testeElon Musk, o Homem de Ferro que quer viver em Marte

Por Rennan Setti*

Foto: Getty Images /Justin Sullivan

O futuro do automóvel protagonizou o pregão do último 3 de abril em Wall Street. Naquele dia, o valor de mercado na Bolsa da fabricante de carros elétricos Tesla superou o da Ford, que inventou essa indústria há mais de um século. A ultrapassagem foi entendida não apenas como o marco de uma nova era automotiva, mas também como a redenção de Elon Musk face aos céticos que sempre questionaram suas mirabolâncias. Aos 45 anos e dono de uma fortuna de US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 47 bilhões), o executivo-chefe da Tesla é uma espécie de enfant terrible do Vale do Silício, cuja audácia goza de celebridade proporcional ao espanto que provoca. 

Desde que deixou sua África do Sul natal, no início dos anos 1990, Musk estabeleceu reputação de empreendedor em série. Após ter participado do comando do sistema de pagamentos on-line PayPal — cuja venda ao eBay lhe renderia US$ 165 milhões —, Musk decidiu criar startups que desafiam alguns dos setores mais conservadores da economia. Além da Tesla, Musk fundou a SolarCity com o objetivo de popularizar painéis solares como fonte de energia, enquanto a SpaceX tem a ambição de viabilizar a indústria de viagens interplanetárias.  

Mas Musk chama mais atenção pelo que ainda sonha conquistar. Em setembro do ano passado, deixou boquiaberta a plateia do Congresso Internacional de Astronáutica ao anunciar planos concretos de levar humanos a Marte a partir de 2024. É dele também o projeto do Hyperloop, sistema de transporte por meio de um túnel com pressão reduzida capaz de fazer o trajeto entre Los Angeles e São Francisco em meia hora. No fim de março, o The Wall Street Journal revelou que Musk lançou a Neuralink, companhia dedicada à implantação de eletrodos no cérebro de pessoas, o que permitiria aos usuários interagir com máquinas e com a internet por meio de pensamentos.  

Nada mal para alguém que superou o bullying implacável na escola (após surras sucessivas, precisou fazer uma plástica no nariz), a malária e sinais iminentes de falência, como narra o jornalista Ashlee Vance na biografia Elon Musk. É bem verdade que ainda pairam suspeitas sobre seu sucesso. A maioria de suas empresas, apesar de inovadoras, ainda são máquinas de queimar dinheiro, enquanto os críticos duvidam que seus planos mais heterodoxos serão concretizados. Sua personalidade é controversa. Vance conta no livro que Musk questionou o comprometimento de um funcionário que faltou a uma reunião para acompanhar o nascimento do filho (ele nega), e o empreendedor já se divorciou três vezes, duas delas da mesma mulher, o que garantiu presença constante em tabloides. Também causou polêmica o fato de ele atuar no conselho econômico de Donald Trump, que se elegeu afirmando que as mudanças climáticas são uma falácia e prometendo retirar incentivos à energia limpa, o contrário de tudo o que acreditam os donos do Tesla Model S e dos painéis da SolarCity. 

A favor de Musk estão seu endereço (o Vale do Silício é compreensivo com fracassos e paciente com inovações que custam a dar resultados) e a comunidade de fãs que já estabeleceu. Musk inspirou o Tony Stark “Homem de Ferro”, chegando a fazer uma aparição na sequência do filme, e é considerado por admiradores o sucessor natural de Steve Jobs. Para saber se suas apostas vão dar tão certo quanto a Apple, será preciso esperar, mas ter ciência delas é incontornável no universo tecnológico. Conheça a seguir um pouco mais sobre suas iniciativas.     

 

Tesla, de beira do precipício a modelo de futuro

Model S (via Tesla Motors)

Batizada em homenagem ao inventor Nikola Tesla, a companhia de Palo Alto não foi fundada por Musk mas se tornou indissociável dele. A Tesla nasceu em 2003 como um projeto do veterano Martin Eberhard, com o objetivo de criar veículos que utilizem como combustível apenas energia elétrica.

Em 2008, quando estourou a crise financeira global, a empresa estava à beira da falência, e Musk teve que tirar dinheiro do próprio bolso para sustentá-la. Aquele ano, aliás, seria lembrado por Musk como o pior de sua vida (além da Tesla, a SpaceX e o casamento de Musk também passavam por sérias dificuldades). Mas Musk, que passou a ocupar o cargo de CEO, conseguiu reequilibrar a empresa. Em 2010, ela foi a primeira montadora desde a Ford, em 1956, a lançar ações na Bolsa americana, levantando US$ 226 milhões.

 

Dificuldades em inovação solar

SolarCity (via Forbes)

Criada em 2006, a SolarCity produz e presta serviços de instalação e manutenção de painéis de energia solar. Musk teve a ideia original e ofereceu parte do capital inicial para a companhia, que seria fundada por seus primos Lyndon Rive e Peter Rive. Musk ocuparia o cargo de presidente do conselho de administração.

Hoje, a SolarCity é a maior empresa do segmento nos EUA, com mais de 300 mil clientes, mas continua enfrentando dificuldades para sair do vermelho. Em oito dos últimos 12 trimestres, a firma registrou prejuízo. A dramaticidade da situação levou a Tesla a adquiri-la no fim de 2016, por US$ 2,6 bilhões. 

 

O caminho mais rápido para o planeta vizinho

Nasa/Getty Images

Desde criança, Musk sonhava com o espaço. A SpaceX foi fundada por ele em 2002 para satisfazer esse fascínio. Seu principal objetivo é reduzir drasticamente o custo de viagens espaciais e, em algum momento, permitir a colonização de Marte. Na verdade, Musk sempre condicionou a abertura do capital da SpaceX ao pleno funcionamento de uma espaçonave capaz de levar pessoas àquele planeta.

A companhia se estabeleceu como uma importante prestadora de serviço para a Nasa. Em 2012, a SpaceX se tornou a primeira firma privada a levar uma cápsula à Estação Espacial Internacional. Para o futuro, a companhia tem mais de 70 lançamentos planejados, uma promessa de US$ 10 bilhões em contratos. Apesar de falhas notáveis em alguns lançamentos, a SpaceX obteve um feito em março deste ano: lançou o primeiro foguete reutilizado da história, o Falcon 9. A façanha é a chave para permitir o barateamento das viagens espaciais e, logo, a eventual colonização de Marte.        

Musk estima que um foguete à altura estaria pronto em 2024 — e deseja que a primeira espaçonave se chame “Heart of Gold” em homenagem ao Guia dos Mochileiros da Galáxia. Cada voo poderia levar cem passageiros, e as viagens ocorreriam a cada 26 meses, quando a Terra e Marte estão mais próximos entre si. O empreendedor projeta que o preço por viagem poderia cair para algo entre US$ 100 mil e US$ 200 mil por pessoa e que cerca de 10 mil voos seriam necessários para estabelecer uma colônia autossuficiente no planeta vizinho.  

 

Insurgência contra a distopia da inteligência artificial

Shutterstock

O fascínio de Musk por Marte não é resultado apenas de literatura de ficção científica em excesso. Na verdade, o empresário realmente acredita que a raça humana corre risco de extinção na Terra, e, dessa forma, a colonização de outro planeta poderia ser uma garantia de sobrevivência. Apesar de ser um notório entusiasta de tecnologias futuristas, Musk teme que os computadores exterminem os seres humanos.

