testeSomos como as águas sob aquela ponte

Por Suelen Lopes*

(Fonte: Cmbynmonet)

É muito difícil admitir para nós mesmos e para o mundo que algo não pôde ser. Ou ao menos que não ocorreu exatamente do jeito que tínhamos planejado. E quando isso acontece na vida afetiva, em geral queremos desaparecer por um tempo, desejamos que as palavras sumam. Cada sílaba é um soco, uma lágrima, uma pressão no peito. Nisso somos todos bem parecidos: queremos que a dor passe. Dizem que o tempo cura tudo, mas o tempo também pode ser cruel.

Em Me chame pelo seu nome, André Aciman nos trouxe Elio e Oliver. Os dois nos fizeram mergulhar num mundo de descobertas, apreensões e deslumbramentos. A primeira paixão de Elio dialoga com algo muito íntimo em nós, e precisamos tomar fôlego e secar as lágrimas para seguir em frente. As inseguranças, obsessões e fantasias que o dominam poderiam ser nossas, são traços de uma relação tão intensa que jamais foi ou será esquecida.

Acompanhamos Elio como se caminhássemos por uma ponte. De um lado, temos os pés firmes no chão. Do outro, algo nos chama. Caminhar por essa ponte é apavorante, pois sabemos que o que há sob ela pode abalar estruturas, lançar sobre nós tudo o que nos desespera e, então, nos afogar. E cada um conhece muito bem os próprios medos. Justamente por isso, ninguém é o mesmo quando chega ao outro lado, e ainda se tornará muitos outros naquela vida prestes a começar. É bem possível que cruzemos essa ponte mais de uma vez. Várias vezes, aliás. A vida é implacável como o tempo.

Em Variações Enigma, André Aciman narra a trajetória de Paul, desde sua juventude, quando se apaixonou pela primeira vez na Itália, até seus relacionamentos caóticos, já adulto nos Estados Unidos. Há mais pontes. Caminhamos com ele em suas tentativas amorosas, deparamos com questionamentos que surgem quando estamos fora dos padrões e nos vemos diante da estranha e incômoda solidão que surge mesmo estando cercados de tantas pessoas e possibilidades. A imprevisibilidade dos acontecimentos e das pessoas nos marcam. Com Paul, constatamos como até mesmo o que não vivemos pode nos construir ou nos corroer. As questões se repetem, novidades chegam, a dor nos abraça, a alegria nos consola. Lidar com o outro é uma caixinha de surpresas, e nós mesmos nos tornamos outros a cada outro que encontramos. Portanto, somos também enigmas. Somos instáveis como as águas sob aquela ponte.

Trabalhar na edição de livros como Me chame pelo seu nome e Variações Enigma faz o tempo passar de um modo diferente. Continuamos lidando com toda a correria do dia a dia, reclamamos de problemas, mas esse novo tempo traz boas emoções à tona. E, no entanto, há sempre algo que dói. Fico extremamente tocada com o traço humano dos personagens de Aciman. Eles apresentam toda sua potência justamente quando assumem suas vulnerabilidades, suas dúvidas, seus sentimentos. A força deles está nesse movimento de se enxergar, de mostrar como amar não é apenas ver o outro. O tempo, de fato, nos dá aquele paliativo para que não lembremos quanto somos quebrados. Então enfaixamos nossas partes despedaçadas na esperança de que voltemos a ser completos.

“Meu lugar era ali, assim como meu lugar era este planeta e suas pessoas, mas com uma condição: sozinho, sempre sozinho”, diz Paul. Estar com o outro e também saber estar sozinho. Editar um livro tem seus momentos solitários. Claro que os colegas estão ali do lado, você pode falar das suas dúvidas e fazer comentários, mas quando editamos convivemos com o texto traduzido e com o original por meses, tomamos decisões, fazemos escolhas, pensamos e sentimos o que todo aquele conjunto envolve. E então nos despedimos, ficamos contentes de ver o livro chegar até vocês. Quando há comentários tão interessantes e emocionados dos leitores, como no caso de Me chame (e já alguns sobre Variações), a voz antes solitária parece enfim ganhar vida. Por isso fica aqui o meu agradecimento por ecoarem essas palavras, por não deixarem morrer as memórias dos dias que vivi junto desses livros, por apaziguarem qualquer crueldade do tempo. Obrigada por me fazerem sentir que ainda vale a pena cruzar essas pontes.

*Suelen Lopes é editora assistente de livro estrangeiros na Intrínseca. Gosta de chá, nuvens e francês, e acredita que dar voz à vulnerabilidade humana ainda vai mudar o mundo.

testePremiado romance italiano narra o resgate de memórias íntimas e delicadas

Por Miguel Conde*

Pelas avenidas ruidosas e cinzentas de Milão, no final dos anos 1970, um casal se dirige de carro ao trabalho. O marido vai ao volante, a esposa se acomoda no banco do passageiro. No banco detrás levam o filho pequeno, também ele rumo a um compromisso, pois já chegou à idade de ir à escola.

