testeSegunda temporada de Mindhunter chega em 2019

Se você é como nós e adorou a série Mindhunter, da Netflix, vai gostar de saber algumas novidades sobre a segunda temporada.

Desde que a renovação da série foi anunciada em novembro do ano passado, a produção assinada pelo famoso diretor David Fincher (Garota Exemplar, Zodíaco, Clube da Luta) tem sido mantida em segredo. Ainda se sabe pouco sobre a data oficial de lançamento, mas há rumores de que as gravações tenham começado no final de abril e que a próxima temporada seja lançada em 2019.

Serão menos episódios – oito –, e a produção contará com três diretores: o próprio Fincher, responsável pelo primeiro e último episódios, Andrew Dominik (O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) e Carl Franklin (Por um Triz), à frente dos outros seis.

Existem muitas especulações sobre quais serão os casos apresentados. Tudo indica que um deles será Wayne Williams, conhecido como o assassino de crianças que aterrorizou o sul do estado da Geórgia, nos Estados Unidos, no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980.

Enquanto esperamos, que tal conhecer a história do agente do FBI que inspirou a série? Estamos falando John Douglas, o lendário investigador que revolucionou o serviço de inteligência dos Estados Unidos. Não ficção com elementos de thriller, Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano narra as memórias do agente que conversou com os assassinos mais assustadores da história. Uma leitura imperdível para os fãs de investigação e ficção policial.

Não deixe de maratonar a primeira temporada e conhecer um pouco mais sobre as investigações na vida real!

 

testeCSI na Rússia: o caso real do tigre siberiano e a dieta que envolvia humanos

Por Luana Freitas*

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O tempo está congelante, as suas botas fazem barulho ao afundar na neve. Mas você já está se aproximando da cabana do amigo com o qual combinou de sair para pescar no gelo. Apesar de estar tudo quieto na densa floresta que circunda a clareira onde fica a cabana, você percebe que há algo estranho no ar. É então que se depara com os sinais que vão se somando: sangue na neve, rastros de tigre, pedaços de roupa aqui e ali, uma pata de cachorro despontando da neve. É nesse momento que compreende que seu amigo está morto, e o que sobrou do corpo dele ficou escondido em algum lugar. Quando um rugido de tigre corta o ar, você, que não leva nenhuma arma consigo, corre para a cabana. São necessárias três tentativas para reunir coragem e conseguir sair dali para buscar ajuda.

Isso aconteceu de verdade, em 1997, numa região inóspita perto da fronteira da Rússia com a China, e o caso é contado em detalhes no livro O tigre, de John Vaillant. O mais impressionante, no entanto, não é a morte em si, é a mentalidade da fera. A análise da cena do incidente revela que o ataque foi “friamente planejado”: o tigre poderia ter simplesmente matado Markov — sua primeira vítima — enquanto este caminhava pela taiga, mas preferiu deixá-lo de lado e esperar por ele na cabana, aproveitando o tempo para destruir todo e qualquer objeto com o cheiro de Markov. E não parou por aí. Após praticamente devorar todo o corpo de Markov, o animal continuou seguindo seu cheiro pela taiga e adotou uma dieta baseada exclusivamente na carne humana.

Ou seja, esqueça os programas de vida selvagem da TV a cabo, este livro é um thriller, em que os investigadores precisam deter o serial killer enquanto tentam desvendar os motivos que o levaram a adotar um comportamento tão peculiar. Com uma estrutura que lembra muito um episódio de CSI, o autor vai apresentando todos os envolvidos no crime, tecendo suposições a partir de seus depoimentos e das provas coletadas. É a partir dessas falas que o leitor compreende que a questão não é tão simples quanto apenas caçar um tigre que devora humanos.

A começar pela equipe que vai atrás do animal: ela é formada por guardas-florestais do Inspection Tiger, cuja missão é… proteger os tigres. Ao longo das páginas se torna palpável a dificuldade deles em lidar com a decisão de ter de sacrificar o tigre — fora a consciência de que a espécie está ameaçada de extinção, há o fato de seus integrantes venerarem a figura do tigre em virtude dos ensinamentos do povo nativo da região e da própria ligação que tais guardas desenvolvem com a floresta. Matar um tigre vai contra tudo por que lutam e abre a possibilidade de eles e suas famílias serem amaldiçoados para todo o sempre.

