que a história não fosse abafada, a Scotland Yard teve muito o que explicar.

 

Ficou com vontade de saber mais sobre esse capítulo sombrio da história do jornalismo? Então leia Vale-tudo da notícia e entenda como esse escândalo pôs em cheque os limites éticos da mídia e revelou toda a podridão que alimenta a chamada imprensa de fofocas.

 

*Luana Freitas e Nina Lua são editoras assistentes de livros estrangeiros da Intrínseca. Formadas em jornalismo, elas acompanharam de perto a repercussão do escândalo na época e amaram poder se aprofundar no assunto e descobrir os detalhes mais sórdidos dessa história que abalou as estruturas da imprensa mundial.

testeTesouras afiadas na alta sociedade

A modelo Marina Montini (Fonte)

Jean-Luc Bernard, o cabeleireiro francês que morreu nesta quarta-feira, dia 8 de fevereiro, aos sessenta e sete anos, foi trazido de Paris para o Rio de Janeiro na década de 1970 por Zózimo Barrozo do Amaral, um de seus clientes no famoso salão Carita, no Faubourg Saint-Honoré.

O colunista apresentou Jean-Luc a Jambert, o espanhol naturalizado brasileiro que era o preferido das cabeças elegantes do high society carioca. Adoraram-se. A favor da permanência de Jean-Luc no Rio, havia o fato de ele ser fanático por caça submarina. Jean-Luc virou sócio de Jambert e abriu o braço masculino da grife. Foram felizes por alguns anos até que, grandes divas das tesouras, brigaram. Cada um com suas brilhantes carreiras, mas solo, foram em frente.

Jean-Luc mantinha até morrer um salão na rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. Dizia que por várias vezes tentou tirar o bigode de Zózimo, mas sem sucesso. Sua tesoura descia até o ombro do colunista, que tinha o tórax muito cabeludo.

Cabeleireiros — e não só Jambert e Jean-Luc — brigavam muito, mas pelo menos mantinham a elegância de deixar as tesouras de lado.

O cabeleireiro Silvinho (Fonte)

Jambert esteve envolvido em outra briga com um colega. Seu oponente dessa vez era Silvinho, que ficou famoso por ter cabelos enormes, ser muito bonito e participar do júri do programa do Chacrinha na TV. Silvinho era funcionário do salão de Jambert. Não se conformava que, embora popular na mídia, não conseguisse colocar em sua cadeira as madames vipadas que se entregavam às mãos de tesoura do patrão. Jambert conversava em francês enquanto cortava. Já a grande cliente de Silvinho era Elke Maravilha.

Finalmente rompido com Jambert, Silvinho foi em frente com salão próprio. Na busca pelo crédito de qualidade, reconheceu em Zózimo um inimigo. Achava que nas suas notinhas o colunista era mais generoso com Jambert. Silvinho aliou-se a outros jornalistas.

Num dos rounds dessa pugna, ele teve como parceira a modelo Marina Montini, famosa por posar nua para uma série de mulatas pintada por Di Cavalcanti. Quando o pintor morreu, ela tentou vender alguns desses quadros e Zózimo publicou os preços alardeando espanto, pois os julgava muito acima do mercado. A intenção comercial de Marina fracassou e ela resolveu se vingar do colunista juntando-se ao amigo cabeleireiro.

Silvinho fez nela um penteado bem ao estilo anos 1980, com um enorme aplique que dava ao cocoruto de Marina ares de uma juba de pantera, a grande moda escandalosa do período. Quando um repórter de uma revista de celebridades perguntou a Silvinho qual o nome daquela sua nova obra, ele não teve dúvida:

— O penteado chama-se Cascata Zózimo Barrozo do Amaral, porque pra fazer um é preciso muita imaginação.

