testeMúsica, Beatles e lembranças inesquecíveis

Já imaginou ser capaz de lembrar tudo o que acontece em sua vida? Ter, dentro da cabeça, uma caixinha infinita capaz de guardar momentos e diálogos com todos os seus detalhes? Lembrar não apenas a alegria do Natal, mas também o almoço e a roupa que estava usando naquele domingo em que ficou em casa o dia inteiro vendo Netflix. Essa é a vida de Joan Lennon, a protagonista do livro de novembro do clube intrínsecos.

Assim como o pai, Joan é completamente apaixonada por John Lennon e por música. Com dez anos, a garotinha é bastante inteligente e é portadora de uma síndrome raríssima chamada Memória Autobiográfica Altamente Superior, sendo capaz de lembrar todos os acontecimentos de sua vida. Com a memória extraordinária, talento e poder de observação, Joan é uma garota destemida. Porém, depois de conviver com a avó, sofrendo com perda de memória, ela descobriu o seu maior e mais terrível medo: ser esquecida.

Enquanto procura uma forma de ser inesquecível, Joan conhece Gavin Winters. Gavin, por sua vez, é um ator famoso de Los Angeles que, após perder inesperadamente o seu namorado Sydney, está determinado a esquecer tudo o que viveu ao lado dele. Desse encontro tão inusitado, surge uma amizade improvável, repleta de recordações especiais e música.

Com uma história emocionante e divertida, Os prós e os contras de nunca esquecer é o primeiro livro do autor Val Emmich e chega às livrarias no dia 1º de fevereiro.

testeO ano da inocência

Lembro-me bem daquele dia. Os detalhes, odores, o vento, o vazio das ruas. Recém-aprovado no vestibular, ainda antes dos dezessete anos, sentia-me superior, como se pudesse esmagar o resto do mundo com meus pés. Embora muitos achassem que eu era motivo de piada — e, em retrospecto, não posso culpá-los por isso —, a verdade era que eu me achava invencível.

Uma autoestima nas alturas meio sem razão de ser. Magro e alto, de uma maneira desajeitada, era apenas mais um adolescente que não sabia o que fazer com as pernas, os braços e as orelhas que haviam crescido rápido demais. Estudaria, no ano seguinte, engenharia na universidade federal. Era o orgulho do meu pai, parecia tudo tão certo, predestinado, exato.

Naquele verão, do último dia das provas até aquela comemoração do resultado do vestibular, eu havia ficado no meu quarto ouvindo músicas em inglês para treinar o idioma. Nada de viagens, praia. Só ar condicionado ligado 24 horas por dia naquele quarto cheio de pôsteres imbecis. A aprovação no vestibular operara milagres: meu pai havia se esquecido da conta de luz e me deu um grande presente — deixou-me em paz.

Gastei todo o início de janeiro aprimorando meu inglês. Enquanto todo mundo ouvia John Lennon, The Doors ou Rolling Stones, eu exercitava o idioma com a canção preferida da minha professora quarentona naquele verão: Lost in love, do Air Supply. Ouvi tanto que passei a gostar. Parecia falar do que eu sentia por Baby: “You know you can’t fool me, I’ve been loving you too long…”

O telefone, que andara mudo lá em casa por dias, tocou com Baby gritando “passeeeeei” com todas as forças de seus pulmões (eu já sabia, tinha ouvido o nome dela no rádio). Ela me perguntou se eu iria à festa — claro que eu não havia sido convidado, mas fingi que mal podia esperar. Sim, precisava de uma carona. Baby havia ganhado um Fusca do pai. Não era nada especial, tinha um bege desbotado e um retrovisor só do lado do motorista.

À medida que acelerávamos pelas praias cada vez mais desertas naquele dia de verão nublado, mas não menos calorento, minha felicidade aumentava. Colaborava para o clima o gosto musical muito mais apurado de Baby. No toca-fitas, rodava um cassete mixado a partir dos melhores discos dos amigos. Um dos lados fora dedicado a David Bowie. Nunca tinha ouvido falar dele, para espanto de minha melhor amiga e também amor secreto.

— Em que planeta você vive? — perguntou Baby.

— Marte — respondi, com um sorriso.

— Que coincidência. Bowie também.

Antes de irmos à festa, paramos em um dos grandes descampados que a Barra tinha na época e Baby tirou da bolsa um presentinho que recebera um dia desses — um baseado. Ela confessou que era virgem nessa área — o que, óbvio, valia para mim também. Entre tossidas e cuspidinhas de erva, ela me beijou. Primeiro, um toque rápido nos lábios; depois, nossas línguas se entrelaçaram de forma atrapalhada, mas intensa, cada vez mais intensa. O elástico frouxo do meu short foi vencido por minha energia adolescente. Deixei-me levar, não podia parar. Quando dei por mim, havia sujado todo o painel do carro de Baby.

Ela olhou para mim espantada, pois nem havíamos nos tocado. Também nunca havia presenciado coisa semelhante. Em seguida, não conseguia parar de rir.

Corações em disparada, ainda mais porque, por algum motivo, a música estava ligada no último volume. Bowie cantava Changes. Enquanto nos olhávamos, nossas respirações se acalmavam. Soltei um riso nervoso. A vida começava ali.

testeÁlbuns antigos, a mala do tempo e uma escadaria

Coluna Clarice

Estava, por esses dias, olhando fotos antigas. Sempre desejei uma máquina do tempo para reviver alguns momentos do passado ou visitar outros que nunca vivi. Dar uma volta pelo Recife Antigo com Clarice Lispector, tomar um café com John Lennon, rodar pelas ruas ouvindo Jesus falar.