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Entretanto, constatam que não há como recuperar o animal obcecado em matar humanos, ainda mais por ele estar rumando para um vilarejo. Aliás, a população da região é outro problema para o Inspection Tiger. Pouquíssimos colaboram com as investigações, já que a maioria está ligada de alguma forma com a caça ilegal — muitos já foram multados e/ou presos pelos guardas-florestais. Mas não pense que essas pessoas são más. Como é mostrado no livro, estamos falando de um típico vilarejo do pós-perestroika russo: criado artificialmente no meio do nada para atender a indústria do regime soviético, quando ele sucumbe e leva junto a única fonte de progresso, os moradores se veem abandonados à própria sorte. Não há padre para enterrar seus mortos, o parco fornecimento de energia é feito por um velho gerador a diesel que precisa ser vigiado constantemente, as taxas de suicídio e alcoolismo são consideráveis, há estradas que não levam a lugar algum… Não há emprego, cédulas de dinheiro simplesmente não circulam, tudo é feito na base do escambo. A situação é tão precária que os caçadores usam armas improvisadas com pólvora velha. Mesmo sabendo que há um tigre à solta, as pessoas se embrenham na floresta para catar pinhas para comer ou tentar o milagre de conseguir carne.

Há um trecho em que o líder do Inspection Tiger afirma ter pena dessas pessoas, pois sabe da fome que passam, das privações que vivenciam, do desespero a que se entregam. Também há muitos momentos de profundo respeito pelo tigre, em que se chega a torcer por ele (ok, admito que torci por ele o tempo todo).

A verdade é que nessa história não há bandidos nem mocinhos. Todos saem perdendo. Como história real que é, seus conflitos não são facilmente solucionáveis e refletem o enorme desequilíbrio da relação do homem com a natureza.

*Luana Freitas é editora assistente de ficção e não ficção estrangeiras. Adora programas de sobrevivência na selva e vida selvagem.

testeUm helicóptero, um submarino e 298 agentes

Coluna Cristina

O esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo. (fonte)

“A única coisa que une uma nação é sua cultura. Protegê-la é o mesmo que proteger a nação.” Se você tivesse que adivinhar o autor dessa frase, em quem apostaria? Um curador? Um historiador de arte? Um colecionador? Para a surpresa de boa parte dos brasileiros, ouvi essa afirmação da boca de um policial m-i-l-i-t-a-r: o coronel italiano Giovani Pastore, um carabinieri setentão que, por mais de treze anos, comandou o esquadrão Tutela Patrimonio Culturale (TPC), a maior força de combate a crimes contra a arte em todo o mundo.

Em junho de 2013, enquanto apurava material para o livro A arte do descaso, encontrei Pastore em Roma. Estivemos juntos por algumas horas, passeamos pela cidade, e ele me levou à sede do TPC, um palácio de paredes amarelas que não costuma receber turistas, muito menos jornalistas.

Fundado pela Polícia Militar em 1969 e ligado diretamente ao Ministério da Cultura, a única instância a que responde hoje em dia, o TPC tem em seus quadros nada menos do que 298 agentes distribuídos por doze unidades regionais. Todos eles passam por cursos e são treinados para identificar peças roubadas ou falsificadas. Como se não bastasse, ainda dispõem de um helicóptero e um submarino ultramodernos, que lhes permite realizar operações de campo semelhantes às de Hollywood.

A principal ferramenta de trabalho do TPC é, no entanto, uma gigantesca base de dados virtual instituída por lei, em 2004, na gestão do presidente Carlo Ciampi. É o Leonardo. Só os carabinieri têm acesso a ela:

— Temos aqui mais de 3 milhões de registros (de peças desaparecidas), 530 mil com fotos — disse Pastore, de peito inflado, mostrando-me a tela de um computador do TPC. — O banco de dados do FBI tem poucos milhares de registros. O do Art Loss Register, que atua de forma privada no Reino Unido, cerca de 400 mil. Estamos muito à frente.

“Marine” (de Monet), “Les deux balcons” (de Dalí), “La danse” (de Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (de Matisse), pinturas roubadas do Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2006, estão lá. Quando vi, não acreditei.

— O Leonardo está conectado à base de dados da Interpol — explicou Pastore. — Se essas obras que você busca aparecem aqui é porque a Interpol foi avisada e fez todo o processo de registro da forma como estabelecemos.

