testeMussolini, da aliança com Pio XI aos braços de Hitler

Por Bernardo Barbosa*

A última parte da saga conjunta do papa Pio XI e do ditador fascista Benito Mussolini, ricamente contada no livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, de David I. Kertzer, só pode ser entendida a partir da aparição de um terceiro elemento: Adolf Hitler.

O fascismo de Mussolini foi uma das grandes inspirações do líder nazista, mas a criatura engoliu o criador e foi ainda mais longe, com as nefastas consequências que a História não nos deixa esquecer. Para Pio XI, o regime de Hitler surgiu antes como uma ameaça ao poder garantido na sólida aliança com o Duce do que como um governo racista.

Com seus tons idólatras e pagãos, a gana do nazismo pelo poder foi vista com ressalvas por Pio XI quando da ascensão do regime na Alemanha, em 1933. Mas, movido por sua ojeriza ao comunismo, naquele momento o pontífice manifestou certa simpatia por Hitler quando este se posicionou contra o bolchevismo soviético.

Em julho daquele ano, a Igreja e a Alemanha assinaram uma concordata que, em teoria, deixaria o governo nazista fora dos assuntos eclesiásticos no país. Mas não tardou para que Hitler transformasse o acordo em letra morta; nenhum poder deveria competir com o do nazismo.

A resposta da Santa Sé foi a encíclica Mit Brenneder Sorge (“Com Ardente Preocupação”), publicada em março de 1937. Lido aos fiéis nas igrejas alemãs, o documento criticava a idolatria de uma raça e de uma nação, mas não citava explicitamente o nazismo, nem a perseguição aos judeus — que já era política de Estado na Alemanha da época.

Mesmo assim, foi o suficiente para irritar Hitler profundamente. O ditador quis cobrir a Igreja de “desgraças e vergonha”, indo atrás de arquivos eclesiásticos para expor a “imundície” da instituição. Pio XI recomendou aos bispos alemães que queimassem seus arquivos.

O papa, no entanto, ainda tinha no fascismo um fiel aliado. Mas foi justamente Mussolini que deixou a Santa Sé em situação delicada quando deu mais um passo rumo aos braços de Hitler e, em setembro de 1938, instituiu leis antissemitas na Itália.

Um mês antes, o regime de Mussolini conseguira pressionar a Santa Sé a firmar um acordo secreto segundo o qual a Igreja não criticaria publicamente as leis antissemitas do Duce, desde que elas não fossem além das restrições aos judeus existentes nos antigos Estados Papais — apagados do mapa quando a Itália se unificou, no século XIX.

Como se não bastasse o fascismo jogar com a própria História da Igreja para colocá-la contra a parede, Mussolini invadiu prerrogativas que, para Pio XI, eram exclusivas da Igreja, como proibir os casamentos entre judeus convertidos ao catolicismo.

No entanto, Pio XI se viu praticamente isolado na cúpula da Santa Sé na hora de confrontar o fascismo. O papa chegou a se manifestar contra o antissemitismo; mais que isso, encomendou uma encíclica que condenava abertamente a perseguição aos judeus.

Enquanto o nazismo avançava e atraía o fascismo para sua órbita, a saúde do papa se deteriorava. Ele morreu aos 81 anos, em 10 de fevereiro de 1939 — Mussolini não foi ao velório. A Segunda Guerra Mundial estourou em setembro, deixando para o mundo um genocídio e uma Europa arrasada. A denúncia de Pio XI ao antissemitismo só viria a público na íntegra mais de meio século depois de sua morte.

O fim da história de Pio XI e Mussolini pode ter sido soturno, mas isso não diminui a riqueza histórica da trajetória de ambos. Como mostra a obra de Kertzer, os dois líderes foram protagonistas de alguns dos acontecimentos mais importantes do começo do século passado. Agora, com o livro O papa e Mussolini, há a oportunidade de reler a História daquele tempo — que deu origem a muito do que o Ocidente é hoje — sem boa parte dos filtros oficiais.