Infelizmente, o mais próximo que consegui chegar de tal desejo foi vendo álbuns antigos. Ah, que costume bonito que perdemos: revelar fotos, montar álbuns, escrever legendas à mão! Ao menos meus pais tinham esse costume. Li, inclusive, vários detalhes sórdidos e estranhamente proféticos sobre meu presente recém-nascido com dicas sobre o futuro.

Não que isso me encha de real admiração. Toda mãe é profeta, adivinha, cigana e fada. Elas falam e acontece.

Passando as páginas dos álbuns, uma foto me chama especialmente a atenção. Olhando assim não teria nada demais. Nela, uma-minha-mãe-mais-jovem-que-eu estava sentada em uma escadaria antiga, com ar colonial.

“Que escadaria bonita”, penso.

Uma lembrança vem visitar meus pensamentos naquele exato instante. Eu e mais dois amigos andando pelas ladeiras de Ouro Preto, a cidade mágica de Minhas Gerais. Eu estava participando do Fórum das Letras, evento literário local. Aquelas ladeiras nos levam a infinitos lugares históricos, significativos, e uma ruazinha bastante discreta estava no meio delas, apenas uma viela, nada demais, como as coisas que costumam me chamar a atenção.

“Que escadaria bonita”, pensei.

Obviamente estávamos cansados (eu mais do que todos, pois não tenho o melhor preparo físico), e nessas horas caminhamos focados; ficar parando não faz parte da dinâmica. Mas ali estava aquela escadaria enorme, antiga, cercada por duas paredes com ar medieval. Me lembrou a Itálica. Então eu chamo o amigo: “Ei, Pedro, peraí.”

Lá vem Pedro Gabriel, aquele que também se chama Antônio. O coitado volta seus passos já conquistados à minha frente.

“Pedro, tira uma foto minha sentada aqui?”
“Aí? Tá bom. Vai lá. Quer que apareça a escada toda?”
“Sim! Pega a escada.”

Sento, tiramos a foto, eu saio satisfeita.

Volto para a foto da minha mãe e procuro a minha para comparar. Não seria possível. Os degraus, a janela ao fundo, a parede com a mesma linha cortando-a ao meio. Era a mesma escadaria, com detalhes transformados pelo tempo, assim como as modelos sentadas em seus degraus. Mas era uma viela tão insignificante… Tanto eu quanto a minha mãe só fomos uma vez a Ouro Preto, uma cidade com tantos lugares para fotografar… Aquele lugar encantado tem beleza a cada ladrilho. E lá estão as fotos, nós duas quase com a mesma idade e sentadas do mesmo jeito. Fizemos os cálculos: entre a minha foto e a dela são mais de 30 anos.

Que mistério é a vida! Sempre fui fascinada pelas estrelas e pela imensidão do universo, das galáxias desconhecidas, do incompreensível que nos rodeia. Neste exato momento, estamos flutuando no espaço e sendo sugados por uma força gravitacional que nos puxa irresistivelmente para o centro ardente em chamas do nosso planeta — imenso para mim, insignificante para o infinito universal. Que desproporção! Sou insignificante e tenho tamanho significado em microespaços por onde respiro e respirei.

Quantos mistérios existem entre o céu e a Terra? Shakespeare se perguntava há tantos anos e nunca se respondeu. Somos dois. Mas eles — os mistérios — também são infinitos. Que fazer?

O que é o tempo?
“Tudo passa com o tempo”, aprendi.

Hoje me pergunto se tudo passa ou se algumas singelezas não ficam dentro de uma mala temporal, feita de baladas invisíveis emitidas por sinos ao longo dos séculos, por exemplo. Dentro dela deve haver de tudo: uns passos dados, uns caminhos traçados, uma memória que nunca foi minha, mas estava, quem sabe, circulando pelo meu sangue? O tempo depositou lembranças em meus glóbulos vermelhos, ou quem sabe na retina. Porque meus olhos amaram os mesmos degraus que a minha mãe 30 anos antes de mim, a mesma sina.

E meu desejo foi repetir, neles, o mesmo gesto. Vai entender. Foi instinto? O que sinto? Falo o verdadeiro ou minto?

Será que o tempo passou ali e guardou nas paredes segundos, minutos, décadas, miragens? E eu apenas, inocente, os peguei para mim

em mais uma das minhas passagens.

Álbuns antigos congelam o tempo. Fotografias eternizam olhares e lugares. Ventos e ares. Palmas e palmares. O que sonhas e o que, por ventura ou aventura, sonhares.

Repeti os passos da minha mãe sem um motivo.
Ele é mistério. Para vivê-lo,
é só estar vivo.

Agradeço ao enigma que é a vida.

“Decifra-me ou te devoro”, ameaça a esfinge. Devora coisa nenhuma. O tempo é mais poderoso que você, querida. Ele se deixa decifrar, se quiser.

Ele e suas artimanhas soltas (ou presas?)
pelo ar.
O delicioso de vi-ver é abrir as retinas para,
diaria-mente,
desvendar.