testeMomento nostalgia: livros e filmes que marcaram a infância da nossa equipe

 

Que belo momento, a infância! É difícil encontrar alguém que não tenha ótimas lembranças relacionadas a essa fase da vida. Com mais um 12 de outubro se aproximando, fomos tomados pela nostalgia e convidamos as pessoas da nossa equipe para compartilhar o livro ou o filme que marcou a vida delas quando eram pequenas (com fotos fofíssimas de brinde)! Confira:

 

(Marina – Marketing)

Um dos livros que mais marcaram a minha infância se chama O peixe arco-íris. O personagem principal é um peixinho que tem umas escamas holográficas lindas e eu sei que amava passar a mão nas ilustrações. O problema é que os outros peixinhos não enxergavam essa diferença como algo legal e achavam que ele era estranho demais. No final, spoiler alert, tudo termina bem e ele descobre que aquilo que o torna diferente é, na verdade, muito especial. Fico feliz que esse livro tenha sobrevivido à minha fase pré-adolescente conhecida como “Eu sou uma adulta e não preciso mais disso” na qual joguei muita coisa fora. No final das contas, a gente sempre precisa lembrar dessa lição.

 

(Luana – Editorial)

A minha mãe sempre leu muito, então lá em casa tinha muito livro – os dela e os nossos. Mas a fase de leitura que mais me marcou foi a das enciclopédias para crianças que ela comprava de um vendedor que batia de porta em porta. Eu adorava as que falavam sobre o reino animal e territórios específicos, como a Antártida. O negócio me envolveu tanto que, apesar de ter ido trabalhar com texto e livros, eu ainda curto muito biologia (quase gabaritei no vestibular) e gosto muito de fazer livros de não ficção. Em um Carnaval, a minha mãe fez fantasias de vampiro pra ela, pra mim e pro meu irmão, mas eu teimei que queria sair vestida de um animal. Fui de onça e minha prima ficou com a de vampira.

 

(Talitha – Aquisições)

Quando tinha 9 anos, entrei em uma escola nova e queria muito fazer amizade com uma menina da turma que parecia muito legal. Um dia, ouvi a conversa dela com um menino sobre um livro. Anotei e corri para pedir para a minha avó de Dia das Crianças. Li correndo, focada em prestar atenção para, no dia seguinte, puxar conversa com minha nova amiguinha (na minha cabeça, já éramos melhores amigas que leriam livros incríveis e discutiríamos durante o recreio). O livro era Harry Potter e a Pedra Filosofal. Li em dois dias, e li mais um milhão de vezes depois. A amizade não vingou, mas ficou a gratidão por ela ter me apresentado a esse livro que mudou a minha vida. Harry Potter pautou muitos caminhos pelos quais minha vida seguiu, inclusive o profissional. Se não fosse por ele, não estaria aqui hoje.

 

(Viviana – Comercial/Marketing)

Em 1996, uma editora publicou Eloise, de Kay Thompson, a história de uma garotinha de 6 anos cheia de energia e que nunca deixava o tédio invadir sua vida. Anos depois, vieram os filmes Eloise no plaza e O Natal de Eloise, que marcaram minha Sessão da Tarde para sempre. Já adolescente, assistia ao filme e dizia: se eu tiver uma filha vai se chamar Eloise. Muitos anos depois, a minha Eloise nasceu.

 

(Joyce – Marketing)

Quando era criança, eu amava Pokémon. Lembro de assistir ao desenho todos os dias com o meu irmão enquanto almoçava e me preparava para ir à escola. Eu jogava Pokémon sempre que podia, colecionava as miniaturas que vinham dentro da pokebola da Caçulinha do Guaraná Antarctica e me sentia a própria Misty, torcendo para que um dia eu pudesse me tornar uma verdadeira mestre Pokémon – sonho que consegui realizar aos 20 anos, percorrendo a cidade jogando Pokémon GO.

 

(Sheila – Editorial)

Meu livro preferido quando eu era pequena era um bem fininho e simpático sobre uma formiga que se chamava Gertrudes. Não tenho esse livro há muito tempo e não lembro o título nem o autor. Era todo ilustrado, mostrando o interior do formigueiro, cheio de formiguinhas em fila, trabalhando. A história era sobre a tal Gertrudes, que não gostava do nome dela. Em algum momento, é claro, ela percebia que não deveria se preocupar com isso e começava até a achar legal o nome, porque era diferente. Não lembro se eu achava feio ou não o nome, mas eu tinha uma professora chamada Gerusa na época e ela era muito legal, e Gertrudes parece um pouco Gerusa, então acho que eu devia gostar de Gertrudes também.