Por isso, no fim de 2015, ele fundou a OpenAI, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é desenvolver uma plataforma de inteligência artificial que não caia na tentação de se virar contra seus criadores e aniquilar a humanidade. O objetivo da organização — que conta com o suporte de outros magnatas, como Peter Thiel (PayPal) e Reid Hoffman (LinkedIn) — é disponibilizar ferramentas de IA de código aberto que atendam esses requisitos. 

Saiba mais sobre a vida e as realizações do homem mais audacioso do Vale do Silício em Elon Musk, um exame profundo do significado da carreira de Musk para a indústria tecnológica.

 

Rennan Setti é jornalista.

testeSprint: um guia para tirar suas ideias do papel em 5 dias

É muito fácil ficar preso no caos: e-mails intermináveis, prazos estourados, reuniões que consomem o dia inteiro e projetos de longo prazo baseados em ideias questionáveis. Mas não precisa ser assim. Obcecado por estratégias para melhorar a eficiência no trabalho, o designer Jake Knapp criou o revolucionário Sprint, método que oferece um caminho estruturado para resolver problemas e testar novas ideias em apenas cinco dias.

Depois de anos de experiência conduzindo sprints no Google Ventures, braço da companhia dedicado ao investimento em startups e em novos negócios, Jake se juntou a John Zeratsky, o ex-líder de design do YouTube, e Braden Kowitz, que trabalhou no aprimoramento de produtos como Gmail e Google Trends, para explicar, de maneira acessível e bem-humorada, como qualquer empresa pode (e deve) conduzir um sprint.

No livro, que acaba de chegar às livrarias, o grupo de especialistas oferece um passo a passo ilustrado com saborosas histórias reais. Você vai aprender técnicas para definir quais são realmente os objetivos da sua empresa/iniciativa, quais são os pontos prioritários que devem ser analisados, como conduzir reuniões mais eficientes e como selecionar as melhores ideias que atendam aos seus objetivos.

Quem deve fazer um sprint?

Qualquer empresa ou grupo de pessoas que esteja lidando com projetos arriscados, tenha pouco tempo ou esteja com dificuldade em começar.

Mas o que é de fato um sprint?

É um método de criação e de ações planejadas para que, em uma semana, qualquer empresa ou pessoa possa testar com clientes reais um protótipo da sua ideia. Com ele é possível analisar as reações dos clientes antes de investir tempo e dinheiro. Ao fazerem um sprint, sua semana e a da sua equipe serão assim:

 
 

Leia um trecho de Sprint, um livro para qualquer um que tenha uma grande oportunidade, problema ou ideia e precise começar já a trabalhar.

testeLaudo de um viciado em internet

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O paciente começou com o hábito de assistir a vídeos de gatos na internet. Logo, dançava, com o fone nos ouvidos e os ombros imóveis, entre videoclipes no YouTube. O caminho foi curto para o Pornhub. Piorou com o nascente impulso de olhar tudo que amigos postavam no Facebook. Ele não se contentava com a Timeline comum. Tinha de percorrer todas as publicações, no canto superior direito da rede social, onde se vê cada passo das pessoas: o que curtem, o que compartilham, a quem respondem ou mesmo se estão interessadas em comparecer a um pré-bloco de Carnaval on-line — limito-me a dizer que não tenho ciência do que se trata tal evento.

— Cheguei a confirmar presença numa manifestação pela continuidade do churrasco na laje. Também curti o post de um amigo que escreveu “Só agora resolveram falar de David Bowie”. Compartilhei até um de um conhecido on-line que afirmou “Será que só eu tenho nojo de brigadeiro?”. E mantenho um perfil no MySpace. Tenho vergonha.

Quando deitou no divã, a situação havia progredido. Estava impossibilitado de direcionar a palavra ao interlocutor. Ao menos não sem uma microtela à frente. Com o aprofundamento da situação clínica, o paciente desenvolveu o hábito de percorrer posts no Facebook ou assistir a um protesto de artistas num vídeo de quinze segundos no Instagram, ao mesmo tempo que denunciava em palavras o próprio vício:

— Não consigo parar de rolar a barra para baixo.

Ele me apresentou ao Tor, um navegador clandestino de internet, na quinta sessão. Seu vício se estendia até ao que não gostava. Ganhou o costume de adquirir produtos ilegais, normalmente relacionados a drogas, no Silk Road. É notável que ele jamais tenha usufruído do que comprava nem tivesse vontade de usar drogas. Muitas vezes, recusava-se a abrir o pacote de entrega.

Poucas sessões depois o paciente já se dividia entre o Facebook, páginas pornô — deixava os vídeos em “play” mesmo quando não visava à autossatisfação; afirmava que era apenas pelo “prazer em ver a tela em movimento” — e canais diversos, e adversos, do navegador Tor. Por indicação de um amigo — contatado por um chat sobre vídeos de gatos —, tinha interesse crescente numa página especializada em imagens de acidentes de carros. Também demonstrava gosto por outra na qual um grupo de garotos filmava casas mal-assombradas. Contudo, evitava o que denominava de “bizarrices extremas”, a exemplo dos sites que contratavam pessoas para serem perfuradas com objetos pontudos de várias sortes, por livre vontade.

Na oitava sessão, contou que tinha reparado no sumiço de seu gato. Um real, não virtual. Parece que havia desaparecido fazia um tempo. O paciente, entretanto, declarava não lhe sobrar tempo para procurá-lo pelo condomínio de prédios onde morava.

Na décima segunda sessão, enquanto passeava por fotos de mulheres no aplicativo Tinder — tinha o hábito de também olhar retratos de homens, apesar de não se interessar sexualmente por eles —, lembrou-se de que havia tempo não conversava com a mãe por WhatsApp. Também relatou ter perdido a conta de dias que não marcava um encontro com um, aqui transcrito da forma narrada, “representante do sexo oposto”.

Na décima terceira sessão, disse ter descoberto que uma prima havia falecido 48 dias antes. Não sabia relatar se alguém o avisara da morte. Pesquisou em seu Gmail. Não achou e-mails relacionados ao assunto.

Na décima quinta, compartilhou que havia semanas faltava disposição para o trabalho. Fazia meses que adotara o home office. Agora, porém, nem matinha a produção em casa, conectado a dois smartphones, um tablet, um MacBook Air, um PC, uma Smart TV, um Apple Watch, um Google Glass, duas pulseiras de exercícios e três videogames.

Na décima sétima, soube que ele havia se divorciado. Isso alguns anos antes. Tínhamos nos esquecido de conversar sobre a questão, concluímos. O paciente falava pouco, por ter de revezar o olhar com um número crescente de dispositivos móveis.

Na vigésima, disse ter acabado o dinheiro que recebera pela rescisão de seu último contrato de trabalho. Tivemos de encerrar as consultas.

Voltei a saber do paciente num fórum sobre fãs de simuladores de aviação. Ele me reconheceu pela foto do perfil. Falamos “oi”. Ele não curtia simuladores de aviação.

 

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Filipe Vilicic é autor de O clique de 1 bilhão de dólares e colunista no site da Veja. Twitter: @FilipeVilicic / Facebook: fvilicic

teste14 livros para as férias

Confira nossa seleção com 14 livros imperdíveis!