O trajeto é longo, mas em alguns pontos do caminho assomam no horizonte imagens que afastam por breves momentos o aborrecimento do trânsito. Aqui e ali, uma das montanhas que circundam Milão aparece à distância, rasgo luminoso de branco contra o azul do céu, capturando os olhares e a imaginação do casal. A esposa pergunta ao marido os nomes de cada uma e de seus vilarejos, vales, refúgios. Ele responde com autoridade, puxando da memória designações que ficam gravadas na cabeça do menino: Grigna, Macugnaga, Alagna, Gressoney, Ayas. Esses nomes passam a povoar suas fantasias infantis, como promessas de um mundo distante e um tanto fantástico, em tudo diverso daquele de sua vida citadina.

Os devaneios se repetem e se acumulam com força crescente, até que um dia viram planos de férias e a família se lança em expedição àqueles picos, que lembram a remota região rural onde o casal se conhecera anos atrás. Esse impulso em que se misturam sonho e nostalgia, o desejo de fugir à rotina e o de recuperar qualquer coisa perdida no tempo, move a história do belo romance As oito montanhas, do escritor italiano Paolo Cognetti.

Desde as primeiras páginas, essa é uma história de encantamento e de busca espiritual por uma vida menos ordinária. Mas é também, como aos poucos percebe o leitor que se aventura pelo relato, uma história de sonhos desfeitos, do caminho de volta ao rés do chão após a subida vertiginosa aos pontos mais altos.

O narrador é Pietro, o garoto que acompanhava os pais no banco detrás do carro. Já adulto, ele constrói um relato em vários tempos, da recordação de suas primeiras idas à montanha com os pais até o momento em que se lança sozinho em suas próprias explorações por outros países. As oito montanhas tem um tanto de romance de formação, mas Pietro é um narrador econômico, fala pouco de si. Mais do que uma história de seu amadurecimento, Pietro cria um inventário de afetos, dos encontros que lhe tocam de maneira decisiva ao longo da vida. Sua recordação é atravessada, porém, de um sentimento elegíaco, como se essas lembranças fossem também uma espécie de despedida. Aquilo que é mais importante tem sempre algo de frágil e transitório, está a toda hora em vias de se desfazer.

Tão decisivo quanto os espaços da história, em suas incursões por vias distantes nas montanhas, é o sentido nela assumido pela passagem do tempo. Cognetti entrelaça com grande talento essas duas dimensões da trama, pois em seu romance a montanha é desde o início o espaço de um tempo passado, de um tempo de coisas abandonadas e perdidas, como será também o tempo das recordações de seu narrador.

A família de Pietro elege como base das explorações de férias o pequeno vilarejo de Grana, na ramificação de um vale nos arredores de Milão, “ignorado por quem passava ali como se fosse uma possibilidade irrelevante”. Quando chegam à casa alugada pela primeira vez, o pai diz ao filho: “Cresci num lugar assim.” De saída, isso já produz uma espécie de nostalgia em duplo registro — de Pietro, que recorda sua infância, e de seu pai, que parecia buscar ali um reencontro com a própria juventude.

Estimulado pela mãe, Pietro faz amizade com Bruno, criança de sua idade nascida ali e acostumada à vida na montanha. Guiado pelo amigo, explora os arredores e se depara por toda parte com casas e construções abandonadas, sinais de um antigo mundo rural que foi deixando de existir e está, àquela altura, já quase desaparecido. Aos olhos infantis, porém, a decadência é também promessa: as ruínas guardam mistérios, convidam à fantasia e à aventura. O espanto dessas explorações se encapsula no som estranho dos nomes dialetais de árvores, bichos, pedras e arbustos apresentados pelo amigo ao narrador: “brenga”, “arula”, “pezza”, “barma” e “berio”.

Se para Bruno o vale de Grana define os limites do mundo conhecido, um microcosmos que ele apresenta ao amigo da cidade grande e por extensão ao leitor, para o pai de Pietro ele é uma forma de fugir do mundo, do cartão de ponto, dos sinais de trânsito que regulam idas e vindas urbanas. Empenhado numa peregrinação sem fim de um cume a outro, ele tenta incutir no filho o amor às caminhadas em meio ao silêncio das geleiras que cobrem de branco o topo das montanhas.

Cognetti conta que As oito montanhas foi escrito após uma série de desilusões que o deixaram à beira da depressão. Uma delas foi a organização (fracassada) de um movimento político na periferia de Milão, que pretendia fazer frente às forças de direita na cidade, tradicional reduto de apoiadores de Silvio Berlusconi. Em vez de uma forma de desistência e de adeus ao mundo, porém, a ida para as montanhas assume no romance o sentido de uma busca por outras formas de vida. Para o leitor acossado pelas notificações incessantes do celular, os pensamentos embolados pela cacofonia das redes sociais, o ar puro e o silêncio das caminhadas que a obra descreve de maneira vívida e precisa têm apelo certeiro.

O livro recebeu o Prêmio Strega, o mais importante da literatura italiana, e valeu ao autor contratos de tradução em mais de 30 países, depois de leilões acirrados entre editoras de todas as partes do mundo. Ainda mais notável do que essa combinação de sucesso comercial e consagração crítica, porém, é o modo como Cognetti confere às aventuras de crianças e adultos pelas montanhas um discreto sentido político, como se nessas caminhadas em aparência triviais por rincões esquecidos houvesse uma espécie de resíduo utópico da busca (hoje tão desacreditada) por um mundo melhor.