 

(Naotto – Marketing)

Lembro até hoje quando pedi para minha mãe comprar um gibi do Chico Bento enquanto esperávamos a barca para Niterói. Eu devia ter 7 anos na época. Nunca entendi por que gostava do personagem já que eu detestava todas as viagens que fazia com meus pais para uma área rural, mas sabia, de alguma forma, que o Chico era muito rico. A vida daquela criança, uma criança que poderia ser eu, com um cenário completamente diferente e questões completamente diferentes das que eu vivia, me fascinava. Talvez tenha sido o Chico Bento que me ensinou a ler.

 

(Rebeca – Editorial)

Um dos meus livros favoritos quando eu era criança era O menino que espiava para dentro, de Ana Maria Machado. Esse livro me ensinou a nunca deixar de sonhar que outro mundo é possível. Desde então, o que mais gosto de fazer é transformar sonhos em ideias e ideias em realidade.

 

(Ana – Marketing)

Com pernas enormes para abraçar o mundo, com macaquinhos no sótão, o Menino Maluquinho sabia de tudo, só não sabia ficar quieto. Não me lembro quantas milhares de vezes pedi para minha mãe, para meu pai ou para qualquer adulto que passasse por mim para ler a história do garoto que se vestia de fantasma, de cientista, que alargava o tempo, que era capaz de criar o sol, o riso e a alegria só com lápis de colorir. Essa história me marcou tanto que foi com ela que aprendi a ler. Li, reli, pintei e rabisquei por anos aquele livrinho. Guardado na estante, naquele lugar de honra, essa história me emociona até hoje. No fim, mesmo sabendo manejar o tempo como ninguém, mesmo pegando todas as bolas, o menino que não queria deixar de ser menino cresceu — e se tornou um cara muito legal. Pois como disse o genial Ziraldo, ele não tinha sido só um menino maluquinho, ele tinha sido uma criança feliz.

 

(Taila – Marketing)

Eu devia ter uns 6 anos quando li É proibido miar, do Pedro Bandeira. É sobre um filhotinho de uma família tradicional de cachorros chamado Bingo. Ele faz amizade com um gato e começa a miar. Mas, assim que sua família ouve o miado, se enfurece e chama a carrocinha para levar o filhotinho dali. Afinal, o que os cachorros da vizinhança iriam pensar se soubessem que o filho do senhor Bingão não era um cachorro decente? Nessa época, o maior preconceito que eu vivia era quando os meninos me proibiam de jogar bola porque eu era menina. Mas, mesmo criança, eu sabia que aquilo não estava certo. Eu carrego É proibido miar comigo até hoje e brinco que esse livro foi o começo de tudo, afinal, uma década depois de lê-lo, eu me vi na pele (pelo?) do Bingo: miando em um mundo que exigia que eu latisse.

 

(Vanessa – Comunicação)

Apesar de muitas vezes retratada como uma pequena Dora Aventureira (descamisada, descalça e na rua), passei incontáveis dias e noites dentro das cabaninhas de lençol, com uma lanterna, lendo. Minha família sempre incentivou a leitura e lembro de sempre ter comprado livros desde que comecei a ganhar qualquer dinheiro de mesada ou presente. Consigo facilmente pensar meu crescimento lembrando dos títulos que eu li. Na vida eu era a menina que levava até 8 títulos pro clube do livro semanal.

 

(Clara – Influenciadores)

O meu filme favorito na época era Tigrão – O filme, em que o Tigrão buscava a família porque ele se sentia sozinho. Meus pais fizeram a minha festa de 3 anos com o tema do filme, então eu estava completamente alucinada com o Pooh, o Tigrão e o Leitão gigantes na festa. No final da fita cassete com o registro da festa, tem um clipezinho da música tema do filme, chamada “Basta ouvir seu coração”, em que eles mesclaram fotos minhas e cenas do filme. Juro que choro até hoje quando vejo o DVD (convertemos a fita cassete). 