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Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr — Nesse romance vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção de 2015, você vai conhecer Marie-Laure, uma garota que ficou cega aos seis anos e que vive em Paris com o pai, chaveiro responsável pelas fechaduras do Museu de História Natural, e Werner, um menino alemão, órfão, que se encanta por um rádio encontrado em uma pilha de lixo e cuja trajetória o leva a uma escola nazista. Combinando lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, Toda luz que não podemos ver é um tocante romance sobre o que há além do mundo visível.

S., de J.J. Abrams e Doug Dorst — Para os fascinados por mistério, J.J. Abrams, a mente por trás de séries como Lost, Fringe e o diretor do último episódio de Star Wars, apresenta um quebra-cabeça literário. Resultado de sua parceria com Doug Dorst, S. vem em uma caixa lacrada, repleta de códigos. Além do enigmático romance O Navio de Teseu, a obra contém, em suas margens, as anotações e investigações de dois leitores sobre V. M. Straka — um escritor cuja biografia nebulosa é repleta de boatos que envolvem conspirações, sabotagens e assassinatos.

História do futuro: O horizonte do Brasil no século XXI, de Míriam Leitão — Em um cenário de crise, a premiada jornalista Míriam Leitão é categórica: em vez de nos abatermos pelo pessimismo, temos que fazer um balanço racional dos muitos acertos e dos vários erros para construir um futuro melhor para o país. Em seu terceiro livro de não ficção, a vencedora do Jabuti apresenta tendências que não podem ser ignoradas em áreas como meio ambiente, demografia, educação, economia, política, saúde, energia, agricultura e tecnologia. Leitura fundamental para entendermos o presente e planejarmos o futuro do Brasil.

A espada do verão, de Rick Riordan — Trolls, gigantes e outros monstros horripilantes estão se unindo para o Ragnarök, o Juízo Final. Para impedir o fim do mundo, Magnus Chase deve empreender uma importante jornada a fim de encontrar uma poderosa arma perdida há mais de mil anos. Com personagens já conhecidos do público, como Annabeth Chase, prima de Magnus, e deuses como Thor e Loki, Rick Riordan nos apresenta uma nova série, agora sobre mitologia nórdica. Mais uma aventura surpreendente, repleta de ação e humor!

Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro, de Ashlee Vance — Se você quer ter alguma ideia de como será o futuro, precisa conhecer Elon Musk. O empreendedor mais ousado de nosso tempo, que inspirou o Homem de Ferro dos cinemas, decidiu investir sua fortuna gerada em empresas digitais para mudar o mundo. Com a SpaceX, o inventor sul-africano está revolucionando os voos espaciais. Com a Tesla Motors, está trabalhando para popularizar os carros elétricos. Musk, que também está investindo em energia sustentável por meio de painéis solares, é um CEO diferente de todos os outros. Ao apostar em empreendimentos de alto risco, tem se dedicado a criar um futuro ao mesmo tempo magnífico e próximo de uma fantasia de ficção científica.

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Lugares escuros, de Gillian Flynn — Aos sete anos, Libby Day sobreviveu ao terrível assassinato de sua família e testemunhou contra o irmão, que acabou condenado à prisão perpétua. Vinte e quatro anos depois, a ambígua personagem criada por Gillian Flynn, autora de Garota exemplar e Objetos cortantes, é procurada por um grupo de pessoas obcecadas pelo crime e começa a investigar o passado. A história chegou aos cinemas no ano passado, protagonizada por Charlize Theron, e recentemente ganhou uma nova edição, com capa seguindo o padrão dos livros da autora.

Caçadores de trolls, de Guillermo del Toro e Daniel Kraus  Um dos artistas mais visionários da atualidade — diretor, produtor e roteirista que assina sucessos como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e Hellboy —, Guillermo del Toro conta em Caçadores de trolls como o medo pode tomar conta das pessoas. Repleto de monstros assustadores e do encanto de um jovem com um mundo novo, o livro, que tem 10 belíssimas ilustrações de Sean Murray, será adaptado para uma série produzida pelo Netflix.

Crepúsculo/Vida e morte, de Stephenie Meyer — Publicado inicialmente nos Estados Unidos em 2005, o livro que originou a série best-seller mundial e uma franquia de filmes que bateu recordes de bilheteria, completou 10 anos! Para comemorar o aniversário da inesquecível história de amor entre Bella e Edward, Stephenie Meyer presenteou os leitores com uma edição dupla. Além de Crepúsculo, a edição especial contém quase 400 páginas de conteúdo extra que inclui Vida e morte, versão em que a autora inverte o gênero dos protagonistas.

A sexta extinção, de Elizabeth Kolbert — Ao longo dos últimos quinhentos milhões de anos, o mundo passou por cinco extinções em massa. Hoje, a sexta extinção vem sendo monitorada, e a causa não é um asteroide ou algo similar, e sim a própria raça humana. Vencedor do Prêmio Pulitzer de Não Ficção de 2015, A sexta extinção explica de que maneira o ser humano tem alterado a vida no planeta como absolutamente nenhuma espécie fez até hoje. Para isso, Kolbert apresenta trabalhos de dezenas de cientistas em diversas áreas e viaja aos lugares mais remotos em busca de respostas.

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Grey, de E L James — Christian Grey controla tudo e todos a seu redor: seu mundo é organizado, disciplinado e terrivelmente vazio — até o dia em que Anastasia Steele surge em seu escritório, uma armadilha de pernas torneadas e longos cabelos castanhos. Conheça a história que dominou milhares de leitores ao redor do mundo agora sob um novo e apaixonante ponto de vista.
Mosquitolândia, de David Arnold — Mim Malone não está nada bem. Após o inesperado divórcio dos pais, a apaixonante protagonista de Mosquitolândia é obrigada a ir morar com o pai e a madrasta no árido Mississippi. Para fugir dessa nova vida e buscar seu verdadeiro lugar, o lar de sua mãe, ela embarca em uma jornada de mais de mil quilômetros até Ohio e encontra companheiros de viagem muito interessantes pelo caminho, numa odisseia contemporânea tão hilária quanto emocionante.

O clique de 1 bilhão de dólares, por Filipe Vilicic — O Instagram, aplicativo de compartilhamento de fotos, é uma febre mundial desde seu lançamento em 2010. Comprado pelo Facebook em 2012 pela estonteante quantia de 1 bilhão de dólares, hoje em dia já mobiliza mais de 400 milhões de usuários ativos. O que poucos sabem é que Mike Krieger, um de seus idealizadores, é brasileiro, nascido em São Paulo. A trajetória meteórica do aplicativo e de Krieger, que se tornou milionário aos 26 anos, são detalhadas em O clique de 1 bilhão de dólares pelo jornalista Filipe Vilicic, editor de Ciência e Tecnologia da revista e do site de Veja.

Para todos os garotos que já amei, de  Jenny Han — Lara Jean guarda suas cartas de amor em uma caixa que ganhou da mãe. Não são cartas que ela recebeu de alguém, mas que ela mesma escreveu. São confissões sinceras, sem joguinhos ou fingimentos. Até que, um dia, elas são misteriosamente enviadas aos destinatários e, de repente, sua vida amorosa se transforma. Se você ainda não conhece Lara Jean, é melhor correr: a continuação do romance, P.S.: Ainda amo você, chega às livrarias nas próximas semanas.