Não era uma homenagem, mas uma tesourada de humor mau. Como se sabe, em gíria jornalística, colunista que inventa notícia é chamado de “cascateiro”.

testeEstá na hora de as pessoas saberem quem é Zózimo Barrozo do Amaral

Joaquim Ferreira dos Santos reconstitui a trajetória do jornalista que desnudou a sociedade brasileira entre 1969 e 1997 e revolucionou o colunismo social

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Foto:
 Joëlle Rouchou

Por quase trinta anos, as mudanças na sociedade brasileira foram reveladas pela espirituosa escrita de Zózimo Barrozo do Amaral em sua coluna diária no Jornal do Brasil e depois em O Globo. Muito além dos registros sociais, ele oferecia um noticiário que flertava com a economia, a política e o esporte (sua paixão), em um estilo elegante e sem qualquer cerimônia. Fez muitos amigos, ganhou uns poucos desafetos e chegou a ser preso duas vezes durante o regime militar.

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A trajetória de Zózimo Barrozo do Amaral é reconstituída por Joaquim Ferreira dos Santos, jornalista carioca que passou pelas redações do Diário de Notícias, da revista Veja, do Jornal do Brasil, O Dia e O Globo — neste último, criou uma coluna de notas no mesmo espaço ocupado anteriormente por Zózimo. Autor de diversos livros de crônicas, Joaquim também publicou Feliz 1958: O ano que não devia terminar e as biografias de Antônio Maria e Leila Diniz.

Enquanto houver champanhe, há esperança chegará às livrarias em 1º de novembro. O coquetel de lançamento ocorrerá na quinta-feira, dia 3 de novembro, a partir das 19h30 na Livraria Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro.

>> Confirme sua presença no evento

testeVida em comunidade

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Cena do filme A Comunidade (Fonte)

Anarquistas, graças a Deus. O incrível título do romance de Zélia Gattai, que acerta em cheio nas contradições humanas, poderia também se aplicar ao filme A comunidade, a que assisti com prazer dias atrás. Seu diretor, Thomas Vinterberg, é um dos criadores do movimento cinematográfico Dogma e responsável por outros filmes de que gosto bastante, como Festa de família e A caça.

O que mais me interessou na história, muito bem interpretada, foi a desconstrução do que seja moderno e descolado. Se a vida a dois já é cheia de desafios, o dia a dia em uma comuna parece quase impossível de se aguentar.

A trama de A comunidade pode ser resumida assim: é um Cenas de um casamento, de Bergman, transportado para uma casa compartilhada por um grupo. O casal de protagonistas – um professor universitário e uma jornalista – decide convidar amigos para morar em uma casa que ganharam de herança. A relação, porém, não resiste ao mais trivial dos conflitos: uma traição.

Talvez tenha gostado do filme porque ele me despertou um sentimento nostálgico. Visitei várias vezes a comuna Niederkaufungen, na Alemanha, mais de uma década atrás, para escrever sobre seu dia a dia. A comuna fica nas proximidades de Kassel, na região central do país, onde eu morava na época.

Agora, ao pensar nos meus passeios por aquela comunidade para lá de organizada – toda a renda dos membros era dividida de forma igualitária –, também me vem à mente o livro Entre amigos, do israelense Amoz Oz, sobre a vida num kibutz. Em todos os casos (o livro, o filme e minha visita à comuna de verdade), percebo que a rotina em uma comunidade é marcada por competições e hierarquias, o que, teoricamente, não deveria existir.

No caso da comunidade de Kassel, a vida financeira era compartilhada, mas a amorosa seguia o modelo tradicional. Lembro-me que crianças no livro de Amós Oz “pertenciam” à comunidade; em Niederkaufungen, os pais biológicos eram responsáveis pela educação dos filhos, recebendo ajuda externa quando necessário (ou seja: o sistema não é muito diferente do que acontece com todo mundo).

Ao visitar a comuna, conheci uma brasileira que morava lá (a seu pedido, ela não foi retratada na reportagem que escrevi para a Deutsche Welle). No entanto, fiquei com a nítida impressão de que ela estava pronta para voltar ao mundo real. Fora para aquele lugar atrás de um amor. Como os personagens de A comunidade e de Entre amigos, estava em busca, no fim das contas, do mais trivial dos sentimentos.