*Miguel Conde  é jornalista e doutor em Letras pela PUC-Rio. É editor da seção de resenhas do site Words Without Borders e curador do Garimpo Clube do Livro.

testeCinco livros que se passam na (apaixonante) Itália

 

Ah, a Itália… um dos melhores lugares no mundo para se apaixonar (e comer bem!). O oitavo país do mundo em qualidade de vida guarda, em cada cidade, uma charmosa peculiaridade. Roma, a capital, tem 2,9 milhões de habitantes, sendo uma das cidades mais populosas da União Europeia; Florença é o berço do Renascimento; Nápoles popularizou a pizza; Milão é uma das capitais mundiais da moda e Veneza é uma ilha, famosa por ter como principal transporte as gôndolas.

Transbordando arte e inspirando seus visitantes, a Itália é o país que mais tem obras de arte por quilômetro quadrado, além de reunir 50 Patrimônios Mundiais da UNESCO – o maior número entre todas as nações. Não à toa, alguns dos maiores gênios dos últimos séculos são italianos, como Leonardo da Vinci, Galileu, Pavarotti, Frederico Fellini e Michelangelo.

Por aliar tanta história, arte e gastronomia de qualidade, dá para entender porque este curioso país em formato de bota foi escolhido como cenário para grandes histórias. Listamos alguns livros que se passam nos mais diversos territórios italianos, cada um especial a sua maneira. Confira!

Amor e gelato

Um dos livros mais fofos (❤️) que lançamos este ano, Amor e gelato acompanha as aventuras de uma norte-americana na Itália. A jovem Lina fica com uma missão após a morte da mãe: descobrir a verdade sobre seu pai. E é lá na região da Toscana que ela poderá conhecer a origem do seu passado – repleto de mistérios e histórias cruzadas. Em meio a muitos sorvetes (ou, para os italianos, gelatos), ela encontra muito mais do que imaginava. No meio desse turbilhão de emoções, Lina ainda conhece Ren e Thomas, dois meninos lindos que vão mexer ainda mais com seu coração. O livro de estreia de Jenna Evans Welch é uma adorável viagem a um dos destinos mais românticos do mundo!

 

Me chame pelo seu nome

Já falamos um milhão de vezes desse livro, apenas porque ele conta uma das histórias de romance mais emocionantes dos últimos tempos! Ambientado na costa italiana durante o verão, Me chame pelo seu nome narra a primeira paixão do jovem Elio. Filho de um importante professor universitário, ele está bastante acostumado à rotina de, em todas as férias, hospedar na casa da família um novo escritor que, em troca da boa acolhida, ajuda seu pai com correspondências e papeladas. Quando chega Oliver, o novo hóspede, acontece uma revolução na vida de Elio. Com rara sensibilidade, André Aciman constrói uma viva e sincera ode às emoções fortes da juventude e explora a paixão com delicadeza inigualável, em uma narrativa magnética, inquieta e sensual. O livro inspirou o premiadíssimo filme homônimo, dirigido por Luca Guadagnino, um dos favoritos ao Oscar 2018.

 

Um amor incômodo + A filha perdida

Elena Ferrante é um dos maiores nomes da literatura italiana contemporânea. A autora, cuja identidade permanece um mistério para seus fãs, sempre destaca em suas histórias as gritantes diferenças entre o povo do Sul e do Norte da Itália. Em Um amor incômodo, ela narra a conturbada relação entre mãe e filha. Delia retorna à Nápoles para enterrar a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas. Neste processo, revelações perturbadoras a respeito dos últimos dias de Amalia impelem Delia a descobrir a verdade por trás do trágico acontecimento. Avançando pelas ruas caóticas e sufocantes de sua infância, a filha vai confrontar os três homens que habitaram de forma relevante o passado de sua mãe. Uma verdadeira mistura desorientadora de fantasia e realidade suscitada pelas emoções que vêm à tona a partir dessa investigação.

Já em A filha perdida encontramos a professora universitária Leda em férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela repara em uma ruidosa família de napolitanos, em especial Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe. Isso desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida, incluindo segredos que ela nunca conseguiu revelar. No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode refletir na vida de diferentes gerações de mulheres.

 

As oito montanhas

Nosso lançamento de Fevereiro (dia 19, tá?) venceu o Prêmio Strega, o mais prestigiado da Itália. Em As oito montanhas, o autor estreante Paolo Cognetti narra a história de Pietro, um garoto da cidade, solitário e pouco sociável que vê sua vida transformada quando sua família descobre o vilarejo de Grana, aos pés do Monte Rosa. Lá, Pietro se encanta pela natureza do lugar e conhece outro garoto da sua idade, Bruno, com quem dá início a temporadas de explorações e aventuras em meio a trilhas íngremes, o moinho e casas abandonadas. Esse aprendizado é o maior legado de seu pai, que, muitos anos depois, deixa uma herança que reaproximará os dois meninos. Este é um livro memorável, que explora relações complexas e fortes, atravessando três décadas de uma amizade inigualável. De modo tocante, o autor aborda a tentativa de aprender e de buscar nosso lugar no mundo com uma narrativa literária, intensa e lírica.