 

(Suelen – Editorial)

Minha relação com o universo dos livros começou com as revistinhas da Turma da Mônica. Ainda muito pequena, comecei a ter contato com as HQs por conta do meu irmão, quatro anos mais velho. Virei fã de toda a turminha e queria muito a boneca da Mônica. Quando ganhei uma, no aniversário de 2 anos, ela virou minha melhor amiga e ia comigo para todo canto. Acredito que ter contato com a leitura desde cedo nos ajuda a gostar mais dos livros e nos motiva a mergulhar em muitas histórias diferentes. Até hoje às vezes dou uma olhadinha no que está acontecendo com a Turma da Mônica. Afinal, não se abandona um melhor amigo, né?

 

(Heloiza – Marketing)

Um dos filmes que mais marcou minha infância foi o VHS de A Bela Adormecida. Eu e meus irmãos assistíamos todos os dias ao filme de 1h15 minutos e me lembro de cada parte como se fosse hoje: o início com a Malévola de quem eu morria de medo, a disputa da cor do vestido pelas fadas Fauna, Flora e Primavera e aquela roca bizarra na qual ela espetava o dedo. Gostava tanto da história que meu aniversário de 7 anos foi da Bela Adormecida com direito ao vestido confeccionado pela minha avó e bolo metade azul e metade rosa. Eu, meus irmãos e meus amigos tínhamos tanta segurança acerca do enredo (assistíamos todos os dias, repito) que resolvemos presentear os convidados da festa com uma interpretação exclusiva da história. Na foto sou eu, #PrincesaReflexiva, na coxia/varanda, esperando para entrar em cena.

 

(Márcia – Produção Gráfica)

Meu filme favorito era Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice).

 

(Marcela – Editorial)

Sempre fui macaca de imitação do meu irmão, como mostra a foto! Meu sonho era ser rock’n’roll que nem ele, mas meu gosto musical estava mais inclinado para Sandy & Junior e pop dos anos 90. Até que um belo dia ele trouxe da locadora uma fita aterrorizante que apelidei de “filme das caveirinhas”, mas que também é conhecido como O Estranho Mundo de Jack. Virou o meu filme preferido, e depois disso o sossego do meu irmão acabou porque passei a pedir o tempo todo: “Fabio, aluga o filme das caveirinhas!” Depois de muitos anos, ele me deu de presente o dvd e nunca mais precisou alugar para mim! 

 

(Pedro – Editorial)

O primeiro filme que eu me lembro de ter visto no cinema foi A Bela e a Fera, em 1992. Eu tinha 5 anos e fiquei impressionado. Saí do filme amando o castiçal e odiando o relógio, e confesso que fiquei um pouco decepcionado quando todos voltaram à forma humana (olha o spoiler!). Cheguei em casa e tentei ser amigo de um candelabro da minha mãe, mas ele vivia me deixando no vácuo. Apesar do meu ressentimento com os objetos inanimados lá de casa, o filme ficou na minha cabeça e eu sei quase todas as músicas até hoje.

 

(Martinho – Clube Intrínsecos)

Com 23 anos na cara, A Princesa e o Robô ainda é meu filme preferido de todos os tempos.

 

(Maria de Fátima – E-books)

Meu filme preferido da infância é ET. Vi na época, no cinema. Uma das poucas idas ao cinema que minha mãe me proporcionou. Eu adorava o ET, achava fofo e me identificava muito com ele. O desamparo de estar perdido longe dos seus. O sufocamento causado por quem não compreende aquilo que não conhece e tenta destruir e conter. Amor que se encontra onde não esperamos, mas pelo qual vale a pena enfrentar os mais difíceis territórios para deixar viver e ser livre.

Inspirados por essas histórias da infância que nos acompanham por toda a vida, lançamos a Coleção Pipoquinha, que reapresenta os clássicos dos anos 80 e 90 em lindos livros ilustrados, as edições perfeitas para apresentar E.T. – O extraterreste, De volta para o futuro e Esqueceram de mim para a geração que não precisa mais rebobinar.

E aí, consegue adivinhar quem é quem nas fotos? 😉 

testeColeção Pipoquinha traz de volta os clássicos dos anos 80 e 90 em livros ilustrados

Para as crianças dos anos 1980 e 1990, essa era uma cena comum: colocar a fita no videocassete, fazer um balde de pipoca, se esparramar no sofá e passar duas horas mergulhado numa história incrível antes de rebobinar a fita e fazer tudo isso de novo. Melhor ainda era quando a Sessão da Tarde exibia seu filme favorito e você nem precisava se preocupar em devolver o VHS para a locadora.