A guerra dos consoles: Sega, Nintendo e a batalha que definiu uma geração, de Blake J. Harris — Na década de 1990, a Nintendo praticamente monopolizava o mercado de video games. A Sega, por outro lado, era apenas uma empresa instável de fliperamas com grandes aspirações e egos maiores ainda. Mas tudo isso iria mudar com as táticas arrojadas de Tom Kalinske, ex-executivo da Mattel, que transformaram a Sega por completo e levaram a companhia a travar um confronto impiedoso com a Nintendo. Um livro fascinante sobre a guerra que mudou o futuro dos video games e o mercado de entretenimento.

testeUm futuro longe do digital

Elon Musk quer colonizar Marte, popularizar os carros elétricos e a energia solar — independentemente do que aconteça com a internet

Por Alexandre Matias*

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“As melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios.” A frase, dita por um dos primeiros programadores do Facebook, sintetiza o sentimento de frustração com o futuro trazido pelo Vale do Silício: em vez de viagens interplanetárias, teletransporte ou energia sustentável, o futuro que o século XXI nos apresentou foi o de pessoas grudadas em monitores de todos os tamanhos, inflando seus próprios egos em redes sociais.

A promessa de futuro vendida pelo Vale do Silício misturou-se com o mundo de fama e sucesso de Hollywood, e, em pouco tempo, CEOs atingiram status de popstar. Steve Jobs talvez seja o melhor exemplo desse domínio do mundo dos negócios como uma variação do show business. Mas não se engane, filmes sobre Bill Gates e Mark Zuckerberg já foram produzidos e currículos de executivos bem-sucedidos continuarão sendo vendidos como biografias de pessoas incríveis nos próximos anos.

Elon MuskDe lá para cá, a internet mudou. Deixou de ser o reino aberto de trocas de links para se tornar um ambiente de feudos de marcas, clusters de usuários obstinados em reter todos os dados pessoais de seus clientes para vendê-los a outras marcas em forma de publicidade personalizada. Google, Facebook, Microsoft, Apple, Amazon e uma meia dúzia de empresas querem mantê-lo sob seu único guarda-chuva, silos de entretenimento que combinam redes sociais, aplicativos para celulares e tablets, games, serviços de streaming, sites de compras e de armazenamento digital. Todo mundo permanece cada vez mais grudado a uma matrix de distrações, e aquele futuro Jetsons que antevíamos em meados do século passado parece sumir enquanto migramos de uma tela para outra, de uma marca para outra.

Mas para o sul-africano Elon Musk um futuro de viagens interplanetárias e energia sustentável ainda permanece no horizonte. Alheio aos deslumbres do digital, ele preferiu investir seu dinheiro em desafios verdadeiramente transformadores. Ele pertence ao grupo de programadores e engenheiros que ficou conhecido mais tarde como “a Máfia do PayPal” por ter surgido em meio à criação do serviço de transferências financeiras — um grupo de empreendedores que criaram uma espécie de lado B do Vale do Silício mais pop, desenvolvendo aplicativos e redes sociais que orbitam de forma pacífica ao redor das principais, como LinkedIn, Yelp, Reddit e fundos de investimento.

Musk, no entanto, radicalizou. Preferiu investir em outras formas de conexões humanas ao entender que a internet havia se convertido em uma nova corrida do ouro, fazendo todos apostarem alto no ciberespaço como único futuro viável. Após ficar bilionário com a venda do PayPal, dedicou-se às próprias empresas para atingir suas metas futuristas, que incluem a exploração do espaço, viagens interplanetárias, terraformação de Marte, carros elétricos, transportes suspensos, energia solar… E tem dado certo.

Com sua SpaceX, Musk já realizou viagens tripuladas para fora da órbita da Terra e estuda como criar uma biosfera artificial em Marte que suporte a colonização do Planeta Vermelho — empreitada que ele pretende iniciar ainda em vida. Com a Tesla Motors está mostrando que o carro elétrico não apenas é viável como também pode ser criada uma malha de recarga gratuita para seus carros em três continentes. Sua SolarCity já é a segunda maior empresa em vendas de painéis solares nos Estados Unidos. E sua Hyperloop, que cogita o transporte suspenso entre cidades por tubos de ar comprimido, já começa a fazer testes com um tubo que liga Los Angeles a São Francisco.

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CRS 4 Dragon em órbita (Foto: Space X)

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Interior do Dragon V2 (Foto: Space X)

A internet atual vive uma transição drástica que equilibra uma geração que viu a chegada da rede como tábua de salvação de um futuro em colapso (a popularização em massa da internet e o surgimento das redes sociais aconteceram logo após o atentado do 11 de Setembro de 2001) com outra que já nasceu on-line e não percebe a rede como novidade. Ambas se encontrarão quando a esperança reluzente do mundo digital se provar apenas uma forma de manipulação e vigilância das pessoas, quando o futuro brilhante da internet se reduzir apenas a uma rede de monitoramento de dados, seja para uso comercial ou governamental. Quando isso acontecer, Elon Musk estará nos esperando com seu futuro megalomaníaco já em andamento.

link-externoVídeo: Elon Musk apresenta os primeiros SUVs Tesla Model X

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link-externoLeia um trecho da biografia Elon Musk: Como o CEO bilionário da SpaceX e da Tesla está moldando nosso futuro, de Ashlee Vance

link-externoLeia também: Stephen Witt, autor de Como a música ficou grátis, explica como o digital mudará ainda mais nossa relação com a cultura

 

Alexandre Matias, 40, é jornalista há vinte anos e cobre música, cultura e tecnologia para diversos veículos, com base em seu site pessoal, o Trabalho Sujo.

testeCrise: a hora de se reinventar

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Um lobo gigante tem soprado à porta. Nós, os inventivos porquinhos, estamos tremendo. Escondidos na casa de madeira, não dispomos de muitos recursos para reforçar a porta. Numa situação dessa, há três opções.

A primeira é usar o que se tem na casa para reforçar a porta. Quebram-se as cadeiras, as mesas, as camas. Com a madeira de tudo que há dentro, a porta é fortificada. Mas continua a ser soprada e um dia cederá.

A segunda é sair da casa pela porta dos fundos enquanto o lobo continua a soprar, achando que estamos dentro. Só que temos pouco tempo e não dá para fugir. O que nos resta é procurar por mais madeira na floresta para, assim, construir outra casa. Mudamos para a casa nova, e vivemos calmamente até o lobo destruir nosso primeiro teto, perceber que foi enganado e rumar para a nova casa de madeira. Ele voltará a soprar, a soprar, a soprar. Aterrorizando os porquinhos inventivos que lá residem.

A terceira opção é a mais ousada (e arriscada). Os porquinhos saem pela porta de trás. Porém, em vez de procurarem por mais madeira, tentam achar novos materiais, mais resistentes, capazes de vencer o sopro do lobo. Talvez achem gesso, calcário, água e uma série de outras substâncias químicas. E talvez resolvam misturar tudo até formar cimento. Com essa novidade, constroem uma nova residência, bem mais resistente, que não pode ser abalada pelos sopros do lobo.

Sim, um dia pode surgir um lobo mais forte ou outro inimigo — quem sabe um urso — não esperado. Mas, dentro de sua nova casa de cimento, os porquinhos ganharam mais tempo também para serem inventivos frente à nova e intensa ameaça. Se ainda apostassem na madeira, teriam sido vencidos pelo oponente mais fraco ou cairiam rapidamente quando chegassem os mais fortes.