 

testeO amor à guerra

Em É isso que eu faço, a fotógrafa Lynsey Addario explica como curiosidade e coragem moldaram sua carreira e vida pessoal mundo afora

Por Marsílea Gombata*

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Cena do Afeganistão enquanto o país estava sob o regime Talibã, maio de 2000.

Uma explosão. A janela do carro estourada, restos humanos espalhados na parte de trás. Pedaços de um cérebro no banco do passageiro, e a tampa interna do porta-malas cravejada com fragmentos de crânio. Poderia ser mais uma entre tantas fotografias documentando atrocidades em zonas de conflito. Mas não. Em 2011, na cidade de Ajdabiyah, na costa da Líbia, a Primavera Árabe havia se transformado em guerra contra o ditador Muammar al-Kadafi. E Lynsey Addario, fotógrafa de guerra havia mais de dez anos, não conseguiu ir adiante. “Quando cobria guerras, em alguns dias eu tinha uma coragem sem limites, mas em outros, como aqueles na Líbia, eu me sentia aterrorizada desde o momento em que acordava”, lembra no início de seu livro de memórias.

Talvez por se tratar de um momento raro, foi a cena marcada por sua fraqueza a escolhida por Lynsey para abrir É isso que eu faço: Uma vida de amor e guerra. O livro, que retrata com minuciosidade um dos trabalhos mais arriscados e importantes do mundo, expõe também a coragem e as privações necessárias para se viver em busca do melhor clique, muitas vezes nas piores situações.

grandeitswhatidoPublicada em fevereiro do ano passado nos Estados Unidos, a obra que chega este mês às livrarias brasileiras é dividida em quatro partes e mescla relatos profissionais com episódios da vida pessoal — como quando o pai de Lindsey sai de casa para se casar com um amigo em 1982 ou a maternidade que a fotógrafa adiou por tanto tempo. A gravidez de Lukas, no entanto, não a impediu de trabalhar em zonas de conflito. Em outubro de 2011, quando a gestação se aproximava da 27ª semana, o The New York Times a enviou a Gaza para cobrir a troca de 1.027 prisioneiros palestinos em troca do soldado israelense Gilad Shalit, sequestrado havia cinco anos pelo Hamas. “Parecia um trabalho bastante simples, mesmo grávida”, lembra Lynsey, que em artigo para a The New York Times Magazine defendeu: “Não há cobertura que uma fotojornalista grávida não possa fazer.”

Em É isso que eu faço, Lynsey relata como foi documentar inúmeros momentos históricos. Ao chegar à recém-libertada Benghazi, na Líbia, conta como sentiu uma atmosfera que lembrava muito a curda Kirkuk depois da queda de Saddam Hussein ou a afegã Kandahar quando caía o governo talibã. As fotos ajudam a testemunhar essa sensação: os rebeldes líbios, que trabalhavam como médicos, engenheiros e eletricistas antes de empunhar AK-47s e pular na traseira de caminhões com lançadores de foguetes e granadas, aparecem atirando contra um helicóptero do governo. Em um cenário no qual o cinza-escuro da fumaça de explosões contrasta com o azul intenso do céu, suas fotos mostram combatentes rebeldes avançando na linha de frente após intenso dia de combate em Ras Lanuf, cidade estratégica considerada um complexo portuário e petrolífero na Líbia.

art #24_blogMulheres afegãs cobrem os rostos no hospital feminino de Cabul, maio de 2000.

Seu cotidiano pautado por conflitos internacionais começara dez anos antes, quando o 11 de Setembro mudou a geopolítica mundial e ela ainda tentava se estabelecer no fotojornalismo. Por ser um dos poucos profissionais com alguma experiência no Afeganistão, ela foi chamada para cobrir a invasão americana no sul da Ásia e depois no Oriente Médio.

Na escolha por abrir mão do conforto e da previsibilidade a fim de correr o mundo escancarando verdades com sua câmera, a americana de ascendência italiana percebeu que o mais importante em uma guerra era capturar de que maneira as escolhas em política externa influenciavam diretamente o cotidiano das pessoas. É por isso que suas fotografias evidenciam o drama humano acima dos desdobramentos do conflito.