Abraçando essa nostalgia e com a certeza de que muitas das nossas lembranças mais queridas vêm desses tempos em que celulares não eram comuns e a Netflix nem pensava em existir, a Intrínseca apresenta a Coleção Pipoquinha, que viaja no tempo e leva os filmes De Volta para o Futuro, E.T – O Extraterrestre, Esqueceram de Mim das estantes das locadoras direto para uma nova estante: a da sua casa, numa edição especial em livro ilustrado.

Com as incríveis ilustrações de Kim Smith, as histórias ganharam uma nova cara, mas sem perder sua melhor característica: a capacidade de emocionar e divertir crianças e adultos.

Conheça a Coleção Pipoquinha e se encante mais uma vez (ou pela primeira vez) pelos inesquecíveis clássicos dos anos 80 e 90, agora no formato perfeito para a geração que não precisa mais rebobinar.

testeMe Conte Seus Segredos

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Nos fins de tarde, me largava no balanço da árvore para não ouvir nada além do vento, não pensar em nada além do tempo que se arrastava preguiçoso, e meus olhos se demoravam no galho que me sustentava. Quantas vezes me perguntei se me sustentaria de fato ou se não acabaria me largando no meio de uma balançada e sairia voando

para nunca mais voltar.

Pobre galho, aguentando bravamente o peso dos meus nadas balançando para lá e para cá! Não me admiraria rompesse de supetão.
Mas ele nunca rompeu.
Havia um rangido, verdade, mas o som me trazia serenidade. Não poderia ser protesto. Me soava uma compreensão:
“Eu…
Entendo.”
“É…
Verdade.”
“Me conte…
seus…
segredos.”

Eu ouvia os rangidos no galho e, quanto mais alto chegava com o balanço, mais meus pés alcançavam as nuvens. Quanto mais perto das nuvens, mais longe do mundo, e eu já podia contar meus segredos, enfim. E te pedir que me contasse também os seus. Não seria justo assim?
Conte seus segredos. Não confia em mim? Me conte o que guarda mudo, quem é dono do teu sim?
Diga. Fale mais sobre você. Seu silêncio é displicente ou ele tem um porquê?
Me conte seus segredos. Aqueles mal guardados. Sei que há os intocáveis, esses vou respeitar. Algumas gavetas são só suas.
Outras não posso
te ajudar a arrumar?
Trocar segredos é fazer-se cúmplice, comparsa, parceiro. Contei uns meus ao galho bravo e ele me deu também uns seus, como se tivesse me contado primeiro.

Saía do balanço em um salto
nada mortal,
me despedindo do meu ouvinte.
Lamentava que não saísse voando
ao largar as cordas

para voltar
no dia seguinte.

testeO menino e o catador de latinhas

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(Fonte: Vik Muniz)

Assisti outro dia a um vídeo que me tocou pela singeleza e me fez refletir por um bom tempo. Um menininho de quatro ou cinco anos, bem vestido e, provavelmente, de classe média, oferecia ajuda a um velho catador de lixo que amassava, com os pés, uma série de latinhas de cerveja e as jogava num saco. A mãe do garoto, inicialmente, pareceu incomodar-se com aquilo. Mas, de uma forma que aparentou ser educativa, desistiu de interferir.

Duas pessoas completamente diferentes, realidades distantes, dividindo o mesmo espaço. Classe social, cor da pele, idade — tudo distinto. Onde o velho enxergava trabalho, a criança sentia brincadeira. E, por alguns instantes, os dois devem ter se divertido naquele trabalho-brincadeira a quatro pés e quatro mãos.

Após assistir ao vídeo, lembrei-me de duas histórias pessoais. A primeira aconteceu há algum tempo. Minha banda havia feito tantos shows durante o ano que decidimos, no Natal, doar parte dos cachês a um orfanato. Fomos entregar as doações e levamos nossos filhos, para que conhecessem a dura realidade daquelas crianças. Na hora de irmos embora, minha filha mais velha, com cinco anos à época, começou a chorar e a me dizer que não iria, porque ali havia um monte de crianças e tudo o que ela queria era morar num lugar assim. A segunda aconteceu semana passada. Minha outra filha, a menor, fica o dia inteiro fazendo estrelinhas e piruetas. Praticamente vê o mundo de ponta-cabeça. Passava das 23h, o cansaço me nocauteando, e ela lá, pulando de um lado para outro. Dei uma bronca, mandando que parasse. O resultado foi uma sessão de choro por parte da pequena, até que pegasse no sono.