 

Bernardo Barbosa é jornalista.

testeDe volta, e acompanhado

Por Bruno Machado*

Cena do filme Ele está de volta (fonte)

Cena do filme Ele está de volta (fonte)

Timur Vermes teve a coragem de escrever um livro sobre Adolf Hitler que foge completamente ao tema da Segunda Guerra Mundial. Em Ele está de volta, o autor subverte a lógica e coloca uma das figuras mais perigosas da história na Berlim moderna, repleta de imigrantes e governada por uma mulher.

Em um enredo peculiar, o autor cria uma ácida sátira dos costumes europeus contemporâneos, e foi apenas questão de tempo até a história se transformar em filme. A produção, que estreou recentemente na Netflix, tem algumas diferenças do enredo original com o objetivo de ampliar a crítica feita pelo ditador aos seus conterrâneos do século XXI.

Alternando uma história sobre um funcionário desesperado de um canal de TV a cabo e interações de Hitler com transeuntes no estilo “Mockumentary” – a aparência de um documentário, mas sem uma história real, que ficou famoso com Borat –, o filme é considerado uma das maiores surpresas do cinema alemão dos últimos anos.

Curioso para saber como seria um filme alemão que abordasse um tema considerado tabu e com o aval da minha chefe para escrever no blog da Intrínseca minha opinião, decidi desligar a votação do Impeachment pela Câmara dos Deputados e assistir ao filme. Mal sabia que o Hitler de 2014 me ensinaria algo sobre o Brasil de 2016.

Começando com uma cena constrangedora na qual o (ex) Füher reclama com um professor de etiqueta sobre como as pessoas não o cumprimentam corretamente nas ruas, a história de Hitler logo se mistura com a do canal fictício MyTv. Uma disputa interna entre os diretores do canal acabará levando o ditador de volta ao centro das atenções, como parte de um programa já polêmico no qual um comediante faz críticas políticas usando blackface para imitar o presidente americano Barack Obama e uma burca e um fuzil para falar do mundo árabe.

A chegada de Hitler, que é considerado por todos apenas um ator muito bom que se recusa a sair do papel, parece apenas mais um degrau na decadência na qualidade das produções televisivas alemãs. O público não acha absurdo e começa a rir do discurso que 70 anos atrás motivou o Holocausto. Ao assistir essa cena, me senti compelido a pausar o filme, sair da Netflix e por alguns minutos voltar à votação que era transmitida ao vivo para o país.

Enquanto deputados alegavam os motivos mais absurdos para dar seu voto, muitas vezes aplaudidos pelos colegas quando, por exemplo, defendiam torturadores da ditadura e vaiados caso se posicionassem a favor de minorias, tive a impressão de que uma figura como o Sr. Hitler – como ele prefere ser chamado – não seria um estranho no ninho por ali. Depois de alguns minutos, desisti de acompanhar a política nacional e voltei ao filme. Ironicamente, foi como se tivesse previsto a continuação da saga moderna de Adolf.

Durante sua jornada ao lado do produtor que descobre o polêmico “comediante”, é possível ver que a figura de Hitler ainda desperta muita empatia na população. Enquanto algumas pessoas acham engraçado tirar uma selfie com o ditador nazista, outras dão depoimentos preconceituosos, como se a presença do cover do ditador as isentasse de qualquer crítica.

O que começa apenas como uma comédia que imita o estilo de documentários vai se tornando uma crítica direta aos costumes atuais. Adentrando cada vez mais a metalinguagem, os minutos finais de Ele está de volta mostram a produção do filme dentro do próprio filme, e os comentários feitos por Adolf Hitler ficam mais próximos da nossa sociedade. Em determinada cena, o filme alterna trechos de vídeos reais, alucinações de um dos personagens e viradas inesperadas de roteiro, que surpreendem em um filme que inicialmente parecia uma comédia polêmica um tanto boba.

A fala final de Hitler mostra como podemos ser pessoas ruins se nos reduzirmos a opiniões egocêntricas e à falta de empatia. Pode ser que um ditador da primeira metade do século passado não ressurja nos dias de hoje, mas o filme faz um excelente trabalho em mostrar que talvez tenhamos figuras perigosas defendendo a moral e os bons costumes do povo.

Seja em Berlim ou em Brasília.

