testeComo sobreviver em um quarto de hotel sem enlouquecer

Por João Lourenço*

O interior do Hotel Metropol (Fonte)

Algo bacana que o jornalismo oferece é a oportunidade de ficar hospedado em quartos de hotéis pelo mundo. Muitos não curtem, eu sim. Sempre me senti confortável nesses lugares. Nenhum outro local é mais íntimo e perigoso. E, sei lá por que, acho que o isolamento desse ambiente evoca o melhor e o pior do ser humano.

Quartos de hotel têm história. Algumas, macabras. Michael Jackson pendurou o filho de 9 meses na sacada de uma suíte em Berlim. James Dean quase pulou do telhado do famoso Chateau Marmont, em Los Angeles — mesmo hotel que inspirou o longa Um lugar qualquer, de Sofia Coppola. Lendas e histórias não faltam. Há certo misticismo nesses lugares, uma aura de magia e urgência. E, para mim, é quase impossível não pensar na vida daqueles que se hospedaram no mesmo quarto que eu e em todos aqueles que ainda passarão por ali.

OK, estas são divagações de um viajante que “pensa demais”. Vamos logo ao que interessa.

Disse que curto quartos de hotel. Mas e se eu fosse obrigado a permanecer hospedado no quarto de um mesmo hotel pelo resto da vida? Será que continuaria curtindo? Foi essa pergunta que inspirou Amor Towles a escrever Um Cavalheiro em Moscou.

Na lista de mais vendidos do The New York Times há mais de um ano, o segundo livro do autor acompanha a vida de Aleksandr Ilitch Rostov, mais conhecido como “O Conde” pelos corredores do Hotel Metropol, famoso ponto de encontro de artistas, políticos e estrelas de cinema. Rostov sempre se hospedara nas melhores suítes. Mas depois de passar por um tribunal bolchevique, é condenado à prisão domiciliar e deve viver no pequeno sótão do hotel. Do tipo otimista, o Conde não muda de comportamento, mesmo com o revés. É um cavalheiro — cortês, gentil, culto — tentando sobreviver em uma sociedade pós-Revolução Russa, marcada por mudanças sociais e culturais, em que condes e czares saíam de cena para abrir passagem a generais e ditadores.

O convívio com Nina, menina de 9 anos, filha de um burocrata viúvo, começa a transformar a vida do Conde. É a menina quem lhe apresenta um Metropol que ele não conhecia, cheio de mistérios e passagens secretas. Em troca, o Conde compartilha com a garota sua sabedoria, e assim nasce uma amizade para a vida toda.

Além de Nina, o Conde conhece no Metropol pessoas vindas de vários lugares do mundo. Tem um caso com uma atriz famosa, dá aulas para um ex-coronel do Exército Vermelho — e é através desses e de outros personagens que circulam pelo hotel que o leitor, sem nem perceber, começa a entrar na complexa história da Rússia pré e pós Revolução.

Um dos maiores talentos de Amor Towles é criar personagens e narrativas que soam reais, de fácil identificação. Por mais estranha que possa parecer a amizade de um Conde com uma menina de 9 anos, jamais duvidamos dos relatos do autor. O segredo? Towles não faz pesquisas exaustivas para os livros que publica. Escreve como se estivesse relatando uma história para um amigo.

O processo criativo do autor funciona assim: só depois de finalizar o primeiro rascunho ele começa a pesquisa de datas e acontecimentos para inserir na narrativa. Essa técnica resulta em um tom fluido e realista. Seus livros são feitos de capítulos curtos e rápidos que, apesar de não oferecem grandes cliffhangers, mantêm a atenção do leitor. O vasto conhecimento de Towles sobre a Rússia e o Metropol, hotel onde se hospedou por diversas vezes, traz ao leitor uma perspectiva histórica diferente. “Em geral, nas décadas de 1910, 1920 e 1930, sinto que houve momentos de emoções palpáveis, de que algo profundo estava acontecendo no mundo das ideias e das artes. Se pudesse voltar no tempo, seria para essa época”, Towles revelou por e-mail.

Quando você lê Amor Towles, é difícil acreditar que ele passou mais de duas décadas trabalhando no mercado financeiro. “Ter uma carreira assim me permitiu escrever sem aquela sensação de urgência para ser publicado”, conta. “Entre histórias que abandonei e manuscritos que nunca tive coragem de compartilhar com ninguém, tive tempo suficiente para encontrar uma voz com que me identificasse”.

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York escrevendo seu primeiro romance.

testePor que o livro de Cara Delevingne é o espelho dos Millennials

*Por João Lourenço 

Ela vem de família influente. Check. Ela é amiga de Taylor Swift e das irmãs Kardashian. Check. Ela já namorou Michelle Rodriguez e Harry Styles. Check. Ela é uma das top models mais bem pagas e requisitadas da atualidade. Check. Ela poderia ser apenas mais uma celebridade que muitos invejam, mas ela é Cara Delevingne: uma mulher inquieta que recusa rótulos.

Foi na Vogue Itália que ela apareceu pela primeira vez em um editorial de moda. Tinha 10 anos. Em seguida, foi descoberta no colégio pela mesma agente responsável pela carreira da top Kate Moss. Desde então, o rosto da inglesa, conhecido por sobrancelhas expressivas, estampou capas de revistas pelo globo. Ela também é garota propaganda de marcas como Burberry, Chanel e Dolce & Gabbana. Em 2012, após ser considerada a modelo do ano pelo badalado British Fashion Awards, sua carreira ganhou novo patamar.

Delevingne aproveitou a popularidade para se arriscar no cinema. Chegou a fazer teste para o papel de Anastasia Steele em Cinquenta Tons de Cinza. Após participação ligeira no drama histórico Anna Karenina, de Joe Wright, deu vida a Margo Roth, protagonista de Cidades de papel — longa baseado no livro homônimo de John Green. Na época do lançamento do filme, Green disse que ninguém entendeu a personagem como Cara Delenvigne. De designers a diretores, todos que trabalham com a modelo a elogiam. Delevingne tem humor contagiante. Em menos de um ano, teve papel de destaque em dois blockbusters: Esquadrão Suicida e Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.

Aos 25 anos, Delevingne já viveu várias “personagens”. A mais recente: escritora de ficção. O romance Jogo de espelhos foi assinado em parceria com a escritora de best-sellers Rowan Coleman. Nele, Delevingne apresenta um retrato honesto sobre os conflitos existenciais da geração Millennials. Jogo de espelhos começa com quatro adolescentes desajustados que aparentemente não têm muito em comum. Leo, Rose, Naomi e Red se encontram naquele período chato e desconfortável de autodescoberta. Apesar das diferenças, formam uma banda para um projeto escolar: Mirror, Mirror. O som da banda é o bom e velho rock’n’roll, com covers de AC/DC e composições próprias (letras de algumas canções estão no livro). Mirror, Mirror conquista fãs e seguidores. Os quatro deixam de ser “invisíveis”. E, por meio da música, formam uma turma incomum: da gostosona à esquisitona, eles são muito diferentes um do outro.  

Como diz o ditado, “tudo que é bom dura pouco”. E a carreira da banda segue outro rumo quando a baixista, Naomi, desaparece. Depois de quase um mês de buscas, ela é encontrada entre a vida e a morte no rio Tâmisa. Teria sido uma tentativa de suicídio? Ou foi jogada lá? Naomi era um elo forte entre os integrantes da Mirror, Mirror. Agora, com a baixista em coma, os três precisam se virar. Rose se joga em festas e Leo começa a apresentar um humor sombrio. Resta a Red a missão de descobrir o que aconteceu com a amiga. Inicia-se, então, uma investigação marcada pela revelação dos segredos mais íntimos de cada um.