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Como mostro em O clique de 1 bilhão de dólares, o Instagram é prova de como é preciso ser criativo para solucionar crises

O que os porquinhos encararam foi uma crise perigosa, que ameaçava (no mínimo) o modo de vida deles. Estamos vivienciando, no Brasil, uma situação similar. Caro leitor, aposto que você está pensando: “Ah, vamos construir uma casa de cimento para desafiar esse lobo que nos enche.” Pois é, esse seria o caminho para acabar de vez com o problema — ou, é preciso admitir, aumentá-lo, se a artimanha desse errado. Mas, e esse é o fato incontornável, raramente a inventividade humana falha em suas ambições. Só que não é o que estamos seguindo.

Tudo indica que a maioria dos empreendedores brasileiros tem preferido as duas primeiras saídas. Ou destroem as próprias casas (mais de 20% dos negócios do país esperam realizar cortes substanciais, como demissões em massa, no próximo ano) por achar que assim vão reforçá-la, ou saem atrás de velhas soluções dentro da floresta.

No primeiro caso, o lobo só demorará um pouquinho mais para derrubar a casa. Seja ela do tamanho de uma pequena tenda, seja do tamanho de um castelo de madeira. No segundo, a velha casa é sacrificada para dar lugar a uma nova, mas igual. O resultado: ambas cairão frente aos sopros do velho lobo.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_WEBEm meu livro O clique de 1 bilhão de dólares, além de contar a eletrizante história da criação do Instagram — que teve de procurar por cimento em vários momentos em que notou que madeira não seria forte o suficiente —, relembro, em diversos trechos, como a indústria da tecnologia teve de encarar muitos lobos. A região de São Francisco onde se instalou o primeiro escritório oficial do Instagram, a mítica South Park, viu parte dessas crises. A área, que antes era tomada pela pobreza, floresceu nos anos 1990 com a chegada das primeiras startups ligadas aos negócios milionários da internet. Porém, flertou novamente com a decadência quando essas empresas novatas não mostraram a que vieram, na virada do milênio, e deram início à bolha ponto com, que as quebrou.

Os empresários poderiam ter desistido da internet e pensado: “Não é essa promessa que imaginávamos.” Ao invés disso, insistiram nos negócios sem ir atrás de madeira para replicar o que já sabiam. Procuraram formas inusitadas de continuar a aventura. Assim nasceram empresas como Facebook, Instagram e, mais tarde, Uber, Airbnb e Netflix tal qual a conhecemos — antes, era apenas um serviço de aluguel de filmes pelo correio. Essas empresas venceram a crise e hoje seria preciso um lobo muito mais colossal para destruí-las.

Voltemos rapidamente ao Brasil.

É triste notar que a maioria dos brasileiros, ao menos os governantes e alguns empresários no poder, têm optado por encarar a crise não só sem apostar em novas saídas e repetindo velhas e inúteis soluções, como tentando derrubar aqueles que buscam alternativas melhores, criativas e duradouras. Vejam o caso do Uber. Muitas cidades preferem batalhar para proibir o serviço — que já se mostrou resistente a crises e uma ótima opção de emprego para quem perdeu o seu — e dar vantagens às velhas e ultrapassadas opções, como os táxis. Do mesmo mal sofre o Netflix. O serviço, que em todo o mundo promete substituir (ou ao menos dar novos ares) a TV regular, aqui sofre uma resistência tremenda. Querem torná-lo mais fraco, taxá-lo, submeter uma nova ideia, um novo cimento, a regras antigas, que só eram boas para regular madeira. Com isso, o Brasil talvez até reforce a porta a curtíssimo prazo, mas ela logo cederá.

Convido você, leitor, a repensar as crises pelas quais passou na vida, ainda mais se alguma o estiver atingindo agora. É importante tratá-la como oportunidade. Das melhores. Em vez de fugir ou buscar velhas saídas, tente se reinventar. Procure cimento, não madeira.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

testePor que é tão difícil inovar no Brasil

l_img8_instagram_blog_01a_semtextoUm típico empreendedor brasileiro: preso no labirinto da burocracia

Repare que o título desta coluna é uma afirmação, não uma pergunta. Afinal, tal constatação já se tornou praxe. Mas é raro encontrar explicações. Vamos a elas.

Tentei empreender dois projetos: o primeiro com uma startup de impressão 3D e o segundo com uma empresa de mapeamento indoor. Desisti de ambos no meio do caminho. O primeiro foi para a frente, de forma tímida, depois da minha saída. O segundo desapareceu. Independentemente do sucesso ou do fracasso posterior, por que caí fora, sem arrependimentos?


1.

Por um fator simples: é difícil fazer negócios éticos no Brasil. Por exemplo, no meio do caminho para lançar a startup de impressoras 3D, que seriam acopladas à mão, surgiu um problema. Como tudo no país, mesmo para uma empresa tida como startup — logo, como seria no Vale do Silício, algo meio que “de garagem”, que mereceria facilidades —, é preciso, antes de operar, ter aprovações mirabolantes, que passam por contadores, advogados, cartórios… No meu caso, descobrirmos vários obstáculos.

Em teoria, precisaríamos de uma licença específica para instalar uma empresa de fabricação de qualquer coisa, de qualquer escala. E a nossa não poderia ser na região de São Paulo em que estávamos (o Centro!). Tudo isso custaria MUITO para ser superado. Algo que uma startup não conseguiria encarar. Em meio ao papo com outros sócios, surgiram formas de se esquivar da questão. A maioria exigia o “jeitinho brasileiro”. Sou contra “jeitinho” e achava adequado não correr o risco, ainda mais por ser tão apaixonado por escrita e jornalismo — não queria que essas minhas facetas fossem afetadas pelos problemas de empreendedor. Logo, optei por não me meter em qualquer provável futura lama.


2.

Rixas entre os sócios é algo típico em startups, mas que poderia ser superado. Porém, olhando agora com a devida distância temporal, percebi que as brigas tinham muito a ver com o fato de não podermos nos dedicar ao que queríamos, ao nosso trabalho, às nossas ideias. Na maior parte do tempo só discutíamos empecilhos burocráticos, leis e por aí vai. A parte chata. Nada a ver com o core do negócio. Isso não só me desmotivou como fez nascerem as rixas. Esse panorama brasileiro, de 70%, 80%, por vezes 90% do tempo — e da massa cerebral — do empreendedor iniciante ser gasto com cartórios e afins, por meses, destrói vontades e parcerias.

 

3.

Ah, e o principal. Descobri que não queria me dedicar tanto assim a impressoras 3D e mapeamento indoor. Minha praia é comunicação (e contar histórias: escritas, visuais, como forem). Se um dia regressar a esse mundo empreendedor — sobretudo se for para enfrentar as chatices brasileiras —, provavelmente me voltarei a áreas relacionadas a essa paixão. Entre nós, esse foi o fator decisivo. Se não fosse por isso, teria enfrentado, com muita raiva e inveja dos colegas americanos do Vale do Silício — com suas devidas facilidades que fazem de lá o maior polo de inovação do planeta —, as questões 1 e 2.

 

Porém, vamos sair do pessoal

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Graava, uma câmera que edita automaticamente os vídeos feitos: mais uma bela ideia de brasileiros, mas realizada no Vale do Silício

É regra.: todo empreendedor que conheço reclama da estupidez da burocracia brasileira. Municipal, estadual ou federal. Tanto faz. Há burrice em todas as alçadas. E o ecossistema nacional de negócios, principalmente os digitais — que exigem agilidade para se adequar, garantir a inovação e competir de igual para igual com a concorrência —, sofre com isso. Até os gigantes.

