testeVocê já encontrou o seu lugar?

Ao escrever O amor segundo Buenos Aires, uma das minhas inspirações foi — obviamente — a própria cidade. Como diz o personagem Hugo em algum momento, “eu entendo Buenos Aires, e a cidade me entende”. Pensando nisso, comecei a me recordar de livros e filmes que, ao longo do tempo, levaram-me para locais que não conheço porque seus autores conseguiram captar a essência de uma cidade, um país ou um lugar específico que ficaram indeléveis em minha memória.

Aí vão seis obras de ficção que me transportaram para lugares que ainda não tive a oportunidade de visitar.

 

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O céu que nos protege

Embora seja baseado em um romance de 1949 de Paul Bowles, o título é mais conhecido pela versão para cinema dirigida pelo italiano Bernardo Bertolucci, lançada em 1990. O casal vivido por Debra Winger e John Malkovich viaja para a África a fim de resolver problemas em seu casamento e acaba se enveredando por uma aventura existencial pelo continente. Construído em forma de quebra-cabeça — a princípio não fica clara a motivação da “fuga” dos personagens —, o filme mostra como um local pode se entranhar na vida de uma pessoa.

Entre amigos

O livro de Amos Oz se concentra em um microcosmo: um kibutz em Israel. A comunidade judaica é analisada em contos que se entrelaçam de forma casual — somente alguns personagens aparecem em mais de uma história. Em uma comunidade de iguais, no entanto, a lupa de Oz mostra pequenas disputas de poder. Entre as descrições das particularidades do kibutz estão a noção de que as crianças são filhos da comunidade, e não de um casal apenas, a divisão de tarefas entre os gêneros e as dúvidas dos jovens que, ao se aproximar a maioridade, têm de decidir se querem ou não se mudar para o “mundo real”. Uma boa forma de conhecer uma realidade fechada para a maioria das pessoas.

 

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Tracks

História real de Robyn Davidson, uma mulher que, no fim dos anos 1970, decide cruzar o deserto australiano acompanhada de camelos e cães. A determinação e a teimosia de Robyn ficam evidentes em todas as páginas, narradas em um estilo furioso (eu li o livro em inglês e não achei menção a uma edição em português). A odisseia de Robyn foi acompanhada pela revista National Geographic, que produziu uma reportagem com fotos impressionantes. A história virou filme em 2014, ao qual também assisti (e do qual gostei), com Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas.

Um livro por dia

Falando em Shakespeare and Company e em microcosmos, o livro de Jeremy Mercer narra as desventuras de um escritor novato — o próprio Jeremy — que resolve viver de arte e fazer parte da pequena trupe que mora de favor na pequenina e famosa livraria de Paris. O dia a dia na livraria, os bicos para arranjar dinheiro, a vida sem chuveiro, as noites dormidas em meio a livros e as visitas ao banheiro público de Paris (banho só uma vez por semana, para economizar) são alguns dos “pedágios” que Jeremy está disposto a viver para desenvolver a própria arte.

 

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Na natureza selvagem

Este livro, para mim, é especial, pois foi comprado em um local muito próximo do meu coração: a livraria Shakespeare and Company, em Paris. O autor, Jon Krakauer, é especialista em contar histórias reais de homens que desafiam a natureza. Aqui, o protagonista é Chris McCandless, que resolve se isolar do mundo vivendo no Alasca. Agrada-me o modo como é narrada a alegria do personagem ao descobrir um lugar só seu, e também a tristeza e a impotência que tomam conta de Chris quando ele entende que não pode controlar a natureza.

Terra vermelha

Este livro incrível foi escrito por Domingos Pellegrini, vencedor de dois prêmios Jabuti. Narra um pedaço da história recente do Brasil. Você sabia que a região de Londrina, no Paraná, só começou a ser colonizada nos anos 1930? E por ingleses? E que toda aquela área foi concedida para loteamentos à Inglaterra como pagamento de uma dívida do governo brasileiro? A chegada dos ingleses, e a dura vida dos desbravadores, é narrada com olho clínico e um toque de romance por Pellegrini — que, claro, é “pé vermelho”, como são conhecidos os habitantes do norte paranaense.

 

E você, teve algum filme ou livro que o transportou para os confins do mundo, um lugar que jamais imaginou visitar? Estou aberto a sugestões.

testeOn the road books — para pegar a estrada sem sair de casa

Já fui estradeiro e viajei com minha banda para tudo quanto foi canto do país. Parávamos onde dava, comíamos o que tinha, dormíamos em repúblicas estudantis, em pulgueiros e, eventualmente, até dentro de nossos carros em postos de gasolina. Distâncias intermináveis, cachês duvidosos e equipamentos de som sofríveis sucumbiam ao prazer infinito de estar com os amigos em cima do palco.