Em Jogo de espelhos, Delevingne revela mais um talento, a literatura. A sensação é de que ela aprendeu alguns truques com o amigo John Green. Assim como o autor, ela desenvolve personagens adolescentes complexos e de fácil identificação. Com estrutura simples e acessível, o livro tem humor, suspense e plot twists capazes de surpreender até os leitores mais atentos.

Prisão, pais ausentes, alcoolismo, bullying, automutilação, estupro, crises de identidade e conflitos de sexualidade são alguns dos temas abordados pela autora. O pulo do gato de Delevingne é saber equilibrar assuntos “tabus” com o bom humor inglês, o que ajuda o leitor a respirar em meio a tantas reviravoltas.

Fruto da geração que cresceu com as mídias digitais, Delevingne consegue trazer para as páginas do livro a linguagem instantânea da web. Ela tem sensibilidade para retratar com franqueza a vulnerabilidade emocional e física de uma geração que gosta de se expor nas redes sociais e, ao mesmo tempo, tenta esconder suas fragilidades. Na apresentação de Jogo de espelhos, a autora explica: “Nunca foi tão difícil ser jovem, principalmente com a pressão cada vez maior de parecer perfeito.Vivemos em um mundo onde as pessoas julgam antes de tentar entender ou ao menos considerar o que o outro está passando.”

Sobre sua vida pessoal, a modelo/atriz/autora costuma falar com naturalidade. Assim como os personagens de Jogo de espelhos, ela enfrentou problemas de depressão e crise de identidade. Aos 20 anos, se assumiu bissexual. E, hoje, não perde a oportunidade de defender os direitos das mulheres e das minorias em entrevistas e nas redes sociais. Porém, haters gonna hate. E sempre aparece um para mostrar o quanto ainda precisamos evoluir enquanto civilização.

Ao mesmo tempo em que está sempre sorrindo e fazendo piadas, Delevingne não tem medo de expor medos e fraquezas. A mulher brincalhona que vejo ao abrir seu Instagram (@caradelevingne) passa a mensagem de que devemos ser gentis uns com os outros. Afinal, desconhecemos as batalhas alheias. Jogo de espelhos segue essa mesma ideia: fala sobre abraçar a si mesmo e aos outros, independentemente das diferenças.

Vida longa à nova autora.

 

>> Leia um trecho de Jogo de espelhos

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeMulheres à beira de um ataque de nervos

Por João Lourenço*

Você tem mania de limpeza? É viciada em calmantes? Sempre está com uma taça de champanhe na mão? Fala alto, conversa sozinha, interrompe as pessoas e gosta de ser o centro das atenções? É hipocondríaca, apresenta instabilidade emocional? Suas amigas te deixam louca? Ou é você quem enlouquece suas amigas? Cuidado, você pode ser uma neurótica! Na verdade, esse termo não tem o mesmo peso que tinha no passado. Em geral, a tal da neurose não se trata mais de algo clínico. Qualquer comportamento exagerado, um pouco fora dos padrões, pode ser tido como neurose… Mas não se preocupe, um pouco de neurose não faz mal a ninguém. Louco é aquele que nunca perde o controle. 

São vários os tipos de neuróticas. As mais comuns são aquelas que têm consciência da condição e abraçam essa característica. Há também as neuróticas enrustidas, aquelas que tentam mudar, controlar a neura. Esse é o caso da Eleanor Flood, protagonista do novo romance de Maria SempleHoje vai ser diferente. Eleanor não é má pessoa — assim como a maioria das neuróticas também não são. Eleanor é o tipo de mulher que faz listas mentais de tudo que precisa ser diferente em sua vida. Ela quer muito mudar: deseja ser uma mãe melhor, uma amiga melhor, uma esposa melhor. Enfim, uma versão melhor de si mesma. Porém, assim como na vida real, muitos imprevistos e surpresas desagradáveis surgem na vida de Eleanor.

Como não pirar quando tudo desmorona? Apesar de tantos obstáculos, Eleanor tenta encontrar soluções inusitadas para os problemas do cotidiano. Ela é uma personagem cativante que garante boas risadas e reflexões sobre as nossas neuroses do dia a dia. Irônico, engraçado e humano, a história de Eleanor está em processo de adaptação para a telinha, tendo Julia Roberts no papel principal — para neurótica nenhuma botar defeito. 

Abaixo, selecionamos seis personagens neuróticas de filmes e seriados de TV. Ame ou odeie-as. 

 

Carrie Bradshaw — Sex and the City

 

A série televisiva Sex and the City abriu o caminho para produções originais que abordam o universo feminino. Quem nunca quis sentar para um brunch com Samantha, Charlotte, Miranda e Carrie? Esta última sempre foi a personagem que mais dividiu opiniões. Carrie é independente, fashionista, assina uma coluna semanal sobre sexo para o jornal The New York Star e mora em um charmoso apartamento no coração de Manhattan. Ela é a it girl que você quer ser amiga e, às vezes, também consegue ser aquela pessoa insuportável que queremos distância: narcisista, egoísta e cheia de manias. É a típica neurótica que fuma um cigarro atrás do outro e não sai de casa até o “contatinho” ligar. Carrie Bradshaw, apesar de boa amiga, sempre quer ser o centro das atenções. 

 

Chris — I love Dick 

 

Por muitos anos, Kathryn Hahn estrelou como coadjuvante em filmes independentes. Na série da Amazon I Love Dick, ela rouba todas as cenas. Chris é uma cineasta que não produz nada original há anos. Frustrada com a profissão, ela decide seguir o marido, Sylvester (Griffin Dunne), para uma cidadezinha no interior do Texas, onde ele ganhou uma bolsa para estudar na famosa instituição do artista plástico Dick (Kevin Bacon). Em proporções diferentes, o casal se apaixona pelo sedutor Dick. Chris cria inúmeras fantasias e conspirações sobre Dick e transforma tudo isso em um diário picante. Para chamar a atenção do seu objeto de desejo, ela imprime o diário e distribui para a cidade inteira ler. Além de perseguir Dick por todos os cantos, a personagem de Chris se humilha, cria cenas que causam vergonha alheia — no espectador e nos outros personagens — e faz jogos mentais com o marido. Ou seja, um prato cheio! Ela é a mulher mais imprevisível da telinha. 

 

Madeline — Big Little Lies

 

Além de produtora da badalada série da HBOBig Little Lies, baseada no romance Pequenas grandes mentiras, de Liane Moriarty, Reese Witherspoon também encarnou uma das protagonistas: Madeline. Ela é aquela neurótica que sabe que é neurótica, mas não tem nenhuma vontade de mudar. Madeline mora em uma mansão de frente para o mar, tem tudo que o dinheiro pode oferecer, porém sempre está entediada. Ela está no segundo casamento e é mãe de duas filhas. Pense em uma mãe tigre, aquela que se envolve nas brigas das meninas. Ela também não mede esforços para criar climão com quem se mete em seu caminho. Madeline arruma confusão até com o prefeito da cidade. A última palavra é sempre dela e ela não pensa duas vezes antes de te mandar para aquele lugar. Todos temem a sua língua ferina. Madeline é control freak, se apega a pequenos detalhes e sabe da vida de todo mundo. Mas não é só de barraco que ela sobrevive. Madeline também protege e aconselha as amigas desafortunadas.  