Vejamos, por exemplo, o caso do Google. Há dois anos, em papo com Hugo Barra, mineiro de grande renome em sua área e então vice-presidente da marca (hoje está na chinesa Xiaomi), perguntei: “Por que, apesar do interesse das grandes empresas pelo mercado brasileiro, os melhores smartphones e tablets demoram a chegar por aqui?” A resposta: “Queremos entrar no Brasil e vender produtos baratos. Mas é extremamente difícil fazer negócios neste país. A complicada e burocrática legislação brasileira coloca barreiras únicas no mundo para quem quer investir ou empreender. Há práticas fiscais e logísticas, além de leis protecionistas exageradas, que não são vistas em outras nações. Nesses quesitos negativos, o Brasil é incomparável.”

Sim, é de chorar. E a visão cruel sobre o ambiente de empreendedorismo brasileiro é uniforme entre os que aqui batalham para inovar.

Em almoço com Alex Tabor, CEO do Peixe Urbano, ele recordou como foi uma tormenta abrir seu negócio inovador de vendas on-line de cupons de ofertas. “No Brasil, às vezes demora meses só para conseguir o CNPJ (o registro inicial da empresa; ou seja, só para dar o start)”. Agora, quando ele foi abrir uma holding nos Estados Unidos, tudo se mostrou fácil. “Lá são exigidos só os documentos que fazem sentido serem apresentados e o processo leva dias”, completou.

Não é coincidência eu ter ouvido algo similar de Nelson Mattos, brasileiro que foi vice-presidente do Google e que hoje atua como consultor no Vale do Silício, sendo membro da renomada BayBrazil, organização que promove conversas entre inovadores brasileiros e californianos. Para ele, “não faltam mentes criativas em nosso país”. O problema é que “essas cabeças não conseguem trabalhar no Brasil devido a tantos impedimentos governamentais. Muitas vezes, as pessoas precisam se mudar para criar uma empresa inovadora”.

capa_OCliqueDeUmBilhaoDeDolares_WEBEm outras palavras, os labirintos surrealistas à la Franz Kafka à frente de qualquer empresário iniciante acabam expulsando os brasileiros de sua própria nação. Para onde eles levam suas ideias criativas — e, muitas vezes, fonte de milhões de dólares (que poderiam ser reais)? Vão para os Estados Unidos, para Israel, para a Inglaterra, para o Canadá etc. — ambientes que recebem os inovadores de portas abertas.

É para onde foi, por exemplo, Marcelo do Rio, outro brasileiro inovador, que criou em terras tupiniquins a cervejaria Devassa, vendida depois para a Schincariol. Após se admirar com o mundo tecnológico, ele se mudou para o Vale do Silício. Lá, com dois brasileiros, fundou a Graava, que fabrica uma interessante câmera filmadora capaz de editar automaticamente os vídeos feitos. Se for um fracasso, ou um sucesso maior que o da GoPro, pouco importa para o contexto desta coluna. O fato é que o Brasil perdeu Marcelo do Rio e a bela ideia da Graava. Disse ele em conversa que tivemos: “Não tenho a menor dúvida da competência do empreendedor brasileiro, extremamente criativo, habilidade que usa até para compensar a ineficiência do Estado. Não faltam mentes no Brasil. Falta estrutura.”

Não à toa há mãos brasileiras em diversas empreitadas reconhecidas em todo o mundo como de extrema criatividade. Caso do Facebook e do Instagram, sobre o qual escrevi este livro . Pena que esses cérebros não sobreviveriam — ao menos não da mesma forma saudável — em sua terra natal.

link-externoLeia um trecho de O clique de 1 bilhão de dólares

testeCom quanto suor e lágrimas se faz uma criação de Steve Jobs

Por Tatiana Dias*

Steve Jobs e Steve Wozniak

Eu cobria tecnologia em um dos maiores jornais do país e estava relativamente tranquila com a rotina de lançamentos e inovações. A agenda era quase sempre previsível. “A única emergência”, nós pensávamos, “vai ser se Jobs morrer”. Esse dia chegou. Repórteres voltaram correndo e, naquela semana, o jornal rodou um caderno especial com a íntegra do famoso discurso em Stanford, aquele em que ele disse aos formandos para “continuarem famintos, continuarem tolos”. Que discurso. Que gênio. Gênio? Não demoraram para surgir análises relativizando a genialidade de Jobs e mostrando seu lado egocêntrico, perverso e babaca. Metade gênio, metade babaca.

Mas como foi que um babaca capaz de erros grotescos — como negar a paternidade da própria filha, destratar funcionários e afundar projetos a ponto de ser chutado da própria empresa — conseguiu se tornar um ícone de uma indústria e inspiração para gerações? Mais: como alguém de personalidade tão controversa chegou a receber de um funcionário — ninguém menos do que Tim Cook, atual CEO da Apple — a oferta de um pedaço do fígado para tentar salvar sua vida enquanto esperava na fila do transplante?

Como Steve Jobs virou Steve Jobs CAPA E LOMBADA.inddA oferta de Cook, narrada pela primeira vez na biografia  Como Steve Jobs virou Steve Jobs, dos jornalistas Rick Tetzeli e Brent Schlender, ajuda a colocar em perspectiva a complexidade do fundador da Apple. Jobs é mesmo tudo aquilo que sua biografia autorizada e posterior adaptação cinematográfica contaram. Mas é muito mais. O veterano Schneler conheceu Jobs em 1986 e, desde então, criou com ele aquela relação jornalista-fonte que quase chega à amizade (mas que, quando chega perto, é colocada em seu devido lugar pelo dominante na história que é, óbvio, Jobs). Tetzeli é editor da Fast Company. Todo o trabalho de pesquisa e escrita do livro foi realizado anos após a morte do personagem principal — por isso é de se esperar mais liberdade editorial neste livro do que na biografia oficial escrita por Walter Isaacson. A experiência de Tetzeli e Schlender também oferece ao leitor um rico panorama para além do protagonista: o da indústria de inovação e tecnologia que ele ajudou a criar e a formatar.

É fascinante percorrer a trajetória de Jobs e ver que seu próprio amadurecimento coincide com o amadurecimento da indústria. Os hackers pioneiros do Homebrew Computer Club (onde Jobs conheceu seu parceiro Steve Wozniak) tinham interesse e inteligência, mas não tinham a menor ideia de como transformar o hobby de programar e mexer em computadores (até então estranhas máquinas) em um negócio. Jobs também era um jovem brilhante — foi ele quem pensou em vender os computadores junto com Woz —, mas não tinha a menor ideia sobre como gerir uma empresa. E cometeu erros gravíssimos, no aspecto pessoal e no profissional, que o lapidaram e o fizeram amadurecer passadas mais de três longas décadas.