 

* Bruno Machado é assistente de mídias sociais no departamento de Marketing e, assim como boa parte das pessoas na internet, não aguenta mais textão sobre política no Facebook.

testeEle está de volta a Berlim [atualizado]

Em um dia de verão de 2011, uma pessoa acorda confusa em um terreno baldio de Berlim: Adolf Hitler. O partido nazista não existe mais, e a guerra acabou. Sua amada pátria está radicalmente diferente: repleta de imigrantes e governada por uma mulher.

No mundo moderno, ele se torna um campeão de audiência no YouTube e acaba ganhando um programa de televisão. Enquanto o público acredita se tratar de um imitador que se recusa a sair do personagem, Hitler tenta provar que é quem diz ser.

A inusitada história do ditador nazista que ressurge nos dias atuais é o foco do ácido e irônico Ele está de volta, romance de estreia de Timur Vermes que se tornou um sucesso imediato na Alemanha. O livro deu origem a um filme que, ao estilo de sucessos como Borat, mostra o povo da cidade atônito com a presença de Hitler nas ruas de Berlim. Confira algumas cenas (em alemão, com legendas em inglês):


O filme, que estreou em 8 de outubro na Alemanha, será disponibilizado pela Netflix a partir do dia 9 de abril.

link-externoLeia um trecho de Ele está de volta

testeBiografia de um livro: o romance começa a ser lido

O romancista sai de cena para que os leitores se apropriem, cada um à sua maneira, do livro.

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17 de março de 2015 – terça-feira
A segunda pátria saiu da gráfica ontem.

18 de março de 2015 – quarta-feira
Na Gazeta do Povo, chamada de capa para o romance. E capa de caderno. Além da tradicional entrevista, uma resenha competente do livro, vendo o amor impossível como forma de enfrentar os preconceitos. É uma boa chave de leitura.

19 de março de 2015 – quinta-feira
Aceitei escrever um conto para a revista Superinteressante, uma história que funcione como ramificação de meu romance. Folheei os cadernos de anotação da escrita e achei alguns núcleos narrativos não explorados. Escreverei o conto, divulgando assim o universo do romance. Será, talvez, o primeiro caso no mundo de um conto-reclame.

22 de março de 2015 – domingo
Escrevi o conto “À luz do dia” que retoma o episódio de A segunda pátria. Minha filha, leitora da Superinteressante, leu e aprovou. Vou deixar descansar, revisar e mandar para a revista no meio da semana.

29 de março de 2005 – domingo
No Valor Econômico, uma resenha muito favorável de Luís Antônio Giron, situando o livro e o autor. Cristovão Tezza leu o livro pelo Kindle e me mandou e-mail dizendo que é uma leitura irresistível, não dá para parar. Ainda não vi o livro, mas as pessoas já estão lendo.

30 de março de 2015 – segunda-feira

Chegaram os exemplares de A segunda pátria. Ficou uma edição bela e sóbria.

1º. de abril de 2015 – quarta-feira
Enviei convites para o lançamento. Um trabalho chato, meio constrangedor, mas ao qual me entrego um tanto por vaidade. Nenhum escritor quer solidão na hora do lançamento. Solidão só na escrita.

5 de abril de 2015 – domingo de Páscoa
No final da tarde, soube que saiu matéria sobre o livro no caderno Aliás, do Estadão. Bela resenha de Dennison de Oliveira, localizando historicamente a narrativa. Estes textos positivos criam uma fundação para outras leituras. Textos negativos virão, mas já encontrarão algo construído.

16 de abril de 2015 – quinta-feira
Sobre o livro, me escreve Domingos Pellegrini: “Uma textura intensa de sensações, impressões e emoções, que envolve e excita”. Um alento para o romancista desconfiado.

22 de abril de 2015 – quarta-feira
Entrevista tranquila e competente, como sempre, para Edney Silvestre – Globonews Literatura. Perguntas que permitiram falar bastante do livro.