 

Brooke Cardinas — Mistress America

 

No tragicômico Mistress America, fica difícil acompanhar a rotina e as ambições da personagem Brooke Cardinas. Interpretada por Greta Gerwig, que coassina o roteiro do longa, Brooke é um retrato irônico da geração millennial. Brooke faz um pouco de tudo, mas não termina nada que começa. Ela pretende abrir um restaurante, mas, enquanto o sonho não se concretiza, trabalha como decoradora, designer de moda, instrutora de SoulCycle e tutora de matemática para adolescentes ricos. Ufa! Brooke acredita que as pessoas só se aproximam dela para roubar as suas ideias. Esse lado supersticioso e neurótico da personagem rende boas gargalhadas. Em tempos de crise, Brooke apela até para clarividentes. Ela é um personagem que não percebe que muitos de seus sonhos são irrealizáveis. Mas ela jura que: “Sei tudo sobre mim mesma, é por isso que não posso fazer terapia.”

 

Jasmine — Blue Jasmine 

 

O diretor do longa Blue Jasmine, Woody Allen, ficou conhecido por criar personagens neuróticos — lembra de Annie Hall? Em todos os filmes de Allen você encontra personagens que apresentam algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo: pessoas que falam demais, excêntricas, paranoicas, desconfiadas até da própria sombra. Em Blue Jasmine não é diferente. Jasmine é uma socialite nova-iorquina que tem a vida virada do avesso quando o marido vai preso, deixando ela na rua da amargura. Jasmine começa a sofrer de transtorno delirante, ou seja, ela não aceita a nova realidade. Então faz de tudo para manter as aparências. Ela apresenta todas as características de uma neurótica de carteirinha: fala sozinha, aborda estranhos na rua para conversar sobre a vida privilegiada que tinha com o marido e por aí vai. Ela também apresenta delírios de grandeza e é compulsiva por compras e roupas de grife. Quando nada faz efeito, ela tenta se acalmar com uma mistura poderosa de calmante e champanhe. O papel rendeu o segundo Oscar da carreira de Cate Blanchett. 

 

Aura — Tiny Furniture 

 

Antes de ser a controversa Hannah Horvath, no seriado Girls, Lena Dunham dirigiu e escreveu Tiny Furnitures. No filme independente, Dunham interpreta Aura, uma recém-graduada em Teoria do Cinema que não sabe o que fazer com o diploma — e com a própria vida. Aura explora os conflitos comuns a qualquer pessoa, como a transição da juventude para a idade adulta. Ela volta a morar na casa dos pais, mas percebe que a mãe e a irmã mais nova estão distantes e não precisam dela por perto. Aura também não consegue mais se conectar com os amigos de infância. À deriva, entediada e sozinha, ela começa a fazer amizades com webcelebridades do YouTube e passa a trabalhar como ajudante em um restaurante. Para completar, ela tem aquele famoso “dedo podre” para homens, só se envolve com gente comprometida ou emocionalmente distante. 

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

 

testeAntes da queda: quando a sobrevivência é a nossa última escolha

Por João Lourenço* 

“Senhores passageiros, sejam bem-vindos e obrigado por escolherem a nossa companhia aérea.” 

Durante o aviso que antecede os voos, costumo prestar atenção na reação das pessoas ao meu redor. Algumas não conseguem esconder o nervosismo, param o que estão fazendo e ficam atentas; outras simplesmente ignoram. Sou do segundo time. Prefiro acreditar que jamais vou precisar seguir aquelas “dicas” de sobrevivência. Afinal, se houver mesmo um acidente, quais serão as minhas chances?

Notícias de quedas de aviões sempre reacendem o nosso medo de voar. Eu, como não tenho estômago para acompanhar depoimentos de pessoas que perderam amigos e familiares em desastres aéreos, prefiro ouvir as histórias daqueles que por alguma razão — sorte? destino? — deixaram de embarcar no último minuto. 

Em Antes da queda acontece o contrário. Scott Burroughs, um pintor fracassado, entra no avião quando a porta da aeronave já está para fechar. Neste caso, não se trata de um voo comercial, mas de um jato particular que transporta apenas onze passageiros, entre eles alguns dos homens mais influentes dos Estados Unidos. O voo, de aproximadamente 50 minutos, é entre a exclusiva ilha de Martha’s Vineyard e Nova York. Mas, dezoito minutos após a decolagem, o avião cai no oceano Atlântico. Enquanto tenta domar o pânico, pensando em uma forma de sobreviver, Scott escuta o choro e o pedido de socorro de uma criança. É J.J., filho mais novo do diretor do canal de notícias mais assistido nos EUA, a ALC News. O desejo de sobreviver vence o frio e o medo de Scott. Mesmo com o ombro deslocado, ele nada por cerca de 18 quilômetros até a praia, puxando J.J. com a ajuda de uma corda e uma almofada de flutuação. 

Esse poderia ser um breve resumo do livro: duas pessoas tentando sobreviver após a queda de um avião. Mas esse trecho está apenas nas primeiras páginas do novo thriller de Noah Hawley

Após o acidente, Antes da queda segue em capítulos que se dividem entre o passado dos personagens que não sobreviveram e o presente de Scott e J.J. Mesmo salvando a vida de um menino de quatro anos, Scott provoca questionamentos na mídia e na população: seria ele um herói ou um farsante? O motivo: a última série de pinturas de Scott é sobre desastres, como imagens de aviões em chamas. Além disso, os personagens que morrem no acidente são pessoas influentes, endinheiradas e invejadas, o que levanta muitas suspeitas sobre a queda do avião.

Âncora do programa mais assistido da rede ALC News, o sensacionalista Bill Cunningham ficou famoso graças a David, diretor da emissora e pai de J.J. Inconformado com a morte do chefe, o jornalista está disposto a descobrir a qualquer custo o que realmente aconteceu de errado no voo — mesmo que para isso ele tenha que grampear telefones de autoridades e pessoas poderosas.  

Antes da queda também relata momentos honestos de compaixão, como a relação que Scott desenvolve com o menino J.J. Abalado com o acidente, o garoto quase não fala mais, abrindo exceção apenas quando está ao lado de quem o salvou. São muitas emoções que o livro proporciona e, quando se trata de deixar o público na expectativa, o autor Noah Hawley não decepciona. 

Além de escritor, Noah também é roteirista, diretor e produtor das séries mais badaladas da TV americana, como Bones, Fargo e Legion — essa última já é a série mais comentada deste ano. Em artigo para a revista Vanity Fair, que considerou Noah o homem que representa o futuro de Hollywood, o autor afirma que tenta separar e distinguir as mídias durante o processo criativo, mas, no final, uma coisa acaba levando à outra. Ele explica: “Eu quero que o livro seja um livro. Mas, então, percebo que o que escrevi pode se tornar um filme e isso é ótimo. Mas esse não era o meu objetivo quando comecei a escrever o livro.” Não era o objetivo, mas Antes da queda vai virar filme. Antes mesmo de chegar às livrarias, os direitos de adaptação cinematográfica do livro foram comprados pela produtora Sony. 

O autor de Antes da queda, Noah Hawley (Fonte)

Considerado pelo The New York Times um dos melhores suspenses de 2016, Antes da queda explora temas bastante pertinentes da nossa vida cotidiana. O autor nos lembra que vivemos em uma sociedade em que Fake News e Click Bait já estão inseridos na maneira como consumimos notícia e conteúdo em geral — e isso é perigoso. 

O sensacionalismo perpetrado por Bill Cunningham não é muito diferente daquele que se encontra em diversos canais — vide o número de matérias falsas e sem fundamento que foram ao ar durante a corrida presidencial americana. No caso de desastres aéreos, isso tende a piorar. Não há limite para a invasão de privacidade dos familiares daqueles que não tiveram a mesma sorte de Scott e J.J. Uma das questões levantada por Noah é a seguinte: se há tanto sensacionalismo na mídia, a culpa é de quem produz a informação ou de quem a consome? 