 

Quatro estações em Roma

Por volta de 2007, Anthony Doerr recebeu um prêmio da Academia Americana de Artes e Letras, o Rome Prize, que incluía ajuda de custo, um apartamento e um estúdio para escrever na Itália. Quatro estações em Roma é o resultado das memórias do ano em que ele passou na cidade com a esposa e os filhos gêmeos recém-nascidos. Vindo do interior dos Estados Unidos, Doerr acha Roma um mistério: um outdoor de uma marca de roupas tremulando na fachada de uma igreja de quatrocentos anos, uma construção comum ao lado de uma obra-prima da arquitetura. Em meio a tudo isso, ele cuida dos filhos, lida com uma insônia que parece não ceder e tenta, sem muito sucesso, escrever um novo romance – que se transformaria em Toda luz que não podemos ver, lançado sete anos mais tarde e que lhe rendeu o Pulitzer de ficção.

testeAmor, segredos e um verão inesquecível

Por Fabiane Pereira*

A arte tem várias funções e todas elas são legítimas mas, talvez, nos transportar pra outra realidade de maneira fluida, numa travessia sem esforço, seja aquela que eu mais procure quando pego um livro e me entrego ao prazer da leitura. E foi exatamente isso que encontrei em Amor & Gelato, de Jenna Evans Welch. Leve e divertido, o romance nos fisga logo nas primeiras páginas porque a história da Lina poderia ser minha, sua ou da nossa melhor amiga.

A autora conhece bem Florença, cidade italiana em que se passa a história, porque viveu parte de sua adolescência lá. Quando isso acontece, fica mais fácil ainda para o escritor transportar o leitor para dentro da história. Por isso, mal abri o livro e já me senti uma típica italiana.

Por outro lado, Lina, a jovem protagonista, demorou um pouco mais para “se sentir em casa”. Logo no início do romance, Lina perde a mãe e fica sem chão. Perdi meu pai pela mesma doença que levou a mãe dela e sei exatamente como é passar por isso. Achamos que nada mais vai voltar a fazer sentido e que temos que cumprir todas as promessas que fazemos aos nossos entes queridos no leito de morte.

Munida desse sentimento, Lina fica com a missão de realizar o último pedido da mãe: viver um tempo na Itália e conhecer seu pai. De uma hora para outra, a jovem se vê órfã e obrigada a ir em busca de um homem completamente desconhecido. Lina parte para a Toscana para morar com o “pai” numa casa localizada dentro de um cemitério — na verdade, trata-se de um memorial para soldados americanos vitimados durante a Segunda Guerra Mundial. É óbvio que, apesar das belezas arquitetônicas, da história da cidade e das comidas maravilhosas, o que Lina mais quer é ir embora correndo e deixar para trás toda aquela estranheza. E atire a primeira pedra quem não ia querer o mesmo.

É difícil reaprender a respirar quando estamos sem chão. Assim como Lina, já perdi a conta das vezes em que o ar me faltou. Seja por medo, espanto, surpresa, luto, paixão, entusiasmo… Mas o tempo vai passando e, de repente, as coisas começam a mudar. No caso de Lina, o recomeço vem quando ela recebe um antigo diário que sua mãe escreveu na época em que também morou na Itália. É então que nós, leitores, descobrimos suas origens e os segredos de sua família junto com ela.

No meio desse turbilhão de emoções, Lina ainda conhece Ren e Thomas, dois meninos lindos que vão mexer ainda mais com seu coração. Porque quando a vida decide virar de cabeça para baixo, ela vai com tudo.

Lendo assim você pode pensar que Amor & Gelato é um grande drama, mas não! O livro é muito divertido e mostra com delicadeza a trajetória de Lina descobrindo o amor e a si mesma. Além disso, é uma deliciosa viagem pelos mais românticos pontos turísticos de Florença, com direito a tudo de mais intenso que o lugar pode oferecer.

No meio do livro, me peguei pensando em Elis Regina cantando a canção de Belchior: “Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.” O diário da mãe de Lina torna-se um verdadeiro guia afetivo e a faz descobrir lugares incríveis que foram importantes para sua mãe e, anos mais tarde, se tornam também marcantes para a sua própria história.

Lina, mesmo reticente no início, seguiu os passos da mãe e, sem querer dar spoiler, não se arrependeu. Longe de mim querer aconselhar alguém a partir das minhas verdades porque acredito (mesmo) que temos certa permissão do universo até os 18 anos já que tudo que vem depois desta idade é “punk”, mas, às vezes, seguir (algumas) orientações pode nos ajudar a traçar bons caminhos.

Assim como Lina, conheci a Itália orientada pela minha mãe. E pelos olhos de Lina, revi a linda Ponte Vecchio, andei de scooter, saboreei os gelatos mais deliciosos que já provei, senti o vento bagunçar meus cabelos e cheguei a ter os mesmos calafrios a cada flerte dela. Quando terminei o livro, abri um site de viagens e fui pesquisar as promoções aéreas Rio-Toscana. Aposto que você fará o mesmo.

>> Leia um trecho de Amor & Gelato

 

Fabiane Pereira é jornalista, pós-graduada em jornalismo cultural pela ESPM e em formação do escritor pela PUC-Rio. É mestranda em comunicação, cultura e tecnologia da informação no Instituto Universitário de Lisboa. É curadora do projeto literário Som & Pausa e toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação. Foi apresentadora do programa Faro MPB, na MPB FM, e atualmente comanda o boletim Faro Pelo Mundo, na mesma emissora.

testePaixões, segredos e um verão inesquecível na Itália

Antes de morrer, a mãe de Lina faz um último pedido a ela: que a filha passe passar um verão na Itália. Do dia para a noite, Lina se vê longe da melhor amiga e no pior lugar possível naquele momento, pois nem mesmo a lindíssima paisagem da Toscana alivia a barra de ter que morar em uma casa construída dentro de um cemitério.

