testeO sonho e o pesadelo de João Kopke

João Kopke foi um educador e empresário escolar de muito sucesso no fim do século XIX. No Rio de Janeiro abriu sua escola no bairro de Botafogo e trabalhou com a mais exclusiva clientela da cidade. Não poupava esforços para manter o estabelecimento bem equipado, com aparelhos de física e química, mapas de última geração, livros e os mais variados objetos didáticos, tudo importado da Europa. Mas talvez fosse melhor educador que empresário, pois sua escola não funcionou por muito tempo.

Kopke era um mestre da velha escola europeia e lecionava diversas matérias: francês, inglês, geografia, história, álgebra, botânica e princípios elementares de anatomia e fisiologia. Como educador, respeitava os limites e as aptidões dos alunos e condenava o ensino que privilegiava a memorização. Passaram por suas salas de aula estudantes que depois brilhariam no cenário nacional: o escritor Alceu de Amoroso Lima, os acadêmicos Miguel Ozório de Almeida e Tristão da Cunha e o empresário Guilherme Guinle, entre outros.

No Rio de Janeiro, existe uma escola pública com seu nome. Fica na Piedade, Zona Norte. Administrada pela prefeitura, a João Kopke recebeu uma boa avaliação pelo Índice de Educação Base (IDEB) do governo federal. Recentemente, no entanto, ocupou um triste espaço na mídia. Na noite de 13 de junho de 2016, a comunidade escolar foi vítima de um arrastão. Todos os alunos perderam celulares, dinheiro e objetos de valor. E o mais grave: uma professora foi espancada.

Não conheço a metodologia dos professores da João Kopke, nem sei qual o nível de aparelhamento de seu material didático, mas desconfio que deva passar longe dos padrões do educador. Pode até ser que alguns de seus alunos venham, e todos têm a minha torcida, a ocupar espaço relevante no cenário nacional, mas, com certeza, se isso vier a acontecer terá sido muito mais por mérito individual do que por eficiência da escola. Uma boa educação também passa pelo direto à garantia da integridade física de seus professores e alunos.

testeOnda nostálgica

Por conta de problemas econômicos e sobretudo políticos, não será surpresa se o Brasil entrar em uma onda saudosista. Ao longo do século XX, passamos por alguns momentos de crescimento e prosperidade. Após a Crise de 1929, por exemplo, o setor industrial impulsionou de forma irreversível o processo de urbanização. Tanto que no início da década de 1940 a cidade de São Paulo se transformou na maior metrópole do país, suplantando em importância econômica o Rio de Janeiro, então Capital Federal. Portanto, é oportuno relembrar esse tempo.

A aposta em uma fase nostálgica se dá por dois motivos. O primeiro: o canal History acaba de lançar Gigantes do Brasil, série em quatro episódios inspirada na série americana de sucesso The Men Who Built. Criada e dirigida por Fernando Honesko, a superprodução nacional resgata a vida de grandes empreendedores: Guilherme Guinle, Francisco Matarazzo, Giuseppe Martinelli e Percival Farquhar. Quatro homens que ajudaram a alavancar o setor industrial e empresarial no Brasil.

O segundo motivo: o interesse do empresário Ricardo Amaral na década de 1940. Ele tem um faro fino para apurar tendências e está preparando um novo livro. O mais incrível é que seu foco de pesquisa é bastante semelhante ao de Gigantes do Brasil. A diferença é que na lista seleta de Amaral constam ainda Geremia Lunardelli (foi o maior produtor de café do mundo) e os Cunha Bueno (proprietários da maior propriedade agrícola do Brasil). Já Farquhar ficou de fora de sua seleção.

Ao largo da questão econômica, os anos 1940 foram marcados por intenso glamour. No Rio de Janeiro havia todo o requinte do Copacabana Palace e seu cassino, e em São Paulo a vida noturna gravitava entre o Clipper, o Jequití e o Roof da Gazeta. Nas duas cidades, a elite brasileira desfilava ostentando fartura.