Em Antes da queda, somos confrontados com os bastidores da vida, com tudo aquilo que a TV não está interessada em mostrar. Afinal, por trás de qualquer desastre ou escândalo, existem pessoas. Ao lado de Scott, aprendemos que o tecido da vida é frágil e que a questão da sobrevivência não tem apenas a ver com riqueza financeira ou força física. Como diz Jack LaLanne, guru do mundo fitness e herói pessoal de Scott, tudo é possível, tudo é alcançável. Você só tem que querer muito! 

 

*João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeA verdade sobre a família de Marcus Goldman

Por João Lourenço*

A primeira coisa que me chamou a atenção no novo livro do suíço Joël Dicker foi o título: O livro dos Baltimore. Fiquei intrigado, pois passei uma boa temporada naquela que é conhecida como a cidade mais charmosa dos Estados Unidos. Embora esteja localizada a apenas 30 minutos de trem da capital do país, Baltimore é a típica metrópole com cara de cidade do interior. Lá, a cena artística é diversa e já revelou nomes importantes do showbusiness norte-americano, como o cineasta John Waters (Pink Flamingos), o ator Edward Norton (Clube da Luta) e Matthew Weiner, criador da série de TV Mad Men. Em relação à literatura, Baltimore foi berço do autor Edgar Allan Poe. A cidade também serviu de cenário para o filme O Silêncio dos Inocentes (1991), protagonizado pelo terrível Dr. Hannibal Lecter. 

Para o escritor Marcus Goldman, personagem que já tinha nos conquistado em A verdade sobre o caso Harry Quebert, Baltimore representa um lugar divino e intocável, afinal, era lá que ele passava as férias e os feriados ao lado dos tios e dos primos. A família de Marcus foi dividida, pelos avós, entre os Goldman-de-Montclair e os Goldman-de-Baltimore ­­– sendo que os últimos sempre foram alvo de inveja e admiração do resto da família. Em O livro dos Baltimore, Marcus está de volta para recontar e tentar entender os passos que levaram ao declínio dessa família quase perfeita. Por meio de recordações e pesquisa, Marcus disseca a história dos Goldman-de-Baltimore para entender e fazer as pazes com o que ele chama de “Drama”: evento que mudou para sempre a vida dos tios e primos. Mas antes de chegar ao Drama, somos levados a habitar o universo de uma rica família norte-americana. 

Enquanto Marcus vive a rotina de uma típica família de classe média, em Nova Jersey, os Goldman-de-Baltimore moram em uma mansão rodeada de seguranças e com tudo que o dinheiro pode comprar. Os Goldman ilustram o ideal do sonho americano e Marcus passa a infância almejando ser como um deles. Saul, o patriarca da família, é um advogado famoso que nunca perdeu um caso; Anita é chefe da ala de oncologia de um dos hospitais mais renomados do país; Hillel é o filho prodígio do casal e, por isso, alvo de ataques diários dos colegas na escola. A vida dos Goldman muda com a chegada de Woody, um menino forte e encantador que ajuda Hillel a se livrar das brigas. Woody, abandonado pelos pais, acaba indo morar com os Goldman e, ao lado de Hillel e Marcus, forma a Gangue dos Baltimore. Os três se tratam como irmãos, dividindo sonhos e aventuras entre propriedades luxuosas nos Hamptons e na Flórida.

Pausa. Nenhuma família poderia ser tão perfeita e pequenas pistas sobre o Drama são oferecidas no decorrer do livro. Joël Dicker repete a fórmula de sucesso do livro anterior e constrói outro suspense de tirar o fôlego. Às vezes, fiquei dividido entre “salvar” o romance para o dia seguinte ou “matar” logo a curiosidade sobre os próximos passos da narrativa. Porém, essa dúvida não durava mais do que alguns minutos, pois no fundo eu já sabia que não iria conseguir abandonar os Goldman. Ao contrário de outros livros do gênero, Dicker não está interessado apenas em chocar o leitor ao fim de cada capítulo. Em O livro dos Baltimore, o autor apresenta um emaranhado de histórias e detalhes que, com maestria, só se encaixam no fim da narrativa. O que mais me agrada no trabalho do autor é que as reviravoltas fazem sentido, o labirinto que ele oferece não está ali apenas para nos enganar. 

Outro ponto positivo vai para a autenticidade dos personagens. Com exceção de alguns trechos exagerados, se alguém tivesse me entregado O livro dos Baltimore sem avisar que era um romance, eu poderia muito bem dizer que se tratava de um livro de memórias reais. Esse é um dos elementos que atrai milhares de leitores para a obra de Joël Dicker: ele é um bom contador de histórias e sabe como tornar uma narrativa aparentemente simples em algo sedutor. Em O livro dos Baltimore, o autor também faz referência a algo que aparece em todos os filmes do Woody Allen: a bendita da sorte. Para Dicker, uma hora tudo se desmorona pelo simples fato de estarmos no lugar errado na hora errada. 

O sucesso da narrativa de Joël Dicker também pode ser medido pelos temas universais que ele aborda. Em O livro dos Baltimore, percorremos uma montanha-russa de sentimentos. O romance trata do pior e do melhor do ser humano: inveja, rivalidade, cobiça, trapaça, ambição, redenção, amizade e, claro, amor. Por sinal, os grandes momentos da história falam sobre as loucuras que cometemos em nome do amor e da amizade. O livro dos Baltimore nos lembra que o maior sucesso que podemos ter é na escolha dos nossos amigos, de pessoas que acreditam em nós e nos incentivam a ser a melhor versão do que podemos ser.  

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeTony & Susan: o clássico perdido

Por João Lourenço*

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Amy Adams em Animais Noturnos

No mundo da ficção, nada me dá mais prazer do que desvendar a obra de um autor desconhecido. O sentimento de descoberta é contagiante: atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou por um autor de quem ninguém (ou quase ninguém) ouviu falar e, em seguida, saiu recomendando a obra para os amigos. 

Em um tempo em que todos parecem consumir as mesmas informações, nada supera a sensação de encontrar um clássico perdido — um livro para chamar de seu. E foi essa a experiência que tive com Austin Wright, autor de Tony & Susan.

Há alguns anos, uma amiga me deu de presente o livro. O título chamou atenção, mas foi o retrato do autor na orelha que me fisgou. Curioso em saber quem era aquele homem de aparência séria e olhar distante, fui atrás de mais informações antes de começar a leitura. Para minha decepção, não encontrei nada muito interessante ao digitar Austin Wright nos sites de pesquisa. Nenhuma aparição na TV ou perfil nas redes sociais —  nem entrevista em revistas literárias. Aceitei que a melhor forma de tentar desvendar o mistério em volta do autor seria por meio da leitura de Tony & Susan, e é desafiador explicar a trama de um livro cheio de reviravoltas sem estragar o elemento surpresa. Mas vamos lá. 

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Antes de mais nada, Tony & Susan é um livro dentro de outro livro. Após mais de 20 anos sem comunicação, Susan recebe um pacote misterioso do ex-marido. Trata-se de Animais noturnos, manuscrito do primeiro romance de Edward. Ele deseja a sincera opinião de Susan, que sempre fora a sua melhor crítica.

Conduzidos por Susan, somos convidados a ler o manuscrito. Já nas primeiras páginas, ela é atraída pela vida de Tony Hastings, professor de matemática que atravessa o país de carro com a mulher e a filha. Seguindo para a casa de verão, Tony cai em uma armadilha e é obrigado a parar o carro em uma estrada escura e deserta. Ao acompanhar o terror vivido por Tony e sua família, Susan (e nós, leitores) mergulha em uma história de violência, vingança e redenção.