O tempo, no entanto, é mestre em dilapidar sonhos do tipo sem lenço, sem documento. Aquela coisa “nem por você nem por ninguém eu me desfaço dos meus planos”, infelizmente, um dia cai por terra, quando a vida lhe cobra um pouco mais de responsabilidade. E, sem que nos demos conta, começamos a achar bom ficar “em casa, guardado por Deus, contando o vil metal”.

On the road - por Junior Aragão (1)

On the road – por Junior Aragão

A literatura me resgatou do limbo e me colocou de novo no jogo. Por longos e prazerosos anos venho pegando a estrada para participar de eventos literários. Distâncias intermináveis, cachês inexistentes e, eventualmente, pouco público também têm sucumbido ao prazer infinito de conversar olho a olho com meus leitores. Por sorte, as estradas têm sido bem mais aéreas do que terrestres. Ainda assim, não evito encarar quinze ou dezesseis horas de ônibus quando o tempo permite e a necessidade financeira exige. Desde a invenção da lanterna no celular, quinze horas num ônibus passaram a significar potenciais quinze horas de escrita, temperadas pela magia que só a estrada tem. Algumas de minhas frases preferidas foram concebidas nas madrugadas, rodando em BRs por aí. Frases que acabaram fazendo parte dos dois road books que escrevi.

Para celebrar as aventuras que certamente ainda virão, segue minha lista de road books que vão lhe deixar cheio de vontade de jogar tudo para o alto, entrar num veículo qualquer e sair sem rumo:

1- On the road, de Jack Kerouac — Sexo, drogas, bebidas e jazz. A viagem de Sal Paradise e Dean Moriarty pelos Estados Unidos é um dos meus livros favoritos. A escrita é como um caminhão rodando pela estrada, no estilo fluxo de consciência. Algo como “o que vim pensando fui escrevendo”. O manuscrito original, sem parágrafos, é de tirar o fôlego.

2- De moto pela América do Sul, diário de viagem de Che Guevara — Nem toda a viagem de Ernesto e Alberto Granado entre a Argentina e a Venezuela foi feita de moto, a chamada La Poderosa. De carona, obtendo a maioria da comida e da hospedagem de graça, o livro é um ótimo relato da transformação dos ideais de um homem.

3- Livre: a jornada de uma mulher em busca do recomeço, de Cheryl Strayed — Li esse livro depois de assistir ao ótimo filme. É o relato da autora sobre uma viagem a pé, de mais de 1.700 km, por uma trilha na costa pacífica dos Estados Unidos. O fato de ser uma história real, ou muito próxima da realidade, torna a leitura mais fascinante. O clássico tema da descoberta do sentido das coisas. Como diz a autora: “Este livro é sobre como suportar o que não podemos suportar.”

4- A máquina de contar histórias, de Maurício Gomyde — Escrevi esse livro como um mea culpa para o tanto que a literatura consome do precioso tempo ao lado das minhas filhas. Um escritor descobre, após a morte da esposa, que as duas filhas o consideram um completo estranho. É uma viagem de reconquista e, principalmente, descoberta de que a coisa mais importante da vida muitas vezes pode estar bem ao nosso lado.

5- Na natureza selvagem, de Jon Krakauer — Livro e filme belíssimos. É a história de Christopher McCandless, ou Alex Supertramp, um jovem que se forma numa prestigiosa faculdade, esfrega o diploma na cara da família, doa seu dinheiro para uma instituição de caridade e parte em direção ao nada para viver uma vida livre. Citações e a alma de grandes escritores como Tolstói, Jack London e Thoreau estão presentes o tempo todo. O fim é trágico, mas não menos belo e poderoso.

6- A garota de papel, de Guillaume Musso — O livro não é muito conhecido e não me lembro como chegou às minhas mãos. Achei a história muito boa e li de uma vez só. Sou suspeito, pois gosto de livros sobre escritores. O clichê da crise criativa abre espaço para uma abordagem fantasiosa e deliciosa, de uma personagem que pula das páginas para a vida real e implora que o escritor termine uma trilogia antes que ela desapareça. Tudo isso acontece na estrada, numa viagem pela costa da Califórnia e do México. É hilário e apaixonante

7- Mosquitolândia, de David Arnold — A viagem da pequena e determinada Mim Malone é cativante. As inúmeras referências pop, de Star Wars a Elvis Presley, enriquecem essa história de descoberta que traz temas fortes, como morte, suicídio e divórcio. Destaque para os personagens Walt e Beck.

8- Surpreendente!, de Maurício Gomyde — Quatro amigos saem pela estrada para fazer um filme antes de um deles ficar completamente cego. Obviamente, sou suspeito para falar sobre o tanto que me envolvi com tudo, sobretudo por conhecer a fundo os cenários onde a história acontece. Costurado pelos clichês do cinema, é meu road book