O trabalho diário dos agentes do TPC consiste em comparar os mais diversos catálogos de leilão, de feiras de arte e de exposições em geral com os registros do Leonardo. Quando os policiais fazem um cruzamento, muito mais comum do que podemos imaginar, cortam a cidade às pressas e dão início à investigação.

Pastore já foi chamado para ministrar aulas sobre como montar uma equipe policial especializada no combate ao roubo de arte em Cuba, Equador, Colômbia, México, Rússia, Canadá e Croácia. Jamais foi convidado para vir ao Brasil.

Em suas palavras, o primeiro passo para conseguir algo assim é “que o poder público queira isso”.

— É o poder público que, por lei, define o que é o patrimônio cultural de um país e estabelece as punições aos que agirem contra ele. Também é o poder público que tem os instrumentos necessários para criar e equipar uma unidade voltada para esse assunto. É ele, por fim, que fixa as linhas mestras do trabalho policial. Então o primeiro passo (da criação de uma força capacitada como o TPC) é convencer o governo. Depois, o Congresso.

A boa notícia diante de tudo isso é que, ainda de olho no Leonardo, Pastore prometeu:

— Se algum dia essas pinturas forem vistas na Itália, voltarão para o Rio imediatamente.

testePrecisamos falar sobre roubo de arte

“Com tanto assunto para você escrever por aí — corrupção, assassinatos, tráfico de drogas, crise econômica — você foi escolher logo roubo de arte?” Foi assim, diante de um comentário ácido sobre o que viria a ser A arte do descaso, que, em 2011, tive a comprovação definitiva da importância daquilo que tanto digitava em meu computador. No Brasil, pouco se sabe — e pouquíssimo se estuda — sobre roubo de arte. Padecemos de uma ignorância que nos compromete. Roubo de arte é um tipo de crime que gira cerca de US$ 6 bilhões por ano em todo o mundo. Só perde em lucratividade para o narcotráfico e o comércio ilegal de armas. Essas estimativas — tidas como conservadoras — não são minhas, mas do Federal Bureau of Investigation (FBI). Não é hora de prestarmos mais atenção ao assunto?

artedodescasograndeA arte do descaso, minha estreia no mercado editorial, pela Intrínseca, reconta minuto a minuto o maior roubo de arte do Brasil. Trata-se do ataque ao Museu da Chácara do Céu, entidade administrada pelo Ministério da Cultura e situada no bairro carioca de Santa Teresa, em fevereiro de 2006. Há dez anos, o caso aparece na lista dos dez maiores crimes cometidos contra a arte em todo o mundo. É o único latino-americano no ranking disponível no site do FBI para quem estiver disposto a conferir. Mas nós, brasileiros, levamos uma década ignorando isso.

Foi no primeiro semestre de 2011, quando o crime completava cinco anos, que resolvi revisitá-lo. Na época, trabalhava como repórter de cultura do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, e me causava grande desconforto saber que as tentativas para elucidar o caso haviam sido frustradas. Não me parecia razoável o nível de descaso com o fato de que uma coleção de arte pública perdera para o crime dois Picassos, um Matisse, um Dalí e um Monet, então avaliados em US$ 10 milhões.

Também me causava certa vergonha ler reportagens que apontavam nosso país como um dos territórios mais propícios à ação de quadrilhas que roubam arte. Em 2007, um estudo da empresa americana RCI-First, especializada em análise e gestão de riscos e em contraespionagem, fez circular pela imprensa nacional, com certo alarde, a informação de que o Brasil ficava em quarto lugar na lista de países com mais roubos desse tipo. Entre 1995 e 2007, afirmava o estudo, ao menos 934 peças tombadas haviam sido furtadas, sendo que apenas oitenta delas tinham sido anteriormente catalogadas. Dois terços desse patrimônio, pontuava a análise, jamais foram sequer fotografados.

Debrucei-me sobre os três volumes e as mais de 700 páginas do inquérito referente ao roubo da Chácara do Céu — que segue aberto. E não demorou muito para que eu percebesse que A arte do descaso seria um livro para mostrar por que o Brasil não avança na investigação. Convido você para essa aventura. A partir de agora, todos atrás de “Marine” (Monet), “Les deux balcons” (Dalí), “La danse” (Picasso) e “Le jardin du Luxembourg” (Matisse)!