9 de maio de 2015 – sábado
Em O Globo de ontem, Ancelmo Gois noticiou que o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, comprou os direitos de A segunda pátria para transformar em série de tevê ou em filme. Com isso, o livro talvez conquiste outro patamar de leitura.

testeO Dia D

Em 6 de junho de 1944, o desembarque de mais de 150 mil soldados das tropas aliadas nas praias da Normandia, no noroeste da França, foi o golpe fundamental para a derrocada do poder nazista. No aniversário do Dia D, o Dia da Decisão, indicamos algumas obras que revivem os difíceis anos desde a ascensão de Hitler na Alemanha, passando pela perseguição aos judeus e pelas ações políticas que levaram à Segunda Guerra Mundial.

No jardim das feras, não ficção do jornalista , reconstitui a chegada de Hitler ao poder pela singular perspectiva do então embaixador norte-americano em Berlim e de sua filha Martha — uma jovem que se envolve com importantes homens do Terceiro Reich, como o primeiro chefe da Gestapo, Rudolf Diels.

Além do cotidiano de milhares de alemães às vésperas do grande conflito, a Viena ocupada pelos nazistas ressurge em A lebre com olhos de âmbar. A fantástica — e verídica — narrativa dos antepassados de Edmund de Waal, um dos mais importantes ceramistas ingleses da atualidade, passa por eventos cruciais do século XX e revela como as abastadas famílias judias tiveram seus bens expropriados.

No entanto, coube à ficção retratar uma infância vivida em torno do culto a Hitler. A trajetória de Liesel Meminger, a protagonista de A menina que roubava livros, de Markus Zusak, abarca o período de 1939 a 1943 e é narrada pela Morte — uma figura perplexa diante de tamanha violência.

testeO beijo do Führer

Ao recordar sua primeira impressão de Hitler, Putzi Hanfstaengl escreveu: “Ele parecia um cabeleireiro de subúrbio em dia de folga.” Filho de mãe americana e formado em Harvard, Hanfstaengl era conhecido por tocar piano, tarde da noite, para acalmar os nervos do ditador. Mas, como a música — que chegava a arrancar lágrimas do Führer — não parecia suficiente, Putzi teve uma ideia: Hitler poderia se tornar um líder mais razoável se estivesse apaixonado.

Não era nada fácil encontrar uma mulher para Hitler, que dispunha de um longo histórico de relacionamentos estranhos, marcados por tragédias e rumores sobre seu comportamento indecoroso. Suas ligações com mulheres muito mais jovens incluíram sua sobrinha Geli Raubal, que foi encontrada morta no apartamento do ditador. No entanto, o chefe da imprensa nazista julgava ter encontrado a mulher perfeita. Ela era Martha Dodd, a encantadora filha do então embaixador norte-americano em Berlim, William E. Dodd.

Para Martha, a ideia de ser escolhida como a mulher capaz de mudar o destino da Europa soava como uma deliciosa travessura. Desde que chegara ao país com a família, em 1933, a jovem divorciada encantara-se com os alemães. E, nos anos seguintes, conquistou muitos homens poderosos. Por seus braços passaram príncipes alemães, diplomatas franceses e figurões do Partido Nazista, como o primeiro chefe da Gestapo, Rudolf Diels, um agente da NKVD, a futura KGB, além de correspondentes e escritores americanos, como Thomas Wolfe.

No encontro, o Führer tomou a mão de Martha e a beijou. Vendo-o de perto, ela o descreveu em seu livro de memórias como tendo um rosto “fraco e mole, com bolsas sob os olhos, lábios grossos e quase nenhuma estrutura óssea facial”. Mas completou: “Os olhos de Hitler eram surpreendentes e inesquecíveis — de uma cor azul pálida, intensos, firmes e hipnóticos.” Mas esse encontro, bem como o ambicioso plano de Putzi, fracassaram.

Em No jardim das feras, o jornalista e escritor Erik Larson reconstitui a ascensão de Hitler sob a singular perspectiva de Martha e William E. Dodd. Com base em registros oficiais alemães e das embaixadas americana e soviética, além de cartas, diários e entrevistas, Larson retrata histórias curiosas — como o desse plano inusitado — e revela tudo aquilo que a família Dodd e milhões de alemães vivenciaram até que o restante do mundo entendesse, tarde demais, o que Hitler estava tramando.

Leia o primeiro capítulo de No jardim das feras.