Em uma delas, Lynsey oferece um sensível contraste entre liberdade e restrição ao compor um garoto em uma bicicleta com uma mulher vestindo burca pedindo esmolas em uma rua deserta no Afeganistão. A impactante foto do garoto Khalid, por sua vez, mostra um rosto de criança ferido por estilhaços, provavelmente, de bombas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Vale de Korengal, fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

Kahindo, vinte anos, sentada em casa com os dois filhos, nascidos de estupros, na aldeia de Kanyabayonga, Kivu do Norte, leste do Congo, 12 de abril de 2008.

Depois de cobrir parte da Guerra ao Terror do governo George W. Bush para veículos de prestígio como The New York Times e Life no Afeganistão e no Iraque, Lynsey decide mudar o foco para ampliar seu trabalho para além das exigências diárias da fotografia de pautas urgentes. “Aprendera a trabalhar de maneira rápida e eficiente, mas seria sempre difícil experimentar coisas novas e crescer como fotógrafa atuando sob as condições violentas e restritivas do Iraque. Eu queria ver o que mais poderia fazer e, para isso, precisava tentar uma região diferente”, conta.

Em 2004 viaja para Darfur, que vivia um conflito étnico também motivado pelo acesso à terra e à água. “As guerras com frequência eram causadas tanto por recursos quanto pelo ódio tribal, religioso ou nacional”, lembra. Foi lá, inclusive, que fez uma das mais impressionantes fotos do livro: soldados circulam em uma área de vigília perto de um corpo há muito em decomposição, no qual restos de pele nas mãos agonizam ao lado de um crânio.

Nos anos seguintes, faria viagens frequentes a outros lugares da África, como Kivu do Norte, na República Democrática do Congo, onde passou a retratar vidas marcadas por guerras, como a de Kahindo, com vinte anos e dois filhos nascidos de estupros. A jovem retratada com uma lágrima gritando dor e iluminando sua face havia sido sequestrada e mantida em cativeiro durante quase três anos por soldados ruandeses. Teve um filho na floresta e estava grávida do segundo quando fugiu.

Lynsey

A fotógrafa em ação

Formada em relações internacionais pela Universidade de Wisconsin-Madison, Lynsey cultivou o hábito de fotografar quando ficou um ano fora estudando economia e ciência política na Universidade de Bolonha, na Itália. Mas a grande inspiração para percorrer o mundo em busca de vidas em meio a guerras veio quando visitou uma exposição de Sebastião Salgado, em 1996, em Buenos Aires. “As fotos eram um enigma para mim: como ele capturara a dignidade dos fotografados?”, lembra no livro. “O que eu tinha considerado até aquele momento um simples meio de capturar belas imagens tornou-se algo completamente diferente: era uma maneira de contar uma história. Era o casamento entre viagens, culturas estrangeiras, curiosidade e fotografia. Era fotojornalismo.”

Nascida em Connecticut, Lynsey viveu na Argentina, no México e passou também por lugares como Cuba, Índia e Paquistão. Descobriu que, quanto mais conhecia o mundo, mais sua coragem e curiosidade aumentavam. Além de ter presenciado as ofensivas de tropas americanas no sul da Ásia e no Oriente Médio, foi sequestrada no Iraque em 2004 e na Líbia em 2011, e sofreu um grave acidente de carro no Paquistão em 2009, sete semanas antes de se casar no sudoeste da França com o também jornalista Paul de Bendern.

A trajetória de Lynsey e sua paixão pelo que faz serão transformadas em filme pelas mãos de Steven Spielberg. Depois de uma disputa envolvendo pesos pesados como George Clooney e Darren Aronofsky, a Warner Bros. obteve os direitos para filmar o livro de memórias da fotojornalista vencedora do Pulitzer em 2009, que será interpretada por Jennifer Lawrence no cinema.