Sim, porque sua mãe queria que ela morasse por um tempo com um antigo amigo, Howard, responsável pelo memorial aos soldados americanos vitimados durante a Segunda Guerra Mundial. E tem um pequeno detalhe: esse homem, que Lina nunca viu na vida, pode ser seu pai.

É nesse turbilhão de emoções que Lina conhece o encantador ítalo-americano Lorenzo e recebe um presente inesperado: o antigo diário em que a mãe, ainda jovem, narra suas paixões e descobertas durante o tempo em que morou na Itália.

No apaixonante Amor & gelato, romance de estreia da americana Jenna Evans Welch, que também passou parte da adolescência em Floresça, acompanhamos Lina descobrindo os segredos de sua família, a maravilhosa culinária local e que a Itália é o melhor lugar do mundo para se apaixonar — mas o pior para ter o coração partido.

Leia um trecho do romance que chega às livrarias a partir de 21 de julho:

 

Você já teve dias ruins, não é? Sabe aqueles em que o alarme não toca, o pão praticamente pega fogo na torradeira e você lembra tarde demais que todas as suas roupas estão encharcadas, esquecidas na máquina de lavar? Aí você entra correndo na escola, quinze minutos atrasada, rezando para ninguém notar que seu cabelo está igual ao da noiva do Frankenstein, mas bem na hora em que senta no seu lugar, o professor berra um “Atrasada hoje, Lina?” e todo mundo olha para você.

Aposto que você já teve dias assim. Todos nós temos. Mas e quanto aos dias péssimos? Aqueles tão tensos e horríveis que trituram as coisas de que você gosta só pelo prazer de cuspi-las na sua cara?

O dia em que minha mãe me contou sobre Howard se encaixa perfeitamente na categoria dos péssimos, mas, na época, isso era a menor das minhas preocupações.

Eu tinha começado o segundo ano do ensino médio duas semanas antes e estava voltando com minha mãe de uma consulta médica dela. O silêncio reinava dentro do carro, exceto pelo comercial no rádio com as vozes de dois imitadores do Arnold Schwarzenegger, e, embora fosse um dia quente, minhas pernas estavam arrepiadas. Naquela manhã, eu havia chegado em segundo lugar na minha primeira maratona estudantil e não conseguia acreditar em como aquilo se tornara insignificante.

Minha mãe desligou o rádio.

— Como está se sentindo, Lina?

Sua voz estava calma, mas quando olhei para ela comecei a chorar de novo. Ela estava muito pálida e magra. Como eu não tinha notado que ela emagrecera tanto?

— Não sei — respondi, tentando manter a voz calma. — Acho que estou em choque.

Ela assentiu, parando no sinal. O sol fazia de tudo para nos ofuscar, e eu olhei diretamente para ele, mesmo com os olhos ardendo. Este é o dia em que tudo vai mudar, pensei. De agora em diante, haverá o antes e o depois de hoje.

Minha mãe pigarreou e se empertigou como se tivesse algo importante a me dizer.

— Lina, já contei sobre a vez em que me desafiaram a nadar num chafariz?

Eu me virei para ela.

— O quê?

— Lembra que contei que passei um ano estudando em Florença? Eu tinha saído para tirar fotos com um pessoal da minha turma, e o dia estava tão quente que achei que fosse derreter. Um amigo meu, Howard, me desafiou a entrar num chafariz.

Não se esqueçam de que tínhamos acabado de receber a pior notícia do mundo. A pior.

— … Eu assustei um grupo de turistas alemães. Eles estavam posando para uma foto, e quando saí da água um deles perdeu o equilíbrio e quase caiu no chafariz comigo. Eles ficaram furiosos, então Howard gritou que eu estava me afogando e pulou na minha direção.

Ela olhou para mim e deu um sorrisinho.

— Hã… mãe? É engraçado e tal, mas por que você está me contando isso agora?

— Eu só queria falar do Howard. Ele era muito divertido.

O sinal abriu, e ela pisou no acelerador.

O quê?, pensei. O quê? O quê? O quê?

 

A princípio, achei que a história do chafariz fosse um mecanismo de defesa, como se talvez ela achasse que falar sobre um velho amigo pudesse nos fazer esquecer aqueles dois blocos de concreto que pendiam sobre nossa cabeça. Inoperável. Incurável. Mas então ela me contou outra história. E mais uma depois dessa. E chegou ao ponto em que ela começava a falar e, depois de três palavras, eu sabia que ia mencionar o tal de Howard. E quando finalmente me contou o porquê de todas aquelas histórias sobre o amigo, bem… Digamos apenas que a ignorância é uma bênção.

— Lina, eu quero que você vá para a Itália.

Estávamos no meio de novembro, e eu havia me sentado diante da cama de hospital dela com uma pilha de revistas velhas de beleza que roubara da sala de espera. Eu tinha passado os últimos dez minutos fazendo um quiz chamado “Numa escala de frio a fervente: quão sexy você é?”, e fiz sete pontos num total de dez.