Jobs foi um babaca do tipo que nega a paternidade da filha. Do tipo que destratava funcionários, gritava em reuniões e, se julgasse que alguém não era intelectualmente do seu nível, batia os pés, mostrava impaciência e fazia questão de ostentar sua superioridade. Quando a Apple deixou a garagem e virou uma empresa de verdade, sua imaturidade e arrogância o fizeram colecionar fracassos nos projetos que liderou, além, é claro, de lhe terem criado desafetos. Ele sabia pressionar os subordinados até conseguir que um projeto saísse do jeito que queria — mesmo que isso resultasse em um fracasso comercial, como aconteceu com o Apple III. Todo esse processo de criação e desenvolvimento é narrado em detalhes no livro — o leitor consegue contar com quanto suor e lágrimas se fazia uma criação de Steve Jobs.  E Tetzeli e Schlender não poupam críticas à primeira fase de Jobs como gestor.

Jobs falhou, mas persistiu. Ele poderia ter se aposentado milionário ao deixar a Apple em 1984 (e ele nem tinha 30 anos), mas sua personalidade o impeliu a fundar uma nova empresa: a NeXT, voltada para a criação de supercomputadores para fins educacionais. A lábia de Jobs lhe propiciou investimentos e boa recepção do mercado — embora ele nunca tenha entregado as máquinas de US$ 3 mil que havia prometido; elas saíram por US$ 10 mil. A graça é que, depois da incrível apresentação de Jobs, todo mundo acreditou que aquilo era genial. O próprio Schlender confessa que, no lançamento, publicou no Wall Street Journal que a máquina era “deslumbrante” e “relativamente barata”. No livro, em perspectiva, ele reconhece: o produto estava longe de estar pronto. Mas vendeu.

Na NeXT, porém, o lado gestor de Jobs degringolou. Não havia um CEO ou um conselho para segurar seus ataques de fúria; ele estava solto. Sua capacidade de ouvir e gerir só amadureceu com outra empreitada, comprada por US$ 5 milhões de George Lucas: a Pixar. Mas até a transação foi conturbada: ao negociar o valor, Jobs não poupou um “vai se foder” a um membro da equipe de Lucas. Ouviu de volta: “você não pode falar assim com um de nossos vice-presidentes”. E respondeu: “vai se foder você também”. Mesmo assim a transação foi bem-sucedida e a maneira como ele viu a equipe competente e coesa da Pixar trabalhar lhe ensinou muito sobre gestão (e a sua habilidade levou a Pixar a ser o enorme estúdio de animação que é hoje). Lá ele aprendeu a resistir à pressão, a confiar nos outros e a ceder responsabilidades — competências necessárias para o seu triunfal retorno à Apple.

A NeXT foi comprada pela Apple (combinando a produção de hardware e software), e, voltando para lá, Jobs selou a paz com a Microsoft (deu fim a um processo que a Apple movia por violação de propriedade intelectual, claro, mediante um bom pagamento de Bill Gates e o lançamento do Office para o Mac). Mas a volta foi mesmo marcada pelo enxugamento dos produtos, uma genial campanha de marketing (“Think Different”) e um lançamento que mudou tudo: o iMac, o computador pessoal com design inovador que se tornou sonho de consumo de uma geração.

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Brent Schlender, Bill Gates e Steve Jobs na histórica entrevista realizada em 1991 para a Fortune, na casa de Jobs © George Lange

Jobs não pensava em tecnologia: ele queria criar “o produto”. E foi assim também com o iPod, o iPhone, o iPad. Grandes produtos que combinaram uma série de tecnologias pré-existentes em uma bela embalagem, com design inovador e um sensacional apelo de marketing — sempre capitaneado pelo próprio Jobs. Essa, aliás, foi a função que ele não soube delegar: Jobs fazia questão de ser o único a apresentar os produtos, além de falar apenas com veículos de imprensa selecionados.

Essa preocupação com a imagem foi fundamental também quando ele topou o convite para ser o orador na turma de formandos de 2005 em Stanford. Ele não frequentava conferências (preferia jantar em casa, como Tim Cook conta). Topou o convite, mas falaria apenas em uma formatura: e seria em Stanford. E seria inesquecível. Ele contou até com a ajuda de um roteirista para escrever o famoso discurso. Jobs ficou nervoso. Mas a emocionante apresentação, combinada a sua habilidade como showman, levou uma geração inteira a se curvar a seus pés. Jobs falou sobre sua história, seus fracassos e seus recomeços. Ele falou que é preciso confiar: “de alguma forma, os pontos vão se ligar no futuro”. Em Como Steve Jobs virou Steve Jobs, Rick Tetzeli e Brent Schlender têm razão quando dizem que o jovem Jobs, ansioso e arrogante, jamais teria pensado nisso. As criações de Jobs são reflexo de muitas experiências, muitos fracassos, muitas tecnologias alheais e, sobretudo, muito trabalho de outras pessoas geniais.

E é por isso que o livro é tão rico e importante, principalmente para complementar a visão clássica do “metade gênio, metade babaca”, que todos nós ouvimos falar, e entender os contextos das criações de Jobs. A revista do MIT publicou um artigo recente sobre como o culto à grandes personalidades de tecnologia é potencialmente danoso para a indústria — além de injusto com as outras pessoas que trabalharam duro para inovar, o que pode ajudar a minar a estrutura necessária para a inovação futura. Afinal, toda inovação é uma combinação de uma ideia, um contexto, financiamento e um time capacitado para colocá-la em prática. O iPhone é uma combinação de diversas tecnologias pré-existentes. Jobs as empacotou e transformou em um produto útil e bonito. A inovação não está presa apenas aos grandes gênios — eles são apenas uma peça na engrenagem.

Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs é uma obra que vai além do personagem principal — é muito rica para entender como o mercado de tecnologia se tornou o que é hoje. E também para tirar o gênio de seu pedestal — ao ler um jornalista veterano escrevendo sobre as jogadas de mestre e fracassos de Jobs narrados de forma sincera, e em uma perspectiva histórica, o leitor aprende muito sobre o contexto e sobre todos os pontos que o levaram a ser como era. E também sobre por que ele foi a maior personalidade da indústria da tecnologia — aquela que fez todos os jornais pararem no dia de sua morte, e cuja trajetória ainda é relevante para quem quer entender como chegamos até aqui.

Leia um trecho de Como Steve Jobs se tornou Steve Jobs
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Tatiana Dias, jornalista, cobre tecnologia e cultura digital desde 2007. Passou pelas redações da revista IstoÉ, do Estado de S. Paulo e da revista Galileu e editou os blogs no Brasil Post.

testeComo o Facebook virou um mundo de radicais

Uma carta aos amigos que discutem pelas redes sociais

Qualquer um que seja adepto do Facebook ou de outra rede social já deve ter notado como o radicalismo tem imperado nesses ambientes. Virou moda reclamar dos extremistas, mesmo quando, para se queixar, se apela ao outro extremo. Algo como: “Esses fundamentalistas de esquerda/direita são uns bárbaros, por isso merecem ser açoitados pelo meu grupo de direita/esquerda, que tem a visão correta de tudo que existe.”

A ponderação, o velho “discordo de você, mas vamos conversar e continuar a divergir, se for o caso”, não é regra. Vamos combinar: já não era muito no mundo off-line. Mas a situação ganhou novas dimensões e posicionou as pessoas em pontos opinativos ainda mais extremos com a ascensão dos megafones das redes sociais. Será culpa exclusiva delas? Só em parte. Antes de tudo, há razões bem humanas – nada virtuais – por trás disso. Vamos a duas teorias que se complementam:

1ª teoria

Há uma proliferação de indivíduos que julgam ter a resposta final para tudo quanto é assunto, sem nem se informar sobre ele. É como previa, no século passado, o escritor George Bernard Shaw (1856-1950): “Cuidado com o falso conhecimento; é mais perigoso que a ignorância.”