>> Leia um trecho de É isso que eu faço

 

* Marsílea Gombata é jornalista e doutoranda em ciência política na USP, onde estuda política social como instrumento de política externa na América Latina. Foi chefe de reportagem no jornal O Estado de S. Paulo e editora no Jornal do Brasil. Atualmente edita o Carta Educação, site de CartaCapital dirigido a educadores, estudantes e interessados no tema.

testeClube de leitura: Vale-tudo da notícia, de Nick Davies

Por Bruno Leite*


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Bafo, babado, fofoca, boato, intriga, mexerico, maledicência; essas são as palavras de ordem na redação de qualquer tabloide, porém o britânico News of the World as levou às últimas consequências. As manchetes do semanário de Rupert Murdoch eram alimentadas por grampos telefônicos ilegais e envolviam uma série de pessoas em uma gigantesca teia de corrupção, mentiras e especulações. No recém-lançado Vale-tudo da notícia, o jornalista Nick Davies narra de maneira hipnótica sua investigação do monstro especulativo que funcionava num dos maiores conglomerados de notícias do mundo. (E, se preparem, porque hoje tem trilha sonora para acompanhar o post.)

Tramas que abordam os bastidores do jornalismo me comovem: sempre me identifico com os impulsos desses personagens em contar uma boa história custe o que custar.  O vencedor do Oscar de melhor filme desse ano, Spotlight: Segredos Revelados, pertence ao gênero. Vocês gostam desse tipo de filme? Eu, particularmente, sou apaixonado pela cinebiografia desse homem — e por ele também.

CAPA_ValeTudoDaNoticia_destaque_pLendo os relatos de Nick Davies, fiquei impressionado com a quantidade de pessoas (de áreas tão diversas) que participaram dessa enorme teia de corrupção. Mas acho que podemos iniciar a discussão a partir de alguns personagens centrais.

Rebekah Brooks: editora do jornal The Sun. Conseguiu a proeza de, em onze anos, passar de secretária a editora do News of the World.

Andy Coulson: editor do News of the World após a saída de Brooks, também teve uma carreira meteórica no mundo da News Corp. e era conhecido pelo seu apetite voraz no “café da manhã das estrelas do rock”.

Clive Goodman: primeiro jornalista do News of the World a ser pego. Com uma carreira estagnada para os padrões alucinantes do NOTW, investiu em grampos contra a família real — sua última e mais arriscada cartada.

Greg Miskiw: editor do noticiário, um verdadeiro garotão — pelo menos no espírito. Era o gerenciador do esquema de escutas e dono de uma penosa ansiedade que o fazia bater a cabeça contra a parede em momentos de tensão.

Glenn Mulcaire: espião contratado inicialmente por Miskiw, era uma verdadeira sombra capaz de se esgueirar por entre companhias telefônicas, delegacias e afins.

James e Rupert Murdoch: filho e pai, são donos do maior conglomerado de mídia do mundo, a News Corp. e, consequentemente, donos do NOTW.

PCC (Press Complains Commission): agência reguladora da imprensa britânica que deveria prezar pela qualidade e solidez dos periódicos no Reino Unido.

Alan Rusbridger: editor do jornal The Guardian, amigo e chefe do autor, foi ele quem estimulou Nick a ir atrás da matéria.

Agora vamos aos personagens secundários! Ainda que tenham atitudes altamente condenáveis, a excentricidade dessas pessoas despertou minha simpatia logo de cara. Entre eles, temos Benji, o homem do lixo que vagava pelas noites revirando monturos atrás de algo que pudesse vender aos tabloides; Michael Boddy, o Micky the Mouse, um ex-viciado em heroína mestre em rastreamentos; e Phil Winton, o dono de uma agência de investigações louco por carros velhos e gatos que convenceu o conselho municipal a trocar o nome da ruela atrás de seu escritório para <3 Siamese Mews <3.

E vocês? Conseguiram gostar de algum personagem?