— Itália? — perguntei, meio distraída.

A pessoa que fizera o quiz antes de mim gabaritou, e eu estava tentando descobrir como isso era possível.

— Falei que quero que você vá morar na Itália. Depois.

Aquilo chamou minha atenção. Para começar, eu não acreditava no depois. Sim, o câncer da minha mãe estava progredindo exatamente do jeito que os médicos explicaram que aconteceria, mas eles não sabiam de tudo. Naquela manhã mesmo, eu tinha salvado nos meus favoritos uma matéria sobre uma mulher que subira o Monte Kilimanjaro depois de vencer um câncer. E tem outra coisa: Itália?

— Mas por quê? — perguntei, sem ser grosseira.

Era importante não contrariar minha mãe. Evitar estresse ajuda na recuperação.

— Quero que você fique com o Howard. O ano que passei na Itália significou muito para mim, e quero que você viva a mesma experiência.

Olhei o botão para chamar as enfermeiras. Ficar com Howard na Itália? Será que tinham dado morfina demais a ela?

— Lina, olhe para mim. — Ela usou seu tom autoritário que dizia “Mocinha, eu sou sua mãe”.

— Howard? O cara de quem você não para de falar?

— Sim. Ele é o melhor homem que já conheci. Vai mantê-la a salvo.

— A salvo de quê?

Eu olhei para ela, e de repente comecei a ficar ofegante. Minha mãe estava falando sério. Será que tinha algum saco de papel por ali?

Ela balançou a cabeça, com os olhos brilhando.

— Vai ser… difícil. Não precisamos falar disso agora, mas queria que você ouvisse de mim mesma sobre essa decisão. Você vai precisar de alguém. Depois. E acho que ele é a melhor pessoa.

— Mãe, isso nem faz sentido. Por que eu iria morar com um desconhecido?

Eu me levantei e comecei a vasculhar as gavetas na mesinha de cabeceira dela. Devia ter um saco de papel em algum lugar.

— Lina, sente-se.

— Mas, mãe…

— Sente-se. Você vai ficar bem. Você vai conseguir. Sua vida vai seguir em frente e vai ser maravilhosa.

— Não. Você vai conseguir. Às vezes as pessoas se recuperam.

— Lina, Howard é um amigo maravilhoso. Você vai amá-lo.

— Duvido. E se ele é um amigo tão bom assim, por que nunca o conheci?

Desisti de encontrar um saco, então me joguei de novo na cadeira e coloquei a cabeça entre os joelhos.

Ela se sentou com dificuldade, depois estendeu a mão, tocando as minhas costas.

— As coisas eram meio complicadas entre nós, mas ele quer conhecê-la. E disse que adoraria que você ficasse com ele. Prometa que vai tentar. Pelo menos por alguns meses.

Bateram à porta. Nós duas erguemos o rosto e vimos uma enfermeira com um uniforme azul-bebê.

— Só vim checar como vocês estão — disse ela, cantarolando.

Ou estava ignorando ou não percebeu minha expressão.

Numa Escala de Tranquilo a Tenso, o quarto estava mais ou menos 100 para 10.

— Bom dia. Eu estava dizendo à minha filha que ela deve ir para a Itália.

— Itália — repetiu a enfermeira, com um suspiro. — Passei minha lua de mel lá. Gelato, a Torre de Pisa, as gôndolas de Veneza… Você vai adorar.

Minha mãe abriu um sorriso triunfante para mim.

— Mãe, não. Eu não vou pra Itália de jeito nenhum.

— Mas, querida, você precisa ir — insistiu a enfermeira. — Vai ser uma experiência única.

No fim das contas, a enfermeira estava certa sobre uma coisa: eu precisava ir. Mas ninguém me deu nenhuma pista do que eu encontraria quando chegasse lá.

 

testeA conexão secreta entre a Igreja Católica e o fascismo

Desafiando a narrativa histórica convencional que retrata a Igreja Católica como forte opositora do regime fascista, David I. Kertzer revela em O papa e Mussolini, livro vencedor do Prêmio Pulitzer de Biografia, como o papado de Pio XI foi crucial para que Mussolini instaurasse sua ditadura e se mantivesse no poder.

Após uma rigorosa investigação, que envolveu sete anos de estudo de relatórios dos espiões de Mussolini na Santa Sé e dos arquivos secretos do Vaticano, abertos em 2006, David I. Kertzer comprova como a aliança entre a Santa Sé e o “Duce” garantiu à Igreja a restauração de posses e privilégios na Itália. Chamado pelo próprio papa como “Homem enviado pela Providência”, Mussolini instaurou um regime que tornou possível, entre outros exemplos, o histórico Tratado de Latrão, que encerrou a separação entre o moderno Estado italiano e a Igreja Católica. O acordo assegurou o catolicismo como a “única religião do Estado”, delimitou as fronteiras da Cidade do Vaticano — determinada também como território soberano — e estabeleceu que a Itália pagasse o equivalente a um bilhão de dólares americanos (em valores de 2013) para que, em troca, a Santa Sé desistisse de todas as reivindicações relativas à perda de territórios durante a unificação italiana.