Tudo isso me fez pensar sobre a perda de inocência e pureza, conforme vamos crescendo e tomando consciência das coisas do mundo. Entramos na vida sem qualquer preconceito, não enxergamos outras pessoas como diferentes. Não são altas, gordas, magras, brancas, negras, ricas ou pobres. São pessoas, apenas isso. Não julgamos pela aparência, tampouco pela condição social. Os melhores são aqueles que não gritam, não batem, sentam no chão para brincar, fazem cócegas e caretas, pegam uma vareta e desenham na terra, jogam para cima na piscina, dividem um sorvete, leem uma história ou cantam uma canção.

A maturidade chega para matar a pureza. Claro, é necessário crescer e amadurecer; faz parte da ordem natural das coisas. Mas seria bom demais se restasse um bom pedaço daquela inocência. Porque, agarrados à maturidade, costumam vir o preconceito, a desconfiança, a inveja, o egoísmo e a intolerância. Muitas vezes, até falta de compaixão e indiferença com gente como o catador de latinhas.

O mundo onde eu gostaria de viver era um daqueles cheio de piruetas e latinhas para pisar. Quanto mais estrelinhas, mil vezes melhor. Ver as coisas de ponta-cabeça e entendê-las apenas como mais uma forma de enxergar a vida, e não insanidade aos olhos dos outros. Todos os apaixonados pela literatura sabem exatamente onde estão mundos assim. O desafio é tirá-los do papel e trazê-los para a vida real.

testeNo tempo do afiador de facas

A group of children playing leap frog in the street 1950_Photo by Bill Brandt_2

Foto: Bill Brand

Cruzava por uma rua com meu filho mais velho quando ouvimos um barulhinho característico — raro hoje em dia —, que evocou minha infância. Foi assim, meio sem pensar, que eu disse: “Olha o afiador de facas!” Meu filho me olhou com espanto — afinal, quis saber ele, eu estava falando do quê? Hoje em dia quase ninguém espera o afiador de facas. Creio que a maioria das pessoas simplesmente compre uma faca nova quando a sua perde o fio ou que as facas de hoje tenham um “fio eterno”. Seja lá como for, é incomum ouvir a musiquinha do afiador, como ouvia antes, quando eu era menina — aquelas notas entravam pela janela, e lá se ia minha mãe pela porta.

Ante o espanto do meu menino, fiz uma pequena e saudosa digressão sobre minha infância. Naquele tempo, havia o afiador de facas, o moço que vendia casquinhas (outro barulhinho típico, mas, dessa vez, eram as crianças que ficavam eufóricas), o vendedor de puxa-puxas. Havia, de fato, a rua e a interação diária e pacífica com aquela onde a gente morava. Todo mundo brincava na calçada depois da aula e ganhava as próprias moedas para comprar casquinhas e puxa-puxas. Meu filho ouviu a história com um sorriso. Um lampejo de curiosidade perpassou seus olhos bonitos, e voltamos à vida real. Ele quer ganhar um negociozinho eletrônico no seu aniversário. Reatamos, ainda na rua, as tratativas a respeito. Dentro de mim, no entanto, confesso que ficou uma tristeza… Não que meu menino tenha demonstrado inveja da minha infância pendurada no portão, mastigando puxa-puxas. Afinal, quem pode sentir saudade daquilo que não conhece? Mandar nossos filhos (criados nas perigosas metrópoles brasileiras) para a calçada, com uma bola e algumas horas de liberdade, pode soar-lhes tão estranho quanto abrir, no meio da floresta, a gaiola de um bichinho nascido em cativeiro.

Hoje, eles têm internet, iPad, computadores nas salas de aula, videogames, DVDs, celulares. Têm o mundo num toque de dedos. Trancados em casa — com portaria 24 horas, cercas elétricas e o diabo a quatro —, podem ir a qualquer lugar e usam e abusam da virtualidade. Mas nós… Nós tínhamos a rua, a calçada, as praças. Tínhamos o aqui e o agora.