O processo de instalação de escutas e a invasão insana de privacidade promovida nos bastidores do jornal expõem pessoas em uma série de situações com desfechos imprevisíveis. Alguns momentos, como quando as mensagens do príncipe Charles para sua amante à época, Camila Parker Bowles, foram divulgadas, me deram uma vergonha alheia muito grande e me fizeram repensar quantas vezes eu gero pageviews ou endosso esse tipo de comportamento por parte do jornalismo. Vocês também se sentiram incomodados com as informações que surgem ao longo do livro? Conseguem se colocar no lugar dessas pessoas? Já pensaram se os áudios que vocês enviam vazassem sem nenhuma justificativa?

Outro fator que me chocou foi o nível de corrupção dentro de instituições que deveriam promover a segurança (como a Scotland Yard) e a qualidade do ofício jornalístico (como o PCC). Vocês fizeram um paralelo com a história recente do nosso país? Também veem nesse esquema um modelo de como instituições podem ser corrompidas e que processos assim são mais comuns do que imaginamos?

Essas e outras perguntas — e é claro, o julgamento disso tudo — serão levantadas no dia 14 de abril, às 19h30 no auditório da Livraria Cultura do Shopping Bourbon. Para se inscrever, basta enviar um e-mail para renato.costa@livrariacultura.com.br informando nome e telefone para contato. Se você não puder ir, não tem problema; você também pode participar do clube de discussão on-line.

 

Bruno Leite, é estudante de letras, trabalha há oito anos no mercado editorial e é colaborador no blog O Espanador.

testeO escândalo de escutas ilegais que derrubou um dos maiores jornais do mundo

Por Miguel Conde*

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“Obrigado e tchau.” Com essa manchete fofinha, quase um #gratidão, o News of the World chegou às bancas em 10 de julho de 2011, anunciando a seus leitores o próprio fim. Encimada pela despedida singela, a derradeira edição do maior jornal dominical da Inglaterra vendeu 3,8 milhões de exemplares. O enterro do Screws of the World (em bom português, Trepadas do Mundo, e não “parafusos”, como sugere o tradutor do Google), apelido que o indiscreto tabloide nunca deixou de honrar, nada tinha a ver com problemas de circulação. Era um ato de contrição, reiterado uma semana depois por um anúncio de página inteira publicado nos principais jornais britânicos. “Sentimos muito”, dizia a mensagem, iniciando um lamentoso mea-culpa assinado pelo proprietário do segundo maior conglomerado midiático do planeta, o magnata australiano Rupert Murdoch.

Penitência pública incomum para um signatário tão poderoso quanto beligerante, conhecido por administrar aos rosnados o império formado por rádios, canais de TV, estúdios de cinema, editoras e mais de cem jornais e revistas ao redor do mundo. Tampouco eram triviais, porém, os delitos que o anúncio pretendia redimir. Acostumado a expor os segredos alheios com estardalhaço, enquadrando casos de corrupção, brigas de família, prontuários médicos ou inconfidências sexuais sob a rubrica comum do divertimento escandaloso, o News of the World foi a pique após uma série de investigações e reportagens demonstrar que parte considerável daquilo que o jornal publicava em nome do “interesse público” era apurado por meio de métodos criminosos. Quando Murdoch enfim levantou a bandeira branca da rendição, 33 empresas já haviam anunciado um boicote de anúncios ao jornal, cujas práticas foram descritas por uma delas, a Mitsubishi, como “inacreditáveis, indizíveis e desprezíveis”.


valetudograndeNo recém-lançado Vale-tudo da notícia, o repórter britânico Nick Davies conta em detalhes como desvendou os crimes que alimentavam as manchetes do News of the World e acabaram por decretar a morte do jornal. Um dos mais respeitados jornalistas investigativos do Reino Unido, Davies passou anos apurando a série de reportagens que colocou a imprensa sensacionalista da Inglaterra contra a parede ao mostrar como o semanário de Murdoch empregou detetives particulares condenados pela Justiça, subornou policiais e outros servidores públicos, tapeou companhias telefônicas e conduziu suas próprias operações ilegais de espionagem para invadir a privacidade de milhares de vítimas. As informações obtidas ilegalmente eram usadas não apenas para subsidiar reportagens, mas também como instrumento de pressão para fazer valer os interesses políticos e econômicos do grupo de Murdoch junto a autoridades.