A leitura de Animais noturnos obriga Susan a encarar o passado obscuro que deixou para trás. Tony & Susan é um constante lembrete de que a vida que conhecemos pode desaparecer em um piscar de olhos. 

Estruturado com maestria, a obra intercala os capítulos entre a vida pacata e suburbana de Susan e a sombria trajetória de Tony. Além de nos fazer percorrer as dúvidas e arrependimentos do seu passado, Susan também é uma “guia de leitura”. É por meio da visão dela que o leitor embarca na narrativa de Animais noturnos, mas o mais legal é que as observações de Susan não influenciam a nossa própria leitura. Ao contrário: apenas nos deixam mais atentos e curiosos. Em Tony & Susan, até os personagens secundários possuem ricos detalhes, e cada um deles poderia render outro livro. É uma obra que mistura gêneros e emoções distintas. 

Tony & Susan se destaca por apresentar pessoas, medos e situações próximos da realidade — o que torna tudo ainda mais assustador.

imagem-cena-copiaCena de Animais Noturnos

Ao terminar a leitura, fiquei ainda mais curioso sobre a vida do autor. Elena Ferrante que me perdoe, mas preciso de certa proximidade com os autores que admiro. Mas, novamente, não obtive muito sucesso. Tudo que há sobre Austin Wright são suposições e pequenos dados biográficos.

Wright nasceu em 1922 e se dedicou à carreira acadêmica. Por mais de 20 anos, foi professor de literatura americana na Universidade de Cincinnatti — sua especialidade era William Faulkner. Tony & Susan é o quarto livro de Austin. Ele escreveu sete romances, além de diversos artigos de crítica literária. Foi reverenciado por pessoas como George Plimpton (fundador e editor da revista Paris Review), e, devido aos quebra-cabeças da narrativa e invenções linguísticas do autor, alguns críticos americanos o comparavam à James Joyce. 

Na época do lançamento de Tony & Susan, em 1993, o escritor Saul Bellow disse: “Brilhantemente escrito. A última coisa que você espera em uma história de sangue e vingança.” Embora sejam admirados por crítica e público, os livros de Austin Wright ficaram perdidos no tempo. Ele recebeu propostas de grandes editoras, mas optou em publicar por editoras pequenas.

Até recentemente era raro encontrar um exemplar de Tony & Susan. O título ganhou reedição americana e inglesa em 2010, vendeu bem e atraiu novos leitores, como o estilista e diretor Tom Ford. Os direitos para a adaptação cinematográfica de Tony & Susan foram adquiridos em um leilão por 20 milhões de dólares. O longa, intitulado Animais Noturnos, tem estreia no Brasil em 29 de dezembro. No elenco, os atores Jake Gyllenhaal e Amy Adams interpretam Tony e Susan. O filme já está fazendo sucesso: levou o prêmio da crítica em Veneza e foi comparado aos thrillers de Alfred Hitchcock.  

Às vésperas da estreia do filme, Tony & Susan está sendo reeditado ao redor do mundo — e, em alguns lugares, lançado pela primeira vez. Mas Austin Wright não vai ter a chance de presenciar o seu sucesso. O autor morreu em 2003 de causa desconhecida. 

Austin Wright sempre foi obcecado pela conexão entre o real e o fictício, e nada melhor do que Tony & Susan para nos ensinar que nós somos coautores dos livros que lemos.

  

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeGanância em família

Por João Lourenço*

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“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Você não precisa ter lido Anna Karenina para saber disso. Antes mesmo de aprender a ler, eu ouvia minha avó dizer algo semelhante ao que escreveu Tolstói no século XIX. Com um sotaque italiano carregado, ela repetia que família só muda de sobrenome e endereço. A grana, livro de estreia de Cynthia D’Aprix Sweeney, confirma essa máxima: família é tudo igual — principalmente quando há dinheiro envolvido.

Em A grana, acompanhamos a saga dos Plumb, uma típica família de classe alta de Nova York. São quatro irmãos de meia-idade, que não convivem bem entre si, e uma mãe distante e excêntrica. A história tem início quando o primogênito, Leo, escapa embriagado de uma festa de casamento com uma jovem garçonete e acaba provocando um constrangedor acidente de carro — eventualidade que transformará drasticamente o destino de toda a família.

A única coisa que une os Plumb é a ânsia pela distribuição do “pé-de-meia”. Trata-se de um fundo de investimento criado pelo patriarca, Leonard, que só poderia ser entregue aos filhos quando Melody, a caçula, completasse 40 anos. O dinheiro, depois de ter rendido muito bem em um fundo de investimento, serviria para assegurar um futuro mais confortável para eles, no entanto, grande parte do montante acaba sendo gasto para remediar os problemas causados pelo acidente de Leo. E é claro que seus irmãos tinham outros planos.

Ignorando o conselho do pai (“nunca conte com o ovo no fiofó da galinha”), os filhos passaram anos acumulando dívidas e listando projetos para o dia em que recebessem sua fatia do “pé-de-meia”. Melody, esposa e mãe de gêmeas adolescentes, tem uma hipoteca cara e duas mensalidades universitárias se aproximando; Jack, dono de uma loja de antiguidades, escondeu do marido que a casa de verão foi usada como garantia de empréstimo para pagar dívidas; Beatrice é uma escritora em decadência que teve que devolver o adiantamento do seu livro após não cumprir os prazos da editora.

Depois do acidente, a trama acompanha Leo por uma Nova York fria e chuvosa em uma peculiar tentativa de acalmar o ânimo de seus irmãos. Há anos os quatro não passavam nem os feriados juntos e a questão da grana acaba os obrigando a se reencontrar.

A grana é recheado de cinismo, com personagens afiados em suas narrativas autodepreciativas, e atraiu a atenção de nomes como a comediante Amy Poller, da série de TV Parks and Recreations. Poller descreveu o livro como intoxicante: “Não consegui parar de ler e de me preocupar com essa família disfuncional.” O destaque cômico fica para a personagem Francie, a mãe dos Plumb, que parece ter saído de um reality show como The Real Housewives of New York. Francie é daquelas socialites de língua afiada, que fazem comentários nada corretos e passam o dia de quimono de seda, afogando as mágoas em taças de martíni.

A grana é dividido em capítulos curtos e Sweeney intercala a trama principal com pequenas histórias de personagens secundários. Entre as desventuras da família Plumb, a autora encaixa capítulos que funcionam como contos que poderiam ser lidos isoladamente. É como se ela convidasse o leitor a fazer pausas para respirar. O capítulo 11, por exemplo, é uma das histórias mais honestas e comoventes sobre as consequências dos atentados de 11 de Setembro que já li.

De modo geral, o livro é uma carta de amor a Nova York, onde a autora morou por mais de 20 anos. A experiência de Sweeney pode ser percebida em uma escrita que descreve fielmente o mood da cidade. Com uma gama impressionante de detalhes, ela nos transporta para parques, restaurantes, hotéis e bares conhecidos de Nova York. O livro é um prato cheio para quem já está habituado com as ruas e segredos da Big Apple e também para quem pretende um dia visitar a cidade. A autora vai além dos cartões-postais e aborda temas como fama, poder, gentrificação, segurança pública, rede de ensino, cultura de mídia e, claro, ganância.