Olhei meu filho uma vez mais; seus olhinhos brilhavam na expectativa do presente. Ele é um garoto inteligente e estudioso. Joga futebol na escola, mas nunca na rua. Enfim, talvez tudo esteja certo — e os puxa-puxas tenham sido mesmo o paraíso da cárie. Afinal, nós, humanos, sempre fomos assim: metade nostalgia do passado, metade ânsia do futuro.

teste[O MENINO QUE QUEBROU O SILÊNCIO*]

Ilustração: Pedro Gabriel

Sempre achei que a minha vida fosse uma releitura da música “Paratodos”, do Chico Buarque. Com algumas variações naturais, é claro. Afinal, cada um de nós carrega a própria voz e a partir dela recita, como bem entender, os fonemas de uma nova história.

Meu pai passou a infância em Coira, uma comuna da Suíça onde a língua oficial é o alemão. Uma língua que dizem ser muito eficaz para adestrar os cães. Que maldade! Com o tempo, aprendi a ouvir com prazer a sua estrutura silábica, que até então parecia uma sequência sem fim de xingamentos. E pasmem: tenho conseguido latir algumas doçuras germânicas.

Minha mãe veio ao mundo abençoada pelos braços abertos do Cristo Redentor. Carioca da gema, como dizem. No Rio de Janeiro, mais do que o português, fala-se o carioquês. Um dialeto em que se puxa o s e se estica o r e que se desdobra em uma variante invejável de expressões que formam pequenos chiados. Uma espécie de rádio mal sintonizada, sempre em busca de uma programação carismática.

Meus pais se conheceram na faculdade, em Lausana, cidade da Suíça que fica na parte francófona do país. Lá, obviamente, se fala francês. Mas não o francês-francês. Quem reina soberano é o francês com sotaque helvético. Um francês um pouco mais lento, talvez preguiçoso. E foi ali, naquele idioma, que eles encontraram a paz para se comunicar, se aproximar, se apaixonar e enfrentar o destino. Ele, em francês com aquela sonoridade quase autoritária (um latido?). Ela, em francês com sotaque tropical, daqueles que só se encontram em dias de verão.

Casados, eles se mudaram para a África. Mais precisamente para o Chade, um país com duas línguas oficiais: o árabe e o francês. Mas não o francês-francês. Ali, se ouvia o francês extremamente musical — característico das antigas colônias. Isso sem mencionar os incontáveis dialetos entre etnias, tribos e aldeias da região. Eu, que ainda não tinha saído da barriga da minha mãe, já estava tentando entender como iria me entender no mundo. Minhas irmãs devem ter sofrido o mesmo dilema.

Na dúvida entre ladrar ou chiar, me encontrei no silêncio. Nasci tímido. Não me vem à memória ter chorado nas mãos da parteira. Não me lembro de ter causado grandes escândalos típicos de um recém-nascido. O que me recordo é que eu passava horas dormindo, tentando entender a linguagem dos meus sonhos. Meu pai diz que fui o primeiro bebê branco a ver a luz naquele hospital durante a guerra civil que tomou conta do país e nos obrigou a fazer as malas novamente. Destino: Cabo Verde. A língua oficial: crioulo. Moramos cinco anos naquelas ilhas. Até a separação dos meus pais. Minha mãe voltou para a sua cidade natal. Meu pai fez o mesmo e foi para a dele. Eu segui os passos maternos, e o mundo passou a ser a minha imensa sala de aula.

Que língua, afinal, eu tinha que adotar para a vida? Eu pertenço a qual idioma? Eu parecia não falar. Vivia enfiado no meu mundo. Passava o dia inteiro abrindo gavetas internas para encontrar alguma frase, algum assunto, algum papo bacana para soltar em alguma conversa, em alguma mesa… Em vão! Algumas palavras simplesmente não querem sair. Parecem morar em nós, amarradas, acorrentadas, trancafiadas.

Cheguei ao Brasil ainda sem saber como alinhar minha traqueia, sem saber como calibrar as cordas vocais, sem saber a envergadura correta da boca, sem saber o formato ideal dos lábios, sem saber como dizer ao meu cérebro que agora preciso apenas pronunciar um simples “obrigado” em bom e velho português. A língua sempre foi um obstáculo na minha casa. Eu tenho certeza de que muitas desavenças nasceram desse sentimento de dialogar em uma língua em que não se tem o pleno domínio das emoções, da gramática, das ironias, do humor, dos sentidos.