Como 99% dos italianos eram católicos, não foi difícil para a Santa Sé garantir que sua influência protegesse o regime aliado. A Ação Católica, organização laica da Igreja presente em todo o país, trabalhou em estreita colaboração com as autoridades fascistas para aumentar o alcance repressivo da polícia. Longe de se opor ao tratamento aos judeus como cidadãos de segunda classe, a Igreja forneceu a Mussolini apoio para a adoção de medidas severas, como um acordo secreto entre o Vaticano e o ditador para evitar qualquer crítica às infames “leis raciais” antissemitas, em troca de privilégios às organizações católicas.

Além da farta documentação, O papa e Mussolini apresenta uma vívida biografia de dois homens que chegaram ao poder em Roma no mesmo ano e que, juntos, mudaram o curso da história. Em diversos aspectos, Pio XI e o “Duce” não poderiam ser mais diferentes. No entanto, tinham muito em comum. Não acreditavam na democracia e abominavam o comunismo. Eram propensos a ataques de cólera e protegiam com todas as forças as regalias dos cargos que ocupavam.

Impactante e dramática, a obra que chega às livrarias a partir de 11 de abril traz uma visão cruelmente verdadeira sobre um capítulo obscuro da história mundial, narrada com extrema perícia e com deliciosos detalhes sobre a ampla rede de espiões de Mussolini na Santa Sé, as intrigas e os escândalos tanto nas relações extraconjugais do Duce quanto dentro do Vaticano e as particularidades de duas importantes figuras históricas.

>> Leia um trecho de O papa e Mussolini

testeO mistério sobre a identidade de Elena Ferrante

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As obras devem falar por si só ou precisamos conhecer os autores para gostar de um título? Com um mistério em torno de sua verdadeira identidade, a escritora italiana (ou escritor, ou escritores) que utiliza o pseudônimo de Elena Ferrante se tornou um dos maiores fenômenos literários do momento.  Desde o início da carreira, nos anos 1990, já são mais de um milhão de exemplares vendidos no mundo todo e livros traduzidos em cerca de 30 países.

Para preservar seu anonimato, Elena Ferrante concedeu poucas entrevistas ao longo dos anos, sempre por e-mail, e nunca posou para fotos. Quando lançou seu primeiro livro, afirmou: “Já fiz o suficiente por essa história, eu a escrevi.” Desde então, as dúvidas sobre sua identidade já deram margem a vários questionamentos: Será que é um homem? Será que as histórias são autobiográficas? Com tanta especulação, o enigma sobre Ferrante levou o jornalista Claudio Gatti a investigar e publicar, no The New York Review of Books, um polêmico artigo em que afirma ter descoberto a verdadeira identidade de Ferrante.

A matéria, publicada há poucos dias, teve grande alcance e gerou controvérsia. O jornalista teria o direito de revelar a identidade de Ferrante? Veículos como The Guardian, The New York Times, Folha de S.Paulo e O Globo repercutiram a notícia que virou um dos assuntos mais comentados da semana. Autores como Jojo Moyes declararam que a atitude de Gatti foi invasiva.

Surprised at how angry I feel about @NYBooks‘ unmasking of Elena Ferrante. Esp its ‘justification’ that her success made it ‘inevitable’.
— Jojo Moyes (@jojomoyes) 2 de outubro de 2016

 

Em 2014, Elena Ferrante explicou por que escolheu o anonimato em entrevista ao The New York Times. “O que conta para mim é o direito de preservar o espaço criativo.” Em outra rara conversa, dessa vez com o jornal O Globo, ela afirmou que prefere se expressar apenas com a escrita, mantendo-se distante da mídia e dos holofotes criados em torno da figura do autor.

untitledEm suas obras, Ferrante explora dramas familiares e aborda temas como maternidade e casamento de uma forma sincera e sensível. Suas personagens italianas conquistaram anônimos e famosos do mundo todo, que vão de Hillary Clinton, candidata à presidência dos Estados Unidos, à atriz Gwyneth Paltrow e à escritora vencedora do Prêmio Nobel Alice Munro. A escolha de Ferrante reacendeu o debate sobre a necessidade de os leitores saberem quem são os autores para gostarem das obras — justamente num tempo em que artistas em geral se mostram e interagem cada vez mais com seu público a fim de expor suas obras, Ferrante conseguiu, apesar da sua invisibilidade (ou com a ajuda dela), levar sua arte tão longe a ponto de sua identidade real se tornar alvo de investigação e repercussão mundial.

Em outubro, a Intrínseca publica A filha perdida, romance inédito no Brasil, cuja personagem principal, Leda, é uma professora universitária de 40 e poucos anos que decide tirar férias no sul da Itália após as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai. A obra acompanha os sentimentos conflitantes dessa personagem que reflete sobre o papel de ser mãe, os desejos e as vontades das mulheres. Nesse mesmo mês, Uma noite na praia, livro de estreia de Ferrante na literatura infantil, também chega às livrarias brasileiras.

>>Leia um trecho de A filha perdida 
>> Leia também a sinopse de  Uma noite na praia

testeLiteratura sem vaidade

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(Fonte: Slate.com)

Nesta semana, a notícia que mais repercutiu no meio cultural foi a revelação do rosto por trás da escritora italiana Elena Ferrante, um dos mais famosos pseudônimos da literatura atual. Ao que tudo indica, Elena Ferrante seria, na verdade, Anita Raja, 63 anos, tradutora responsável pela publicação, entre outros, de autores como Franz Kafka em italiano.