Mãe de dois filhos e casada com o braço direito do apresentador de TV Conan O’Brien, Cynthia D’Aprix Sweeney, depois de mais de duas décadas em Nova York, foi para Los Angeles com a família e abandonou uma carreira sólida no mundo da publicidade para estudar escrita criativa. Na etapa final do curso, incentivada por um professor, ela transformou o conto que já vinha trabalhando havia meses em romance. Assim nasceu A grana.

O título foi adquirido por uma quantia milionária, fato cada vez mais raro entre romances de estreia. Vai virar filme e, de acordo com a Amazon e o The New York Times, foi um dos livros mais vendidos em 2016. Agora, Sweeney prepara o roteiro para a adaptação cinematográfica do livro, que já conta com Jill Solloway, da série de TV Transparent, como diretora e produtora do projeto.

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeTudo em Família

Em entrevista ao blog, Tatiana de Rosnay, autora do best-seller A chave de Sarah e do lançamento A outra história, discute o perigo dos segredos familiares, bloqueio criativo na era digital e defende uma literatura livre de rótulos.

Por João Lourenço*

tatiana_blogTatiana de Rosnay (Foto: Charlotte Jolly de Rosnay)

Durma mais, leia o jornal, caminhe na natureza, marque um jantar com os amigos, converse com pessoas criativas, assista a uma palestra do TED Talks — e tente novamente. Essas são algumas dicas que aparecem no Google para quem procura meios para combater o bloqueio criativo. Mas, no caso do jovem Nicolas Duhamel, mudar de cenário foi a melhor saída para lutar contra o mal que atormenta escritores.

Em busca de inspiração, ele se refugia, acompanhado da namorada, em um resort de luxo na costa da Toscana, mas nem o ambiente exclusivo e paradisíaco é capaz de interromper a procrastinação do autor. Após o sucesso internacional de seu livro de estreia, O envelope — que se transformou em filme com direito a indicação ao Oscar, Nicolas passa horas monitorando o tráfego de suas redes sociais.

Para vencer o bloqueio criativo e encontrar inspiração para o próximo romance, o jovem escritor precisa enfrentar um passado assombroso e lidar com um futuro assustador. Além de alto e bonito, Nicolas é o protagonista de A outra história, novo romance de Tatiana de Rosnay. “Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro. Ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Mas debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático que está prestes a enfrentar novos desafios”, conta a autora.

Às vezes a ficção imita a vida real. Quando se trata das conveniências da fama, Tatiana de Rosnay também enfrentou situação parecida com a de Nicolas. Em 2007, ela chegou à lista de best-sellers internacionais com a publicação de A chave de Sarah, romance que revisita a participação e o papel da França na Segunda Guerra Mundial. O livro vendeu mais de 5 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 30 idiomas; ganhou adaptação cinematográfica, em 2010, tendo como estrela a atriz Kristin Scott Thomas. Em seguida, Tatiana entrou para a lista dos 10 autores mais importantes de ficção na Europa, ao lado de nomes como Dan Brown, Stephenie Meyer e Stieg Larsson. “Devo admitir que a experiência de Nicolas com a fama e suas desvantagens é muito parecida com a minha. A diferença é que não sou tão vaidosa como ele, claro. Meu conselho para os escritores: mantenham uma distância saudável da fama!”

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Além de abordar importantes questões relacionadas à fama, à procrastinação e ao processo criativo na era digital, A outra história também é um livro sobre como lidamos com os segredos de família e seus mistérios. A trama é impulsionada por memórias e flashbacks de Nicolas. Certas reviravoltas, em um primeiro instante, parecem óbvias, mas Tatiana apresenta uma maneira inteligente de manter o leitor interessado no curso da história, mesmo quando o protagonista não é uma pessoa fácil de simpatizar. “Segredos de família são incrivelmente românticos e inspiradores. No entanto, sei do sofrimento e da dor que segredos de longa data podem causar quando são finalmente revelados. A outra história é um livro bastante pessoal, resultado de minhas experiências como escritora.”

Tatiana de Rosnay, que também colabora com jornais e revistas como Elle e Vanity Fair, conversou por e-mail com a Intrínseca.

 

Intrínseca: Certa vez, um escritor me disse que escrevia para a página em branco, que o importante é não pensar em um leitor específico enquanto escreve. E você, para quem escreve?

Tatiana de Rosnay: Comecei a escrever quando tinha 10 anos, pois gostava muito de ler. Eu era um típico rato de biblioteca. Acredito que escrevo porque sinto necessidade de compartilhar uma grande variedade de emoções. Mas não penso em um leitor em particular enquanto escrevo; isso é algo que limita o fluxo narrativo.

 

I: A autora Joyce Carol Oates disse em entrevista à Paris Review que existem algumas desvantagens para mulheres na ficção. Ela disse, por exemplo, que pelo simples fato de ser mulher ela não é levada a sério por alguns críticos do sexo oposto. Porém, Oates fez essa declaração na década de 1970. Para você, a afirmação dela permanece verdadeira?

TR: A declaração de Joyce Carol Oates, autora que admiro, infelizmente ainda é válida. Mulheres e homens são considerados de formas diferentes. Por quê? Nosso trabalho ainda não é levado tão a sério. Algumas vezes, nosso trabalho é rotulado como “ficção feminina”. Particularmente, além do fato de soar pejorativo, eu não entendo o que querem dizer com esse termo. Será que isso significa que para algumas pessoas as mulheres não escrevem com a mesma potência e habilidade que os homens? Não concordo com esse ponto de vista. Não acredito que o trabalho de um escritor deve ser julgado com base em gênero, sexualidade, raça, religião e opiniões políticas.

 

I: A outra história acompanha a trajetória de Nicolas Duhamel, um escritor autocentrado que ganha fama após a publicação de um livro de sucesso. Você também alcançou sucesso internacional com a publicação do romance A chave de Sarah, que, assim como o livro de Nicolas, teve uma adaptação cinematográfica. Como você encarou esse período de fama internacional?

TR: Sou o tipo de escritora que gosta de mudar de estilo a cada novo romance. A outra história é um livro muito diferente dos meus romances anteriores, explorei novos caminhos, novas aventuras. Eu diria que se trata de um livro moderno, porque explora como os escritores escrevem hoje em dia, onde eles vão atrás de inspiração e como essas ideias são utilizadas para criar romances. O livro também é sobre como lidamos com segredos de família e seus mistérios. E, finalmente, é um livro sobre identidade, como podemos forjar a nossa identidade quando estamos on-line.

Não escrevo sobre mim diretamente, mas gosto de começar com algo pessoal e, em seguida, transformo isso na história de outra pessoa, que é exatamente o que aconteceu nesse livro.

 

I: Nicolas sofre de bloqueio criativo, o que costuma ser uma experiência comum para o escritor após um enorme sucesso comercial. A obsessão de Nicolas com redes sociais e dispositivos eletrônicos não o ajudou a superar o bloqueio. Como as novas tecnologias impactam o processo criativo?

TR: Meu herói é um jovem moderno que passa mais tempo na frente de telas do que interagindo com pessoas na vida real. Sem dúvida, você vai achá-lo irritante no início do livro; ele é um escritor best-seller cuja vaidade não conhece limites. Debaixo dessa camada de superficialidade, preguiça e procrastinação, Nicolas é um jovem carismático.

Estou interessada em entender como as redes sociais transformam a vida de um escritor, como podemos ficar presos nessas plataformas, como Facebook e Twitter podem reduzir nossas inspirações. Gastar muito tempo on-line é algo perigoso para muitos escritores. Eu, por exemplo, não posso escrever em um computador que esteja ligado à internet. Preciso desligar meu telefone e me retrair em uma bolha de silêncio. Vivemos em um mundo onde estamos constantemente ligados a nossos celulares e nossas telas e, às vezes, nós nem sequer conversamos uns com os outros.

image1Tatiana de Rosnay e a atriz Julia Roberts, que participará da adaptação de Extraordinário para os cinemas  (Foto: Alexi Lubomirski )

I: Você tem uma presença forte nas redes sociais. Qual a importância dessas plataformas digitais para você?