Graças às reportagens publicadas por Davies no The Guardian, e ao trabalho de outros jornalistas que seguiram a trilha aberta por ele, descobriu-se que os abusos do News of the World não se limitavam a um punhado de casos, como haviam alegado o jornal e a polícia após os primeiros indícios de irregularidades. A prática de invasão ilegal de privacidade, principalmente por meio do acesso a caixas de mensagens de telefones celulares, era rotina no tabloide e atingiu desde pessoas comuns envolvidas em algum episódio chamativo até celebridades, atletas e políticos do alto escalão do governo britânico, incluindo ministros, o diretor da Scotland Yard e o chefe do MI6, o serviço secreto do país.

Davies divide seu livro em capítulos alternados que vão contando duas histórias com períodos de tempo diferentes: uma relata sua investigação, a apuração de suas reportagens e as reações a elas; a outra constrói um histórico do crescimento dos tabloides na Inglaterra, com perfis dos principais personagens da indústria. Na segunda, além de Murdoch e seu filho, James, destacam-se dois jornalistas que tiveram rápida ascensão profissional no grupo do magnata: Andy Coulson e Rebekah Brooks. Ela começara a trabalhar no News of the World como secretária, em 1989, e onze anos mais tarde se tornara a diretora de redação do semanário. Aos 43 anos, era a pessoa mais jovem a comandar uma redação no Reino Unido. Depois que Brooks saiu para assumir o comando do The Sun, o irmão gêmeo de circulação diária do News of the World, Coulson foi escolhido como seu sucessor.

Quando Davies começou a apurar a história, o autor recorda, Coulson começava a trilhar uma bem-sucedida carreira política. Ele havia renunciado ao posto no jornal de Murdoch em 2007, depois que uma investigação policial levou à condenação do araponga Glenn Mulcaire e do repórter do News of the World Clive Goodman pela interceptação de mensagens da família real britânica. Alegando não saber de nada, e contando nos bastidores com o apoio de Murdoch, em pouco tempo Coulson deu a volta por cima, assumindo, alguns meses mais tarde, o posto de diretor de comunicação do Partido Conservador da Inglaterra. Com a chegada ao poder da coalização liderada por David Cameron, em 2010, Coulson tornara-se o porta-voz do governo, um integrante da cúpula da administração federal com acesso direto ao primeiro-ministro e a informações confidenciais do Estado.

Coube a Davies desmontar a versão oficial de que Goodman era um caso isolado no News of the World e Coulson, vítima de um subordinado que havia traído sua confiança. Abandonando a posição de mero observador da história, ele estimulou possíveis vítimas das invasões a acionarem a Justiça, obrigando a Scotland Yard a liberar as informações obtidas na prisão do detetive Mulcaire, que eram mantidas sob sigilo. A pressão nos tribunais e a colaboração com outros órgãos de imprensa, como a BBC e o The New York Times, acabaram demonstrando o envolvimento direto de homens de confiança de Coulson nas práticas ilegais do News of the World. Coulson renunciou ao cargo em 2011 e a polícia teve que abrir uma nova investigação do caso. A história, a princípio noticiada com cautela por boa parte da imprensa, tornava-se enfim um grande escândalo nacional.

A pressão sobre Murdoch só chegou ao nível máximo, porém, depois da revelação, feita em julho de 2011, de que o News of the World havia invadido a caixa de mensagens de Milly Dowler, uma adolescente que tinha desaparecido em março de 2002 em Surrey, sendo encontrada morta meses depois. O caso provocara uma comoção na Inglaterra, e a indignação cresceu nos dias seguintes quando se soube que o jornal também invadira os telefones de parentes de vítimas dos atentados a bomba em Londres em julho de 2005, e de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão. David Cameron determinou a abertura de um inquérito público sobre a conduta ética da imprensa britânica, e Murdoch teve que desistir da aquisição do controle da principal operadora de TV digital do Reino Unido, a BskyB. Brooks e outros altos executivos da News Corp, o conglomerado de Murdoch, renunciaram aos seus cargos.