Um teste jocoso realizado pela NPR — a poderosa e tradicional rede de rádio pública dos Estados Unidos — faria Shaw chorar.  Em seu perfil no Facebook, hoje seguido por quase 5 milhões de pessoas, a associação provocou: Por que a América não lê mais?. E complementou: “O que isso fez com nossos cérebros?”. Nos comentários do post, surgiram pessoas indignadas, clamando: “Esse artigo é um lixo. Muito mal escrito. Péssimas fontes. Não confiável”, “Eu leio todos os dias, assim como meus amigos e familiares. Não somos a América?”. Ou, mais direto ao ponto: “É claro que lemos, NPR. Cale a boca.”

Foto coluna vilicic NPR

A provocação da piada: a publicação no Facebook dizia “Por que a América não lê mais?”; ao entrar no post (o que poucos fizeram), revelava-se um teste para verificar quem iria ler o artigo antes de comentá-lo (novamente, poucos)

Será que todo esse povo se informou antes de rebater? Certamente não clicaram no link do artigo compartilhado via Facebook, pois ele levava a um:

Parabéns, leitores genuínos, e feliz 1º de abril!

Às vezes sentimos que muita gente tem comentado nossas histórias sem lê-las. Se você está lendo isso, por favor curta nosso post, mas não comente. Vamos ver o que as pessoas têm a falar sobre esta “história”.

A brincadeira da NPR revela algo perigosíssimo. Sabe aquele amigo do Facebook que diz que Cuba é o melhor dos mundos? Desconfie. Talvez ele não tenha ido a Cuba, nem lido algo sobre o país, nem folheado O capital. E aquele outro que garante que os Estados Unidos são o império-modelo ou que as ciclovias funcionam que é uma beleza na Europa, mas não aqui? Torça a boca. Talvez ele não conheça americanos nem tenha dado uma volta de bicicleta por algum país europeu ou mesmo pela Avenida Paulista. Não que não se possa achar Cuba linda ou os Estados Unidos o máximo. Aqui não estamos julgando a opinião dos amiguinhos on-line. A pergunta é: “O que será do mundo quando pessoas só replicarem histórias, opinarem sem informação, como foi com o post da NPR?”

A primeira resposta, e mais fácil, é que esse será um mundo de radicais. Quando não admitem a própria posição desinformada — eu, por exemplo, nada conheço de cozinha (apesar de querer saber mais), por isso não opino —, ignorantes, no sentido mais literal da palavra, tendem a ser fundamentalistas, extremistas, messiânicos ou, numa clara exacerbação, fascistas.

A falta de conhecimento não gera apenas conversas chatas, repugnantes e momentos de total “vergonha alheia”. Ela cria ódio, dá luz a donos de verdades que eles nem sabem se são verdades. Com o tempo, cria um ambiente como o do Facebook do Brasil em crise: povoado de radicais de ambos os lados e no qual os que estão no centro ou assumem a própria ignorância (ouse falar algo como “Não tenho opinião formada sobre a redução do limite de velocidade nas marginais de São Paulo” e verá a reação) são tidos como idiotas. Isso no cenário mais positivo. Muitas vezes, são vistos não só como idiotas, mas como covardes, desinformados (veja só!), escória humana. Quem debate, quem se abre a ideias, agora é o asco.

2ª teoria

Aqui, propositalmente não entrarei em “tecnicices”. Vou falar do tal algoritmo do Facebook, aquele que põe ordem na sua timeline, de maneira clara, para qualquer um entender.

O que ele faz: quando você entra no Facebook, só vê uma pequena parcela do que amigos publicam. Isso porque o algoritmo peneira tudo para você. Com base em seu comportamento on-line — quais posts curtiu; de que páginas de empresas, revistas e sites gosta; com quais contatos interage mais —, escolhe o que acredita que você mais gostará de ver. Isso é útil. Melhor: é essencial para a sobrevivência de uma rede social. Não queremos, afinal, nos ver no meio de uma festa barulhenta, com tudo quanto é gente gritando nos nossos ouvidos. Preferimos papear com os amigos.

Só que há um efeito extremamente negativo. Passamos a ver no Facebook apenas opiniões similares às nossas (que curtimos) e criamos nichos de debates que parecem privados, mas que, na realidade, são públicos. Dentro desses nichos, expressamo-nos e passamos a encontrar respaldo de colegas com posições radicais, com as quais achamos que concordamos — muitas vezes nem nos informando sobre elas. Nascem os grupos extremistas, de vários lados, em oposição.

Em outro efeito do algoritmo, começam a se destacar no Facebook, na parte superior da página, os posts mais acalorados, que são curtidos, comentados (por quem é a favor ou não), compartilhados freneticamente. Isso fortifica os extremistas, felizes de serem correspondidos on-line.

Pronto, está aí o cenário de extremos desinformados.

Por que se preocupar com isso?

Sim, talvez ainda sejamos usuários verdes de redes sociais. Pode ser que daqui a algumas décadas nossos filhos e netos olhem para trás e se espantem: “Nossa, como aquela galera era louca no Facebook.” Quem sabe se voltem novamente aos debates racionais, deixando a maluquice de lado? As empresas por trás desses sites, como o Facebook, também podem evoluir. O algoritmo pode ser treinado para exibir notícias mais verdadeiras, no lugar das falsas, típicas do universo on-line; priorizar debates amenos, não os enervados; dar voz a opiniões contrárias em uma mesma timeline. Mas ainda vivemos no “talvez”.

O fato é que o mundo on-line tem ficado extremista, o que repercute na vida real. Vide a disputa entre motoristas do Uber e taxistas, da qual literalmente tem jorrado sangue e na qual qualquer um que tente raciocinar uma saída é tratado com desdém (na melhor das hipóteses) ou com ameaças verbais e físicas — principalmente, é preciso ser justo, por um dos lados da peleja. Do mesmo modo, a batalha entre os “coxinhas” e os “esquerdistas”. Há alguma racionalidade em grande parte do que se tem falado no Facebook sobre isso? Será que realmente estamos informados a ponto de tecer opiniões definitivas sobre tudo, em cima de muros digitais e protegidos pela ilusória cortina virtual?

Tenho medo de para onde caminhamos. Existe na história humana uma associação bem simplória — mas muito repugnante — entre o surgimento de grupos extremistas ignorantes, fechados em seus mundinhos, com o de ditaduras, guerras, tiranias. Também receio que surjam líderes com forte carisma, capazes de se aproveitar dos indivíduos radicais desinformados como escada para ascenderem com ideias egocêntricas. Tenho pena da “inovação” dentro desse contexto. Inovar é, por essência, criar algo novo. Como traremos novidades à mente quando nosso cérebro se vê refém de ideias únicas, constituídas previamente e fundamentalistas?

George Orwell (1903-1950), do clássico 1984 — no qual apresentou ao mundo a ideia do Big Brother —, avesso aos totalitarismos, defendia: “Se liberdade significa alguma coisa, é o direito de falar às pessoas o que elas não querem ouvir.” Na mosca! Mas tomo a liberdade de acrescentar: e de ouvir, sem repúdios violentos e tresloucados, o que o outro tem a dizer.

Será que as posições extremas nos levarão a futuros extremos, como o pintado em 1984 pelo escritor George Orwell?

 

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