TR: Sim, sou uma grande fã das redes sociais e meus leitores sabem disso! Mas, ao contrário do Nicolas, que desperdiça muito tempo na internet, aprendi a ter cautela. A minha rede social favorita é o Instagram. Às vezes, imagens falam muito mais do que palavras!

 

I: Você pode compartilhar um pouco do seu processo criativo? 

TR: Escrevo ficção desde os 10 anos, então posso dizer que escrita é parte da minha vida. Trabalho toda manhã e, às vezes, também escrevo no fim da tarde. Edito a mim mesma sem piedade. Geralmente, tudo surge com um esboço, mas na hora de realmente sentar para escrever um livro outras ideias aparecem e, então, me permito certa liberdade para fugir um pouco do esboço inicial. Descrevi todo esse processo em A outra história, o tema principal do livro é sobre essa exploração do processo de escrita e como isso se diferencia de escritor para escritor. Não sofro de bloqueio criativo na hora de escrever. Concordo com o que o Stephen King diz: “O momento mais assustador é sempre pouco antes de você começar [a escrever]. Depois disso, as coisas só podem melhorar.”

>> Leia um trecho de A outra história

 

João Lourenço é jornalista. Passou pela redação da FFWMAG, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Atualmente está em Nova York tentando escrever seu primeiro romance.

testeA inflamada Rachel Kushner

 

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Por João Lourenço*

O segundo livro de Rachel Kushner, Os lança-chamas, apareceu nas principais listas internacionais de mais vendidos e de melhores do ano de 2013. A obra foi finalista dos prêmios mais importantes do circuito literário, como o National Book Award. Rachel é um dos raros casos em que a vida pessoal do autor é tão interessante quanto o mundo dos personagens que inventa.

Com pais que viveram o auge da geração beatnik, Rachel Kushner cresceu em um ambiente não muito convencional. Desde pequena, chama o pai e a mãe pelo primeiro nome. Ela e o irmão mais velho, Jake, tiveram uma infância bastante boêmia e despojada para os padrões da época. Aos 5 anos, Rachel já trabalhava em uma livraria coletiva especializada em literatura lésbica e feminista. A função era arrumar os livros em ordem alfabética nas prateleiras. Nesse período, ela escreveu o livreto The Richest Cat in Herley, uma pequena fábula sobre um gato sabichão que tirava proveito de gatinhos de rua.

Rachel cresceu, pintou os cabelos de vermelho, montou em uma motocicleta e pegou a estrada rumo a Berkeley, onde estudou. Após um acidente em uma rodovia mexicana, parou de fazer rachas com os amigos. Até hoje, participa de competições de esqui com a família. Toda essa inquietação e liberdade estão presentes em sua literatura. E, de fato, o universo particular da escritora assusta e incomoda muita gente.

Em geral, o título de “grande romance americano” é destinado a obras de homens politicamente corretos, desses que gostam de observar pássaros. Os protagonistas dos romances dessa categoria sagrada — adivinhem! — também são homens. Pense em Jay Gatsby e Huckleberry Finn. Deliberadamente ou não, em Os lança-chamas, Rachel quebrou esse molde imaculado. Em entrevista à revista Tin House, ela disse que a literatura atual deve ser mais agressiva e ousada, que jovens escritores precisam romper barreiras antigas e tentar seguir o caminho de autores radicais como Woolf, Faulkner e Joyce.

Quando estudou ficção na Universidade de Columbia, Rachel teve que escrever muitos contos — o processo de formação de qualquer jovem escritor —, mas confessa nunca ter gostado da caça obsessiva pela frase perfeita. Antes de ser escritora em tempo integral, assinou críticas de arte contemporânea para diversas revistas especializadas e também flertou com a poesia. Hoje, é dona de uma prosa fluida e vívida. E um de seus maiores méritos é a capacidade de explorar lugares pouco visitados. É como se ela não tivesse medo de se afogar.

As inspirações da escritora passam por filmes de John Cassavetes, pela literatura de Don Delillo e por conversas com artistas plásticos, como Richard Prince. Ela sempre começa seus livros com uma imagem, com uma cena sonhada ou vivenciada. Seu primeiro livro, Telex from Cuba, surgiu após uma viagem para Havana. Já em Os lança-chamas, ela estava obcecada por fotografias da Nova York da década de 1970, período de caos criativo e pós-revolução sexual. Rachel tinha em mente os saqueadores no Bronx durante o blecaute de 1977 e a cena dos artistas underground que ocupavam os grandes galpões no Soho. A voz da escritora Joan Didion também ressoou nas páginas de Rachel. “Costuma-se dizer que Nova York é uma cidade apenas para os muito ricos e os muito pobres. Porém, esquecem de acrescentar que Nova York, para aqueles que vieram de outro lugar, também é uma cidade apenas para os muito jovens.”

Em Os lança-chamas, pegamos carona na garupa de Reno, jovem motociclista de 23 anos que chega a Nova York em busca de estabelecer conexões e explorar a vida de artista. Ela pretende trabalhar com filmes e fotografia, mas não conhece ninguém, não sabe aonde ir. Entre festas em galerias no Soho, playground dos hipsters daquela geração, Reno passa pela fase da educação sentimental. Apesar de certa inocência juvenil, percebe que está cercada de pessoas que estão longe de sua verdadeira identidade. Inebriada pela fumaça de uma Manhattan em constante movimento, Reno se junta ao artista Sandro Valero, herdeiro de uma família tradicional italiana, e os dois vão parar em Roma. O ano é 1977 e a cidade é palco de inúmeras manifestações sociais e culturais. Repleto de diálogos ágeis, observações afiadas e uma série de personagens incrivelmente desenhados, o segundo romance de Rachel Kushner explora o potencial dos encontros casuais e das decisões inconsequentes que são tomadas na juventude. Na hora de criar sua heroína, Rachel imaginou uma voz que soasse como pensamento, não como língua falada. O intuito era que fosse especial, mas não muito particular. A autora mescla emoções, sagacidade, filosofia e cenas do cotidiano.

O enredo é bastante simples. No entanto, a mão de Rachel foi feita para os detalhes. Ela mantém a fluidez quando alterna as vozes dos personagens de acordo com o cenário que eles percorrem — ora em festas, ora em cenas de terror na Itália. Não é apenas um recurso linguístico para mostrar que é boa escritora, é uma questão de tom. Os personagens crescem e sofrem, logo, suas vozes precisam acompanhar o ritmo dessas mudanças. É uma profusão de sons harmônicos. A energia daquelas pessoas é tão contagiante que o leitor tem a sensação de pertencer àqueles protestos e àquelas festas do fim dos anos 1970. Os personagens não têm medo de ir até o fundo do poço, são conscientes de suas ações e, mesmo quando tudo parece desmoronar, não são vitimizados.

Rachel Kushner poderia ser mais uma escritora americana que aceitou seguir as regras do jogo da literatura, mas, assim como Ann Patchett e Jennifer Egan, não abaixa a cabeça para os egos inflados dos colegas de profissão. Esses clubes privados não a interessam. Afinal, por que lutar para entrar em um lugar onde os mandamentos são sagrados e claramente estão contra você? Rachel prova que a boa literatura é aquela em que as portas estão sempre abertas, aquela que não exclui. Para ela, tudo que se preserva escrito, seja por homem ou mulher, tem a possibilidade um dia tornar-se realidade.