O jornalista italiano Claudio Gatti foi fundo para tentar revelar quem é Elena Ferrante. Ele cruzou os dados de vendas dos livros da autora com o aumento nos repasses feitos pela editora a Anita. Descobriu que, dado o sucesso global de todos os livros de Elena, os depósitos bancários cresciam na mesma proporção dos ganhos da editora.

Seja ou não Anita a verdadeira Elena, tudo o que tenho a dizer é: não importa. O que me é claro é que a pessoa por trás desses livros optou por um caminho raro no mundo das artes, onde todo mundo parece estar em busca de reconhecimento. Elena Ferrante, com todo o sucesso que atingiu, abriu mão da fogueira das vaidades.

Ao concentrar-se na mais importante fase da literatura — a criação em si —, deixando a promoção e o lançamento por conta de seus editores, Elena conseguiu formar uma legião de fãs e também conceber suas histórias em uma velocidade muito maior. Ampliou sua base de leitores da melhor forma possível: encantando-os.

Neste momento, dois livros de Elena Ferrante fazem parte da minha lista de leituras: A amiga genial, primeiro capítulo de uma tetralogia, e Dias de abandono. Em ambos, encontrei personagens femininas fortes, uma prosa direta e um estilo discreto que, sem firulas, joga o leitor em histórias absorventes e bem observadas.

A Intrínseca está publicando um título novo de Elena — A filha perdida — que, certamente, entrará na minha lista de futuras leituras. A fluidez da narrativa de Elena certamente deverá ser, a partir de agora, uma fonte de inspiração para meus próximos livros.

testeUm helicóptero, um submarino e 298 agentes

Coluna Cristina

O esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo. (fonte)

“A única coisa que une uma nação é sua cultura. Protegê-la é o mesmo que proteger a nação.” Se você tivesse que adivinhar o autor dessa frase, em quem apostaria? Um curador? Um historiador de arte? Um colecionador? Para a surpresa de boa parte dos brasileiros, ouvi essa afirmação da boca de um policial m-i-l-i-t-a-r: o coronel italiano Giovani Pastore, um carabinieri setentão que, por mais de treze anos, comandou o esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo.

Em junho de 2013, enquanto apurava material para o livro A arte do descaso, encontrei Pastore em Roma. Estivemos juntos por algumas horas, passeamos pela cidade, e ele me levou à sede do TPC, um palácio de paredes amarelas que não costuma receber turistas, muito menos jornalistas.

Fundado pela Polícia Militar em 1969 e ligado diretamente ao Ministério da Cultura, a única instância a que responde hoje em dia, o TPC tem em seus quadros nada menos do que 298 agentes distribuídos por doze unidades regionais. Todos eles passam por cursos e são treinados para identificar peças roubadas ou falsificadas. Como se não bastasse, ainda dispõem de um helicóptero e um submarino ultramodernos, que lhes permite realizar operações de campo semelhantes às de Hollywood.

A principal ferramenta de trabalho do TPC é, no entanto, uma gigantesca base de dados virtual instituída por lei, em 2004, na gestão do presidente Carlo Ciampi. É o Leonardo. Só os carabinieri têm acesso a ela:

— Temos aqui mais de 3 milhões de registros (de peças desaparecidas), 530 mil com fotos — disse Pastore, de peito inflado, mostrando-me a tela de um computador do TPC. — O banco de dados do FBI tem poucos milhares de registros. O do Art Loss Register, que atua de forma privada no Reino Unido, cerca de 400 mil. Estamos muito à frente.

“Marine” (de Monet), “Les deux balcons” (de Dalí), “La danse” (de Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (de Matisse), pinturas roubadas do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2006, estão lá. Quando vi, não acreditei.

— O Leonardo está conectado à base de dados da Interpol — explicou Pastore. — Se essas obras que você busca aparecem aqui é porque a Interpol foi avisada e fez todo o processo de registro da forma como estabelecemos.

O trabalho diário dos agentes do TPC consiste em comparar os mais diversos catálogos de leilão, de feiras de arte e de exposições em geral com os registros do Leonardo. Quando os policiais fazem um cruzamento, muito mais comum do que podemos imaginar, cortam a cidade às pressas e dão início à investigação.

Pastore já foi chamado para ministrar aulas sobre como montar uma equipe policial especializada no combate ao roubo de arte em Cuba, Equador, Colômbia, México, Rússia, Canadá e Croácia. Jamais foi convidado para vir ao Brasil.

Em suas palavras, o primeiro passo para conseguir algo assim é “que o poder público queira isso”.

— É o poder público que, por lei, define o que é o patrimônio cultural de um país e estabelece as punições aos que agirem contra ele. Também é o poder público que tem os instrumentos necessários para criar e equipar uma unidade voltada para esse assunto. É ele, por fim, que fixa as linhas mestras do trabalho policial. Então o primeiro passo (da criação de uma força capacitada como o TPC) é convencer o governo. Depois, o Congresso.

A boa notícia diante de tudo isso é que, ainda de olho no Leonardo, Pastore prometeu:

— Se algum dia essas pinturas forem vistas na Itália, voltarão para o Rio imediatamente.