Passei muito tempo tentando descobrir qual era a palavra que me cabia. A poesia, muitas vezes fragilizada, foi a força que encontrei para quebrar o meu silêncio. Cada verso que pus no mundo foi para reler a minha infância. Cada rima que coloquei no papel foi para amparar a saudade. Minha poesia é a soma de tudo o que vivi. Neutra e bonita feito a Suíça. Criativa e carismática feito o Brasil. Leve e satírica feito a França. Melancólica e esperançosa feito a África. Minha poesia é minha língua. Minha língua é meu caminho. Já diz a canção: “Vou na estrada há muitos anos, sou um artista brasileiro.”

*Crônica publicada no projeto 25 Cronistas falam de superação, organizado por Luciana Medeiros

teste[Volta ÀS ILHAS] PARTE III

[O CORAÇÃO TAMBÉM NÃO PODE SE DESLOCAR]

19 de maio

Essa é a última parte do meu relato sobre Cabo Verde. Encerro, portanto, essa minha volta à infância como quem tem o desejo de nunca ter saído dela. Descobri que as pessoas são ilhas. Isoladas. Independentes. Mas fortes, quase invencíveis. Mesmo quando moram no continente, elas são ilhas. Um pouco egoístas, mas dependentes dos outros. Um pouco desapegadas, mas não vivem sozinhas. As pessoas são ilhas. Cercadas por uma imensa solidão à espera da saudade, que pode atracar a qualquer momento em algum porto de nossas mais belas lembranças.

Revi minhas irmãs e meus pais e os amigos. Elena, minha sobrinha, gosta de pandas. Quem não gosta? Panda é fofura em estado móvel. Como ela cresceu. Ela até fala, meu deus. Eu fico impressionado. Pessoas nascidas em 2001 já caminham sozinhas! Que mundo é esse! Meu sobrinho Diego sonha em ser mergulhador. Ser tio é ser uma espécie de panda-escafandrista para tentar descobrir o que há debaixo do mar. Esse imenso cobertor solúvel que esconde mais do que revela. E amedronta. Não confio na tranquilidade do mar. Ele dá o bote. Não tem veneno, mas sufoca. Será ele a saudade?

Com a ajuda do meu pai e do Centro Cultural do Brasil, consegui organizar uma apresentação na Biblioteca Nacional de Cabo Verde, no dia 8 de abril. Foi uma noite muito especial profissionalmente – afinal, era a primeira vez que os meus livros atravessavam o Oceano Atlântico e na plateia estavam minhas irmãs, meu pai e muitos amigos da minha família da época que ainda morávamos por lá. São eles que carregam nossas lembranças. A gente se constrói pelo olhar do outro também. É como se cada um fosse um pen-drive com milhões de histórias diferentes armazenadas, prontas para serem reveladas quando o dono do arquivo resolver reaparecer. Pedrinho agora está um pouco maior e mais fofo (será que eu realmente me transformei em um panda como diz minha sobrinha?). #ownnnnnnnnnnnnnnnn

O discurso de abertura foi declamado pelo Ministro da Cultura, senhor Mario Lucio de Souza. Palavras que me tocaram profundamente. Ele reforçou a importância da simplicidade e da ingenuidade na hora de qualquer criação. Aproveitou também para me alertar sobre a dificuldade de se manter simples e ingênuo depois do sucesso. Não basta ter a cabeça no lugar. O coração também não pode se deslocar. Esse momento foi uma oportunidade de reencontrar quem eu tinha perdido de vista há anos – lá se vão duas décadas de ausência. Se não fosse o livro talvez eu nunca mais encontrasse o Carlos, por exemplo. Ou o Djair. Os dois não puderem comparecer fisicamente ao lançamento, mas sempre estiveram presentes nas peladas da rua Flor de Brava, na Achada Santo Antônio – ninguém ganhava da gente naquele bairro. Eles deixaram mensagens emocionantes. Carlos agora vive com a família na Alemanha – virou professor de Kizomba. Djair trabalha em um hotel de Sal, uma das dez ilhas de Cabo Verde.