Davies povoa seu livro com figuras secundárias que dão um colorido burlesco ao universo dos jornais sensacionalistas ingleses. Pessoas como Benji, “o homem do lixo”, um sujeito que percorre as ruas de Londres de madrugada, numa caminhonete, examinando sacos de lixo em busca de informações que possam ser vendidas aos tabloides. Ou Sean Hoare, o repórter do News of the World que descrevia seu trabalho como “ingerir drogas com celebridades” e gostava de começar o dia com o que chamava de “café da manhã das estrelas”: uma carreira de cocaína e uma dose de Jack Daniel’s. É na cúpula da News Corp, contudo, que estão os grandes personagens do livro. Entre eles, o papel de protagonista cabe a James Murdoch, um propagandista incansável das leis do mercado e da livre concorrência que no entanto faz de tudo, ao longo da história, para usar o peso das empresas da família para pressionar os políticos ingleses e obter vantagens comerciais.

Se o “vale-tudo” do título do livro a princípio parece apenas uma referência às atividades ilegais dos jornais ingleses, ao final percebe-se que Davies propõe uma discussão mais ampla sobre os conflitos entre a busca pelo lucro, que James Murdoch defende num discurso ser a única garantia de uma imprensa livre, e o interesse público que deve orientar a atividade jornalística. Mais do que o relato detalhado de como um dos maiores jornais do mundo se tornou uma organização criminosa, Vale-tudo da notícia é um alerta inteligente e bem informado de que a concentração empresarial e a falta de regulação efetiva do setor jornalístico podem ser ameaças tão sérias à imprensa livre quanto o controle exercido por juízes ou governantes autoritários.

link-externoLeia um trecho de Vale-tudo da notícia

 

Miguel Conde é jornalista, editor e crítico literário. Foi colunista e editor-assistente do suplemento literário “Prosa”, de O Globo, coordenador editorial da Rocco e curador de duas edições da Flip. Atualmente, cursa o doutorado em literatura e cultura na PUC-Rio.

testeBrasil: potência ambiental e grande produtor de alimentos

Foto: Leo Aversa

Foto: Leo Aversa

O patrimônio ambiental do Brasil é maior do que muita gente tem em mente. Todo brasileiro sabe que somos grandes em biodiversidade, mas poucos se dão conta de que somos o maior do mundo. Quem me deu essa noção exata foi o presidente da Conservation International, Russell Mittermeier. Ele me disse que 18 países, entre os mais de 200 do mundo, têm, sozinhos, 70% da biodiversidade do planeta. O Brasil é o primeiro do grupo.

O século XXI precisará dessa herança. Em tempos de mudança climática, na época da bioeconomia, nossos vários biomas serão cada vez mais preciosos. No maior deles, a Amazônia, foi desmatada em 20 anos uma área equivalente aos territórios somados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

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A boa notícia é que nós sabemos como reduzir o ritmo de desmatamento, e isso foi feito nos últimos anos. Houve um retrocesso recente, mas o Brasil já sabe o que dá certo no esforço de proteger sua riqueza. No livro História do Futuro — O horizonte do Brasil no século XXI, conto como se formam as alianças da conservação e como age o grupo que quer destruir. Eu visitei a Amazônia e conversei com especialistas para trazer um olhar novo sobre essa decisiva questão. E se você está preocupado em como conciliar conservação com agronegócio, pode ir até o capítulo da agricultura, onde mostro casos de produtores que têm aumentado a produção, sem desmatar. Olha que dado incrível: o Brasil tem de pastos abandonados uma terra do tamanho da Alemanha e do Reino Unido somados.

Nosso futuro será, ao mesmo tempo, de fonte de biodiversidade e de fornecedor de alimentos. Se formos sábios, não precisaremos escolher entre as duas vocações. Confira no História do Futuro.

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Leia a entrevista com Míriam Leitão