Fico feliz, pois faço parte da produção de Gigantes do Brasil e sou consultor de Ricardo Amaral em seu novo projeto literário.

testeE la nave va

Carlos Guinle (3) (002)

Durante minha participação no programa do Haroldo de Andrade, da rádio Tupi, no último dia de dezembro de 2014, falei que não via motivos para festejar a chegada de 2015. O ano já se anunciava sombrio e difícil. Para minha surpresa, alguns ouvintes mandaram mensagens concordando comigo. Em geral, o brasileiro médio deposita muita esperança na chegada de um novo ano. São poucos, como eu, que não enxergam a virada com renovado otimismo.

Nesse Réveillon de 2015 também não esperei grandes coisas de 2016 e fiz previsões ainda mais pessimistas. Não levo fé neste ano que entrou. Acho que será ainda pior, com desemprego, inflação, crise política etc.

Algo me diz, felizmente, que essa onda negativa não atingirá a trajetória de Os Guinle. Além dos compromissos que já tenho agendados para viagens e palestras, um dos principais personagens da biografia, Guilherme, vai ganhar as telinhas como uma das estrelas de uma série de canal fechado. O documentário retratará a vida dos maiores empresários da história do Brasil no início do século XX. Supermerecida a lembrança de Guilherme, pois ele foi um grande empreendedor.

A única coisa em que sempre aposto num Réveillon é esperar que algum sonho meu se realize ao longo do novo ano. Acho que todo mundo deveria ter, no mínimo, uma meta factível de ser alcançada. A minha deveria ser o projeto de um livro. Mas ainda estou apenas flertando com algumas histórias. Então fico triste, pois adoro ter um objetivo concreto para alcançar.

Não me lembro de, até hoje, ter virado um ano sem um projeto definido. Então eu me desejo, para 2016, a rápida definição de um tema para me dedicar!

Feliz 2016!

testeOs Guinle: entre a Lava-Jato e a CPI

Via Diário do centro do mundo

Os Guinle motivariam uma CPI? (Foto via Diário do centro do mundo)

Durante a gravação do Programa do Jô em que fui entrevistado sobre o livro Os Guinle, ele me perguntou: “Os Guinle teriam dado uma Lava-Jato?” Dois dias depois, no debate do qual sempre participo na rádio Tupi, o comunicador Haroldo de Andrade fez a mesma pergunta. E minha resposta foi igual: “Não.” A Operação Lava-Jato visa desmantelar um esquema de corrupção, ou seja, roubo de dinheiro público. Os Guinle nunca estiveram envolvidos com corrupção, mas não há dúvida de que foram beneficiados por favores políticos. Logo, eles poderiam inspirar uma CPI, isso sim. E inspiraram.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, o comércio internacional foi restabelecido e as atividades econômicas se reanimaram de imediato. Como os demais portos do mundo, o de Santos, comandado pelos Guinle, ficou sobrecarregado e entrou em colapso. O monopólio da Companhia Docas de Santos, que os Guinle detinham, sempre fora motivo de questionamento, visto que eles haviam ganhado uma concessão de mais de noventa anos.

No pós-guerra, uma onda democrática varreu diversos países, entre eles o Brasil, pondo fim inclusive à ditadura Vargas. Nesse ambiente, seria normal esperar alguma investigação sobre o colapso no maior porto do país. Não deu outra. No Congresso Nacional foi instalada uma CPI que abriu os trabalhos em 23 de novembro de 1946. Os parlamentares visitaram as instalações portuárias e escutaram especialistas. Um deputado gaúcho, Daniel Faraco, chegou a sugerir a suspensão da concessão. Entretanto, no final, o relatório da CPI concluiu que os problemas financeiros e administrativos em Santos eram apenas conjunturais.

Foi graças ao barulho causado pela CPI que a sociedade brasileira ficou sabendo como Guilherme Guinle geria o principal negócio de sua família. Já em 1938, antes da guerra, ele previra que o porto entraria em colapso e começara a pedir ajuda. O governo não se sensibilizou. Guilherme então arregaçou as mangas e desenvolveu sozinho um ambicioso e caro projeto de ampliação das instalações portuárias.

É evidente que quanto maior fosse o porto maiores seriam os ganhos dos Guinle. No entanto, não era apenas essa ideia que movia Guilherme. Ele sempre teve claro que gerenciava um elemento estratégico para a economia brasileira. Exatamente como os empresários de seu tempo, ele olhava muito para o próprio bolso. Mas, diferentemente dos grandes empreiteiros de hoje, ele se preocupava com o país.