Tive também a honra de participar de um programa de TV ao vivo. Agradeço imensamente à TCV, a maior emissora do país, pelo convite. A Intrínseca doou 100 livros (50 exemplares de Eu me chamo Antônio e 50 de Segundo – Eu me chamo Antônio) para essa minha viagem. Toda verba arrecada foi destinada à compra de livros infantis para completar a biblioteca de uma escola carente, chamada JULIO COSTA – no bairro de São Filipe, na Ilha de Santiago. Por enquanto, foram arrecadados mais de 80 livros para a mesma. Eu participei diretamente da escolha e da entrega dos livros. Um dia para não esquecer.

Coloquei naquelas prateleiras, e naquelas mãozinhas, edições especiais para crianças e jovens de Fernando Pessoa, Mia Couto, Agualusa e tantos outros. O mais especial talvez tenha sido O Pequeno Príncipe em crioulo – uma edição inédita e raríssima. Deixar poesia talvez seja o presente mais bonito que alguém possa oferecer. Ele se desembrulha dentro da gente até que a gente vire futuro. Saint-Exupéry, que agora voa no fundo de algum oceano, sorri como quem diz: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

teste[VOLTA ÀS ILHAS] Parte I

[A SAUDADE É UMA NOTA VERMELHA NO MEU BOLETIM]

coluna pedro

Recentemente, estive de volta a Cabo Verde, um arquipélago de dez ilhas, na África, onde passei boa parte da minha infância. Dessa vez, um pouco mais adulto, coloquei outros olhos em cada nova paisagem, em cada novo cenário que se desenhava à minha frente. Foi como se eu desfilasse novamente por aquelas ruas, onde outrora jogava bola e bolinha de gude, onde corria até a sola dos sapatos se confundir com a sola dos meus pés, onde comprava pombos só para libertá-los.

A lanchonete do Toni, onde eu comprava toda semana uma barra de chocolate Mars, não existe mais. Eu sempre achava que fazia um bom negócio. Afinal, eu dava uma moeda e recebia três moedas de troco. Para a matemática infantil, três é sempre maior do que um. Quando a gente cresce, a vida nos obriga a calcular de outra maneira. A minha primeira casa perdeu a cor rosa da fachada e ganhou novos moradores: franceses de cara fechada. Lembrei quando eu e minhas irmãs nos pendurávamos no terraço do terceiro andar, amarrados apenas por faixas de judô. Tínhamos uma certeza: a faixa amarela era mais resistente que a branca. Afinal, ela enfeitava a cintura de um aprendiz de judoca um bocadinho mais experiente do que um iniciante nessa arte marcial milenar. A faixa preta, então, devia ser mais firme que o Kevlar. Imitávamos paraquedistas sem paraquedas. Sorte nossa que nosso voo era, de certa forma, estático. Vez ou outra, batia um vento forte. Nessas horas, o judoca-aprendiz-de-paraquedista se tornava religioso nato no ato. Quando se é pequeno não se mede a grandeza dos medos. Aquele desespero que me deu, hoje, com 30 anos, ao pensar que eu fazia aquilo tudo sem pensar nas consequências, só comprova que o tempo tira a nossa coragem, nos torna covardes.

O armazém do Seu Careca, onde todos os dias comprava o pão do café da manhã, agora é uma casa residencial. Deu um nó na garganta. O prédio da minha antiga escola virou um estabelecimento comercial, se não me engano. Não tive coragem de entrar. Não quero perder a imagem que se desenha agora na minha imaginação. Raoni leva a bola para o recreio. Maxime me escolhe pro seu time. As meninas também entram no jogo, mas não porque nós, meninos, éramos open mind ou tínhamos um pensamento avançado pro nosso tempo. Simplesmente não havia garotos o suficiente para iniciar a partida. Eu sei, eu sei, os meninos às vezes são cruéis. Será que o professor Santiago, um francês que dava aula de história e sonhava em ser pintor, ainda espera meu dever de casa? Sempre tive dificuldade com deveres de casa. Para mim, deveres devem ser feitos na escola. Em casa, meu único dever deveria ser brincar de inventar brincadeiras. Em vão, tento explicar aos meus pais o meu desempenho escolar.

A saudade é uma nota vermelha no meu boletim.

link-externoLeia também: [O passado é uma cidade esquecida]