*João Lourenço é jornalista, nascido no Paraná e criado em São Paulo. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Foi assistente de Stephen Todd, do Times e do Guardian. Já entrevistou todos os escritores que queria, menos a musa de todas as musas: Joan Didion. Ele também tentou estudar Literatura Francesa pelo simples prazer de ler e acreditar que iria passar todas as aulas discutindo Balzac. Sem data para retornar, agora está na Califórnia. Pretende estudar escrita criativa em Stanford. No tempo livre, troca figurinhas com seus vizinhos celebridades, Adam Johnson e Michael Chabon. E, assim como Lena Dunham, ele jura que é a voz dessa geração.

testeMenu degustação

Herman Koch - falta texto

Por João Lourenço*

Em O jantar, Herman Koch levanta uma importante questão moral:  até onde você iria para proteger um filho? Através de um redemoinho de pensamentos, o narrador de Koch reflete sobre os falsos caminhos que seguimos para agradar aos outros e a nós mesmos e analisa a complexidade das escolhas triviais que fazemos ao longo da vida. Em entrevista por e-mail, o autor holandês falou sobre as desilusões de uma geração cínica e entediada, desvela os medos que a maioria tenta ignorar e nos mostra que os piores monstros são aqueles dentro de nossas casas, dentro de nós mesmos. Para o autor, a violência não tem rosto nem endereço.

O livro de Koch confirma que em qualquer família as melhores discussões acontecem na hora do jantar.

– O senhor é conhecido na Holanda por sua carreira de ator e escritor. O jantar é seu sexto romance. Como se sente em relação à grande atenção internacional que o livro tem recebido?

HK: Acredito que o livro tenha feito sucesso devido ao sentimento generalizado de que não conhecemos uns aos outros. Você pode ter um filho ou uma filha que se comporta muito bem em casa, que ajuda nas tarefas domésticas, mas que pode ser um delinquente nos finais de semana. Já vi isso acontecer com um amigo. Percebi que pessoas do mundo todo estavam familiarizadas com os problemas levantados no romance.

– O livro foi baseado em fatos que ocorreram em Barcelona. O senhor poderia explicar o que aconteceu e como isso o inspirou?

HK: Dois meninos cometeram mais ou menos o mesmo crime do livro. Porém, foram reconhecidos imediatamente pelo sistema de câmeras e presos no dia seguinte. Quando vi as imagens, fiquei impressionado. Poderiam ser os filhos dos meus vizinhos. Poderiam ser os meus filhos. Esse foi o ponto inicial para o livro.

– O senhor trouxe à tona a grande questão em que a maioria dos pais que conheço não gostam de pensar: o que meus filhos estão fazendo quando não estou por perto? Talvez seja impossível seguir todos os passos de crianças e adolescentes, ainda mais em tempos de internet. Em O jantar, o pai lê as mensagens de celular do filho. Quando falamos sobre adolescentes, existe um limite entre a curiosidade do pai e a privacidade do filho?

HK: Em todos os aspectos, tento respeitar a privacidade do meu filho. Mas, assim como qualquer outro pai, também sou curioso. Então, tento trazer alguns assuntos para a mesa com o intuito de deixar claro que não vou condenar o que quer que ele tenha para dizer. Bom, pelo menos não no início. Depois de um tempo, você sempre pode dar uma opinião, como: “Isso foi muito engraçado, mas talvez não tão engraçado para outras pessoas.” Entretanto, tenho certeza de que ele não me conta tudo e é assim que deve ser.

– Os personagens Paul e Serge, que são irmãos, não acreditam que delinquentes possam receber tratamentos e retornar à sociedade. Qual sua visão sobre isso?

HK: Há sempre exceções, mas acho que estamos vivendo em uma época em que certas espécies de monstros nunca deveriam voltar às ruas. É melhor aceitar que são o que são do que tentar tratá-los. Mas é claro que isso não vale para todos.

– A instituição familiar é de extrema importância para o personagem Paul. No entanto, ele é uma pessoa destrutiva. Pensei em Tony Soprano e Walter White, que também queriam proteger seus entes queridos. Para eles, os fins justificam os meios. Quando Paul decide se tornar cúmplice do filho, o senhor diria que a decisão foi fácil?

HK: Eu também pensei em Tony Soprano quando estava escrevendo o livro. A família vem em primeiro lugar. Você nunca vai chamar a polícia para entregar algum parente; as sujeiras e os segredos são mantidos e resolvidos em casa. No caso de Paul, ele se sente responsável pelas ações do filho, então luta para que o adolescente não seja sacrificado por conta da decisão de seu irmão Serge. Contudo, o irmão político de Paul não se interessa por esse jogo familiar.

– O passado violento de Paul contribuiu para as ações de seu filho?

HK: Acho que Paul se considera uma boa figura paterna, mas também tem consciência de que suas próprias ações, seus genes, podem ter tido efeito sobre o comportamento do filho.

– Após ler O jantar, tentei me colocar na situação dos pais. A seguinte pergunta passou pela minha cabeça: o que fazer quando você sabe que seu filho cometeu uma atrocidade? Acredito que não há resposta definitiva para essa questão. Concorda?

HK: Concordo! Neste caso não há regras. A questão importante é a seguinte: você ainda vai amar seu filho depois de ele ter cometido um crime? Acredito que sim! E outra: o que posso fazer para ajudá-lo? Afastá-lo das mãos da justiça nem sempre é a melhor solução. Manter um crime em segredo pode trazer ainda mais danos para os envolvidos.

– No imaginário popular, apenas os desfavorecidos são capazes de cometer atos de extrema violência. No entanto, os jovens Lohman frequentam uma boa escola e recebem amor, carinho e regalias dos pais. É aquela clássica batalha entre natureza e criação. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

HK: A violência está presente na natureza das pessoas, mesmo que seja uma pequena parcela, apenas para combater o tédio. Esse tipo de problema não existe durante uma guerra real, onde o tédio não entra na equação. De certa forma, acredito que esse é o preço que temos que pagar por uma sociedade “civilizada” e pacífica.

– O senhor acredita que a internet tenha contribuído para o aumento dos casos de violência gratuita?

HK: Tirar sarro de desconhecidos, professores etc. sempre foi algo comum entre jovens. Em tempos de celular e YouTube, a graça é compartilhar esses atos de violência para o maior número de pessoas.

– Os Lohman representam a típica família holandesa?

HK: Eu não chamaria de típica, mas há um grande número de famílias como a deles na Holanda. Sabe, pessoas politicamente corretas, que comem a comida certa, pensam que estão fazendo tudo certinho e acreditam que o racismo só existe no quintal do vizinho. Eles só ficam assustados e desconfortáveis quando algo ruim acontece e ameaça seus valores.

João Lourenço é jornalista, nascido no Paraná e criado em São Paulo. Passou pela redação da FFW MAG!, colaborou com a Harper’s Bazaar e com a ABD Conceitual, entre outras publicações estrangeiras de moda e design. Foi assistente de Stephen Todd, do Times e do Guardian. Já entrevistou todos os escritores que queria, menos a musa de todas as musas: Joan Didion. Ele também tentou estudar Literatura Francesa pelo simples prazer de ler e acreditar que iria passar todas as aulas discutindo Balzac. Sem data para retornar, agora está na Califórnia. Pretende estudar escrita criativa em Stanford. No tempo livre, troca figurinhas com seus vizinhos celebridades, Adam Johnson e Michael Chabon. E, assim como Lena Dunham, ele jura que é a voz dessa geração.